Agosto 2009
Monthly Archive
Qui 27 Ago 2009
Ásia ou América? O debate está, de novo, em cima do tabuleiro global com opiniões bem contrastadas nos dois hemisférios ocidental e oriental, como se houvesse uma nova “raya” de Tordesilhas sobre os cenários do mundo. A janelanaweb.com (onde pode encontrar as entrevistas na íntegra, em inglês) ouviu duas opiniões geograficamente opostas (uma em Singapura/Cingapura e outra em Boston) e geo-economicamente bem distintas.
Os ‘asiatistas’ voltaram ao ataque apanhando a boleia da crise financeira e da recessão iniciada em 2007 que provocou a erosão das economias do G7 e um forte rombo no sistema bancário e financeiro anglo-americano.
Nos Estados Unidos, os economistas questionam, de novo, tal como há vinte anos atrás o fez o Massachusetts Institute of Technology (com o célebre relatório ‘Made in America’, datado de 1989) e Michael Porter (com A Vantagem Competitiva das Nações, uma pesada obra publicada em 1990), os fundamentos da competitividade americana, mas têm a esperança que a base científica de que dispõem e o que resta do património dos seus clusters de alta tecnologia (incluindo os recentes desenvolvimentos nas áreas das ciências da vida, das tecnologias limpas e da Web) permita um renascimento e a manutenção da liderança geoeconómica.
O choque asiático
Da Ásia vem o choque: “O domínio ocidental da história mundial acabou”, diz-nos peremptoriamente Kishore Mahbubani, um filósofo de formação que foi diplomata de Singapura/Cingapura durante mais de trinta anos, tendo chegado a embaixador nas Nações Unidas e a presidente do Conselho de Segurança. O seu livro mais recente tem um título que fala por si: O Novo Hemisfério Asiático: a irresistível mudança de poder global para o Oriente.
“O Ocidente demonstrou imensa incompetência nesta crise. Será difícil ao Ocidente clamar a superioridade moral face aos desafios globais”, refere-nos numa entrevista que pode ser lida aqui (em inglês). Só na cabeça dos ocidentais, ironiza o actual reitor da faculdade de Políticas Públicas da Universidade Nacional de Singapura, a história se faria sem crises. “Até, recentemente, o postulado era que o Ocidente tinha uma melhor governação e estaria mais bem preparado para as crises. Agora, está à vista de todos, que era um mito. Os países asiáticos estavam mais bem preparados. O que os ocidentais se devem interrogar, agora, é como é que isso sucedeu? O propósito do meu livro é dar essa resposta”, conclui.
Do outro lado do mundo, em Boston, o professor da Harvard Business School, Gary Pisano, lançou um grito de alarme na influente revista da Escola (a ‘Harvard Business Review’, edição de Julho-Agosto 2009), uma espécie de novo manifesto sobre a necessidade de restaurar a competitividade americana (“Restoring American Competitiveness“).
A entrada do Japão (então o principal concorrente mundial no plano geoeconómico) em crise e a difusão da Internet retiraram a América do pessimismo do final dos anos 1980 e do fantasma da estagnação crónica da economia real vaticinado por muitos. Viveram-se vinte anos aparentemente “dourados” ajudados por uma aceleração da financeirização da economia jamais vista (o peso da dívida em relação ao PIB americano, um indicador usado para mostrar essa financeirização, disparou desde 1980 e atingiu um índice em 2008 que é quase cinco vezes superior ao peso da produção no PIB, segundo os cálculos dos economistas americanos John Foster e Fred Magdoff, da Monthly Review).
O erro capital do Ocidente
Mas Pisano diz-nos que se cometeu um erro capital em todo esse período dourado: “Ocorreu uma erosão da base tecnológica e industrial”, graças à corrida à maximização de curto prazo de ganhos financeiros trimestrais pelas empresas, que conduziu a um movimento de externalização massivo (outsourcing, como é designado em inglês) que afectou o património colectivo dos clusters americanos. Desde 2002, salienta Pisano numa entrevista que pode ser lida aqui (em inglês), que os EUA são deficitários no comércio internacional em alta tecnologia.
Juntaram-se, já na ponta final pré-crise da Administração W. Bush, as políticas erradas sobre imigração que incentivaram um regresso precipitado de cérebros aos seus países de origem (nomeadamente China, Índia, Europa) e um desinvestimento na ciência em áreas de futuro. Mas os EUA são o país com maior capacidade de adaptação, de fitness, uma espécie darwiniana (ainda que o professor não use o termo) de primeira água. E têm uma vantagem única: “nenhum outro país tem a nossa capacidade de investimento em ciência”.
Em suma, são dois olhares não só geograficamente separados como profundamente distintos sobre as tendências em curso.
Ter 25 Ago 2009
A China poderá restringir a exportação de metais raros estratégicos para diversos sectores de alta tecnologia no mundo. Uma decisão, ainda, não foi tomada pelo Conselho de Estado em Beijing, mas um relatório do Ministério da Indústria e das Tecnologias de Informação é muito claro quanto ao plano até 2015.
Cinco metais raros (também conhecidos pela designação de “terras raras” ou metais terrosos raros) deverão ser proibidos de exportar pela China e quatro outros severamente restringidos, segundo um relatório de proposta de plano até 2015 do Ministério chinês da Indústria e das Tecnologias de Informação, segundo o jornal inglês ‘The Telegraph’.
A lista abrange o térbio, disprósio, itrío, túlio e lutécio como candidatos a interdição e o neodímio, európio, cério e lantânio como os apontados para restrição da exportação a uma quota colectiva de 35.000 toneladas por ano, muito abaixo das necessidades mundiais fora da China.
As razões de uma decisão deste tipo prendem-se à estratégia chinesa de desenvolvimento acelerado baseado na alta tecnologia (incluindo as áreas da defesa e das tecnologias ‘limpas’) e de conservação de reservas estratégicas. Implicará, também, uma carta na manga estratégica nas relações internacionais, tendo em conta que a China é hoje uma grande potência no tabuleiro geopolítico, e não mais um mero país emergente vendendo matérias-primas e produtos baratos aos ricos e poderosos.
