Fevereiro 2009


O mais antigo índice da Bolsa de Nova Iorque fechou o mês de Fevereiro atingindo o ponto mais baixo do ciclo desde o último pico da Wall Street em Outubro de 2007. A quebra bolsista está próxima dos 50%, o que a coloca como a terceira mais grave de sempre.

A situação de intervenção estatal nos dois grandes bancos americanos em dificuldades – Citigroup e Bank of America, já alcunhados de «zombies» – aprofundou ainda mais a derrocada da Wall Street com o índice Dow Jones Industrial Average (DJIA) a fechar o mês de Fevereiro com o nível mais baixo desde o pico em Outubro de 2007.

As incertezas sobre o futuro do Citigroup levaram hoje a bolsa americana a fechar nos 7062,93 pontos, acumulando uma quebra de 49,9% desde Outubro de 2007, altura em que se atingiu o pico e sucedeu o início do «crash».

O mês de Fevereiro – como aqui chamámos à atenção – revelou-se como um período de sucessivos pontos baixos, com o DJIA a descer progressivamente dos 8000 pontos para o patamar dos 7000.

Com uma desvalorização de quase 50%, este «crash» de 2007/2009 é já o terceiro maior desde o início do Dow Jones em 1885 – pior só o da Grande Depressão (89% de quebra até 1932) e o de 1942 em plena Guerra Mundial. Uma pequena barreira separa a derrocada actual da que ocorreu nos anos 1940.

Mark Lundeen, o analista que tem mantido um modelo de comparação entre o «crash» actual e o de 1929/1932, estima que a quebra ainda possa chegar aos 60% neste semestre. E que se torne a segunda mais grave da História da Wall Street.

As razões para o pânico em bolsa mantêm-se. Grande parte do icebergue do lixo tóxico financeiro continua por vir à tona de água. Os bancos «zombies» continuam a lutar pela sobrevivência nos cuidados intensivos. A economia real americana revela com atraso os números da sua recessão deixando um efeito psicológico devastador – hoje soube-se que o PIB (real) no quarto trimestre de 2008 caíu 6,2%, um aprofundamento dramático da crise, na medida em que no terceiro trimestre do ano passado havia caído ligeiramente, 0,5%.

Rumores sobre risco de nacionalização de alguns dos pesos pesados da banca americana empurraram o Índice norte-americano Dow Jones para novo recorde de valor mais baixo desde o pico em 15 de Outubro de 2007. A correcção bolsista acumulada já soma 48%, a 3ª maior desde o início deste indicador da Wall Street.

O índice Dow Jones Industrial Average (DJIA) encerrou hoje abaixo dos 7.400 pontos, com um decréscimo de 1,3% em relação ao dia de ontem. Este novo patamar fixa mais um recorde de ponto mais baixo desde o pico atingido em Outubro de 2007.

A continuação da queda do índice deveu-se a rumores da possibilidade de nacionalização de alguns dos maiores bancos americanos em virtude de avaliações muito preocupantes sobre entidades como o Bank of America e o Citigroup, classificadas, esta semana, por um sítio de análise de mercados, o Money Morning, como autênticos «mortos-vivos». Em virtude desse clima negativo, as acções dos dois bancos caíram significativamente na Wall Street (14 e 20% respectivamente).

A queda bolsista acumulada desde o pico em 15 de Outubro de 2007 (quando atingiu o auge do ciclo altista fechando com 14.093,08 pontos) atinge agora os 47,7%, o que a coloca como a 3ª maior ex aequo com a de 1907 desde o seu início em 1885.

Recorde-se que as três maiores derrocadas do DJIA ocorreram na crise de 1929-1932 (uma correcção brutal de 89.16%), depois na crise de 1942 (51,51%) e na de 1907 (47,79%).

O DJIA ao fechar hoje com 7.365,67 pontos ultrapassou o nível mais baixo anterior ocorrido ontem. O DJIA vinha a testar, desde o início deste mês de Fevereiro, níveis abaixo dos 8.000 pontos, como ocorrera nos dias 2, 10, 13, 17 e 19.

Dentro deste clima de continuação de queda em Wall Street, as bolsas europeias fecharam, também, no vermelho, com quebras de 3 a 5%.

Especialistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) revelaram a combinação de ingredientes que permitiu a 35 países crescer sustentadamente quase durante 40 anos. Portugal foi um deles até 1996.

