Seg 4 Mai 2009
Depressão mais a pique do que em 1929 – diário de bordo 10
Por JNR na secção Gestão do risco , Globalização[2] comentários
O especialista americano Barry Eichengreen mostra num artigo que a recessão na produção, a derrocada financeira e a contracção do comércio internacional a que estamos a assistir na actual crise são mais profundas do que na Grande Depressão para o mesmo período de tempo já decorrido.
Apesar do comércio mundial ter crescido ligeiramente (0,8%) em Fevereiro passado (em relação ao mês anterior em que tinha ocorrido uma quebra de 5,9% em relação a Dezembro), a contracção em relação a um período mais alargado é dramática – 44% se compararmos o trimestre de Dezembro de 2008 a Fevereiro de 2009 com trimestre idêntico um ano antes. Este é o aspecto mais “perturbador” da crise actual mas não o único, sublinha-nos o académico americano Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que, com o irlandês Kevin O’Rourke, do Trinity College, em Dublin, montou um observatório de acompanhamento dos principais indicadores económicos à escala mundial comparando-os permanentemente com a Grande Depressão.
E o que eles verificaram é chocante: as quebras actuais no comércio internacional, na produção industrial mundial e nas bolsas mundiais desde o pico em Abril de 2008 são hoje muito superiores às que ocorreram no mesmo período de meses aquando da crise iniciada após o pico de Junho de 1929. Particularmente no comércio mundial e nas bolsas, as correcções são hoje abissais, se comparadas com a Grande Depressão no mesmo período inicial, o que pode ser visualizado nos gráficos que publicam no seu artigo «A Tale of Two Recessions», onde partem de um índice 100 idêntico em Junho de 1929 e em Abril de 2008.
A dinâmica evolutiva desta crise mundial está a ser mais rápida e mais a pique do que na Grande Depressão anterior. O professor de Berkeley comenta: “A etiqueta de ‘Grande Recessão’ que se começa a colocar hoje pode muito bem acabar por ser excessivamente optimista”.
Uma questão alarmante
A questão do que se passa no comércio internacional é “alarmante”, diz Eichengreen. Por duas razões compreensíveis: a primeira é académica, os estudos históricos revelam que “a destruição de comércio é um factor que molda a Grande Depressão”; a segunda é empírica, hoje em dia a integração das economias mundiais não tem paralelo, dado o grau de globalização do sistema mundial atingido nas últimas décadas, sobretudo depois da implementação massiva do outsourcing e da emergência de novas grandes potências (como a China, por exemplo) que se alimentam do comércio internacional para crescer. O risco de uma vaga de proteccionismo, como reacção dos governos aos efeitos internos da crise, ampliará ainda mais este choque.
Os dois académicos baseiam-se, para o estudo que estão a fazer, no acompanhamento estatístico que está a ser feito pelo CPB holandês (o gabinete de análise da política económica, uma entidade independente dos Países Baixos, criada em 1945 e liderada então pelo Nobel Jan Timbergen) em termos de comparações mês a mês e em grupos de três meses (independentemente da divisão tradicional em quatro trimestres cada ano) que dá uma imagem muito forte da quebra que está a ocorrer no comércio internacional, motor da globalização. O próximo estudo comparativo será publicado a 20 de Maio.
A diferença política em relação aos anos 1920 e 1930 é, no entanto, sublinhada por Barry Eichengreen: a resposta de políticas monetárias, orçamentais e económicas por parte dos governos quer da OCDE como dos emergentes hoje em dia foi massiva e mais rápida do que então. O calvário de vários anos de depressão nos anos 1930 poderá, por isso, não ser repetido. Ainda que a dimensão da dívida pública que vai ser contraída provavelmente não terá paralelo – “só nos EUA saltará de 40 para 80% do PIB, mas isso parece-me um custo inevitável para sairmos do buraco em que nos metemos”.
No entanto, Eichengreen sublinha-nos, com alguma ponta de pessimismo, que a resposta orçamental “está ainda abaixo do necessário globalmente – só alguns países como o Japão e a Coreia do Sul foram suficientemente adiante, mas muitos outros não”. O número anunciado no G20 de 1100 mil milhões de dólares como plano anticrise já em marcha é apenas 1,7% do PIB mundial.
NÚMEROS A RETER
13,7%
Foi a quebra do comércio internacional entre Dezembro de 2008 e Fevereiro de 2009 em comparação com o trimestre imediatamente anterior. O final do ano passado foi o ponto de viragem para a aceleração da tendência negativa.
15%
Foi a queda do comércio internacional comparando Fevereiro de 2009 com Fevereiro do ano anterior.
44%
Foi a derrocada do comércio internacional comparando o trimestre de Dezembro de 2008 a Fevereiro de 2009 com idêntico trimestre de Dezembro de 2007 a Fevereiro de 2008
Maio 7th, 2009 at 9:49
[...] não é, ainda, completamente compreendida na sua extensão e efeitos – por exemplo, segundo os recentes cálculos de Barry Eichengreen e Kevin O’Rourke, a contracção do comércio internacional é já superior há que ocorreu na Grande Depressão em [...]
Maio 12th, 2009 at 15:29
[...] A razão desta razia – que, por vezes, surpreende pelas empresas que afecta, tidas até há bem pouco tempo como ‘campeões’ da exportação ou mesmo da internacionalização – tem a ver com uma quebra na produção industrial mundial e uma contracção no comércio internacional que estão a ser mais aceleradas do que no período da Grande Depressão para o mesmo tempo decorrido, como já foi referido pelos estudos de Barry Eichengreen e de Kevin O’Rourke, a que já fizemos referência. [...]