Maio 2009
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Seg 25 Mai 2009
Uma crise económica gerada por uma crise bancária agrava sempre a profundidade e duração de uma recessão, segundo um estudo do FMI em 17 países abrangendo episódios de stresse financeiro nos últimos trinta anos. No mesmo sentido, uma investigação realizada por Kenneth Rogoff revela que o desemprego e a derrocada do valor do imobiliário tende a demorar mais tempo. O marketing político de alguns responsáveis de que os «sinais» de retoma estão no virar da esquina não é suportado pela história económica.
As recessões que foram despoletadas por crises no sistema bancário tenderam a ser, em média, mais prolongadas e mais severas nas suas consequências em termos de quebra do crescimento, do que as provocadas por derrocadas bolsistas ou crises cambiais.
O estudo agora publicado por uma equipa de investigadores do Fundo Monetário Internacional (FMI) abrange 17 países (Portugal não foi incluído na amostra) da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico com 30 membros, na maioria países desenvolvidos) durante o período de 1980 a 2006, quando ocorreram 17 casos de recessão com crise bancária associada. Nestes casos, o período médio de recessão propriamente dita durou quase dois anos e a perda acumulada de Produto Interno Bruto até à retoma foi de quase 20%.
A análise estuda em profundidade seis casos de recessão com componente de crise bancária nos últimos vinte anos nos países nórdicos (Finlândia, Noruega e Suécia em 1991), em Inglaterra (em 1992), nos Estados Unidos («junk bond» e Drexel em 1990, LTCM em 1998) e no Japão (1990) e foi publicada pelo FMI nos seus «working papers» com o título ‘Financial Stress, Downturns, and Recoveries’.
Retoma só surgiu quatro anos depois
Nestes episódios mais graves, em média, a retoma só surgiu quase 4 anos depois, a contracção no crédito foi na ordem dos 10% e as derrocadas nas bolsas e no imobiliário foram de 55,5% e 20,6% respectivamente. A crise mais grave foi a finlandesa (iniciada em 1991) que durou quase sete anos e que associou uma destruição de activos em bolsa de 86% e imobiliários de quase 40%. Comparada com esta, a chamada década perdida do Japão foi muito mais «suave».
Segundo Roberto Cardarelli, Selim Elekdag e Subir Lall, os autores do estudo do FMI, o padrão de comportamento ocorrido então a um nível mais localizado geograficamente pode servir de «aproximação» para a avaliação do que pode ocorrer hoje à escala global, em que o efeito de «megafone» (ampliação) pode funcionar. O estudo de investigação surge muito oportunamente no momento em que se vive uma recessão das mais duras dos últimos 150 anos e em que o sistema bancário esteve no olho do furacão do stresse financeiro em curso desde o Verão de 2007, quando rebentou a crise do subprime.
A investigação deste grupo do FMI salienta que a contracção brutal de crédito (às empresas, famílias e instituições) na economia real associada a uma destruição sem precedente de activos no imobiliário são elementos típicos de uma recessão severa motivada por stresse bancário.
Impacto na economia real
Este stresse ocorre depois de períodos de «bolha» exuberante na concessão de crédito (observável no seu peso relativo face ao Produto Interno Bruto e no peso do crédito no financiamento das empresas e famílias), no recurso a uma excessiva alavancagem e na utilização de veículos financeiros geradores de hiper-rendas sem qualquer contrapartida real em que a própria banca comercial se envolveu até ao nariz, e nos preços especulativos do imobiliário. O estudo mostra que, nos países onde os desequilíbrios financeiros são maiores, o impacto da crise é mais severo.
O estoirar deste tipo de crises pode, ainda, convergir com uma derrocada bolsista atingindo níveis de destruição recorde do valor desses activos – para o episódio em curso, no caso do indicador Dow Jones Industrial Average de Nova Iorque, a quebra desde o pico em Outubro de 2007 até ao mínimo até à data, em 9 de Março de 2009, foi de 54%. Dada a dependência do tecido económico em relação ao crédito bancário e ao comportamento bolsista (para as empresas que são cotadas) é, por isso, de esperar uma destruição de emprego e um ritmo de falências muito maior.
Um ramalhete de indicadores a negro
Este estudo vem na mesma linha de uma investigação realizada por Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, e Carmen Reinhart, da Universidade de Maryland, e apresentada na conferência da American Economic Association no início deste ano em São Francisco.
O estudo abrange 18 crises bancárias nos países desenvolvidos depois da Segunda Guerra Mundial com um enfoque particular nas baptizadas de “cinco maiores” (big five) – a espanhola de 1977, a norueguesa de 1987, a finlandesa de 1991, a sueca de 1991 e a japonesa de 1992 -, bem como as mais importantes do mundo emergente (as cinco asiáticas de 1997-1998, a colombiana de 1998 e a argentina de 2001.
Os dois autores avaliam o pós-choque destes episódios em vários indicadores – imobiliário, bolsas, desemprego, PIB e dívida pública. Os efeitos negativos mais prolongados no tempo verificaram-se no desemprego (cinco anos) e na derrocada do valor do imobiliário (seis anos).
O estudo de Rogoff e Reinhart verificou que o declínio acumulado do preço do imobiliário foi em média de 35,5% (actualmente, no caso dos EUA, vai ainda em 28%) e durou seis anos. Os «crashes» bolsistas implicaram, em média, um quebra de 55,9% dos activos cotados e duraram 3,4 anos. Quanto ao desemprego, ele subiu durante cinco anos implicando um aumento de 7 pontos percentuais em relação à taxa de desemprego anterior à crise.
O PIB caiu, em média, durante menos tempo que os indicadores anteriores, cerca de dois anos, e a sua magnitude de queda foi da ordem dos 9,3%. Em virtude das intervenções das políticas públicas anticrise e da contracção das receitas do Estado por via dos impostos, a dívida pública aumentou, em média, 86% nos três anos seguintes ao estoirar da crise bancária.
Seg 18 Mai 2009
O recente activismo anticrise dos governos veio acentuar a guinada no pêndulo ideológico e político para o papel do sector público na economia. Mas tal como a desregulação excessiva e o crescimento do sistema financeiro «rentista» conduz a derrocadas cíclicas e à destruição massiva do tecido económico, também a ineficiência na inovação e o risco de proteccionismo espreitam por detrás do súbito apetite pelo intervencionismo estatista, diz Ian Bremmer, presidente do Eurasia group em Nova Iorque.