A China domina hoje em dia 90% da produção mundial deste tipo de metais que são estratégicos para o fabrico de produtos de alta tecnologia, desde os gadgets mais célebres da sociedade de consumo electrónica actual (como os telemóveis, os televisores planos, os iPod, os telefones inteligentes, os sistemas de navegação) e automobilizada ‘híbrida’ (o Toyota Prius japonês, por exemplo), às tecnologias ‘limpas’ e de defesa.
A possibilidade de reacção por parte dos Estados Unidos, da Austrália e da África do Sul, que dispõem, também, de depósitos deste tipo de metais, mas que apostaram na importação da China a baixo custo, levará anos, segundo os especialistas.
Esta proposta do Ministério de Beijing vem na sequência de uma medida anterior que abrangeu outro tipo de metais exportados pela China que viram as suas taxas aduaneiras de exportação aumentadas no caso do zinco, estanho, tungsténio e fósforo amarelo, decisão chinesa contra a qual os EUA e a União Europeia interpuseram queixa na Organização Mundial do Comércio.
Ter 25 Ago 2009
A geopolítica pode voltar a acender os preços do barril de crude, ou, pelo menos, reanimar a sua volatilidade e o risco de ‘oscilações ‘selvagens’. O analista David Kotok alerta para as implicações do dossiê nuclear do Irão, que terão um período crítico no próximo mês. Ambos os lados dispõem de armas políticas e económicas que poderão aquecer o Índico.
As autoridades do Irão já declararam que não aceitam a imposição de uma data de resposta (um deadline, em inglês) para Setembro relativamente a negociações formais multilaterais para resolver o dossiê nuclear. Com a proximidade de Setembro no calendário, os meios do petróleo estão ao rubro com a discussão se iremos assistir a algum “choque do deadline” no mercado do crude, que empurre os preços para uma escalada como a dos primeiros sete meses de 2008 (quando chegou em Julho a um preço médio mensal do barril de 132,72 dólares, um recorde histórico).
As causas imediatas, agora, seriam abertamente geopolíticas. “Desta vez, o risco geopolítico é importante no curto prazo, em virtude da inelasticidade do preço do petróleo nas decisões empresariais. Sem dúvida, que, no longo prazo, a oferta e a procura são os propulsores do preço”, afirma-nos o economista americano David Kotok, o principal consultor de investimento e co-fundador da Cumberland Advisors, que alertou, esta semana, os seus clientes para este risco.
O Irão dispõe de um meio político de pressão típico do hard power em geopolítica: a possibilidade do bloqueio do estreito de Ormuz, de apenas 54 quilómetros, na entrada do Golfo Pérsico, por onde passam 40% da logística marítima do crude e 20% do comércio mundial por mar, segundo dados da Energy Information Administration dos Estados Unidos. É um dos mais importantes chokepoints (designação técnica para estas passagens estratégicas em termos militares e de comércio internacional que Afonso de Albuquerque bem compreendeu no seu tempo quando decidiu recapturá-la definitivamente em 1515) mundiais.
“Não há nenhuma ideia clara de como o Irão se irá comportar, se provocará oscilações selvagens ou movimentos moderados no preço do petróleo. A própria situação interna está em turbulência depois das eleições. No entanto, o Irão tem um ponto fraco – é um importador líquido de produtos refinados. Essa deficiência é a arma de que dispõem os Estados Unidos e os seus aliados nesta questão. Por isso, o Irão joga com duas cartas – abre-se a inspecções, mas continua a brandir a arma do estreito”, prossegue Kotok.
Erros estratégicos são comuns
À pergunta, será que, no final das contas, o Irão jogará a cartada de Ormuz como chantagem de último recurso e defrontará inclusive os interesses das novas potências do Índico, a China e a Índia, o analista responde: “A irracionalidade é comum no Médio Oriente. Muitos regimes naquela região são capazes de erros estratégicos. Em geopolítica, erros podem suceder a qualquer momento. É, por isso, que há um prémio de risco elevado no petróleo nomeadamente”.
Uma nova retoma do choque petrolífero não seria nada agradável para as expectativas de saída da recessão mundial. O preço do barril tem oscilado (por vezes com percentagens elevadas de um dia para o outro, o que tecnicamente se designa por oscilações selvagens) no patamar dos 70-75 dólares. O aumento é de, pelo menos, 75% em relação ao preço médio em Dezembro de 2008 (39,95 dólares).
Até que ponto é que esta nova subida durante 2009 reflecte sobretudo o colapso do dólar (a divisa em que está cotada esta commodity), a retoma nos países emergentes (e particularmente por parte das importações pela China) ou a eventual antecipação pelos mercados de um problema geopolítico grave que afecte o negócio, é, ainda, uma incógnita.
Qui 20 Ago 2009
O bloco oriental, com a China e o Japão na liderança, detém mais de metade dos títulos de dívida do Tesouro americano em mãos estrangeiras. Em um ano, um clube restrito, formado pela China, Reino Unido, paraísos fiscais das Caraíbas e Suíça, apostou significativamente num aumento nestas aplicações. A América continua a respirar de alívio.
Entre Junho de 2008 e Junho de 2009, a China e Hong Kong investiram mais 276 mil milhões de dólares em títulos de dívida do Tesouro americano, alcançando um valor recorde de 876,2 mil milhões de dólares, uma fatia de 26% do total em títulos na mão de estrangeiros. Também o Japão continua a ‘segurar’ a dívida pública dos EUA, dispondo de 21% destes títulos.
No conjunto, os nove principais emergentes asiáticos (China, Hong Kong, Taiwan, Singapura, Índia, Coreia do Sul, Malásia, Filipinas e Tailândia) mais o Japão dispõem de 54% desses títulos, representando a verdadeira almofada de segurança de uma América sobreendividada e com uma divisa em risco de colapso. Os famosos BRIC (o clube dos quatro grandes emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China segundo as letras do acrónimo) totalizam 1/3 dos títulos do Tesouro do Tio Sam em mãos estrangeiras.
Os dados foram divulgados, agora, pelo Tesouro americano na sua informação mensal sobre o ponto de situação dos títulos de dívida na mão de estrangeiros que somavam, em final de Junho, 3,3 biliões (triliões, na designação anglo-saxónica) de dólares, mais 31% do que doze meses antes.
