Seg 18 Mai 2009
Os quatro «cavaleiros» do Capitalismo de Estado
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Globalização , Inteligência Económica1 comentário
O recente activismo anticrise dos governos veio acentuar a guinada no pêndulo ideológico e político para o papel do sector público na economia. Mas tal como a desregulação excessiva e o crescimento do sistema financeiro «rentista» conduz a derrocadas cíclicas e à destruição massiva do tecido económico, também a ineficiência na inovação e o risco de proteccionismo espreitam por detrás do súbito apetite pelo intervencionismo estatista, diz Ian Bremmer, presidente do Eurasia group em Nova Iorque.
Subitamente os mais insuspeitos governantes vieram declarar «somos todos keynesianos» neste período de aflição e até revistas do mundo dos negócios fazem capas com «a vingança de Marx». O tema é o «activismo» das políticas públicas, o regresso do apetite pelo intervencionismo político na economia e pela recriação de um sector empresarial do Estado nas chamadas áreas estratégicas. O estatismo procura apresentar-se como nova doutrina económica salvadora depois da derrocada da desregulação financeira.
Guinar do pêndulo
Contudo, este guinar do pêndulo nos países ocidentais em prol de uma alegada eficácia das estatizações contra a vaga anterior das privatizações é apenas um dos quatro «cavaleiros» da reemergência do capitalismo de Estado, alerta Ian Bremmer, presidente do grupo americano de consultoria Eurasia group, sediado em Nova Iorque, em entrevista que pode ler, no original, na íntegra aqui.
Este intervencionismo entre os ricos é, certamente, o «cavaleiro» mais tardio e provavelmente o mais transitório, ainda que tenha servido como tipping point para que o tema saísse do quase anonimato em que tinha ficado no baú da história para a ribalta do discurso político e do debate ideológico.
Apesar da tentação dos políticos de várias cores em “microgerir” a economia e de se poder assistir a um risco real de hiper-regulação por parte do Congresso americano, por alguns governos europeus mais aflitos e no próprio Japão, “é pouco provável que os países desenvolvidos abracem o capitalismo de Estado no sentido pleno do termo”, comenta o consultor. No entanto, o desafio aos governantes ocidentais não é fácil: “conseguir um equilíbrio delicado entre os dois extremos”, entre a desregulação e o estatismo.
Companheiro de estrada: as ‘empresas do regime’
Há, no entanto, um compagnon de route que se insinuou, desde logo: as ‘empresas do regime’, os famosos ‘campeões nacionais’ que, em momentos de crise, sempre surgem como bóias de salvação. São empresas privadas que vivem de uma ligação umbilical com os governos democráticos ou totalitários e com os lóbis políticos, e cuja justificação de eficiência económica é poderem ser alavancas de dinamização do mercado interno ou da exportação.
Mas a experiência há muito ditou os seus impactos no final das contas: limitação da capacidade de inovação e da sua difusão pelo tecido económico, violação da transparência do mercado, captura política do Estado, condicionamento da concorrência e crescimento do proteccionismo nas trocas internacionais, refere Bremmer.
A batalha geopolítica
A grande batalha vai ser, por isso, a nível internacional, no plano geopolítico, “na medida em que veremos estes modelos em competição criar fricção na política mundial e nos mercados globais”, diz Bremmer.
Os outros dois «cavaleiros» do capitalismo de Estado – os fundos soberanos (um novo sector do capitalismo financeiro nas mãos de países exportadores que canalizam para estes veículos os excedentes de divisas) e o sector empresarial do Estado em sectores ditos estratégicos nos países emergentes – são mais sólidos, já andam no terreno há mais tempo, e trazem consigo um risco geopolítico certo.
“O crescimento do capitalismo de Estado já começou há várias décadas. Nasceu em torno do choque petrolífero com a importância do petróleo na economia mundial. Depois acelerou-se com o aumento da importância dos mercados emergentes no crescimento global”, diz Bremmer.