Subitamente os mais insuspeitos governantes vieram declarar «somos todos keynesianos» neste período de aflição e até revistas do mundo dos negócios fazem capas com «a vingança de Marx». O tema é o «activismo» das políticas públicas, o regresso do apetite pelo intervencionismo político na economia e pela recriação de um sector empresarial do Estado nas chamadas áreas estratégicas. O estatismo procura apresentar-se como nova doutrina económica salvadora depois da derrocada da desregulação financeira.
Guinar do pêndulo
Contudo, este guinar do pêndulo nos países ocidentais em prol de uma alegada eficácia das estatizações contra a vaga anterior das privatizações é apenas um dos quatro «cavaleiros» da reemergência do capitalismo de Estado, alerta Ian Bremmer, presidente do grupo americano de consultoria Eurasia group, sediado em Nova Iorque, em entrevista que pode ler, no original, na íntegra aqui.
Este intervencionismo entre os ricos é, certamente, o «cavaleiro» mais tardio e provavelmente o mais transitório, ainda que tenha servido como tipping point para que o tema saísse do quase anonimato em que tinha ficado no baú da história para a ribalta do discurso político e do debate ideológico.
Apesar da tentação dos políticos de várias cores em “microgerir” a economia e de se poder assistir a um risco real de hiper-regulação por parte do Congresso americano, por alguns governos europeus mais aflitos e no próprio Japão, “é pouco provável que os países desenvolvidos abracem o capitalismo de Estado no sentido pleno do termo”, comenta o consultor. No entanto, o desafio aos governantes ocidentais não é fácil: “conseguir um equilíbrio delicado entre os dois extremos”, entre a desregulação e o estatismo.
Companheiro de estrada: as ‘empresas do regime’
Há, no entanto, um compagnon de route que se insinuou, desde logo: as ‘empresas do regime’, os famosos ‘campeões nacionais’ que, em momentos de crise, sempre surgem como bóias de salvação. São empresas privadas que vivem de uma ligação umbilical com os governos democráticos ou totalitários e com os lóbis políticos, e cuja justificação de eficiência económica é poderem ser alavancas de dinamização do mercado interno ou da exportação.
Mas a experiência há muito ditou os seus impactos no final das contas: limitação da capacidade de inovação e da sua difusão pelo tecido económico, violação da transparência do mercado, captura política do Estado, condicionamento da concorrência e crescimento do proteccionismo nas trocas internacionais, refere Bremmer.
A batalha geopolítica
A grande batalha vai ser, por isso, a nível internacional, no plano geopolítico, “na medida em que veremos estes modelos em competição criar fricção na política mundial e nos mercados globais”, diz Bremmer.
Os outros dois «cavaleiros» do capitalismo de Estado – os fundos soberanos (um novo sector do capitalismo financeiro nas mãos de países exportadores que canalizam para estes veículos os excedentes de divisas) e o sector empresarial do Estado em sectores ditos estratégicos nos países emergentes – são mais sólidos, já andam no terreno há mais tempo, e trazem consigo um risco geopolítico certo.
“O crescimento do capitalismo de Estado já começou há várias décadas. Nasceu em torno do choque petrolífero com a importância do petróleo na economia mundial. Depois acelerou-se com o aumento da importância dos mercados emergentes no crescimento global”, diz Bremmer.
Para o consultor, o “mais surpreendente entre os quatro cavaleiros foi o sector dos fundos soberanos (que dão pelo nome técnico de Sovereign Wealth Funds), pois disparou a sua proeminência de um modo tão rápido, depois de ter existido como um factor menor no mercado durante tantos anos”. “Desde 2005 que os fundos soberanos começaram a desafiar a hegemonia ocidental dos fluxos de capitais, que ainda ficou mais vulnerável, depois de 2007, com a crise financeira”, sublinha.
Reestruturação da alta finança
Bremmer admite que estamos a assistir, por isso, a uma “reestruturação” do sector financeiro mundial – tal como ocorreu nos anos 1890/1900 (com o crescimento do capitalismo financeiro associado ao imperialismo das grandes potências, como o analisou Rudolf Hilferding em 1910) e nos anos 1970 com o que Peter Drucker designou por revolução dos fundos de pensões (um dos seus livros marcantes).
“Haverá ganhadores e perdedores”, sublinha, apontando como um dos prováveis vencedores a China, o país autoritário com o capitalismo de Estado mais sólido, apoiado por uma enorme liquidez financeira, e que, segundo alguns analistas, como Derek Scissors, da Heritage Foundation, terá recuado, desde 2006, na própria dinâmica de reformas económicas (ver artigo aqui).
Os 4 protagonistas
. Os Fundos Soberanos dos países com excedentes de divisas – representam já 12% do investimento global, o dobro do que representavam há cinco anos atrás.
. O sector empresarial do Estado em sectores ditos estratégicos, desde os ligados a commodities críticas no comércio internacional (como o petróleo ou o urânio) até sectores industriais inteiros em situação de monopólio ou oligopólio estatal.
. As empresas do regime, os “campeões nacionais”, nas mãos de privados ligados intimamente ao aparelho político e governamental, com exemplos em sectores muito diversos (telecomunicações, tecnologias de informação, energias, agro-industrial, mineração, indústrias pesadas, construção, etc.), por exemplo na China, na Rússia, na Índia, em Israel, no Brasil, mas que são uma tentação inclusive nos países da OCDE
. O activismo anticrise dos governos dos próprios países da OCDE, correndo riscos de excesso de intervencionismo, abuso de nacionalizações e de regulamentação
Ter 12 Mai 2009
O Mar-Oceano que nos banha domina a História da Europa há mais de quinhentos anos. A aliança que se formou entre as suas duas margens comandou a geopolítica no século XX. Agora que a crise financeira bateu fundo e que as novas potências emergentes se afirmam politicamente na mesa dos grandes, o mapa-mundo parece «deslizar» para o Oriente. Nós ficamos numa extrema.
Do Atlântico sempre veio bom vento de negócio e bom casamento político para a Europa. Com as navegações de Quinhentos chegaram o ouro e a malagueta da Guiné, as especiarias e as pedrarias da Índia pela rota do Cabo, o bacalhau do Lavrador, a prata de Potosi e de Guanajuato. E, também, a globalização do ignóbil comércio esclavagista negreiro. Depois vieram o ouro e os diamantes do Brasil e a Revolução americana. Os europeus emigraram massivamente para o Novo Mundo. Os portugueses inclusive «deslocaram» através do oceano a sede do império por uns anos para o Rio de Janeiro quando Napoleão quis dominar o continente europeu de Lisboa a Moscovo.