Depois da China e do Japão, o Reino Unido é o terceiro país com mais aplicações nestes títulos, e inclusive subiu a sua posição em 290% em relação há um ano e em 30% em relação a Maio passado. Foi a maior subida percentual de todos os grandes tomadores estrangeiros de títulos do Tesouro americano. Toda a Zona Euro representa pouco mais do que o Reino Unido – 8% do conjunto desses títulos em mãos estrangeiras contra 6% deste último.
O clube dos melhores amigos da dívida americana agrupa o Reino Unido (que serve, também, de plataforma financeira internacional), que quadruplicou a sua posição, os paraísos fiscais das Caraíbas, que aumentaram em 78% a sua aposta, a Suíça que aumentou 59% e a China e Hong Kong que aumentaram em conjunto 46%.
Contudo, numa apreciação em cadeia, em relação ao mês anterior (Maio de 2009), a China, os exportadores de petróleo, os paraísos fiscais das Caraíbas e a Rússia diminuíram sensivelmente as suas posições em 1 a 4%. Não se trata, ainda, de debandada.
No entanto, no caso da China, a redução entre Maio e Junho deste ano em 25 mil milhões de dólares é a maior em nove anos e é interpretada como um primeiro sinal de alinhamento com o seu discurso político, desde os encontros do G20 durante esta crise, a favor de uma alternativa ao dólar como divisa internacional, posição que é secundada pelos outros membros do clube dos BRIC.
Entre os BRIC, o Brasil foi o país que reduziu a sua posição em relação há um ano (cerca de 12%), apesar de a ter aumentado sensivelmente entre Maio e Junho deste ano.
Seg 17 Ago 2009
Analista inglês acusa a Reserva Federal e o Tesouro americanos de lançarem o maior embuste de 2008 quando ergueram o espantalho da deflação. Uma operação que custará várias vezes mais do que o vírus do ano 2000, que foi classificado pelo The Wall Street Journal como “o embuste do século”.
“O alarme de deflação foi a maior mentira do recente Grande Pânico de 2008”, afirma o analista inglês Adrian Douglas, fundador da consultora InnovoMark e criador de uma metodologia de análise financeira conhecida por Market Force Analysis, numa entrevista que pode ser lida aqui (em inglês). Compara-o ao grande embuste do vírus do ano 2000, só que implicando um custo várias vezes superior ao do final do século XX.
Douglas alega que foi um pretexto hábil, no ano passado, da parte da Reserva Federal (FED) e da secretaria de Tesouro americanas para ter “acesso à máquina” electrónica de gerar dinheiro sem autorização do Congresso americano e sem que “o mundo descobrisse repentinamente que os Estados Unidos se tinham transformado numa autêntica República de Weimar” com o hiper-alavancado sistema financeiro americano falido (a pirâmide de derivados era em Junho de 2008 onze vezes o PIB mundial e em final do ano passado ainda valia 10 vezes, segundo os dados mais recentes disponibilizados pelo Bank for International Settlements) e o dólar hiperinflacionado (na realidade, segundo cálculos do analista Mark J. Lundeen o dólar deveria valer quase 1/4 do que vale, se a massa monetária existente tivesse de estar suportada pelas reservas de ouro americanas, o que não está desde 1971).
A história do período quente de Setembro-Outubro de 2008, após a falência do Lehman Brothers (que fará um ano a 15 de Setembro próximo), só, agora, começa a ser feita, como no livro ‘In Fed We Trust’ da autoria de David Wessel.
Adrian Douglas alega, por isso, que o cenário de hiperinflação nos EUA continua em cima da mesa: “é uma bomba a contra-relógio”.
Sex 14 Ago 2009
É a hora da vingança dos académicos neo-keynesianos que querem escrever o epitáfio do modelo de capitalismo financeiro que dominou desde os anos 1970.
As Grandes Depressões desempenham sempre uma missão de higiene na teoria económica. Parece ser cíclico. A crise financeira iniciada em 2007 seguida de uma depressão ainda em curso (os economistas dizem que mesmo depois da recessão ‘técnica’ terminar continua um período a que chamam de ‘vala’ ou depressão) parece ter esmagado uma mistura estranha de monetarismo ‘prático’ com um «keynesianismo bastardo», como ironizava Joan Robinson, uma keynesiana inglesa.
Um ‘consenso monetarista’ agradou à esquerda e à direita governantes nos países da OCDE durante trinta anos.
À sua sombra desenvolveu-se um novo capitalismo financeiro que atingiu um grau de domínio sobre a economia jamais visto – a financeirização dos países da OCDE foi avassaladora. Pelos cálculos do economista brasileiro João Gabriel Palma, publicados, recentemente, num artigo no Cambridge Journal of Economics (nº 33, 2009), a média mundial do peso dos activos financeiros em relação ao produto interno bruto (o que os economistas chamam de financial deepening, no jargão inglês) em 2007 esteve próxima dos 400%. Ou seja por cada unidade de economia real gerou-se na estratosfera cinco unidades financeiras (ver alguns dados nacionais e regionais no final do artigo).
Um sistema de rendas financeiras atravessou transversalmente a sociedade – desde o topo dos multimilionários, aos rapazes dos algoritmos e aos super-correctores da Wall Street exímios em artes como a do flash trading e do high-frequency trading, aos artistas dos esquemas Ponzi (como o sr. Madoff), até ao reformado e trabalhador embalado pelo ‘capitalismo popular’ e a ‘sociedade da propriedade’ para todos.
Subproduto do casino
Um crescimento da economia à sombra de uma realidade deste tipo só poderia acabar numa crise grave. John Maynard Keynes já o havia avisado, com uma delicada ironia, há mais de sessenta anos: “Quando o desenvolvimento capital de um país passa a ser um subproduto de actividades de casino, a tarefa será certamente mal desempenhada». E nos anos 1990 um seu seguidor, Hyman Minsky (que faleceu em 1996), desdobrou-se a explicar que o capitalismo financeiro tem uma doença congénita, a da instabilidade e da fragilidade que acaba sempre em crise, recorda-nos L. Randall Wray, professor da Universidade do Missouri e director de investigação no Centro para o Pleno Emprego e a Estabilidade de Preços do Kansas, numa entrevista que pode ser lida aqui (em inglês).
