Sex 19 Jun 2009
A 1ª cimeira dos BRIC (16 de Junho 2009) – diário de bordo 16
Por JNR na secção A questão dos impérios , Geoprotagonistas , Globalização , História Económica[2] comentários
As quatro potências ascendentes designadas por BRIC realizaram o primeiro encontro formal de presidentes a 16 de Junho de 2009 e iniciaram uma caminhada para uma nova ordem internacional. O tema do dólar esteve em foco, mas a cimeira foi ofuscada pelos acontecimentos do Irão.
Não são ainda uma “frente” geopolítica, pois há agendas distintas (nomeadamente o G2 informal entre China e Estados Unidos), mas as quatro potências ascendentes passaram à ofensiva devido ao seu crescente peso económico e ao declínio da hegemonia americana. A Cimeira de Ecaterimburgo marcou o princípio do fim do Século Americano.
A Rússia tentou ‘cavalgar’ esta primeira cimeira dos BRIC (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China) no dia 16 de Junho bem como a reunião da Organização de Cooperação de Xangai (OCX, que envolve como membros, além da Rússia e da China, quatro outras repúblicas ex-soviéticas da Ásia Central, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão) desenhando uma jogada política anti-americana. A pressão sobre o dólar foi forte e os russos procuraram ofuscar a reunião dos ministros das finanças do G8 (onde o representante russo participara) de três dias antes na cidade de Lecce no tacão da «bota» italiana.
Mas a jogada russa parece ter sofrido dois reveses – a situação política no Irão ocupou os primeiros lugares noticiosos e retirou aos russos a possibilidade de jogar a cartada Ahmadinejad de momento; e os chineses ficaram silenciosos enquanto indianos e brasileiros manifestaram prudência na cruzada anti-dólar.
A maioridade dos quatro
As quatro potências ascendentes reuniram-se formalmente pela primeira vez numa cimeira e isso é indiscutivelmente um evento histórico e um sinal do enfraquecimento da hegemonia norte-americana no mundo. Lula da Silva declarou que as quatro potências “chegaram à maioridade”.
Mas a sua projecção mediática foi ofuscada pela crise política no Irão (o próprio presidente iraniano chegou atrasado e saiu à pressa da reunião da OCX, onde é observador) e as declarações finais ficaram aquém das expectativas criadas pela estratégia pública russa face ao dólar. Os quatro líderes tricontinentais (Eurásia, Ásia e América do Sul) reuniram-se na cidade de Ecaterimburgo (onde foi assassinada a família do último czar russo em 1918), nos Urais, tendo como anfitrião o presidente russo Dmitry Medvedev.
Não só a crise económica e financeira internacional e as questões geopolíticas mais ‘quentes’ da actualidade na geografia do planeta (Coreia do Norte, Médio Oriente, Irão, Afeganistão-Paquistão) foram abordadas, como certamente os temas não explicitamente referidos publicamente, como a questão da estratégia para a cimeira do G20 em Pittsburgo, nos Estados Unidos, a 24 e 25 de Setembro, a recomposição das instituições multilaterais herdadas de Bretton Woods (Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial nomeadamente) e do Conselho de Segurança (onde a Índia e o Brasil não têm assento permanente). Espera-se, também, que este G4 pressione a próxima cimeira do G8 (onde, recorde-se, a Rússia tem acento) na Itália de 8 a 10 de Julho organizada por Sílvio Berlusconi.
A estratégia face ao dólar desembocou na criação de um grupo de trabalho reunindo os ministros das Finanças e os responsáveis dos bancos centrais das quatro potências BRIC, bem como um outro grupo de trabalho no âmbito da OCX no sentido de analisar a viabilidade de uma divisa supranacional naquele espaço euro-asiático, do tipo da unidade de conta usada na Europa antes do euro. O tema da reabertura das negociações da Ronda de Doha, no âmbito da Organização Mundial do Comércio, foi levantado por Lula da Silva, mas não se conhece tomada de posição pública sobre o assunto por parte desta cimeira.
Um dilema complexo
Os BRIC detêm uma arma de dois gumes. Por um lado, são os principais financiadores do Estado americano, com 1/3 dos títulos do Tesouro americano e no espaço de um ano (de Abril de 2008 na Abril de 2009) a China aumentou inclusive a sua posição em 52% e a própria Rússia em 128%. No conjunto, os quatro países possuem, também, 41% das reservas cambiais do mundo, em que o dólar tem um peso dominante.
Por isso, o assunto da “diversificação” do portefólio financeiro destes países tem de ser tratado com pinças para evitar um colapso do dólar (que, também, os prejudicaria seriamente) e uma bancarrota americana que coloque o mundo perante um «vazio» geopolítico. A preocupação com a gestão geopolítica deste dilema foi particularmente visível pelo “silêncio chinês” sobre as matérias mais controversas desta cimeira, como refere o analista Ian Bremmer, do Euroasiagroup nova-iorquino, e a prudência da Índia e do Brasil, muito salientada pelos media indianos por exemplo. O presidente brasileiro falou de um processo “por etapas”.