O «tio» da América deu a mão depois a uma parte da Europa nas duas Grande Guerras e ainda nos mandou o Plano Marshall, o escudo defensivo contra a chamada Cortina de Ferro, as modas da Coca-Cola, dos jeans e de Hollywood, a ‘terceira vaga’ dos chips e dos computadores pessoais, os gurus da gestão, e mais recentemente a Internet.
O Mar-Oceano – como os europeus chamavam há muitos séculos atrás ao Atlântico – que nos banha deixou uma marca inconfundível: o ter sido o berço da globalização económica e política, graças, primeiro, às Navegações portuguesas, e depois a espanhóis, holandeses e ingleses.
O Atlântico é como que o centro do mundo – os mapas-mundo vendidos na Europa e nas Américas colocam este oceano no meio de tudo.
Tempos que parecem estar de partida
A crise financeira da Wall Street nova-iorquina, que começou como uma doença localizada nuns produtos financeiros de que ninguém ouvira falar até ali – subprime -, transformou-se num tsunami global que galgou rapidamente as distâncias geográficas oceânicas, à velocidade dos fluxos electrónicos.
E, ao contrário do passado, em que as crises financeiras graves mas pontuais tomavam o nome de «asiáticas» ou «latino-americanas» ou mesmo do país de origem, o vírus da Wall Street contaminou, agora, rapidamente a Europa. Um ‘Velho Mundo’ que era elogiado pela alegada solidez financeira de uma Suíça, pela praça global londrina alternativa à Wall Street em várias áreas, e pelo comportamento de aço dos homens do Banco Central Europeu (BCE) que contrastava com a «irresponsabilidade» de um Alan Greenspan, o ex-presidente da Reserva Federal americana, a quem muitos responsabilizam pela desregulação financeira e pelos assomos cíclicos de «exuberância irracional» das últimas décadas.
Se a Wall Street já leva uma quebra histórica de 54% desde o seu último pico especulativo em Outubro de 2007, a segunda maior da sua história, as bolsas europeias não ficaram atrás e até um país tido como rico – a Islândia – já faliu. Foi a primeira vítima nacional dessas inovações criadas por magos financeiros que aproveitaram a janela de oportunidade aberta nos EUA pela revogação de regulações que vinham, algumas delas, das lições dolorosas da Grande Depressão.
Outros países europeus estão na linha de risco quer no Leste – entre aderentes e não aderentes da União Europeia (UE) – como dentro da própria UE (Áustria, Itália, Grécia, Irlanda, para citar os na ribalta). Teme-se que a Europa arranje agora o seu próprio subprime com uma crise financeira devastadora na Europa de Leste. Os líderes europeus naturalmente não gostaram desta invasão viral num dos circuitos sanguíneos vitais – a alta finança.
Criatura nova
Mas o contágio era inevitável em virtude da globalização financeira que se acentuou nas últimas décadas e de que a City londrina, a Suíça, o Luxemburgo, os offshore europeus e a banca europeia beneficiaram largamente. E é provável que a actual crise financeira seja uma criatura nova ao fim de um processo de evolução: “O sector financeiro transformou-se mais rapidamente do que qualquer outra actividade económica e as crises intermitentes do passado – como as do México, Japão, Sudeste asiático, Rússia – já podiam estar a reflectir a emergência de algo novo”, afirma William Thompson, professor na Universidade de Indiana, um dos «pais» da teoria dos ciclos longos geopolíticos e director de uma revista académica de estudos internacionais.
Essa criatura tem naturalmente uma «estrutura». Como revelou a revista ‘New Scientist’, 66 grupos de investidores institucionais geriam 75% das movimentações especulativas mundiais que eram da ordem de 1700 mil milhões de euros por dia (4% do PIB mundial anual) na véspera do aprofundamento da crise no final de 2008. Ou seja, em menos de um mês passava pelos dedos destes dadores de ordens electrónicas o equivalente à riqueza produzida pela economia real em 360 dias.
Apesar de um novo «amigo» em Washington, os líderes europeus parecem continuar a não comungar excessivamente do voluntarismo financeiro do outro lado do Atlântico. O BCE mantém um nível de taxas de juro mais elevado do que o definido pela Reserva Federal americana ou o Banco de Inglaterra que adoptaram uma abordagem «à japonesa», com taxas progressivamente mais próximas de zero, alegadamente para não deixarem cair os que são demasiado grandes para falir e na esperança que umas migalhas caiam na economia real. E os dezasseis ministros das Finanças do Eurogrupo (zona euro), ainda recentemente, disseram «não, obrigado!» ao apelo de Lawrence Summers, o conselheiro económico do presidente Obama, para mais intervencionismo anticrise «à americana». Os europeus parecem distanciar-se do amigo americano no discurso político anticrise.
Distanciamento latente que bebe vigor em duas outras fontes. Primeira: a necessidade da Alemanha desenvolver uma nova Ostpolitik face à Rússia, que julga poder dar cartas de novo na cena mundial aproveitando as fraquezas europeias (como no gás, na capacidade de defesa e no Estado de Bem-Estar social) e americanas (declínio político de influência global com a anterior Administração Bush). Segunda: a viagem sintomática da Secretária de Estado Hillary Clinton à China, insistindo com os chineses que têm de continuar a financiar os americanos. O que Hillary não disse em público é que concessões geopolíticas globais os EUA estão dispostos a dar em troca.
Moral da história: a Alemanha tem muitas dores de cabeça a Leste e tem de voltar a dar atenção estratégica a esse lado da sua fronteira, ficando o Atlântico cada vez mais longe; e os Estados Unidos reconheceram publicamente o novo estatuto da China como seu parceiro estratégico fundamental nos tempos mais próximos, o que alguns já chamam de G2.
O mosaico pode tornar-se, por isso, muito mais complexo que o antigo esquema simples do eixo Atlântico. Diz Thompson: “Na medida em que os EUA se focalizem mais na Ásia, é possível que as relações euro-americanas percam peso. Mas também é provável que os próprios europeus se tornem mais orientados para oriente – gás russo, petróleo da Ásia Central, produção chinesa, outsourcing de serviços na Índia. O que pode resultar num relacionamento euro-americano bem mais complexo, com ambas os lados do Atlântico sujeitos a pressões e oportunidades alternativas”.