O mercado – essa mão invisível – acabaria por vingar-se sobre os ‘rentiers’, escreveu, com humor, José Gabriel Palma no ensaio sobre financeirização a que fizemos referência. Milton Friedman acabaria por não ver em vida essa vingança. Ainda em 2005 – um ano antes de morrer e dois anos antes de se iniciar a actual crise financeira -, o ‘pai’ do monetarismo acreditava, num artigo escrito no Journal of Economic Perspectives, que a política que recomendara fora uma “experiência natural” a quem deveria ser creditada a “suavidade” das recessões que se haviam vivido nos últimos anos.
Wray classifica as teorias da ‘grande moderação’, filhas da ideia monetarista de que os bancos centrais poderiam suavizar os ciclos económicos, difundidas, entre outros, por Ben Bernanke (antes de ser presidente da Reserva Federal) como “pura fantasia”. Criou-se o mito de uma economia numa fase expansionista consistente driblando as recessões.
Aliás, a sucessão de crises financeiras ocorridas ao longo dos anos 1980, 1990 e princípios dos anos 2000 deveria ter sacudido tal fantasia, mas as ‘bolhas’ sucessivamente engendradas rapidamente apagaram a memória… até ao estoiro final.
Mudar o ensino da economia
É, por isso, a melhor altura “para se repensar o papel da finança”, sublinha-nos Jamie Morgan, um economista inglês investigador no Centro para a Excelência na Investigação em Governação Global da Universidade de Helsínquia, numa entrevista que pode ser lida aqui (em inglês).
Morgan acha que é, também, a altura de mudar o ensino da economia e limpar, de vez, o paradigma da chamada “hipótese de eficiência do mercado” (HEM, e a ideia peregrina de que as decisões seriam tomadas racionalmente por agentes económicos possuidores de toda a informação) que dominou o pensamento económico desde os banqueiros centrais a simples economistas e alguns políticos com “luzes” de ‘economês’. O investigador aconselha a todos estes fiéis da HEM que voltem a ler o que Keynes queria dizer quando falava dos ‘animal spirits’.
Randall Wray considera que “chegou ao fim” a vaga do capitalismo financeiro iniciada nos anos 1970 e que Minsky baptizara de “capitalismo dos gestores do dinheiro”. Trata-se da sucessora histórica de uma vaga anterior que dominou o capitalismo entre os anos 1870 (a tomar esta data como marco, como o fez o economista inglês John Atkinson Hobson numa obra em 1902) e 1930 quando a Grande Depressão lhe ditou o epitáfio.
Um outro economista da época, o austríaco Rudolf Hilferding, baptizou-a de “capital financeiro” – o título do livro que publicou em 1910. Mas como uma Fénix, o capital financeiro sempre renasce das cinzas, avisava Minsky e recorda Wray que, ainda, não vislumbra “o que virá a seguir”, ainda que ele torça a favor de um capitalismo mais regulado e menos dependente do casino como na época de ouro do pós 2ª Guerra Mundial.
No reino do flash-trade
Por enquanto, a Wall Street continua a puxar a corda do high-frequency trading. A Goldman Sachs (GS) revelou que, no segundo trimestre deste ano, realizou 46 dias com operações de 100 milhões de dólares, um número recorde. Alguns analistas já apelidam os golden-boys da GS de “correctores-predadores” e às matemáticas usadas de “algoritmos-predadores”. Não acrescentam valor ao mercado, desnatam-no, através de um vicioso sistema de drenagem de rendas financeiras, diz um dos analistas.
O regulador americano, a Securities and Exchange Commission (SEC), já anunciou ter intenção de proibir estas técnicas e no Nasdaq (a bolsa nova-iorquina das tecnológicas em Times Square, Manhattan) o flash-trade deverá terminar a 1 de Setembro.
O futuro é uma questão “política”, sublinha, por seu lado, Jamie Morgan: “Será que as pessoas querem de facto largar o financismo? Não posso responder por elas”. Mas conclui com uma evidência: “O custo global da ‘socialização’ de uma crise financeira grave para a economia mundial é largamente mais pesado do que qualquer benefício para o emprego ou para os impostos derivado da inflação destes serviços financeiros nas últimas décadas”.
Nota:
A financeirização da economia (2007) – Peso dos activos financeiros em relação ao PIB no momento em que estoirou a crise: Irlanda: 900%; Reino Unido: 700%; França: 650%; Zona Euro (média): 600%; Japão: 550%; Espanha: 550%; Estados Unidos: 450%; Ásia (média): 400%; Médio Oriente (média): 200%; América Latina (média): 200%. (Fonte: João Gabriel Palma, Cambridge Journal of Economics, 33, 2009)
Qui 13 Ago 2009
Depois de ter visto bloqueadas politicamente desde 2004 aquisições de empresas de mineração de recursos e energéticas no Canadá, Estados Unidos e Austrália, uma empresa chinesa avança com a primeira operação hostil sobre uma firma ocidental. A Jilin Jien, da área do níquel, quer comprar a Canadian Royalties, que tem em banho-maria um projecto no norte do Quebeque por falta de financiamento devido à crise de crédito.
Na própria semana em que Jim Flaherty, o Ministro federal das Finanças do Canadá, visita a China para namorar os fundos soberanos e as colossais reservas de 2,1 biliões (triliões, na designação amglo-saxónica) de dólares de Pequim, a Jilin Jien Nickel Industry, da área do níquel, através da sua participada Jien Canada Mining, resolveu avançar com a primeira aquisição hostil da história recente da expansão internacional das novas multinacionais chinesas.
O alvo foi a Canadian Royalties, também da área do níquel, que tem um projecto baptizado Nunavik por financiar, devido à crise, no Quebeque, precisando urgentemente de 500 milhões de dólares (mais de 350 milhões de euros). A Jien oferece 148,5 milhões de dólares canadianos (96 milhões de euros) aos accionistas da firma canadiana, mantendo a oferta aberta até 15 de Setembro.