Uma das direcções consensuais de diminuição ‘controlada’ do peso do dólar – já ensaiada aquando da cimeira do G20 em Londres por russos e chineses – respeita a um estratégia dirigida para o reforço do papel dos direitos de saque especiais no quadro do Fundo Monetário Internacional e para o alargamento do cabaz que os suporta. Um dos assessores de Medvedev, Arkady Dvorkovich, adiantou que tal cabaz deveria passar a incluir o yuan chinês, o rublo, os dólares canadiano e australiano, e o ouro. Actualmente, o cabaz conta, apenas, com as moedas do sistema financeiro dominado pelo G7 (dólar, euro, iene japonês e libra esterlina inglesa). Uma revisão deste cabaz está prevista para ser discutida em Novembro do próximo ano, pelo que estes movimentos deverão ser entendidos neste jogo de forças.
Outra direcção, sublinhada pelo analista indiano Ashutosh Sheshabalaya, é o facto de haver alguma “complementaridade” nas especializações dos BRIC, o que lhes permitirá desenvolver relações comerciais mútuas, sobretudo nas áreas de commodities, tecnologia militar, energia e mesmo serviços, que “continuam a usar o dólar mas de um modo modificado”. Lula da Silva frisou que o comércio entre estes quatro países aumentou 500% desde 2003. Dito de um modo simplificado – duas das potências são bases mundiais de manufactura (China e Índia) e as outras duas são fornecedores de recursos estratégicos (Rússia e Brasil).
Entretanto, no âmbito da OCX, a Rússia e a China lançaram um Fundo regional de crédito de 17,5 mil milhões de dólares para apoiar a luta anti-crise nos associados da Ásia Central. Em Fevereiro, Moscovo tinha anunciado colocar 7,5 mil milhões nesse fundo e, agora, o presidente Hu Jintao adicionou 10 mil milhões.
Radiografia dos BRIC
Os BRIC, designação criada pela Goldman Sachs, abrange as quatro potências ascendentes (Brasil. Rússia, Índia e China, por ordem do acrónimo) fora do grupo dos chamados ‘ricos’ (o G7, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá). Albergam 41% da população mundial, com a China e a Índia bem destacados com mais de mil milhões de habitantes. E espalham-se por 25% do planeta.
Eles representavam no final do ano passado 22% da riqueza mundial (avaliada em paridade de poder de compra), mais do que a União Europeia (21%) ou os Estados Unidos (20,7%). Detém 41% das reservas mundiais cambiais, com a China (incluindo Hong Kong e Macau) liderando com mais de 2160 mil milhões de dólares, um valor que se distancia do Japão, o número dois, que se situa em pouco mais de 1000 mil milhões. E dominam 33% (mais de 1060 mil milhões de dólares) dos títulos do Tesouro norte-americano detidos por estrangeiros (segundo dados de final de Abril de 2009), com a China liderando a lista (cerca de 23%, com 764 mil milhões de dólares num total de cerca de 3300 mil milhões detidos por estrangeiros, estando à frente do Japão).
O desajustamento do G7 (que representa, contudo, 38% da riqueza mundial) é hoje flagrante em relação à realidade do peso dos BRIC (22%), tendo apenas integrado a Rússia no quadro de um G8. Mesmo do ponto de vista da realidade “ocidental”, o G7 está desajustado, pois a Espanha ou a Coreia do Sul têm hoje um PIB em paridade de poder de compra superior ao do Canadá.
O grupo dos quatro BRIC representou, também, 65% do crescimento mundial até ao momento de desencadeamento da recessão actual. Foram, por isso, o motor da economia mundial.
A próxima cimeira dos BRIC realizar-se-á no Brasil em 2010. Esta estrutura veio certamente para ficar. Uma sondagem online no China Daily revelava dia 16 de Junho (dia da cimeira) que 65% dos votantes acreditam que este esboço de frente se institucionalizará.
Radiografia da OCX
A Organização de Cooperação de Xangai (OCX) foi fundada em 2001 pelos seis países referidos e procura atrair um leque mais amplo em toda a Ásia-Pacífico, incluindo como observadores a Índia, o Irão (que a Rússia tem apadrinhado para uma entrada como membro, defrontando a resistência da China), a Mongólia e o Paquistão. Nesta reunião de Junho esteve também presente como convidado o Afeganistão.
A OCX pretende ser um modelo de cooperação geopolítica no espaço Euro-Asiático, ainda que não se assuma como desafiador directo da NATO ou mesmo do eixo da Ásia-Pacífico entre os Estados Unidos, Japão, Austrália e Coreia do Sul.
Julho 7th, 2009 at 21:01
[...] têm representado 65% do crescimento mundial recente, como lembrou o presidente Lula da Silva na cimeira dos BRIC em Ecaterimburgo, na [...]
Abril 17th, 2010 at 0:20
[...] países. A 1ª cimeira havia-se realizado em Ecaterimburgo, na Rússia, em 16 de Junho de 2009. Como então escrevemos, o sinal que ela transmitiu para o mundo podia resumir-se numa frase: assistíamos ao princípio do [...]