Orfandade da Europa
Diferenças entre os dois lados do Atlântico que poderão ter uma dimensão mais vasta ainda: “No plano ideológico e político da prática social, as diferenças são cada vez maiores. A Europa da União Europeia é uma construção precária e pouco ágil, cujo papel no mundo enfraqueceu e, sinceramente, não vejo como poderá voltar a ter preponderância. A América, com todos os seus contrastes e desequilíbrios, continua surpreendente e capaz de «acreditar no progresso», como escreveu o guru irlandês da gestão Charles Handy”, diz o economista e professor jubilado Mário Murteira, director de uma revista de geoeconomia. Alguns analistas defendem que os EUA revelam ainda maior capacidade de adaptação – um ingrediente darwiniano fundamental em época de choques – do que o ‘Velho Mundo’.
O que deixa a Europa numa situação de orfandade. O investigador Dylan Kissane, francês de origem, mas radicado na Austrália, sublinha-nos: “O problema central da Europa é a sua identidade. O que é que Europa realmente quer dizer? O que é um europeu?”. Apesar de ser a maior economia do mundo, se encarada integradamente como União Europeia, a dependência estratégica do Reino Unido e do continente europeu em relação ao eixo atlântico desde o início do século XX marcou-lhe o destino. Com a perca de importância desse eixo atlantista por mudanças de estratégia do «tio» da América, sofre a Europa. «A Europa corre contra o tempo à medida que o eixo se desloca», ironiza Kissane, que trabalha na Universidade do Sul da Austrália.
E com o declínio do peso relativo do Atlântico poderá perder também o Brasil. É um cenário que Thompson deixa: “Estar nas bordas do Atlântico pode ser uma desvantagem até certo ponto, apesar das descobertas de petróleo. Mas, no final, depende de como o Brasil vai emergir na sua relação com a economia mundial – um fornecedor de matérias-primas ou um centro tecnológico de inovação, ou uma mistura equilibrada disso”.
Inversão radical do eixo do mundo
Mas esta «deslocação» do eixo do mundo não nasceu de um dia para o outro. É um processo evolutivo. A crise financeira global de 2007/2009 apenas está a dar mais um empurrão.
O ciclo atlântico começou a ficar cinzento no começo dos anos 2000 quando a consultora Goldman Sachs veio falar da emergência de uma nova realidade geoeconómica, os quatro BRIC (grupo de Brasil, Rússia, Índia e China), e dentro desta dos dois gigantes asiáticos. A consultora punha inclusive datas para a China e a Índia ultrapassarem vários países europeus e o Japão no clube dos grandes. E, finalmente, os próprios EUA no caso da China (2030, e depois «corrigida» para ainda mais cedo, para 2020). Foi um choque.
Há uma comparação que diz tudo, refere-nos William Bernstein, historiador económico americano e autor de ‘A Splendid Exchange – How trade shaped the world’: “Em 1960, a Ásia valia 20% do PIB mundial, enquanto o tal eixo atlântico contava com mais de 54%. Agora inverteu-se radicalmente: a Ásia já está à frente do eixo atlântico por alguns pontos percentuais”.
A rápida ascensão da China a segunda (depois dos EUA) ou terceira (depois dos EUA e do Japão) economia nacional do mundo – depende de como se mede o produto interno bruto – e a sua projecção geopolítica por vários continentes, particularmente os banhados pelo Atlântico (América Latina, onde já é o segundo parceiro comercial, e África), veio baralhar o jogo deste eixo atlântico de mais de quinhentos anos.
Muitos investigadores da geopolítica rapidamente vaticinaram a “re-Orientação” do mundo, a deslocação da centralidade do Atlântico para o Oriente, particularmente para o Pacífico banhado por um bom lote de economias com altas taxas de crescimento nos últimos vinte anos – várias gerações de «tigres do Pacífico» – e por grandes e médias potências (EUA, China, Japão, Rússia, Canadá, Coreia do Sul, México, Indonésia, Austrália).
Um olhar vindo da Austrália é absolutamente radical: “O Atlântico está a terminar o seu papel de quinhentos anos. O eixo central do século XX baseado na aliança entre a Europa e os Estados Unidos também. O Atlântico é hoje importante apenas para os seus povos. Pelo contrário, a Ásia-Pacífico está a emergir como elemento decisivo para todo o mundo”, refere-nos Dylan Kyssane, responsável por estudos recentes sobre mudanças na balança de poder mundial. Ele aponta 2015 como um ano eventualmente charneira em que essa nova visão do mundo ficará mais evidente. E acrescenta: “Há um único espaço onde a maioria dos grandes, a China, a Rússia, o Japão e os Estados Unidos se intersectam – o Pacífico. O deslocamento do centro do poder não é uma questão hipotética; o único ponto pendente é saber quando emergirá tal eixo do Pacífico como tal”.
E, nesse espaço, a China surge como a potência dominante do futuro, em muitos cenários futuristas. Mas o americano Thompson coloca alguma água na fervura: “O já falecido André Gunder Frank disse uma vez que a economia mundial já havia sido sino-cêntrica, que tinha temporariamente se deslocado [para a Europa], e que agora estava de regresso ao que era anteriormente. Parece-me muito exagerado. A questão que continua em aberto é se a China se tornará o centro tecnológico da economia mundial no mesmo sentido que antes o foram os EUA e a Inglaterra”.
No entanto, a «deslocação» é indesmentível em termos de números. Um estudo dos investigadores portugueses Fernando Fonseca e Fernando Gonçalves ao conjunto dos membros do G7 (os sete chamados mais ricos – EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá) e dos quatro BRIC revela que, entre 1994 e 2003 (ano para o qual dispunham de dados oficiais mais recentes numa bateria de indicadores), os únicos dois países que aumentaram o seu peso relativo enquanto potência foram a China (que subiu espectacularmente 41 pontos!) e a Índia (mais modestamente, cerca de 7 pontos). Todos os outros baixaram o seu peso, ainda que os EUA muito suavemente. Em termos de agregados geográficos, o espaço da Ásia Oriental lidera na escala de peso relativo desde 1994, e viu todos os outros grandes espaços diminuir de peso naquela década analisada.