A Jilin Jien é uma firma estatal cotada na bolsa de Xangai desde 2003 localizada na cidade de Jilin, no nordeste da China. A firma chinesa conta com um parceiro canadiano, a Goldbrook Ventures, de Vancouver, para a operação, tendo formado a Jien Canada Mining. O parceiro canadiano dispõe de uma vasta área de prospecção no norte do Quebeque, na mesma região onde actual a Canadian Royalties, e onde está localizado o projecto Nunavik.
Grandes operações anteriores junto de firmas mineiras “ocidentais” foram, por razões políticas, bloqueadas, como aconteceu em 2004 com a tentativa de aquisição da canadiana Noranda pela China Minmetals, em 2005 com a oferta amigável de compra da Unocal americana pela China National Offshore Oil Corp (conhecida pela sigla CNOOC), e mais recentemente com a operação, também amigável, de aquisição da Oz Minerals australiana pela China Minmetals e com a tentativa de acordo entre a Chinalco e a Rio Tinto de Melbourne (que levou inclusive à retaliação chinesa prendendo quatro executivos da empresa australiana em Xangai).
Apesar de tudo têm ocorrido, recentemente, ou estão em curso algumas operações concretizadas ou concretizáveis no sector dos recursos energéticos em terras “ocidentais”.
O fundo soberano chinês China Investment Corp (CIC) adquiriu, no mês passado, uma participação significativa (17,2% das acções e 6,7% dos direitos de voto) na Teck Resources canadiana, uma grande firma dos minérios sediada em Vancouver. Por outro lado, a China Petroleum Corp, em Junho, acordou comprar a Addax Petroleum Corp, com sede em Genebra, por um montante de 7,6 mil milhões de dólares, considerada a maior compra feita até hoje no estrangeiro.
Já este mês (Agosto), a Yanzhou Coal Mining acordou comprar a australiana Felix Resources (por 2,9 mil milhões de dólares) e a Sinochem Corp (através da Sinochem Resources UK) propôs-se comprar a inglesa Emerald Energy PLC (por 532 milhões de libras, cerca de 615 milhões de euros) para adquirir poços petrolíferos na Síria e na Colômbia. Especula-se que a China National Petroleum Corp (CNPC) chinesa estará interessada em adquirir à Repsol espanhola a YPF argentina.
Desde Dezembro, só as empresas chinesas da área dos recursos energéticos já investiram no estrangeiro – em países em desenvolvimento, como em desenvolvidos – 13 mil milhões de dólares. A estimativa para o ano 2009 cifra-se em 43 mil milhões, quase 50% mais do que no ano passado!
Alguns analistas concluem, no entanto, que a China, com a operação hostil no Canadá, poderá estar a alterar a sua táctica no quadro da estratégia “go global” no plano geoeconómico. Os chineses compreendem que a janela de oportunidade criada pelas desvalorizações bolsistas e pelas descapitalizações provocadas pela crise financeira nas empresas “ocidentais” é o momento ideal. Não podem, por isso, perder tempo.
Ter 11 Ago 2009
Importações feitas pela China reanimam comércio mundial – esta será provavelmente a melhor noticia do ano. A China revela-se de novo como ‘locomotiva’ do comércio mundial. Só que, agora, paradoxalmente, não como principal exportador mundial, mas como importador ’salvador’. Um estudo da Moody’s Economy, divulgado esta semana, considera este facto a notícia decisiva do ano.
O mundo ficou do avesso com a crise. A saída da contracção do comércio mundial (que será de 10% este ano, segundo as estimativas da Organização Mundial do Comércio), e por arrastamento da economia real, estará a ser alimentada pelas importações feitas pela China, segundo um estudo desta semana da Moody’s Economy (uma empresa de análise de dados pertencente ao grupo da agência de notação financeira Moody’s Investors Service).
A China que se tornou no maior exportador mundial (ultrapassando a Alemanha) e tudo o indica, também, no maior fabricante do mundo (ultrapassando os Estados Unidos), inverteu a estratégia de exportação a todo o custo para dar uma “ajuda” ao combate à crise internacional.
Fruto do seu pacote anticrise de 460 mil milhões de euros, os chineses dinamizaram o mercado interno, por via do consumo e dos projectos keynesianos estatais infra-estruturais (incluindo áreas como tecnologias de informação e comunicação e tecnologias ‘limpas’), o que estaria a ‘puxar’ pelas importações, como pode ser observado num gráfico disponibilizado pela Moody’s.
Vários analistas, entre eles Robert Madsen do MIT, salientaram no início do ano que a principal ‘arma’ anticrise seria a viragem dos países com excedentes comerciais (com a China à cabeça) para a importação.
O disparo das importações chinesas já arrastou a reanimação de algumas economias asiáticas exportadoras como a Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Indonésia, segundo refere a Moody’s, e poderá animar, também, a Alemanha e o Japão (apesar de este país continuar a patinar na crise que se arrasta desde os anos 1990).
Sáb 8 Ago 2009
O total dos pacotes anticrise americanos desde Dezembro de 2007 com verbas em aplicação já soma mais do que todas as grandes intervenções públicas anteriores desde o New Deal dos anos 1930. É a maior intervenção ‘keynesiana’ de sempre na história americana.
Já somaram 4,2 biliões de dólares (triliões na designação anglo-saxónica, cerca de 3000 mil milhões de euros) as 34 intervenções públicas anticrise realizadas nos Estados Unidos desde Dezembro de 2007 pela Reserva Federal (banco central, FED), pelo Tesouro (equivalente ao Ministério das Finanças na orgânica da Administração americana), pelo FDIC (Federal Deposit Insurance Company, agencia criada pelo Congresso para assegurar os depósitos e supervisionar o sistema financeiro) e pela entidade federal para a área da habitação (Federal Housing Administration), segundo dados do analista Barry Ritholtz. Trata-se da verba já em aplicação e não da autorizada que poderá atingir os 12,8 biliões de dólares (equivalente a 90% do PIB anual americano e a 70% do PIB anual da União Europeia).