Foram ao longo do tempo propagandeadas diversas receitas para o crescimento económico de um país. Na maioria dos casos isolou-se um ou dois aspectos de um conjunto, que foram transformados em dogma político – focalização tecnológica, impostos baixos, flexibilidade da legislação de trabalho, «boom» dos serviços financeiros graças a desregulação. Em 1998, no auge da euforia, em torno dos «tigres» (alcunha para as economias de alto crescimento) europeus eram essas as lições que a revista Business Week tirava. Teria sido esse, também, o segredo dos «tigres» asiáticos.

Um estudo empírico recente levado a cabo por dois especialistas do FMI revela, no entanto, que as receitas milagrosas específicas – e sobretudo as muito marcadas pelo discurso político – têm pouca aderência à realidade.

Segundo Rupa Duttagupta e Montfort Mlachila, do FMI, em ‘What is really good for long-term growth?’, o crescimento de longo prazo observado num grupo de 35 economias num universo de 139 países, avaliando 67 variáveis, num período de quase 40 anos (1960 a 1996) mostra que os «tigres» e os emergentes cresceram acima de um certo patamar durante tanto tempo graças a uma combinação de factores que se influenciaram positivamente entre si.

No «top» 15 dessa lista encontramos Portugal no 11º lugar, com um crescimento médio anual, durante aqueles quase 40 anos. de 4,1% – tendo como companheiros próximos de posição Chipre, Indonésia, China e Malásia. A Irlanda e a Espanha estão abaixo do patamar dos 4%, e Israel ou a Finlândia num nível inferior. Os líderes do crescimento naquele período, com uma média anual superior a 5% foram os quatro «tigres» do Pacífico (Singapura, Taiwan, Coreia do Sul e Hong Kong), Malta e a Tailândia.

Combinação virtuosa

“O crescimento forte é o resultado de uma interacção complexa de vários factores-chave, como o desenvolvimento do capital humano, a política económica de abertura ao comércio internacional e promoção da competitividade externa, bem como factores exógenos derivados do que chamamos de sorte geográfica”, diz-nos Duttagupta.

O investimento de longo prazo nos recursos humanos é hoje um factor que gera consenso. A abertura ao exterior surge como outra pedra basilar, eventualmente mais polémica. Aliás, restringindo a análise apenas às políticas públicas, Duttagupta afirma: “Confirmámos que as políticas viradas para a abertura ao exterior combinadas com a gestão de indicadores fortes de capital humano conduzem ao crescimento.

Ao inverso, indicadores de capital humano pobres e distorções ao comércio internacional podem levar a um resultado medíocre”. Por seu lado, a “sorte” da geografia associa-se ao facto dos países marítimos com alta densidade populacional costeira revelarem melhor performance naquela amostra do estudo, sobretudo quando se transformaram em hubs comerciais e exploraram janelas de oportunidade ligadas a conjunturas económicas internacionais favoráveis.

A importância relativa de cada um desses ingredientes fundamentais varia naturalmente de caso para caso, mas a sua interacção gera efeitos “não lineares” virtuosos, sublinha o estudo colocando um acento tónico nesta dimensão. “A principal conclusão que tirámos deste estudo empírico é que o que conta é a combinação de diversos factores que interagem, e não um só factor – seja a abertura ao exterior, ou as instituições, ou a geografia em isolado, como tem sido sublinhado pela literatura académica”, acrescenta Mlachila.

A teoria económica viveu durante muitos anos presa há ideia de que o progresso tecnológico – então tecnicamente chamado de «residual de Solow», do nome do Nobel Robert Solow (ainda vivo) que o criou em 1957 – era a chave de metade do crescimento. Mas esse modelo teórico baseava-se numa economia fechada.

Paul Romer, da Universidade de Stanford, aclarou, nos anos 1990, o papel das novas ideias produzidas pelo sector privado como alavanca do progresso tecnológico e como verdadeiro efeito multiplicador. Depois, uma variedade de autores passaram a focar-se neste ou naquele aspecto específico indutor de crescimento – o papel do protestantismo ou do confucionismo, as políticas de impostos ou de distribuição, o desenvolvimento financeiro, até o falar inglês ou não e as heranças da colonização.

Ter sido «tigre» não vacina

No meio de uma depressão generalizada em grande parte do Planeta, é no mínimo estranho vir falar no que realmente influencia o crescimento económico de longo prazo. Tanto mais que os modelos que tínhamos dos anos 1990 – os «tigres» asiáticos e europeus – parecem estar, agora, em maus lençóis. Basta olhar para o caso da Islândia, um país que passou do dia para a noite do paraíso para o inferno. Mas pode acrescentar-se o caso da Irlanda – o seu défice orçamental está perto dos 12% do PIB – e da Espanha que mudaram de carruagem com a actual crise financeira ou de Portugal que iniciou há mais tempo um processo de divergência com a «média» europeia de que não se tem conseguido libertar.