Uma primeira ameaça à centralidade do Atlântico já havia surgido quando os japoneses nos anos 1980 tentaram desalojar os EUA como economia mais dinâmica do mundo e chegaram a inventar um «capitalismo de rosto humano» contra o capitalismo do Tio Sam. A escalada do ‘Sol Nascente’, no entanto, acabaria por ser travada com a crise japonesa que dura há mais de quinze anos, sem luz ao fundo do túnel.
Um mapa estranho
Em vinte anos, o mapa-mundo que tem em frente dos seus olhos «deslizou» – agora o centro do mundo está no Pacífico, o calmo oceano que o ‘conquistador’ espanhol Vasco Núñez de Balboa avistou primeiro que qualquer outro europeu e que Fernão de Magalhães atravessou vindo do Atlântico. Se visitar empresas em Singapura ou em Seul, ou em Tóquio ou Beijing é provável que veja na parede pendurado um mapa estranho, em que o pequeno rectângulo português fica situado numa extrema dando para o abismo oceânico sem continuidade.
Resta saber como a crise actual com a sua derrocada financeira e a quebra no comércio internacional vai afectar os países asiáticos que viveram do modelo exportador e do circuito virtuoso do dólar – nomeadamente a China, que é o maior exportador do mundo. “A tão propalada crise atingiu também a China, que inevitavelmente necessita de certa introversão – mas não fechamento – na sua estratégia económica”, diz Murteira.
Irá esta Grande Depressão mundial – como já lhe chama o Banco Mundial – estragar o «deslizamento» para Oriente? Thompson uma vez mais deixa um aviso: “O impacto imediato desta crise será abrandar os processos, e por isso as viragens, na economia mundial”. O «deslocamento» pode ir para intervalo.
No entanto, o professor americano não tem dúvidas que ganhos políticos a curto prazo surgirão a favor da balança oriental: “Um ganho concreto é a maior sensibilidade à participação asiática na gestão da economia mundial – poderemos assistir, de facto, a um movimento de enfraquecimento das deliberações do G7 ou G8 [que agrega a Rússia] a favor de um grupo mais alargado e menos centrado nos interesses do eixo Atlântico”. Grandes economias como a China e a Índia continuam estranhamente arredadas da mesa do G7 – um grupo que pode ter os dias contados. A reunião em Londres do G20 (o grupo que além dos chamados ‘ricos’ abrange os BRIC e outros emergentes) realizada em Abril foi um primeiro sinal desta mudança.
O escaldante Índico
A ‘orientalização’ das preocupações das grandes potências recebe ainda mais uma ajuda há muito previsível: o Índico promete regressar como um oceano «escaldante». Já não por causa das guerras entre portugueses contra «rumes» (turcos e egípcios) e indianos no século XVI e entre portugueses contra holandeses no século XVII em torno das rotas das especiarias, mas por causa da crise do petróleo.
O Índico é o oceano mais importante nas rotas marítimas do petróleo – a mais importante commodity da economia mundial actual, a mais valiosa ‘especiaria’ de hoje em dia naquele oceano que se relaciona com o Mar Vermelho, o Golfo Pérsico, o Mar do Sul da China e o Atlântico. Pelos «gargalos» estratégicos dos estreitos de Ormuz, Bab-el-Mandebe e Malaca, pelo canal do Suez e pelo Cabo passa diariamente o maior peso do comércio mundial. O Índico monopoliza 50% do tráfego de contentores marítimo e 70% dos produtos petrolíferos. Pelo estreito de Ormuz (entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã) passa 40% do petróleo e pelo estreito de Malaca 40% do comércio mundial marítimo.
“Com o crescimento económico de longo prazo na Ásia é natural que os próprios fluxos de crude ainda dominantes do Índico para o Atlântico e o Mediterrâneo sejam substituídos pela direcção Índico/Pacífico, onde os estreitos de Malaca e Sonda, ou o porto estratégico de Singapura, assumirão cada vez maior relevo global”, adianta o historiador económico Bernstein.
Pirataria, terrorismo, risco de estados-falhados e choques entre zonas de influência entre grandes potências ribeirinhas (como a Índia) e outras com interesses vitais na região (como a China, o Japão e os Estados Unidos) poderão tornar-se regulares. Os mais optimistas esperam que essas potências consigam criar uma parceria de polícia. Um documento americano, ‘Marine Corps Vision and Strategy 2025’, parece ter uma certeza: o Índico e os mares adjacentes serão um teatro central de conflito global e de competição neste século.
A vantagem do Atlântico que sobrevive
Mas tudo isto não significa a morte súbita do Atlântico. “O eixo atlântico ainda tem uma vantagem descomunal em relação à Ásia – a força institucional”, sublinha Bernstein. E não se refere só à democracia como regime político face às ditaduras que ainda perduram naquela região (como o caso da China). Fala de um conceito largo de base institucional: “Com excepção de umas pequenas bolsas, a Ásia é absolutamente dominada pela corrupção e por grande instabilidade política”. O historiador americano deixa uma porta entreaberta de optimismo: “O eixo atlântico não está a desvanecer-se de imediato no mapa-mundo na sua parede”.
Ideia que é compartilhada por Mário Murteira: “Julgo que ainda resta desse eixo um certo património comum – um sistema de valores, incluindo certa visão do «progresso» como desenvolvimento humano. Este núcleo, mesmo tendendo para residual, ainda assegura o nosso horizonte numa navegação cada vez mais incerta”.
E além de viverem num tempo longo, este tipo de «deslocações» não são de soma nula, diz Thompson: “Se o Pacífico se tornar o novo centro mundial, o papel do Atlântico dependerá crucialmente da capacidade de inovação tecnológica da Europa. O Atlântico não estará condenado a ficar um charco estagnado”.
E o professor americano recorda a História: “Quando Portugal abriu o caminho para o Índico à penetração europeia, não condenou o Mediterrâneo ao esquecimento. Diminui-lhe o peso no comércio de longa distância nomeadamente nas especiarias, mas isso inclusive foi temporário, como se verificou uns cinquenta anos depois”.
