Seg 2 Mar 2009
Nacionalizações de zombies? Não, obrigado! – Diário de bordo 7
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , O novo capital financeiroainda sem comentários
“Seria preferível criar novos bancos com o apoio do dinheiro dos contribuintes americanos”, diz o analista financeiro Peter Cohan numa entrevista que pode ler na íntegra em inglês.
Nacionalizar parcialmente zombies – como estão a ser alcunhados alguns grandes bancos e outras instituições financeiras americanas – a pretexto de que são demasiado grandes para falir é uma estratégia condenada ao fracasso. A sua desaprovação é todos os dias dada na Wall Street – o Dow Jones Industrial Average (DJIA) já caiu 52% desde o pico em Outubro de 2007, sendo a segunda maior queda de sempre na história da bolsa americana. Os casos dramáticos do Citigroup e do AIG são os mais recentes sinais.
Ovos na mesma cesta (sem fundo)
Em vez de meter os ovos todos no cesto (sem fundo) de instituições financeiras que já são consideradas verdadeiros mortos-vivos, o guru de Boston advoga que o que resta do fundo TARP de 700 mil milhões de dólares iniciais (criado no tempo da anterior Administração Bush pelo secretário do Tesouro Paulson) e o que Obama já cabimentou para o novo ano fiscal (mais 250 mil milhões de dólares em provisão que poderão equivaler a apoios na ordem de 750 mil milhões) poderia servir para incentivar parcerias público-privadas que renovassem o tecido da alta finança americana.
“Estes novos bancos estariam limpos do lixo tóxico nos seus balanços e teriam um poderoso incentivo para emprestar o seu capital e atrair novos depósitos. Os novos bancos seriam capazes de atribuir crédito à economia real, o que os zombies decidiram não fazer, apesar de terem recebido dinheiro dos contribuintes”, diz Cohan.
Morte assistida
O que o analista advoga em relação aos zombies é uma morte assistida. «O dinheiro que já foi aplicado deveria servir para planear a falência destas instituições, de modo a que as consequências não sejam desastrosas», refere Cohan, que responde ainda à acusação de irresponsabilidade visível no facto da anterior Administração ter deixado cair o Lehman Brothers sem essa “morte assistida”.
No caso de uma gestão do estado moribundo dos bancos zombie, Cohan admite que separar o que ainda tem valor – e que poderá interessar a investidores – do que é «lixo» pode ser uma política. Quanto ao «lixo» alvitra a ideia de criar uma bolsa para negociar os CDS (credit default swaps), um dos mal-amados desta crise, por exemplo.
Caso sueco não se aplica
Sobre a bondade de uma estratégia de nacionalizações bancárias do tipo da que os suecos fizeram nos anos 1990, Cohan é peremptório: “Não se aplica. A actual situação é diferente devido à titularização e à interconexão global. Na Suécia, nacionalizar bancos não fechou o resto do mundo financeiro. Nos EUA, se isso fosse feito teria repercussões globais. Também, no caso sueco havia muitos maus empréstimos mas de um tipo convencional, que eram fáceis de valorizar. O actual lixo tóxico é muito mais difícil de valorizar e é muito difícil saber onde está o fundo”.
Dow Jones poderá continuar queda livre
Cohan crê que a Wall Street ainda não bateu no fundo, apesar de no mês de Fevereiro se terem batido todos os mínimos desde o pico em Outubro de 2007. O mês de Março abriu na mesma linha de continuidade – a queda do DJIA foi hoje de 4%, empurrando o índice para baixo dos 6.800 pontos. O que significa que o «crash» bolsista iniciado em 2007 já é maior do que o de 1942, até à data o segundo maior depois do dos anos da Grande Depressão.
O analista Mark J. Lundeen aponta para uma correcção na ordem dos 60%, mas Cohan admite que pode ir muito mais abaixo. Porquê? «Porque muitos conglomerados, como é o caso da GE, são na realidade instituições financeiras com uma roupagem de fabricantes», diz o analista. O que significa que muitos outros pesos pesados do NYSE são mais finança do que economia real, apesar de ainda parecerem o contrário. O que torna ainda mais vulnerável a bolsa.
A finalizar Cohan acredita que o «timoneiro vermelho» continuará a dar a mão ao Tio Sam neste período difícil: “A China e os Estados Unidos têm uma espécie de sistema de destruição mútua assegurada se se divorciam”.