2ª Guerra Mundial custou menos
Este total já em curso é superior à soma de todas as grandes intervenções financeiras (monetárias e orçamentais) públicas realizadas pelo Estado americano desde o New Deal dos anos 1930 (excluindo a intervenção na 2ª Guerra Mundial). Os oito maiores pacotes e programas americanos desde o New Deal somam 3,7 biliões de dólares em valores corrigidos da inflação (ou seja comparáveis com os gastos actuais), em que o mais volumoso foi o programa da NASA (uma soma acumulada de 851 mil milhões de dólares), logo seguido do custo da guerra do Vietname (698 mil milhões de dólares). O próprio custo de intervenção americana na 2ª Guerra Mundial – 3,6 biliões de dólares, a valores actuais – foi inferior à intervenção anticrise actual.
Em termos de comparações de políticas anticrise, os casos do New Deal (conjunto de programas anti-Depressão da Administração de Franklin D. Roosevelt entre 1933 e 1937), que envolveu 500 mil milhões de dólares (a valores actuais), e do pacote de intervenção na crise da falência em série de 745 caixas de depósitos e crédito americanas (conhecidas por S&L – savings and loan) entre 1986 e 1995, que implicou 256 mil milhões (a valores actuais), são anões face aos 4,2 biliões actuais.
Os principais itens da actual intervenção centram-se no 2º Pacote de estabilização lançado pelo Tesouro (2009) na ordem dos 787 mil milhões (mais do que o custo da Guerra do Vietname), no Troubled Asset Relief Program (TARP) lançado por George W. Bush e pelo secretário Paulson em Outubro de 2008 envolvendo 599,5 mil milhões (mais do que o New Deal) e na Term Auction Facility da Reserva Federal implicando 468,6 mil milhões (mais do que o custo da Guerra da Coreia) lançada em Dezembro de 2007 face à crise do subprime.
Sex 7 Ago 2009
A 9 de Agosto de 2007 um comunicado de imprensa, no mínimo estranho, vinha a público. O banco francês BNP Paribas comunicava ter congelado três fundos por impossibilidade de valorizar investimentos titularizados num veículo financeiro completamente desconhecido dos comuns mortais. De quem era a culpa? “Da completa evaporação da liquidez de certos segmentos do mercado de titularização americana”, dizia-se no comunicado.
Repentinamente o mundo era apanhado de surpresa por uma palavrão financeiro que emergia do escuro das salas dos corretores: sub prime. Rapidamente se tornou tema de conversa de café. Contudo o índice Dow Jones continuou impavidamente o seu frenesim altista…até que se deu, de novo, o improvável no casino: um crash bolsista a 16 de Outubro. Soube-se, depois, com o atraso de um ano, que os Estados Unidos haviam entrado, também, em recessão (contracção da economia) em Dezembro daquele ano.
O povo comum – quer os ‘capitalistas populares’ quer os outros que não vivem nem de um cêntimo de rendas financeiras – foi fazendo uma aprendizagem dolorosa ao longo de 2008: de um discurso monetarista dominante para um súbito acordar com todos os governos, a começar por Washington (então nas mãos dos republicanos), a gritar que “todos somos keynesianos” iniciando logo em Janeiro um rol de pacotes de “estímulos” para evitar o ‘risco sistémico’ (outro palavrão a que nos habituámos); de uma ainda “provável” crise global acompanhada de uma inflação galopante até Julho dos preços das commodities, a começar pela mais sensível de elas todas para a nossa vida do dia-a-dia, o petróleo, para uma crise a sério com perigo de deflação endémica; de mero crash bolsista evoluiu-se para pânico depois da falência do Lehman Brothers a 15 de Setembro e passou-se a ouvir falar de algo esquisito, credit crunch, à letra, esmagamento do crédito, em suma, redução abrupta da disponibilidade para emprestar no e pelo sistema bancário. Resultado: todo um modo de financiamento da economia financeira e da economia real ruiu.
E quando, em pleno Verão deste ano, já nos habituávamos à crise – com coisas incríveis como a falência de um estado, a Islândia, as quedas do pedestal do ‘tigre’ europeu mais endeusado, a Irlanda, ou da construtora de automóveis (esse símbolo do século XX) mais famosa do mundo, a GM, ou o eclipsar de um grupo de notáveis que mandavam no mundo (ou julgavam que mandavam), o G7 – eis que a Goldman Sachs nos vem dizer que a euforia bolsista está de volta, que o crash terminou (o segundo maior da história do Dow Jones segundo as estatísticas), e os políticos juntam a voz a animar-nos que já batemos no fundo, a recessão já passou.
Suspiremos, então, de alívio – antes que os aborrecidos dos pessimistas nos venham dizer que pode haver uma recaída económica, que a bolsa pode apenas estar a viver uma corrida repentina, e que o pior em termos de economia real (falências em série), impacto social (desemprego de longa duração) e monetário (colapso do dólar) ainda está para se sentir.
Mas antes que tudo passe sem termos tempo para parar para pensar, convirá, neste aniversário, alinhar três primeiras hipóteses de conclusões sobre estes dois anos.
1- A vingança do mercado sobre a teoria da “grande moderação”
Durante vinte anos os teóricos da economia convenceram-nos que vivíamos num “mercado eficiente” (de qualquer modo, tinham-lhe colado a etiqueta de “hipótese”—no economês técnico, Efficient market hipothesis) e os práticos – os banqueiros centrais e os governantes – brincaram com a “fantasia” (no dizer do economista L. Randall Wray) de que a política monetária conseguiria uma “grande moderação” dos ciclos, permitindo um crescimento consistente permanente, com a minimização das recessões na economia real e dos estragos em bolsa.
No dia-a-dia, os maestros (como Alan Greenspan, o antigo presidente da Reserva Federal americana) e os homens do leme (os governantes) engendraram várias «bolhas» financeiras sucessivas desde os anos 1980, de que as mais célebres andaram em torno dos hedge funds, depois com as tecnologias digitais (a famosa onda dot-com) e finalmente com o imobiliário.
O ‘pai’ do monetarismo, Milton Friedman, um ano antes de falecer e dois anos antes de rebentar o subprime, ainda elogiava “a experiência natural” com êxito que havia sido a gestão monetária desde os anos 1990 nos EUA (e que serviu de modelo para o resto dos banqueiros centrais). O artigo no Journal of Economic Perspectives (volume 19, nº4) ainda fez furor em 2005. Na realidade, a teoria e prática da “grande moderação” tinha gerado um “consenso monetário” que dominou à direita e à esquerda governantes na OCDE.
