Especialistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) revelaram a combinação de ingredientes que permitiu a 35 países crescer sustentadamente quase durante 40 anos. Portugal foi um deles até 1996.

Foram ao longo do tempo propagandeadas diversas receitas para o crescimento económico de um país. Na maioria dos casos isolou-se um ou dois aspectos de um conjunto, que foram transformados em dogma político – focalização tecnológica, impostos baixos, flexibilidade da legislação de trabalho, «boom» dos serviços financeiros graças a desregulação. Em 1998, no auge da euforia, em torno dos «tigres» (alcunha para as economias de alto crescimento) europeus eram essas as lições que a revista Business Week tirava. Teria sido esse, também, o segredo dos «tigres» asiáticos.

Um estudo empírico recente levado a cabo por dois especialistas do FMI revela, no entanto, que as receitas milagrosas específicas – e sobretudo as muito marcadas pelo discurso político – têm pouca aderência à realidade.

Segundo Rupa Duttagupta e Montfort Mlachila, do FMI, em ‘What is really good for long-term growth?’, o crescimento de longo prazo observado num grupo de 35 economias num universo de 139 países, avaliando 67 variáveis, num período de quase 40 anos (1960 a 1996) mostra que os «tigres» e os emergentes cresceram acima de um certo patamar durante tanto tempo graças a uma combinação de factores que se influenciaram positivamente entre si.

No «top» 15 dessa lista encontramos Portugal no 11º lugar, com um crescimento médio anual, durante aqueles quase 40 anos. de 4,1% – tendo como companheiros próximos de posição Chipre, Indonésia, China e Malásia. A Irlanda e a Espanha estão abaixo do patamar dos 4%, e Israel ou a Finlândia num nível inferior. Os líderes do crescimento naquele período, com uma média anual superior a 5% foram os quatro «tigres» do Pacífico (Singapura, Taiwan, Coreia do Sul e Hong Kong), Malta e a Tailândia.

Combinação virtuosa

“O crescimento forte é o resultado de uma interacção complexa de vários factores-chave, como o desenvolvimento do capital humano, a política económica de abertura ao comércio internacional e promoção da competitividade externa, bem como factores exógenos derivados do que chamamos de sorte geográfica”, diz-nos Duttagupta.

O investimento de longo prazo nos recursos humanos é hoje um factor que gera consenso. A abertura ao exterior surge como outra pedra basilar, eventualmente mais polémica. Aliás, restringindo a análise apenas às políticas públicas, Duttagupta afirma: “Confirmámos que as políticas viradas para a abertura ao exterior combinadas com a gestão de indicadores fortes de capital humano conduzem ao crescimento.

Ao inverso, indicadores de capital humano pobres e distorções ao comércio internacional podem levar a um resultado medíocre”. Por seu lado, a “sorte” da geografia associa-se ao facto dos países marítimos com alta densidade populacional costeira revelarem melhor performance naquela amostra do estudo, sobretudo quando se transformaram em hubs comerciais e exploraram janelas de oportunidade ligadas a conjunturas económicas internacionais favoráveis.

A importância relativa de cada um desses ingredientes fundamentais varia naturalmente de caso para caso, mas a sua interacção gera efeitos “não lineares” virtuosos, sublinha o estudo colocando um acento tónico nesta dimensão. “A principal conclusão que tirámos deste estudo empírico é que o que conta é a combinação de diversos factores que interagem, e não um só factor – seja a abertura ao exterior, ou as instituições, ou a geografia em isolado, como tem sido sublinhado pela literatura académica”, acrescenta Mlachila.

A teoria económica viveu durante muitos anos presa há ideia de que o progresso tecnológico – então tecnicamente chamado de «residual de Solow», do nome do Nobel Robert Solow (ainda vivo) que o criou em 1957 – era a chave de metade do crescimento. Mas esse modelo teórico baseava-se numa economia fechada.

Paul Romer, da Universidade de Stanford, aclarou, nos anos 1990, o papel das novas ideias produzidas pelo sector privado como alavanca do progresso tecnológico e como verdadeiro efeito multiplicador. Depois, uma variedade de autores passaram a focar-se neste ou naquele aspecto específico indutor de crescimento – o papel do protestantismo ou do confucionismo, as políticas de impostos ou de distribuição, o desenvolvimento financeiro, até o falar inglês ou não e as heranças da colonização.

Ter sido «tigre» não vacina

No meio de uma depressão generalizada em grande parte do Planeta, é no mínimo estranho vir falar no que realmente influencia o crescimento económico de longo prazo. Tanto mais que os modelos que tínhamos dos anos 1990 – os «tigres» asiáticos e europeus – parecem estar, agora, em maus lençóis. Basta olhar para o caso da Islândia, um país que passou do dia para a noite do paraíso para o inferno. Mas pode acrescentar-se o caso da Irlanda – o seu défice orçamental está perto dos 12% do PIB – e da Espanha que mudaram de carruagem com a actual crise financeira ou de Portugal que iniciou há mais tempo um processo de divergência com a «média» europeia de que não se tem conseguido libertar.

“O bom comportamento no passado não vacina um país para sempre. Azar também acontece, como um choque nos termos de troca, ou más políticas económicas são, por vezes, implementadas”, adianta Mlachila. “A imprudência paga-se”, diz, recordando o caso recente da Islândia.

As lições da Islândia

No caso específico da Islândia, um ambiente regulador fraco do sistema bancário permitiu uma expansão arriscada, sublinha-nos Montfort Mlachila, um dos autores do estudo. “Mesmo um tigre também pode ser abatido por azar ou cair num fosso por imprudência”, conclui.

A estratégia islandesa conduziu a um peso excessivo do sistema financeiro na economia da ilha e no próprio mercado de valores (os três mega-bancos islandeses representavam 75% da capitalização bolsista) e os activos da banca chegaram a valer 10 vezes mais do que o PIB nacional. A dinâmica financeira apoiou-se em 80% em empréstimos contraídos em divisas estrangeiras e numa lógica permanente de refinanciamento.

Esta hipertrofia do sistema financeiro afogou as áreas de excelência em que a Islândia criou real valor – energias alternativas, biotecnologia e software. A sua independência face à Zona Euro tornou a moeda local, a coroa, sem qualquer capacidade de gestão de emergência. Os mais pessimistas temem que a pequena ilha possa passar de uma situação de depressão deflacionária a uma depressão hiper-inflacionária em virtude do colapso da moeda local.