O que eclipsou o Mediterrâneo e o próprio Índico foram os novos ciclos de commodities centrados nos fluxos entre a Europa e o Novo Mundo, quando as especiarias deixaram de fazer girar o mundo com a decadência do império holandês e a irrupção da Revolução Industrial. Mas isso aconteceu mais de duzentos anos depois de Vasco da Gama ter chegado a Calecut e provocado um acidente vascular cerebral em Veneza e em Alexandria.
Ter 12 Mai 2009
A destruição do tecido económico pode vir a ser mais profunda do que em 1929/1933 e a disputa da cadeira da hegemonia vai regressar como no final do século XIX.
As comparações benignas da actual recessão com a Grande Depressão de 1929/1933 podem não ser as mais adequadas do ponto de vista histórico. Aparentemente, os números absolutos não são, ainda, tão assustadores, o que seria tranquilizador. Mas o paralelo pode ser enganador a vários títulos.
Por duas razões fundamentais – uma primeira, que tem a ver com o tipo de desemprego estrutural que está a ser gerado e com as possibilidades realistas de o reverter em tempo útil; outra, com o ciclo geopolítico.
A destruição do tecido económico a que estamos a assistir é sintoma de que não só os sectores ‘tradicionais’ da produção em massa estão a ser atingidos duramente, mas também os suportados pela revolução tecnológica dos últimos trinta anos, quer nas áreas de produção de base tecnológica como de serviços, incluindo a sofisticação que foi alcançada no sector financeiro.
A razão desta razia – que, por vezes, surpreende pelas empresas que afecta, tidas até há bem pouco tempo como ‘campeões’ da exportação ou mesmo da internacionalização – tem a ver com uma quebra na produção industrial mundial e uma contracção no comércio internacional que estão a ser mais aceleradas do que no período da Grande Depressão para o mesmo tempo decorrido, como já foi referido pelos estudos de Barry Eichengreen e de Kevin O’Rourke, a que já fizemos referência.
Estas dinâmicas negativas convergem com «o pior episódio da história de destruição de riqueza, em termos absolutos, em torno da derrocada dos preços do imobiliário», refere O’Rourke, professor do Trinity College, na Irlanda, que assiste em Dublin à queda do pedestal do seu país, não temendo etiquetar como um «verdadeiro tigre de papel» o que ontem era louvado como o modelo de «tigre» europeu de sucesso.
Mudança para um novo tecido económico
A conjugação de movimentos está a provocar um disparo do desemprego com contornos preocupantes, particularmente nos países da OCDE ( O’Rourke segue com atenção o caso do Japão, que lhe parece absolutamente «alarmante») e em alguns emergentes (de que o caso da China começa a ser falado pelo impacto da crise internacional nas regiões costeiras mais desenvolvidas e junto da juventude com qualificações superiores).
«A questão deste tipo de desemprego é a minha preocupação central», refere o economista irlandês, que acrescenta que «tudo depende da forma como os governos vão facilitar a transição para um novo tecido económico baseado nas tecnologias ligadas às energias e sistemas de transporte ‘verdes’, que parecem ser o caminho do futuro».
Ora, o optimismo tecnológico – com destaque para o discurso generalizado em torno da banda larga e das tecnologias limpas – pode levar a expectativas de curto e mesmo médio prazo irrealistas ou mesmo a decisões precipitadas que não respeitem o teste do mercado, criando um fosso entre empresas do regime (e soluções apadrinhadas que podem gerar ‘elefantes brancos’) e enteados (que até poderão ter soluções que são validadas pelo mercado).
«O tema está muito exagerado politicamente. Os processos ‘schumpeterianos’ não operam num horizonte de dois anos. Levam muito mais tempo. Veja o caso da Internet, teve vinte anos de ciência fundamental por detrás, antes de ser comercializada, e outra meia década de comercialização até que começou a reestruturar os processos de negócio de um modo radical. Por isso ninguém pode esperar que nenhum dos investimentos na tal economia sem carbono ganhem escala proximamente. Isso não significa que não valha a pena essa aposta. Significa, de um ponto de vista realista, que os seus benefícios serão para a próxima geração de consumidores e produtores», refere-nos Shane Greesntein, da Escola de Gestão Kellogg, da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos.
Este tipo de período de transição tem um paralelo histórico mais adequado não com as Grandes Depressões de 1929/1932 ou de 1873/1875 (esta foi a mais demorada de sempre nos EUA, arrastando-se por 65 meses), mas com os períodos em que as crises económicas e financeiras se cruzaram com uma transição para um novo tecido económico, como ocorreu após as várias crises dos anos 1880/1890 (a de 1882-85, nos EUA, foi a terceira mais demorada até à data) e nos anos 1940 e 1950.
A questão delicada, diz Greenstein, é o equilíbrio entre medidas realistas de curto termo, sobretudo as destinadas a reverter o disparo do desemprego, e medidas de longo prazo, qualitativamente diferentes apontando para uma efectiva mudança do tecido económico: «Mas essa questão é política – não económica. A economia, apenas, garante que só medidas de curto termo ou só políticas de longo prazo são má ideia. Uma adequada mistura é melhor do que nenhuma combinação de políticas. Mas também tenho de lhe dizer que o que pode ser bom para um país pode ser desadequado para outro. E há que acrescentar que há muitos países em que não há vontade política para financiar todos os projectos viáveis».
Transição de poder
Mas para Tessaleno Devezas, especialista em ciclos, e professor na Universidade da Beira Interior, na Covilhã, há uma primeira distinção a fazer em relação a 1929/1933 – actualmente estamos numa fase diferente na chamada «onda longa» económica, também conhecida como ciclo de Kondratieff (ciclo K). Enquanto em 1929/1933, o ciclo K estava no começo da sua fase descendente (depois de ter atingido um pico na primeira década do século XX, onde ocorreu inclusive uma guerra mundial, o que tecnicamente se designa por guerra de pico), a crise actual surge no final de um ciclo e na transição para outro. Os períodos «homólogos» mais adequados para comparação seriam os anos de transição de 1940-1950 ou, mais recuadamente, os de 1880-1890.
Mas, frisa Devezas, há um segundo elemento de distinção em relação à Grande Depressão de 1929/1933 ainda mais importante, e que traz um aspecto adicional de preocupação. Estaremos a assistir, também, ao final de um ciclo longo geopolítico (que, em geral, abarca dois ciclos longos económicos, mais de uma centena de anos), entrando num período «de transição de poder», cujos sinais começam a ser visíveis.