Friedman seria poupado à vingança do mercado, que como uma mão invisível colocou um ponto final na fantasia. E essa estranha “mistura” de monetarismo e keynesianismo bastardo que nos governou soçobrou.
E Alan Greenspan, o Maestro, tentou passar como um camelo pelo buraco de uma agulha, aconselhado, aliás, por um spin doctor, o consultor de relações públicas David Dreyer. Quando foi interrogado pelo Congresso em Outubro de 2008 (já depois do choque do tsunami provocado pela falência do Lehman em Setembro), Greenspan admitiu um “erro” (que nós ingénuos ouviremos sem pestanejar): “Cometi o erro de presumir que o interesse próprio das organizações, sobretudo dos bancos e outros, era tal que seriam capazes de proteger os seus próprios accionistas e os activos das suas firmas”. Rematou que estava “chocado” com o que sucedera e concluiu com ar modesto: “Ainda não compreendi totalmente porque aconteceu”.
O presidente do Comité do Congresso, o democrata Henry Waxman, no entanto, apertou-o: “Por outras palavras, descobriu que a sua visão do mundo, a sua ideologia não estava certa. Não funcionava”. A que Greenspan, o sofrido penitente, respondeu: “Precisamente. É essa a razão, justamente, porque estou chocado, porque vivi quarenta anos ou mais com a evidência considerável de que estava a funcionar excepcionalmente bem”.
Ora este “erro” custou-nos a todos nós muito caro. É claro que beneficiou todos os que adoraram o “erro” do Maestro.
2- O capital financeiro não está imunizado
Os historiadores económicos vão recordar os últimos trinta anos como a era da ‘financeirização’ (mais um palavrão derivado do inglês financialization) ao extremo da economia mundial e em particular das economias da OCDE.
Um indicador que é usado, o do peso dos activos financeiros no PIB (financial deepening, no jargão técnico), revela que, em média, os países desenvolvidos, antes do rebentar da crise em 2007, andavam na casa dos 500%, com exageros como o da Irlanda nos 900% ou do Reino Unido ou França nos 700% – na verdade muito mais do que os EUA (o “pai” da inovação financeira nos últimos vinte anos graças aos boys da Wall Street).
Por cima das teorias económicas, emergiu, assim, uma expansão jamais vista de um sistema baseado na maximização de rendas financeiras (alguém já deu dele esta imagem: “uma enorme parada de angariadores de rendas” [Akerlof e Shiller, Animal Spirits, 2009], um sistema viciado nos fees a todos os níveis e em todos os nichos e segmentos possíveis) e um capitalismo financeiro pujante como já não se via desde os finais do século XIX e inícios do século XX quando o economista Rudolf Hilferding baptizou a nova realidade capitalista de “capital financeiro” (e deu título a um livro que desde 1910 se tornou famoso).
A memória dos super-pânicos e das grandes crises financeiras foi-se apagando (1873 foi no tempo dos nossos bisavós ou trisavós e 1929 no tempo dos nossos avós ou bisavós) e gerou-se a ideia de que o capital financeiro estava imune a crises globais. Os sinais dos anos 1980 e 1990 foram menorizados – eram coisas localizadas (ou num só país, como o Japão, ou nos desgraçados países do terceiro mundo, ou focalizados num segmento muito específico da finança como os hedge funds ou as tecnológicas).
Apenas um economista, iconoclasta, remava contra a maré. Com um nome estranho, Hyman Minsky, dizia que o capitalismo financeiro sofria do mesmo mal do capitalismo industrial (que Karl Marx havia analisado), tinha a instabilidade e a fragilidade inscrita no seu ADN. Não estava imune a crises globais e sistémicas. Assim se está a ver.
Mas Minsky (que faleceu em 1996) disse ainda outra coisa perturbadora: o capitalismo financeiro vive de se alimentar de ‘bolhas’ como os vampiros de sangue. Sempre que a oportunidade surge (nomeadamente com legislação favorável) rapidamente se adapta como uma espécie darwiniana, e renasce das cinzas.
Não admira, por isso, que, mesmo, agora, no meio do maior desencanto público em relação ao capital financeiro, ele explore o nicho de um ‘keynesianismo bastardo’ estatal (quer no Ocidente como na China) e amanhã possa reviver com a ‘bolha’ seguinte alavancada em algum sector tecnológico (já se começaram a aceitar apostas)… até que a crise financeira regresse.
3- A geopolítica está sempre a surpreender-nos
Há dois anos atrás poucos analistas arriscariam anunciar num horizonte de curto prazo a morte do G7 (o ‘clube’ dos sete países considerados os mais ricos do mundo, criado em 1976) ou a hipótese de contestação do papel internacional do dólar norte-americano. Esta crise trouxe como prendas geopolíticas a ascensão do G20 (o grupo de 20 países que reúne 80% da economia mundial), e em particular a afirmação política do ‘clube’ dos quatro BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), bem como o início da discussão aberta sobre os riscos sistémicos ligados ao domínio actual do dólar.
A liquidação do papel do G7 (que associou a Rússia desde 1997 nas cimeiras de chefes de Estado, tendo passado a ser designado por G8) ficou particularmente visível depois da cimeira em L’Aquila, Itália, de 8 a 10 de Julho passado. Pouco depois, a 16 de Julho, em Yekaterimburgo, na Rússia, os BRIC realizariam a sua primeira cimeira oficial a pretexto da crise. A próxima cimeira está prevista para o Brasil em 2010. Em apenas oito anos, os BRIC passaram de uma criação literária da Goldman Sachs projectada como nova geografia do poder económico para depois dos anos 2020 para uma realidade política que aproveitou a oportunidade desta crise inesperada.
O mundo deixou de poder ser analisado pela lente do “unipolarismo” (a tal hegemonia a solo dos Estados Unidos reforçada desde a implosão da União Soviética) ou pela divisão entre “globalizadores” e “anti-globalizadores”. O Planeta é algo bem mais complexo.
