A crise actual está a assumir um padrão que não é o habitual das crises “normais” – o comportamento do sistema parece caótico. O grau de oscilação é muito elevado – o que já é visível nas matérias-primas e nas bolsas e esse tipo de instabilidade vai contagiar a própria evolução da economia mundial. São os prognósticos de Dmitri Orlov, autor de ‘Reinventando o Colapso’ e animador do blogue ClubOrlov, que divulgamos no dia do triunfo da obamania.

“Há o risco de uma dinâmica económica nos próximos anos de pára e arranca como numa fila de automóveis numa auto-estrada congestionada por diversos acidentes. O que, na economia, ficou tecnicamente conhecido por «stop-and-go». O padrão poderá ser o de uma chicotada a que se segue uma paralisia brusca. Situação que pode demorar algum tempo”, refere-nos Dmitri Orlov, de 46 anos, um especialista em dinâmicas de colapso de superpotências.

Colapso de mais uma superpotência?

O analista refere que o académico americano Immanuel Wallerstein acautelou recentemente que poderemos ficar prisioneiros deste sistema caótico, de grandes flutuações, “por uns quatro ou cinco anos”. O que significa que vamos ter um sistema com um grau elevado de ingovernabilidade.
Orlov é natural de Leninegrado (hoje São Petersburgo) mas saiu, em 1976, ainda adolescente, com a família, da então URSS e está radicado nos Estados Unidos. O seu trabalho mais conhecido (“Post-Soviet Lessons“)centrou-se nas razões da implosão da União Soviética nos anos 1980 e depois dedicou-se a acompanhar a evolução dos Estados Unidos (“The Five stages of Collapse“).

Publicou no ano passado ‘Reinventing Collapse: The Soviet Example and Americam Prospects’ onde avalia o desenvolvimento de sintomas de crise estrutural da que é ainda hoje considerada a superpotência mundial. Conclui que os ingredientes de colapso evoluem “em geral, na mesma direcção” do que ocorreu na URSS. Aliás, ele afirma que “os EUA podem muito bem já não ser a superpotência, só que ainda não o vemos”. Paradoxalmente poderá ser na Administração do carismático Obama que essa herança envenenada de W. Bush fique óbvia. Uma hipótese geopolítica no mínimo perturbante.

Mistura explosiva

A evolução da recessão e da depressão pode ser atípica em relação à memória de crises que as gerações actuais têm. O analista alerta: “Podemos assistir a uma mistura de deflação e de inflação. No sentido de deflação para o tipo de activos que já não são produtivos, como por exemplo imobiliário, fábricas e maquinaria, entre outros casos, e de inflação no sentido de preços mais elevados para os recursos escassos, como as matérias-primas”.

Os resultados desta confusão são conhecidos dos economistas: “O dinheiro vai perder relevância, pode emergir um enorme mercado negro, e padrões de comportamento ligados à pilhagem e açambarcamento poderão substituir alguns mercados”.

E, no final, há um risco de hiperinflação nos países desenvolvidos – a começar pelos EUA – que abusarem de injecções de liquidez dando à máquina de impressão de papel-moeda pelos bancos centrais uma actividade frenética “do domínio da insanidade”. As políticas de estilo Weimariano (copiando o comportamento do governo alemão nos anos 1920 durante a chamada República de Weimar entre 1919 e 1933) generalizaram-se ultimamente.

O colapso da divisa americana será um primeiro passo a que se poderá seguir o impensável – os EUA terem de declarar a suspensão de pagamento da sua dívida astronómica num filme de estilo “latino-americano”. Já se fala que o país da nota verde poderá perder a sua notação de triplo A em matéria de crédito.

Efeitos do colapso: os mais vulneráveis

Toda esta situação pode gerar uma enorme dor de cabeça interna dentro dos países desenvolvidos afectados. Há zonas típicas da produção em massa nos países capitalistas que vão transformar-se num «ground zero». E Orlov teme que nessas regiões devastadas, a situação seja ainda pior, comparativamente, do que aquando do colapso da economia soviética, tema que abordou recentemente em artigo detalhado.

Apesar da retórica do sonho americano e da pátria da mobilidade, o analista sublinha que “uma parte do tecido social americano é extremamente frágil numa situação de desagregação se o compararmos ao caso soviético de então”. E interroga-se como vão as zonas devastadas “regressar a uma agricultura de subsistência”.

Para Orlov, as potências mais vulneráveis ao comportamento caótico são as que não conseguiram adaptar-se com estratégias duradouras em relação às oscilações, particularmente no mercado de commodities. “Especialmente os países que se recusaram a negociar acordos de longo prazo com países produtores. Estou a pensar nos EUA e no Reino Unido”, sublinha, contrastando com o caso da China e da sua estratégia de alianças cirúrgicas com países exportadores e produtores, procurando “contornar mercados altamente instáveis”.