Seg 20 Jul 2009
O que ficou do ‘tigre’ celta – diário de bordo 18
Por JNR na secção Globalização , História Económica1 comentário
A crise veio colocar em cheque o famoso ‘milagre’ irlandês. O modelo de crescimento seguido nos últimos vinte anos chegou ao fim. Mas a morte deste ‘felino’ é uma notícia exagerada.
O mito irlandês chegou ao fim com esta Grande Depressão mundial – o país que foi o campeão do crescimento real na Europa durante quase duas décadas é hoje um dos líderes na recessão. Mas as noticias sobre a morte do ‘tigre’ celta são manifestamente exageradas, dir-se-ia parafraseando Mark Twain, e olhando para o estudo realizado pelo historiador económico inglês Nicholas Crafts, que esteve em Lisboa recentemente numa Escola de Verão organizada pelo Instituto de Ciências Sociais.
O ‘tigre’ celta surpreendeu o mundo durante vinte anos. A Irlanda conseguiu crescimentos ‘anormais’ – de tipo ‘asiático’ – em plena Europa pós choques petrolíferos e, paradoxalmente, depois do final dos famosos «trinta gloriosos anos de crescimento». De verdadeiro ‘cágado’ entre os anos 1950 e 1980, no final da lista europeia do PIB per capita, mesmo atrás de Portugal, Grécia e Espanha, passou para o grupo da frente em apenas quinze anos.
Manteve uma taxa média de crescimento real anual de cerca de 6% – a mais elevada de todas na Europa – e multiplicou por duas vezes e meia a riqueza de cada irlandês em menos de uma geração. Foi um dos países que entendeu o sinal dos tempos situando-se no clube dos “globalizadores”, como lhes chama Nicholas Crafts, professor de história económica do Departamento de Economia da Universidade de Warwick, no Reino Unido, e director do Centro sobre Vantagem Competitiva na Economia Global (CAGE) ligado ao Economic and Social Research Council inglês.
Mutação bizarra
Esta mutação bizarra – e impensável – de um cágado para um felino correspondeu à descoberta de uma janela de oportunidade que nem mesmo a Finlândia conseguiu igualar. “É um caso especial, difícil de imitar”, apesar de ter sido transformado, exageradamente, em “modelo”, adverte o historiador.
Foi o país da Europa que melhor ‘cavalgou’ duas ondas dos últimos vinte anos: a da expansão da globalização e da difusão massiva das tecnologias de informação e comunicação (TIC). Explorou, por isso, as relações umbilicais com os Estados Unidos, tornando-se o pólo europeu privilegiado na deslocalização das empresas tecnológicas americanas. Aproveitou, também, o facto do vizinho inglês não ter aderado à Eurozona.
O sector tecnológico tornou-se, no tecido produtivo irlandês, o de maior peso – para um país que estaria condenado a especializar-se na área agro-industrial. «No caso finlandês, o crescimento foi menos dependente das tecnologias de informação e comunicação do que no caso da Irlanda. O factor produtividade total ligado às TIC contribuiu 3 pontos percentuais mais do que Finlândia, o caso mais próximo», refere Crafts.
A alavanca que a Irlanda usou para ser atraente para o investimento directo estrangeiro, particularmente americano, foi uma taxa de imposto sobre os rendimentos empresariais (o nosso IRC) anormalmente baixa, uma situação de excepção no quadro da União Europeia. De 38% de imposto máximo sobre as empresas passou para 12,5% nos anos 2000 – ½ da taxa do IRC português e menos de metade da inglesa ou da alemã. “Uma vantagem então, mas hoje uma vulnerabilidade, pois não poderia manter-se uma tal discrepância no seio da UE por tanto tempo”, frisa Nicholas Crafts. Por isso, há que moderar o papel ‘milagroso’ – exclusivo – da vantagem fiscal.
O segredo irlandês
O verdadeiro ‘segredo’ irlandês, segundo o estudo realizado por este historiador económico inglês, foi a capacidade de fazer crescer o que tecnicamente se designa por “factor produtividade total” (FPT, no acrónimo técnico) a uma taxa anual quase 8 vezes superior à da União Europeia (UE), 4,5 vezes mais do que nos Estados Unidos, duas vezes e meia mais do que em Singapura ou na Coreia do Sul e mesmo 35% superior à finlandesa.
O próprio crescimento anual da produtividade do trabalho foi 4 vezes superior ao da média da UE. Por exemplo, no caso português e espanhol (apesar deste ser considerado, também, um ‘milagre’), para o mesmo período analisado, o FPT decresceu a uma média anual de 0,3%!
A Irlanda guardou, por isso, desse processo excepcional um activo perene – a competência da sua força de trabalho local e mesmo de grande parte da emigração que atraiu, bem como um sistema sofisticado de selecção de bons projectos e uma “capacidade social que facilita uma assimilação efectiva de novas tecnologias”, conclui Nicholas Crafts. Esse ganho estrutural não morreu com o crepúsculo do ‘tigre’. Por isso, convém moderar as notícias sobre a morte do ‘tigre’ celta.
Julho 20th, 2009 at 16:25
Retirei algumas passagens para este post:
http://small-brother.blogspot.com/2009/07/modelo-irlandes.html