Sex 6 Fev 2009
Obama no fio da navalha visto por um português – Diário de bordo 5
Por JNR na secção A questão dos impérios , Geoprotagonistas1 comentário
É o primeiro livro sobre os desafios que a nova Administração americana defronta no plano económico e geopolítico escrito por um economista português. Carlos Santos interroga-se “E agora?”. Lança a obra na próxima semana.
A campanha eleitoral e a vitória de Barack Obama trouxeram de regresso à América a esperança e o voluntarismo de milhões de americanos. Uma mudança que ocorreu no meio da “mãe de todas as crises”, uma situação de que os americanos já não tinham memória desde há mais de meio século, refere Carlos Ferreira dos Santos, de 32 anos, professor de Econometria da Universidade Católica, no Porto, que segue a saga de Obama no seu blogue O Valor das Ideias.
A herança que Obama recebeu de W. Bush é pesada – a imagem global dos Estados Unidos está no seu ponto mais baixo e deu-se um colapso nos activos das famílias americanas que, num ano e meio, perderam 8.500 biliões de dólares no valor dos imóveis, em reformas, poupanças e investimentos, ou seja um número brutal: 57% do PIB americano. O tecido empresarial está a viver uma vaga de downsizing como já não havia memória: segundo o Bureau of Labor Statistics, os EUA já perderam 2,55 milhões de empregos desde que a crise começou e a taxa de desemprego terá atingido 7,2% no final de Dezembro.
Os desvios serão o problema
Os desafios tanto económicos como internacionais da nova Administração são, por isso, ciclópicos, o que levou Carlos Santos, um apaixonado pelo processo político recente dos Estados Unidos, a escrever ‘E Agora, Obama?’, que será publicado no próximo mês pela Esfera do Caos. Ele conclui – pesando os prós e os contras e acautelando que haverá sempre contingências e imprevistos – que Obama defronta “uma gestão de equilíbrio, muito no fio da navalha”.
Mas deixa uma nota de optimismo: “Eu penso que há um caminho em que as políticas que o novo presidente quer implementar podem resultar”, diz-nos, logo acrescentando: “O problema é que esse caminho não tolera desvios”.
O autor não se encara como um académico numa redoma de vidro sentenciando a sorte do novo presidente americano. Além das virtualidades do pacote de emergência de 819 mil milhões de dólares (€623 mil milhões) aprovado por maioria na Câmara dos Representantes no princípio de Fevereiro, que tem condições “de aliviar o sentimento económico dos americanos no curto prazo”, Carlos Santos reconhece em Obama uma característica essencial que vai para além do seu “magnetismo pessoal” – o pragmatismo na execução de um intento estratégico e uma certa conversão à Realpolitik.
O ponto fraco
O principal ponto fraco, por ora, parece ser a falta de clareza em como resolver a crise de crédito, pois as armas políticas da Reserva Federal estão esgotadas (manipulação da taxa directora de juros até perto dos 0%) e as intervenções do Plano Paulson (que dá pelo acrónimo de TARP – Troubled Asset Relief Program e que gastou nesta ponta final da Administração Bush já 50% dos 700 mil milhões de dólares autorizados) só ajudaram a criar uma situação de “armadilha da liquidez” e chutarão o défice orçamental americano para quase 7,5% do PIB no final do presente ano fiscal.
O departamento do Orçamento no Congresso americano (Congressional Budget Office) divulgou recentemente que provavelmente 25% das intervenções já realizadas pelo TARP serão pura perda para os contribuintes.
Obama respondeu com “um programa de raiz keynesiana” – que é também a coqueluche hoje de quase todos os governos no mundo – mas que tem dois problemas: os 819 mil milhões de dólares poderão ser apenas 40% do que é preciso, avisou o Nobel Paul Krugman, e colocam uma dúvida de médio e longo prazo. “O meu cepticismo dirige-se à sustentabilidade do endividamento necessário num contexto em que o dólar perdeu dramaticamente valor”, sublinha o nosso interlocutor.
O desafio é que renasça da legislatura de Obama uma economia americana “com capacidade para pagar os encargos de um endividamento brutal” e que, no entretanto, continue a conseguir convencer os financiadores externos da dívida pública (nomeadamente a China, o Japão e os detentores de petrodólares) a serem o guarda-chuva do american way of life interno e da própria projecção externa da superpotência.
Carlos Santos recorda que outras vias têm sido sugeridas. Uma solução é a de reanimar o papel do Fundo Monetário Internacional (FMI) como financiador do próprio endividamento americano gerindo os excedentes de liquidez existentes nalguns países exportadores. O FMI praticamente eclipsou-se face à crise global e tem-se centrado na intervenção em casos nacionais “colaterais” como a Islândia, Hungria, Paquistão e Ucrânia. Outra é a de criar “expectativas sérias de inflação” que contrariem o vírus da deflação, algo que também consta do receituário do Nobel Paul Krugman.
A geopolítica é a outra face da moeda. “Obama não controla as cartas todas do jogo”, diz o autor, nem dos mercados de commodities (e o preço do petróleo se retomar uma curva ascendente vai estragar as contas), nem dos movimentos estratégicos das outras grandes potências.
Fevereiro 7th, 2009 at 5:32
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