Algo similar – refere Devezas – ao que ocorreu, precisamente, nos anos 1890, quando a hegemonia mundial pelo império britânico foi dando sinais de extrema fadiga e uma nova grande potência emergiu, os Estados Unidos, reforçando-se progressivamente ao longo de duas devastadoras guerras mundiais por um período de trinta anos.
Conjugação de duas transições
O cenário ‘automático’ de sucessão dos EUA pode não ocorrer tão cedo, adverte o investigador, mas é certo que a geopolítica vai misturar-se profundamente com esta crise. Devezas conclui que há, assim, uma conjugação de duas transições – uma de ciclo longo geopolítico e outra de ciclo longo económico. O que já não ocorria há cerca de cento e vinte anos.
Esta convergência de transições – que não ocorreu no tempo da Grande Depressão de 1929/33 – foi demonstrada e defendida recentemente por aquele investigador em ‘The Evolutionary Trajectory of the World System toward an Age of Transition’, um artigo académico publicado na obra colectiva, publicada este ano, ‘Systemic Transitions – Past, Present and Future’.
TRÊS IDEIAS A RETER:
. O desemprego estrutural não está a atingir apenas os sectores de produção em massa, mas também os baseados na revolução das tecnologias de informação
. Um novo tecido económico baseado na difusão de novas tecnologias ou novos modelos de negócio leva tempo (tal como a difusão das tecnologias de informação levou desde os anos 1970)
. Apesar de duas guerras mundiais entre 1914 e 1945, a cadeira da hegemonia tinha passado, paulatinamente, do império britânico para os Estados Unidos desde a última década do século XIX
Qui 7 Mai 2009
Ian Bremmer, consultor em antecipação de riscos, diz que os empresários e os gestores têm de prestar toda a atenção à geopolítica. Muitas das surpresas (os tais ‘cisnes negros’ inesperados num lago onde era suposto só existir a espécie branca) podem deixar de o apanhar desprevenido se reforçar o seu planeamento estratégico a um a dois anos.
DUAS IDEIAS-CHAVE DE IAN
«Um número elevado de ‘caudas gordas’ que enxameiam os mercados é impulsionado por factores políticos, com algum grau de previsão –e a vulnerabilidade dos negócios ou dos investimentos pode ser quantificada”.»
«Adquirir conhecimento geoestratégico passou a ser vital para o mundo dos negócios. »
Com a grande turbulência no sistema mundial que se está a viver, os empresários e gestores têm de evitar ser surpreendidos constantemente por factos inesperados, julgados impossíveis, com impacto relevante nos negócios mundiais. Sobretudo serem apanhados desprevenidos mais do que uma vez – ou seja, serem vítimas da ‘cauda gorda’, diz Ian Bremmer, co-autor do livro com esse estranho título (‘The Fat Tail – The Power of Political Knowledge for Strategic Investment’), publicado recentemente (Março 2009) na América pela Oxford University Press.
Dito de um modo simples, quando os homens de negócios se confrontam com um facto inesperado e julgam que é coisa ocasional, deparam-se, a seguir, com vários outros acontecimentos «disruptivos» que, à primeira vista, não estavam à frente dos olhos e que se acabam por agrupar numa torrente de múltiplos riscos. À medida que se puxa a cauda, começa a ver-se que ela é mais obesa de chatices do que se pensava.
Wall Street fica sensibilizada
“O problema é que os gestores de risco não incluem este tipo de acontecimentos nos seus modelos, e como é um risco de todo improvável – julgam eles – não lhe dedicam tempo nem dinheiro para o estudar”, diz-nos este cientista político, que fundou há onze anos atrás uma consultora de avaliação de risco geopolítico e geoeconómico, o Eurasia Group, que hoje tem sede na famosa 5ª Avenida nova-iorquina.
A teoria da ‘cauda gorda’ já impressionou a própria Bolsa da Wall Street. “O mais surpreendente para mim foi o New York Stock Exchange (NYSE) convidar-nos para abrirmos a sessão no passado 18 de Março”, confessa o consultor. Na sequência, o Eurasia Group irá fornecer informação de risco às empresas cotadas no NYSE.
Os acontecimentos fora do baralho levaram a alcunha de ‘cisnes negros’, a partir do livro com o mesmo título de Nassim Taleb, um ex-corrector da Wall Street que virou ensaísta da moda e filósofo do tema do acaso. A metáfora é herdeira da convicção, durante muito tempo, de que apenas uma espécie branca existia como nos contava o ballet ‘O Lago dos Cisnes’ de Tchaikovsky. Um dia descobriu-se que havia cisnes negros na Austrália – a ponto de hoje serem o emblema de uma região ocidental daquele continente distante.
O lago está cheio de surpresas
O problema hoje em dia é que convergiram para o lago uma multidão de ‘cisnes negros’ – mudança do quadro das grandes potências com o fim do mundo «unipolar» americano; «oscilações selvagens» no campo das commodities estratégicas (sobretudo energéticas); deslocação do motor de crescimento e da liquidez para os países emergentes; difusão de tecnologias com aplicações militares «assimétricas», possíveis de ser usadas por grupos extremistas e estados falhados; problemas de mudança climática, etc.
Até mesmo a dinâmica depressiva muito rápida da crise actual não é, ainda, completamente compreendida na sua extensão e efeitos – por exemplo, segundo os recentes cálculos de Barry Eichengreen e Kevin O’Rourke, a contracção do comércio internacional é já superior há que ocorreu na Grande Depressão em idêntico número de meses. O mesmo padrão está a ocorrer no crash bolsista desde Outubro de 2007.
Mas enquanto Taleb é muito céptico sobre a possibilidade de prever estes factos impensáveis (como o 11 de Setembro ou a 1ª Guerra Mundial, entre os exemplos que dá), Ian Bremmer discorda: “Um bom número destes riscos pode ser avaliado e gerido. Um número elevado de ‘caudas gordas’ que enxameiam os mercados é impulsionado por factores políticos, com algum grau de previsão –e a vulnerabilidade dos negócios ou dos investimentos pode ser quantificada”.
O remédio é reforçar o planeamento estratégico de curto-prazo nas empresas e os gestores e empresários passarem a ligar efectivamente à geopolítica e à geoeconomia para além das notícias de abertura dos telejornais ou das conversas de café. Adquirir conhecimento geoestratégico passou a ser vital para o mundo dos negócios.
