Ter 7 Jul 2009
Quem pode reanimar a procura? – diário de bordo 14
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica1 comentário
A luz ao fundo do túnel na actual depressão depende de um clube restrito de actores mundiais – os que acumularam maiores excedentes nos últimos anos no comércio internacional e que dispõem de maior liquidez em reservas de divisas estrangeiras (sobretudo dólares), avisa Robert Madsen, especialista do MIT.
Os Estados Unidos deixaram de poder ser o motor económico da retoma. As quatro grandes potências ascendentes que formam o designado grupo dos BRIC (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China) têm representado 65% do crescimento mundial recente, como lembrou o presidente Lula da Silva na cimeira dos BRIC em Ecaterimburgo, na Rússia.
Um modelo que chegou ao fim
A estratégia de fomento de importações baseada na acumulação de um défice externo gigante esgotou-se; a actual crise deu o golpe de misericórdia nesse esquema de dinamização do comércio internacional. Esse modelo das últimas décadas serviu, por um lado, a alguns países desenvolvidos (como é o caso flagrante dos Estados Unidos) para viverem acima das suas possibilidades reais e, por outro, para as potências económicas emergentes e um clube restrito de exportadores líquidos acumularem excedentes nas balanças comerciais e reservas em divisas jamais imaginadas.
Esta moeda com duas faces chegou ao fim, diz-nos Robert Madsen, especialista do Centro para Estudos Internacionais do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge (Boston), numa entrevista em inglês que pode ser lida aqui.
E será profundamente negativo se o incentivo para a retoma nos países deficitários da OCDE se basear no mecanismo estatal de endividamento extremo para fomentar os seus mercados internos: “A dependência em acumulação de défices de longo prazo é insustentável. Se o mundo passar da dependência crónica num consumismo americano para uma nova dependência crónica no sobreinvestimento e nos excessos de despesa dos governos, estaremos a semear as sementes de futuras crises nacionais violentas e será ilusório, também, em termos de retoma mundial”.
Um clube de novos-ricos
A saída poderá estar num clube restrito, adianta Madsen. O conjunto dos BRIC detém 41% das reservas mundiais em divisas estrangeiras e um grupo de cinco países domina 60% dessas reservas – China, o líder, Japão, Zona Euro incluindo o Banco Central Europeu, Rússia e Taiwan (ver quadro).
Em termos de excedentes na balança comercial, o ano 2008 mostrou, também, o perfil de um clube restrito de países ‘ricos’ de liquidez segundo esse critério: o conjunto dos países exportadores de petróleo do Médio Oriente, a China, em segundo lugar, a Alemanha (que conservou o lugar de primeiro exportador mundial), a Rússia e a Holanda (ver quadro).
Os Estados Unidos, apesar de serem o terceiro exportador mundial, são altamente deficitários na balança comercial e o Japão, sendo o quarto exportador mundial, acumulou um excedente que é 1/3 do holandês. Saliente-se que, no quadro da União Europeia e da Zona Euro, a Alemanha e a Holanda têm uma situação “estrutural” neste capítulo radicalmente diferente do resto dos seus companheiros de associação.
«O consumo e a despesa americanas foram o principal motor do crescimento global nos últimos anos», sublinha-nos Robert Madsen. Mas este consumismo alicerçado num mecanismo de endividamento não foi exclusivo da América. Se olharmos por este ângulo, “a procura extra criada nos Estados Unidos, no Reino Unido e noutros poucos países desenvolvidos foi crucial para o mundo, pois muitos outros países, a China, o Japão, a Alemanha, o mundo em desenvolvimento, os exportadores de petróleo, pouparam muito mais do que idealmente conseguiriam. A dependência ao extremo do consumismo americano foi, portanto, o reflexo dos excessos de poupança noutros locais”.
Oportunidades de mercado
A responsabilidade pela luz ao fundo do túnel está, por isso, nos países que poderão, agora, dinamizar a procura mundial. Serão eles o motor da retoma. “Voltar a uma saúde de longo prazo da economia mundial exige descobrir novas fontes de procura. E os Estados Unidos não têm condições para tal – os consumidores americanos estão ainda assustados e esgotados. Também não podem ser os governos a fazê-lo em última análise, pois as dívidas públicas não podem crescer indefinidamente. A resposta tem de estar em maiores gastos no mundo em desenvolvimento bem como na China, Japão e Alemanha”, sublinha o professor do MIT. E prossegue: “O mundo necessita que os países com excedentes comecem a comprar rapidamente grandes volumes de bens e serviços dos países com défices na balança comercial, para que a procura mundial se mantenha, mesmo que as economias com défices aumentem as suas poupanças e diminuam o seu consumo, como será normal que ocorra numa grande depressão”.
Este caminho para a retoma exige, por parte dos países deficitários, uma estratégia agressiva de conquista dessas oportunidades no mercado mundial. Os estímulos dos governos desses países deficitários deverão dirigir-se para essas acções cirúrgicas.
Mas o maior erro político acontecerá se “os grandes credores insistirem em continuar a gerir excedentes – então esta recessão aprofundar-se-á e será mais longa do que poderia ser”, sublinha o economista. Ele, também, não acredita que “os governos actuais sejam tão estúpidos a ponto de retomarem o proteccionismo do tempo entre as duas guerras mundiais do século XX”.
No entanto, uma directiva central de Beijing de 1 de Junho deixou Madsen céptico – a China (o país com maiores excedentes) decidiu colocar uma cláusula “compre chinês” em todos os casos em que haja obtenção de benefícios do pacote de 600 mil milhões de dólares de estímulos anticrise de Beijing, imitando um movimento tímido americano de “compre americano” (buy american) de há seis meses atrás. Nove ministérios e o Conselho de Estado chineses decidiram que, em todos os projectos financiados pelo pacote público, em que haja necessidade de comprar no mercado internacional os fornecimentos, as importações terão de ser aprovadas caso a caso. No entanto, quinze dias depois, um porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros veio reagir alegando que a directiva não discriminaria empresas nem produtos estrangeiros, sem especificar.
Por isto, o especialista do MIT recomenda olho clínico em relação “às jovens economias em desenvolvimento”. Em muitas delas, há oportunidades por agarrar.
Nota: Reformulação de artigo original publicado em 28/05/09
Quadros
5 Principais países/regiões com excedentes da balança comercial
(saldos positivos em mil milhões de dólares em 2008)
Médio Oriente: 472
China: 295
Alemanha:259
Rússia:180
Holanda:60
Fonte: Organização Mundial do Comércio, Março 2009
5 Principais países/zonas com mais reservas cambiais
(em mil milhões de dólares em final de 2008 ou dado mais recente)
China (inclui Hong Kong e Macau): 2160
Japão:1024
Zona Euro (inclui BCE): 580,1
Rússia: 388,1
Taiwan:312,6
Fonte: FMI e Wikipedia
Agosto 11th, 2009 at 10:43
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