O académico Joseph Nye ainda, recentemente, aconselhava a “ler-se” a geo-economia e a geopolítica como se fossem um jogo de xadrez tridimensional. Ao nível de topo, o poder militar (o tal hard power decisivo para a projecção de poder) entre grandes potências continua a ser unipolar (os EUA continuam, ainda, a liderar a larga distância); no patamar do meio, das relações entre grandes economias, o mundo é hoje claramente multipolar e tem-no sido desde há uma década; ao nível mais baixo, das relações transnacionais, a globalização trouxe um resultado inesperado, um poder caoticamente distribuído e difuso onde se movem múltiplos actores não-estatais.
Seg 3 Ago 2009
Há dois anos atrás poucos analistas arriscariam anunciar num horizonte de curto prazo a hipótese de contestação pública do papel internacional do dólar norte-americano.
Esta crise trouxe como uma das prendas geopolíticas o início da discussão aberta sobre os riscos sistémicos ligados ao domínio actual do dólar.
O subir de tom em relação à divisa americana surgiu por ocasião da mais recente reunião (Abril 2009) do G20 (o grupo que reúne os países considerados mais ricos agrupados no G7 e um vasto grupo de países emergentes ou intermédios).
Os BRIC (o clube dos três grandes emergentes, Brasil, Índia e China, e da Rússia, a ex-superpotência procurando reemergir) juntaram a voz em relação aos riscos que o sistema financeiro mundial hoje defronta ao continuar a estar baseado no dólar desde os acordos de Bretton Woods em 1944. Esses quatro países detêm 42% das reservas internacionais, o que significa hoje em dia que uma fatia considerável das reservas mundiais está fora do G7.
A futura estrela ascendente: os SDR
Os críticos do dólar temem o colapso desta divisa e o tsunami que desencadeará e avançam com uma solução de dar mais peso progressivo no comércio internacional e no sistema financeiro mundial aos direitos especiais de saque (SDR, acrónimo para special drawing rights), uma unidade de conta do Fundo Monetário Internacional (FMI) que se baseia num cabaz de quatro divisas (44% para o dólar, 34% para o euro, 11% para o iene japonês e 11% para a libra inglesa, segundo a repartição para o quinquénio que termina em 2010).
O governador do banco central da China chegou a teorizar o assunto em Março (de 2009) provocando, momentaneamente, uma hesitação e uma gafe do novo secretário do Tesouro norte-americano escolhido pelo presidente Obama. A escorregadela do secretário americano (admitindo a hipótese chinesa como discutível) foi logo corrigida – Washington e Wall Street não estão, ainda, na onda de recuo.
O banqueiro central chinês Zhou Xiaochuan chegou mesmo a propor um “plano” de passos a tomar: o uso dos SDR na fixação de preços das commodities (que hoje estão dolarizadas); o lançamento de títulos denominados nessa base, o que, aliás, tem sido estudado pelo próprio FMI; e a criação de um fundo aberto denominado em SDR.
A “lição de finanças” do governador chinês foi encarada como um testar das águas e um aviso à navegação de que a China prepara uma estratégia de fuga à armadilha do dólar em que se enredou nos últimos vinte anos.
Na cimeira do G20 de Abril passado, o FMI foi autorizado a emitir mais 250 mil milhões de dólares em novos direitos especiais de saque no sentido de aumentar as reservas daquele fundo. Vários países já anunciaram a disposição de aumentar as suas reservas no FMI, com a China na liderança, envolvendo 7,3 mil milhões de dólares, a Rússia 6,9, a Índia 4,8, o Brasil 3,5 e a Coreia do Sul 3,4. No entanto, isso dependerá da renegociação dos votos das várias grandes potências no seio do fundo. É esperado que o Japão, a China, a Índia e o Brasil aumentem o seu peso decisório.
Em contraste, a China, entre o final de 2008 e o final do Verão de 2009, segundo o grupo de consultoria francês LEAP/E2020, terá disposto de 600 mil milhões de dólares de activos denominados em dólares que aplicou em compras de activos em recursos estratégicos e empréstimos a países com acordos estratégicos um pouco por todo o mundo (exceptuando, et pour cause, os EUA) e terá abdicado de comprar obrigações do Tesouro americano na ordem dos 500 mil milhões a 1 bilião de dólares, começando a tirar o tapete aos americanos.
Situação de impasse
A situação actual é, por isso, de impasse, sublinha Jane D’Arista, uma especialista em história do sistema monetário internacional, investigadora do Political Economy Research Institute, da Universidade do Massachusetts, nos Estados Unidos.
“A incapacidade das famílias americanas continuarem a carregar o fardo de consumidor de último recurso da economia mundial, acabou efectivamente com o século do dólar”, diz a investigadora americana com algum humor. “O problema é que não há divisa que o substitua. Mas essa falência de se avançar com um novo sistema será um factor de manutenção da recessão global e de contínua vulnerabilidade a crises”, acrescenta.
Uma situação deste tipo não é nova – ocorreu nos anos 1930 com o declínio da libra esterlina. E só se resolveu com as alterações no plano geopolítico que ocorreriam nas duas décadas seguintes, recorda a investigadora num estudo que publicou recentemente no Cambridge Journal of Economics. Jane acha que a Zona Euro – que poderá ser fortemente atingida pelo colapso do dólar dada a colaterização das suas dívidas públicas – não está interessada em substituir o dólar, apesar de algumas vozes nesse sentido. “Na minha opinião, deveriam ser os próprios Estados Unidos a tomar a iniciativa da reforma do sistema”, conclui a investigadora.
O exemplo inglês vem logo à memória. Apesar da proposta de John Maynard Keynes, em representação do império britânico, ter sido derrotada em Bretton-Woods pelas manobras americanas que acabaram por impor o dólar “como Sol do sistema solar financeiro”, o famoso economista inglês foi um exemplo de tenacidade, mesmo num contexto geopolítico adverso e apesar de doente. Via Lisboa, ele viajou, desde 1941, umas seis vezes para os EUA, empolgado na sua cruzada.
Os chineses recordam hoje que, provavelmente, a proposta de Keynes de uma unidade de conta internacional (que baptizou de ‘bancor’), baseada num sistema multilateral, teria sido mais «sagaz» do que a imposição de um sistema apoiado numa divisa nacional dominante, sujeita aos ciclos e políticas dessa potência.