Chegou a hora de fazer a “actualização” das estruturas multilaterais saídas da Conferência de Bretton Woods de há sessenta e cinco anos, diz-nos, numa curta entrevista, o economista James Boughton, historiador do Fundo Monetário Internacional (FMI) desde 2004, nas vésperas da reunião do G20 de quinta-feira próxima (2 de Abril) em Londres.

A realidade fez emergir uma plataforma de diálogo e de resolução mais ampla do que o tradicional ‘clube dos ricos’, o G7 (e por vezes mais um, o G8), de onde grandes potências económicas como a China, a Índia ou o Brasil têm estado afastadas, bem como vozes como a África do Sul ou os árabes.

Apesar da resistência do pequeno grupo de potências do G7 ao alargamento do clube, a crise global – a que alguns já chamam de nova Grande Depressão – impôs a entrada de facto, ainda que sem grande alarido, de um novo multilateralismo. O pequeno grupo de potências do G7, herdeiro de uma era já passada, ainda não reconheceu abertamente esta viragem.

Boughton publicou na edição de Março da revista Finance & Development do FMI um artigo de balanço das lições da história das conferências e acordos relativos ao sistema financeiro mundial desde os anos 1910 até hoje. Algumas destas lições são de grande actualidade.

Uma versão completa em inglês desta entrevista pode ser lida na janelanaweb.com.

P: Com a grande crise actual, estamos a assistir ao fim da era de Bretton Woods?
R: As instituições e o sistema que saíram da conferência de Bretton Woods de 1944 serviram bem o mundo por mais de 60 anos. É, no entanto, óbvio que têm de ser actualizadas. O mundo mudou enormemente, e hoje muitos mais países são participantes importantes do comércio e da finança internacional. Só se todos os grandes países tiverem um lugar à mesa e voz efectiva nas decisões será possível que as instituições de hoje desempenhem um papel positivo no futuro.

P: O G20 é o próximo clube a impor-se?
R: O G20 emergiu naturalmente há uma década como um fórum para discussão de temas comuns e de problemas envolvendo os principais participantes do comércio e da finança internacional. O que aconteceu em meses recentes é que o grupo começou a reunir a alto nível, para além das reuniões regulares dos seus ministros de finanças. Este alargamento do papel do processo das cimeiras, para o tornar mais inclusivo, é um sinal muito positivo.

P: Mas não será grande demais para liderar?
R: A liderança pode vir a acontecer de um grupo mais pequeno de países dentro do grupo, mas essa liderança será mais legitimada se resultar de um largo conjunto de inputs de todo o mundo.

P: Que tipo de grupo mais pequeno será necessário para enfrentar esta crise sem precedentes?
R: A liderança dos EUA é sempre essencial, porque é a superpotência e a maior economia do mundo. A unidade europeia é também crucial. Países como os do Pacífico oriental e os maiores mercados emergentes da América Latina, Médio Oriente e Sul da Ásia têm também muito para contribuir. A África do Sul, que também é um membro do G20, tem uma perspectiva única devido ao seu entendimento dos problemas dos seus vizinhos pobres. A promessa do G20 é precisamente a de trazer estas diferentes perspectivas para uma mesma sala.

P: Uma das lições que tirou sobre a história do sistema de ‘governança’ económica e financeira mundial dos últimos noventa anos – e que publicou no artigo na revista do FMI – é que, no final, o efeito das decisões depende de quem se senta ou não à mesa. O equilíbrio de poderes geopolítico é sempre decisivo em última análise?
R: Há um certo paralelo entre a forma como funcionou Bretton Woods em 1944 e a forma como funciona hoje o G20. Em ambos os casos a liderança proveio dos maiores países, mas um grupo representativo (44 no total em 1944, e 20 hoje) participou activamente. Não só na conferência, mas também nas reuniões preparatórias, onde a agenda foi desenvolvida e muitas decisões preliminares foram encontradas. Esta combinação de um grupo de líderes e de um grupo mais vasto de participantes parece-me ser fundamental para se obterem bons resultados.

P: Refere, também, nesse balanço que fez, que em todos os acordos ao longo dos últimos sessenta anos, algumas metas tiveram de ser colocadas de lado. O que o preocupa hoje, que possa ser posto de lado, e não devesse ser?
R: Um dos riscos hoje é que as necessidades dos países de baixo rendimento sejam esquecidas, se não forem convidados a participar directamente nas decisões. A crise em curso está a ter efeitos devastadores nesses países mais pobres do mundo, uma espécie de “terceira vaga” de efeitos, como lhe chamou o director do FMI. Outro risco é que a pobreza e a degradação ambiental sejam secundarizadas, dada a atenção nas necessidades imediatas. O que me parece claro é que quanto mais alargada for a participação nas grandes discussões de política internacional, maior hipótese terão estas questões de ser abordadas.