O especialista inglês em crises financeiras George Cooper avalia a “relutância” europeia em imitar a Reserva Federal americana como um ponto forte.

“Na minha opinião, o Banco Central Europeu (BCE) tem um melhor enquadramento de política monetária”. Quem o diz a contracorrente é George Cooper, analista financeiro inglês da Blue Crest Capital, de Londres, e autor do livro ‘A Origem das Crises Financeiras’ (publicado recentemente em Portugal pela Lua de Papel).

Quando muitos analistas e comentadores pressionam sistematicamente o BCE para uma política anticrise mais próxima do intervencionismo da Reserva Federal americana (FED), Cooper recorda o que já escrevera no seu livro em meados do ano passado, distinguindo a política de manipulação “agressiva” da taxa de juro de referência para financiamentos pela FED (que aproximou a designada Fed funds rate em termos nominais da faixa entre os 0% e os 0,25%, desde 16 de Dezembro de 2008, uma situação extrema que não se observava desde os anos 1950) e a “maior relutância” do BCE (cuja taxa de juro de financiamentos baixou para 1% desde 13 de Maio passado) em adoptar uma política de seguidismo em relação a Ben Bernanke, o presidente da FED.

O dilema europeu

O problema do BCE, para além das pressões “internas” de grupos privados e políticos europeus e mesmo de alguns governos, é que “não opera em isolado, independentemente de outros bancos centrais”. E explica o dilema: “Se o BCE prossegue uma política prudente enquanto outros se lançam numa monetarização da dívida, o euro sofrerá uma valorização excessiva e esse movimento enfraquecerá a posição competitiva das empresas europeias. E se o euro atinge um valor demasiado elevado face a outras divisas, então o BCE pode ver-se forçado a adoptar um comportamento similar de irresponsabilidade”.

Sublinha, também, que o problema do realinhamento cambial entre países emergentes e desenvolvidos continua por resolver e isto trará uma pressão adicional sobre o BCE: “Se o dólar americano continuar a declinar com as maiores economias emergentes a manterem a sua indexação à nota verde, o valor do euro pode subir a um ponto verdadeiramente terrível para a economia europeia”.

Por isso, ele vê dois cenários “perigosos” que poderão emergir deste dilema: “A Europa pode ser obrigada a adoptar uma política de desvalorização, ou, alternativamente, poder-se-á tornar necessário erguer barreiras alfandegárias. Tanto um caso como o outro serão profundamente negativos”.

O medo da hiperinflação

O medo tem-se instalado em torno do impacto da gestão das medidas dos pacotes anticrise geradores de dívida por efeito da actuação de governos e bancos centrais. O activismo governamental já envolveu nos Estados Unidos 12,8 biliões de dólares (triliões na designação anglo-saxónica) e menos de metade na Europa, pouco mais de 5 biliões.

O défice orçamental nos Estados Unidos deverá atingir os 13% do PIB no final do ano orçamental em 30 de Setembro e o nível de dívida pública americana é hoje de 82,5% do PIB e estima-se que chegará aos 97% em 2010. Como nota de comparação refira-se que o Japão apresenta 170,4% do PIB, Singapura 113,7% e Itália 103,7% (a pior situação na Zona Euro). No caso da Zona Euro é esperado que 13 (incluindo Portugal) dos 16 países aderentes incorram em défices orçamentais acima do “limite” oficial dos 3% do PIB, incluindo os países com as maiores economias, como a Alemanha, França e Itália.

Não admira, por isso, que o presidente da FED tenha modificado subtilmente o discurso, no início do mês de Junho (2009), declarando perante o Comité do Orçamento do Congresso que seria necessário começar a pensar em restaurar o equilíbrio orçamental. Por seu lado, menos de uma semana depois, os ministros das Finanças da União Europeia afinavam o tom pelo mesmo diapasão.

O problema é a linha de fronteira ténue entre deflação e inflação em períodos de crise. A política de crescimento da massa monetária na economia por via da monetarização da dívida estatal (colmatando uma contracção abrupta nos fluxos privados de crédito) é sempre “um precursor da inflação” e o risco é o rápido deslizamento para situações incontroláveis de hiperinflação, podendo ocorrer “em momentos diferentes, choques deflacionistas e inflacionistas” inclusive alternando-se em intervalos curtos de tempo. “Há boas razões para temer tanto um ‘cisne negro’ deflacionista como inflacionista”, refere.

Cooper escreveu o livro com o argumento da necessidade “essencial da reforma do papel do banco central”, mas admite que se tem observado “pouca evidência de arrependimento entre os banqueiros centrais”. E conclui cruamente: “Caímos na maior crise financeira da história e, no entanto, há pouca evidência de que os bancos centrais estejam a examinar criticamente o seu papel nesta crise”. Cooper é firmemente adepto de que os bancos centrais resistam às pressões políticas e dos grupos privados para a manutenção de uma situação artificial de expansão económica alimentada por um crédito exagerado.

Os bancos centrais deveriam regressar ao seu objectivo central de gerir o processo de criação de crédito na economia, prevenindo a sua transformação em «bolhas», que, inevitavelmente, estoirarão, arrastando as economias para crises tanto mais graves quanto maior tiver sido a «bolha» que as antecede. O período entre 1992 e 2007 é ilustrativo nos EUA deste paradigma – a ‘doutrina Greenspan’.

Finalmente, o inglês Cooper “não acredita que a Inglaterra adira à Zona Euro tão cedo e muito menos por causa desta crise”. Mas acrescenta: “Admito que, no longo prazo, assistamos a essa adesão, mas por ora não penso que seja do interesse de ambas as partes”.