“O bom comportamento no passado não vacina um país para sempre. Azar também acontece, como um choque nos termos de troca, ou más políticas económicas são, por vezes, implementadas”, adianta Mlachila. “A imprudência paga-se”, diz, recordando o caso recente da Islândia.

As lições da Islândia

No caso específico da Islândia, um ambiente regulador fraco do sistema bancário permitiu uma expansão arriscada, sublinha-nos Montfort Mlachila, um dos autores do estudo. “Mesmo um tigre também pode ser abatido por azar ou cair num fosso por imprudência”, conclui.

A estratégia islandesa conduziu a um peso excessivo do sistema financeiro na economia da ilha e no próprio mercado de valores (os três mega-bancos islandeses representavam 75% da capitalização bolsista) e os activos da banca chegaram a valer 10 vezes mais do que o PIB nacional. A dinâmica financeira apoiou-se em 80% em empréstimos contraídos em divisas estrangeiras e numa lógica permanente de refinanciamento.

Esta hipertrofia do sistema financeiro afogou as áreas de excelência em que a Islândia criou real valor – energias alternativas, biotecnologia e software. A sua independência face à Zona Euro tornou a moeda local, a coroa, sem qualquer capacidade de gestão de emergência. Os mais pessimistas temem que a pequena ilha possa passar de uma situação de depressão deflacionária a uma depressão hiper-inflacionária em virtude do colapso da moeda local.

O Índice Dow Jones atingiu hoje o valor mais baixo desde o pico em 15 de Outubro de 2007. A correcção bolsista já atingiu os 47%, a 4ª maior desde o inicio deste indicador da Wall Street no séc. XIX.

Apesar de uma variação negativa pequena em relação ao valor de ontem, o índice Dow Jones Industrial Average (DJIA) encerrou o dia abaixo dos 7.500 pontos, o que colocou o fecho de hoje como o mais baixo desde o pico atingido em Outubro de 2007 e como não se via desde Outubro de 2002.

A queda bolsista acumulada desde o pico em 15 de Outubro de 2007 (quando atingiu o auge do ciclo altista fechando com 14.093,08 pontos) atingiu já os 47%, o que a coloca como a 4ª maior daquele índice desde o seu início em 1885. As três maiores derrocadas do DJIA ocorreram na crise de 1929-1932 (uma correcção brutal de 89.16%), depois na crise de 1942 (51,51%) e na de 1907 (47,79%).

O DJIA ao fechar hoje com 7.465,95 pontos ultrapassou o nível mais baixo anterior a 20/11/2008, quando descera aos 7.552,29 pontos. O DJIA vinha a testar, desde o início deste mês de Fevereiro, níveis abaixo dos 8.000 pontos, como ocorrera nos dias 2, 10, 13 e 17.

É seguramente o maior “crash” desde os anos 1940. As próximas semanas dirão se a correcção bolsista ainda não atingiu o ponto mais baixo ou se uma inversão de comportamento se virá a observar.

Com a aprovação ontem (10/02/09) do pacote de estímulos no Senado por uma unha negra e o anúncio de um Fundo público-privado para adquirir o «lixo» do sistema financeiro, a intervenção de emergência aprovada desde os tempos de Bush já soma 5 biliões de dólares (4480 mil milhões de euros). Obama contribuiu esta semana com 1,8 biliões. A Wall Street mostrou-se céptica ontem, mas hoje parece largar o pessimismo.

A crise americana já mobilizou 5 biliões de dólares (cerca de 4500 mil milhões de euros) em programas de salvação, pacotes de estímulos e intervenções avulsas desde o seu início. São injecções já feitas ou anunciadas que valem 1/3 do actual Produto Interno Bruto americano. O The New York Times vai mais longe e soma mesmo 8 biliões.

O novo presidente Obama juntou esta semana um pacote de 838 mil milhões, aprovado no Senado à tangente (61-37 votos; 60 votos não chegariam para aprovar), e o seu secretário do Tesouro, Timothy Geithner, anunciou a segunda fase (320 mil milhões de dólares) do programa TARP (Troubled Asset Relief Program, que havia sido autorizado poder chegar até 700 mil milhões) herdado de Bush e ainda uma novidade – a criação de um fundo público-privado que poderá ir até 1 bilião de dólares para aquisição de parte do «lixo tóxico» existente no sistema financeiro americano. Esta última iniciativa – cujos contornos ainda não são conhecidos – começaria com uma primeira fase de 500 mil milhões.