Para o consultor, o “mais surpreendente entre os quatro cavaleiros foi o sector dos fundos soberanos (que dão pelo nome técnico de Sovereign Wealth Funds), pois disparou a sua proeminência de um modo tão rápido, depois de ter existido como um factor menor no mercado durante tantos anos”. “Desde 2005 que os fundos soberanos começaram a desafiar a hegemonia ocidental dos fluxos de capitais, que ainda ficou mais vulnerável, depois de 2007, com a crise financeira”, sublinha.
Reestruturação da alta finança
Bremmer admite que estamos a assistir, por isso, a uma “reestruturação” do sector financeiro mundial – tal como ocorreu nos anos 1890/1900 (com o crescimento do capitalismo financeiro associado ao imperialismo das grandes potências, como o analisou Rudolf Hilferding em 1910) e nos anos 1970 com o que Peter Drucker designou por revolução dos fundos de pensões (um dos seus livros marcantes).
“Haverá ganhadores e perdedores”, sublinha, apontando como um dos prováveis vencedores a China, o país autoritário com o capitalismo de Estado mais sólido, apoiado por uma enorme liquidez financeira, e que, segundo alguns analistas, como Derek Scissors, da Heritage Foundation, terá recuado, desde 2006, na própria dinâmica de reformas económicas (ver artigo aqui).
Os 4 protagonistas
. Os Fundos Soberanos dos países com excedentes de divisas – representam já 12% do investimento global, o dobro do que representavam há cinco anos atrás.
. O sector empresarial do Estado em sectores ditos estratégicos, desde os ligados a commodities críticas no comércio internacional (como o petróleo ou o urânio) até sectores industriais inteiros em situação de monopólio ou oligopólio estatal.
. As empresas do regime, os “campeões nacionais”, nas mãos de privados ligados intimamente ao aparelho político e governamental, com exemplos em sectores muito diversos (telecomunicações, tecnologias de informação, energias, agro-industrial, mineração, indústrias pesadas, construção, etc.), por exemplo na China, na Rússia, na Índia, em Israel, no Brasil, mas que são uma tentação inclusive nos países da OCDE
. O activismo anticrise dos governos dos próprios países da OCDE, correndo riscos de excesso de intervencionismo, abuso de nacionalizações e de regulamentação
Maio 19th, 2009 at 10:56
Julgo que muita gente confunde capitalismo e democracia.
Todos sabemos que um assenta na propriedade privada e o outro na partilha das decisões.
Ora, embora a democracia liberal case bem com capitalismo, nada obriga a essa coincidência, bastando usar o exemplo maldito do nazismo que, antes de ter destruido a Alemanha a conduziu a um progresso económico sem precedentes.
Num mundo que é, afinal, muito mais Hobbesiano do que acreditava Locke, a libertação do capitalismo financeiro veio provar que, afinal, até o Max Weber estava enganado acerca da ética protestante do capitalismo e assistimos, antes de mais, a uma falência moral. Vai demorar tempo a recuperar e não é certo que os corruptos sistemas demo-liberais venham a prevalecer sem uma alteração estrutural profunda que todos parecemos ansiar mas cujos contornos estarão talvez agora a desenhar-se e são ainda muito difíceis de entender.
Para mim, tudo depende dos EUA conseguirem ou não re-conciliar a liberdade com a responsabilidade. Se o Obama não falhar e os republicanos estiverem afastados do poder pelo menos uma geração talvez seja possível.
Geopolíticamente, o Mundo não pode viver sem esses novos gigantes onde impera o capitalismo de Estado e que constituem (Parag Khanna) o novo campo de batalha pela hegemonia. A exportação da democracia liberal como modelo universal revela uma ignorância histórica e geopolítica abissal cujos resultados estão à vista, embora os pactos com o Diabo que os EUA fizeram durante muitos anos com as mais execráveis ditaduras sejam um erro equivalente, embora de sinal contrário. Bem vistas as coisas – e eu trabalhei na NATO alguns anos – somos dirigidos por gente de segunda ordem. Smart power precisa-se…
A alternativa é antiga mas a acontecer de novo será quase como a extinção dos dinossauros. Dificilmente o planeta recuperará dum holocausto nuclear cuja gestação está a contecer debaixo dos nossos olhos