O consultor fala, no entanto, da necessidade de distinguir “tempestades num copo de água” (por exemplo, avaliar se o que ocorreu há pouco tempo na Tailândia corresponde a essa situação ou é uma vaga de fundo que pode provocar sérios problemas aos negócios do turismo; ou se a pirataria no Índico e os seus efeitos nas rotas de commodities são controláveis rapidamente ou não) de eventos comprovadamente de risco global (ver adiante os tipos de ‘caudas gordas’).
Ian Bremmer foi escolhido em 2007 como um “jovem líder mundial” pelo World Economic Forum. Foi autor de ‘A Curva J’, um dos livros do ano escolhidos em 2006 pelo The Economist, e que, na altura, divulgámos na janelanaweb.com.
Tipos de caudas gordas
O consultor refere-nos três tipos de «caudas longas»:
- as «tradicionais» que vêm de trás, muito antes da crise em curso (como a questão dos indesejados no clube nuclear; ou a relação da Rússia com o seu shatterbelt, as ancestrais zonas de embate geograficamente envolventes do velho império czarista e depois do império soviético);
- as que se relacionam com o crescente intervencionismo político na arena económica (o que tem duas faces e depende de quem aproveitas as oportunidades);
- e a potencial instabilidade política e social gerada pela recessão global actual, com riscos de irrupção em alguns países com classes médias fracas.
Entre os BRIC, por exemplo, a Rússia «é o que parece mais vulnerável ao tipo de problemas internos que não víamos desde os anos 1930», refere-nos Ian Bremmer.
O consultor não crê que as iniciativas políticas multilaterais – como a do G20 – provoquem um retrocesso sério das «caudas longas», apesar da habilidade de Obama em neutralizar riscos: «Os grandes problemas são estruturais», conclui.
Seg 4 Mai 2009
O especialista americano Barry Eichengreen mostra num artigo que a recessão na produção, a derrocada financeira e a contracção do comércio internacional a que estamos a assistir na actual crise são mais profundas do que na Grande Depressão para o mesmo período de tempo já decorrido.
Apesar do comércio mundial ter crescido ligeiramente (0,8%) em Fevereiro passado (em relação ao mês anterior em que tinha ocorrido uma quebra de 5,9% em relação a Dezembro), a contracção em relação a um período mais alargado é dramática – 44% se compararmos o trimestre de Dezembro de 2008 a Fevereiro de 2009 com trimestre idêntico um ano antes. Este é o aspecto mais “perturbador” da crise actual mas não o único, sublinha-nos o académico americano Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que, com o irlandês Kevin O’Rourke, do Trinity College, em Dublin, montou um observatório de acompanhamento dos principais indicadores económicos à escala mundial comparando-os permanentemente com a Grande Depressão.
E o que eles verificaram é chocante: as quebras actuais no comércio internacional, na produção industrial mundial e nas bolsas mundiais desde o pico em Abril de 2008 são hoje muito superiores às que ocorreram no mesmo período de meses aquando da crise iniciada após o pico de Junho de 1929. Particularmente no comércio mundial e nas bolsas, as correcções são hoje abissais, se comparadas com a Grande Depressão no mesmo período inicial, o que pode ser visualizado nos gráficos que publicam no seu artigo «A Tale of Two Recessions», onde partem de um índice 100 idêntico em Junho de 1929 e em Abril de 2008.
A dinâmica evolutiva desta crise mundial está a ser mais rápida e mais a pique do que na Grande Depressão anterior. O professor de Berkeley comenta: “A etiqueta de ‘Grande Recessão’ que se começa a colocar hoje pode muito bem acabar por ser excessivamente optimista”.
Uma questão alarmante
A questão do que se passa no comércio internacional é “alarmante”, diz Eichengreen. Por duas razões compreensíveis: a primeira é académica, os estudos históricos revelam que “a destruição de comércio é um factor que molda a Grande Depressão”; a segunda é empírica, hoje em dia a integração das economias mundiais não tem paralelo, dado o grau de globalização do sistema mundial atingido nas últimas décadas, sobretudo depois da implementação massiva do outsourcing e da emergência de novas grandes potências (como a China, por exemplo) que se alimentam do comércio internacional para crescer. O risco de uma vaga de proteccionismo, como reacção dos governos aos efeitos internos da crise, ampliará ainda mais este choque.
Os dois académicos baseiam-se, para o estudo que estão a fazer, no acompanhamento estatístico que está a ser feito pelo CPB holandês (o gabinete de análise da política económica, uma entidade independente dos Países Baixos, criada em 1945 e liderada então pelo Nobel Jan Timbergen) em termos de comparações mês a mês e em grupos de três meses (independentemente da divisão tradicional em quatro trimestres cada ano) que dá uma imagem muito forte da quebra que está a ocorrer no comércio internacional, motor da globalização. O próximo estudo comparativo será publicado a 20 de Maio.
A diferença política em relação aos anos 1920 e 1930 é, no entanto, sublinhada por Barry Eichengreen: a resposta de políticas monetárias, orçamentais e económicas por parte dos governos quer da OCDE como dos emergentes hoje em dia foi massiva e mais rápida do que então. O calvário de vários anos de depressão nos anos 1930 poderá, por isso, não ser repetido. Ainda que a dimensão da dívida pública que vai ser contraída provavelmente não terá paralelo – “só nos EUA saltará de 40 para 80% do PIB, mas isso parece-me um custo inevitável para sairmos do buraco em que nos metemos”.
No entanto, Eichengreen sublinha-nos, com alguma ponta de pessimismo, que a resposta orçamental “está ainda abaixo do necessário globalmente – só alguns países como o Japão e a Coreia do Sul foram suficientemente adiante, mas muitos outros não”. O número anunciado no G20 de 1100 mil milhões de dólares como plano anticrise já em marcha é apenas 1,7% do PIB mundial.
NÚMEROS A RETER
13,7%
Foi a quebra do comércio internacional entre Dezembro de 2008 e Fevereiro de 2009 em comparação com o trimestre imediatamente anterior. O final do ano passado foi o ponto de viragem para a aceleração da tendência negativa.
15%
Foi a queda do comércio internacional comparando Fevereiro de 2009 com Fevereiro do ano anterior.
44%
Foi a derrocada do comércio internacional comparando o trimestre de Dezembro de 2008 a Fevereiro de 2009 com idêntico trimestre de Dezembro de 2007 a Fevereiro de 2008