Wall Street céptica

Apesar dos apelos do presidente Obama e do marketing mediático intenso, incluindo o recurso as redes de socialização da Web 2.0, os republicanos continuam renitentes em apoiar a estratégia de emergência do novo presidente democrata e a Wall Street reagiu mal aos primeiros sinais do debate final no Senado.

O Dow Jones fechou ontem no segundo mínimo desde que o «crash» bolsista se instalou em 16 de Outubro de 2007. Com a reacção céptica de ontem, o indicador bolsista caiu para 7888,88 pontos, próximo dos 7552,29 que havia atingido em 20 de Novembro do ano passado – até agora o ponto mais baixo da derrocada da Wall Street. As perdas na bolsa americana totalizam 44% desde o pico em 15 de Outubro de 2007. Obama reagiu ao nervosismo bolsista alegando que a Wall Street ainda “espera uma saída fácil, mas não há tal saída”.

Um ‘pacotão’ de dúvidas

Com uma resistência teimosa dos republicanos – que querem fazer passar nas negociações parlamentares o seu programa de cortes de impostos e outros compromissos com lóbis, que foram rejeitados claramente pelo eleitorado americano – e com muitas dúvidas oriundas das próprias fileiras de economistas democratas e independentes, a acção de emergência do novo presidente não está fácil.

Peter Cohan, analista de Boston e apoiante de Obama, considerou mesmo o plano de Geithner entre o “mau e o medíocre” e interrogou-se quando este será substituído por Larry Summers, actual chefe do conselho económico da Casa Branca.

O próprio pacote aprovado no Senado tem de ser, agora, compatibilizado com o anteriormente aprovado pela Câmara de Representantes, antes de ser enviado para o Presidente assinar. Há uma pequena diferença de 19 mil milhões para acertar, entre outros detalhes.

O ‘pacotão’ adicional de quase 2 biliões e a continuação da segunda fase do TARP deveriam gerar o efeito psicológico esperado no tecido financeiro e económico. Mas, pelos vistos, ainda não o fez.

Os elogios centram-se no estímulo à tecnologia – no campo da energia e da sociedade da inovação. O efeito multiplicador das obras públicas já é mais polémico, mas há que ter em conta que 46 estados americanos estão em pré-falência ou mesmo falência técnica, pelo que esta estratégia federal é como pão para a boca dos governadores estatais.

Os problemas levantados pelos especialistas centram-se em dois vectores: a ideia de um fundo para apanhar o «lixo» do bad banking levanta muitas questões de detalhe (será suficiente o tal 1 bilião; quem vai comprar; a quanto se vai comprar cada «pedaço de lixo»; quanto, no final, vai desembolsar a fundo perdido o erário público); e a eficácia ou não do pacote aprovado pelo Senado para agir como multiplicador «keynesiano».

Thimothy Geithner também não tranquilizou muito os investidores: “Teremos de tentar soluções que não foram ainda tentadas. Faremos certamente erros. Atravessaremos períodos em que as coisas vão piorar e o seu progresso poderá ser interrompido”. Ainda que tenha dito algo óbvio em política em período turbulento, a cabeça dos investidores, em pânico, não está muito virada para aceitar experimentalismo e pensamento não-linear.

A última palavra provavelmente virá perto do final do mês. A Secretária de Estado Hillary Clinton desloca-se a 20 de Fevereiro a Beijing. O dossiê é pesado. Os chineses já começaram a avisar que não estão dispostos a suportar a bancarrota americana indefinidamente ou sem contrapartidas em vários dossiês. São o bombeiro número um da América, à frente do Japão. A China detém 682 mil milhões de dólares em títulos da dívida americana e 1,95 biliões em divisas estrangeiras, a maioria dólares com futuro incerto.

É o primeiro livro sobre os desafios que a nova Administração americana defronta no plano económico e geopolítico escrito por um economista português. Carlos Santos interroga-se “E agora?”. Lança a obra na próxima semana.

A campanha eleitoral e a vitória de Barack Obama trouxeram de regresso à América a esperança e o voluntarismo de milhões de americanos. Uma mudança que ocorreu no meio da “mãe de todas as crises”, uma situação de que os americanos já não tinham memória desde há mais de meio século, refere Carlos Ferreira dos Santos, de 32 anos, professor de Econometria da Universidade Católica, no Porto, que segue a saga de Obama no seu blogue O Valor das Ideias.

