A escorregadela ontem (25 de Março, 2009) de Timothy Geithner na lição teórica do governador do Banco central da China vai ficar nos anais.

Timothy Geithner no mesmo dia admitiu estar “aberto” a uma secundarização do dólar proposta, de um modo suave, pelos chineses para depois emendar a mão. O dólar desvalorizou de imediato 1,2% face ao euro e a Wall Street caiu 1,5%. O euro vale hoje 6% mais do que a nota verde valia no dia de tomada de posse do presidente Barack Obama. 25 de Março foi um dia para esquecer para o secretário do Tesouro de Obama.

Por detrás desta guerra de informação e contra-informação sobre o futuro do dólar está uma questão política mais importante. A China é como se sabe o principal credor da dívida americana. E fez ouvir esta semana a sua voz através do sítio na Web do Banco Popular da China num artigo intitulado ‘Reforme-se o sistema monetário internacional’, onde não se coíbe de dar lições de teoria económica e financeira.

Keynes de regresso à mesa de negociações

A proposta do seu governador, Zhou Xiaochuan, para uma maior ênfase nos direitos especiais de saque (tecnicamente designados em inglês como SDR – special drawing rights) emitidos pelo Fundo Monetário Internacional como divisa de reserva supra-estatal poderá ser a oferta chinesa para um compromisso político.

Uma alfinetada é dada no texto ao hegemonismo americano: a proposta inglesa de John Maynard Keynes, aquando da negociação de Bretton Woods, para a criação de uma unidade de conta internacional (o ‘Bancor’) teria sido mais «sagaz» do que a solução que os americanos impuseram então. Uma ideia keynesiana que Zhou diz querer repor na mesa hoje em dia.

Os chineses não descartam os 2 biliões de dólares (equivalente a 1400 mil milhões de euros) que têm em reservas – sossegam os americanos quanto a isso. Mas o comércio internacional e o sistema financeiro deveria mudar-se progressivamente para uma reserva independente que proteja os países com liquidez das incertezas sobre a gestão da crise americana e os liberte do controlo político da rede do capital financeiro da Wall Street nova-iorquina e da City londrina.

Os passos de que fala Zhou são claros: uso dos SDR na própria fixação de preços das commodities; lançamento de títulos denominados nessa base, o que, aliás, tem sido estudado pelo próprio FMI; criação de um fundo aberto denominado em SDR. Os chineses sabem que é uma «longa marcha», mas apelam aos americanos para que tenham «visão política e coragem».

Outro sinal dos tempos: a proposta chinesa afirmou-se com maior credibilidade do que a intervenção russa através do sítio do Kremlin na web que começou por ser tomada pelos analistas como «fantasia» – o que mostra a diferença de peso político entre a ex-superpotência e a nova grande potência.

Na Europa, o think tank LEAP/Europe 2020 publicou uma carta aberta ao G20 no Financial Times secundando a ideia de uma nova divisa internacional.