A herança que Obama recebeu de W. Bush é pesada – a imagem global dos Estados Unidos está no seu ponto mais baixo e deu-se um colapso nos activos das famílias americanas que, num ano e meio, perderam 8.500 biliões de dólares no valor dos imóveis, em reformas, poupanças e investimentos, ou seja um número brutal: 57% do PIB americano. O tecido empresarial está a viver uma vaga de downsizing como já não havia memória: segundo o Bureau of Labor Statistics, os EUA já perderam 2,55 milhões de empregos desde que a crise começou e a taxa de desemprego terá atingido 7,2% no final de Dezembro.

Os desvios serão o problema

Os desafios tanto económicos como internacionais da nova Administração são, por isso, ciclópicos, o que levou Carlos Santos, um apaixonado pelo processo político recente dos Estados Unidos, a escrever ‘E Agora, Obama?’, que será publicado no próximo mês pela Esfera do Caos. Ele conclui – pesando os prós e os contras e acautelando que haverá sempre contingências e imprevistos – que Obama defronta “uma gestão de equilíbrio, muito no fio da navalha”.

Mas deixa uma nota de optimismo: “Eu penso que há um caminho em que as políticas que o novo presidente quer implementar podem resultar”, diz-nos, logo acrescentando: “O problema é que esse caminho não tolera desvios”.

O autor não se encara como um académico numa redoma de vidro sentenciando a sorte do novo presidente americano. Além das virtualidades do pacote de emergência de 819 mil milhões de dólares (€623 mil milhões) aprovado por maioria na Câmara dos Representantes no princípio de Fevereiro, que tem condições “de aliviar o sentimento económico dos americanos no curto prazo”, Carlos Santos reconhece em Obama uma característica essencial que vai para além do seu “magnetismo pessoal” – o pragmatismo na execução de um intento estratégico e uma certa conversão à Realpolitik.

O ponto fraco

O principal ponto fraco, por ora, parece ser a falta de clareza em como resolver a crise de crédito, pois as armas políticas da Reserva Federal estão esgotadas (manipulação da taxa directora de juros até perto dos 0%) e as intervenções do Plano Paulson (que dá pelo acrónimo de TARP – Troubled Asset Relief Program e que gastou nesta ponta final da Administração Bush já 50% dos 700 mil milhões de dólares autorizados) só ajudaram a criar uma situação de “armadilha da liquidez” e chutarão o défice orçamental americano para quase 7,5% do PIB no final do presente ano fiscal.

O departamento do Orçamento no Congresso americano (Congressional Budget Office) divulgou recentemente que provavelmente 25% das intervenções já realizadas pelo TARP serão pura perda para os contribuintes.

Obama respondeu com “um programa de raiz keynesiana” – que é também a coqueluche hoje de quase todos os governos no mundo – mas que tem dois problemas: os 819 mil milhões de dólares poderão ser apenas 40% do que é preciso, avisou o Nobel Paul Krugman, e colocam uma dúvida de médio e longo prazo. “O meu cepticismo dirige-se à sustentabilidade do endividamento necessário num contexto em que o dólar perdeu dramaticamente valor”, sublinha o nosso interlocutor.

O desafio é que renasça da legislatura de Obama uma economia americana “com capacidade para pagar os encargos de um endividamento brutal” e que, no entretanto, continue a conseguir convencer os financiadores externos da dívida pública (nomeadamente a China, o Japão e os detentores de petrodólares) a serem o guarda-chuva do american way of life interno e da própria projecção externa da superpotência.

Carlos Santos recorda que outras vias têm sido sugeridas. Uma solução é a de reanimar o papel do Fundo Monetário Internacional (FMI) como financiador do próprio endividamento americano gerindo os excedentes de liquidez existentes nalguns países exportadores. O FMI praticamente eclipsou-se face à crise global e tem-se centrado na intervenção em casos nacionais “colaterais” como a Islândia, Hungria, Paquistão e Ucrânia. Outra é a de criar “expectativas sérias de inflação” que contrariem o vírus da deflação, algo que também consta do receituário do Nobel Paul Krugman.

A geopolítica é a outra face da moeda. “Obama não controla as cartas todas do jogo”, diz o autor, nem dos mercados de commodities (e o preço do petróleo se retomar uma curva ascendente vai estragar as contas), nem dos movimentos estratégicos das outras grandes potências.