Ter 23 Dez 2008
A primeira crise global – Diário de Bordo 3
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Globalização , Inteligência Económicaainda sem comentários
«O mundo está confrontado com a primeira crise verdadeiramente global» – diz-nos Franck Biancheri numa entrevista que pode ler aqui. Biancheri foi eleito um dos 20 “heróis” pelos leitores da revista Time, depois de ter lançado o manifesto ‘Visão Europa 2020’, que pretendia reflectir a opinião da geração europeia abaixo dos 40 anos.
A conversa com Biancheri levanta um conjunto de reflexões estratégicas importantes.
A primeira: A tentação comum de economistas e dos «media» é de comparar a actual crise iniciada em 2007 com a Grande Depressão dos anos 1930. O mesmo epicentro nos Estados Unidos, a alta volatilidade e a derrocada em crescendo da Wall Street, o disparo brutal do desemprego e das falências, tudo empurraria para o cenário negro de há 80 anos.
Mas há uma diferença de fundo – “esta é a primeira crise verdadeiramente global”, sublinha Franck Biancheri, investigador do «think tank» Laboratoire Européen d’Anticipation Politique Europe 2020. E nessa palavra «global» reside toda a diferença de época.
“Esta crise é muito diferente da dos anos 1930. Naquela altura, ela estava muito centrada nos Estados Unidos e na Europa. O mundo, agora, está de longe muito mais integrado. Esta é a primeira crise efectivamente global. Em segundo lugar, as economias actuais dependem muito mais da esfera financeira do que há 80 anos, por isso a actual derrocada vai ter um impacto muito mais profundo e durável nas nossas sociedades”, refere-nos Biancheri, que é, também, líder do movimento transeuropeu Newropeans.
A segunda reflexão: Biancheri chama, também, a atenção para o facto do contexto geopolítico ser radicalmente diferente – nos anos 1930 os Estados Unidos caminhavam a passos seguros para a sua liderança hegemónica, enquanto hoje estão “em declínio”. “E o impacto da actual crise financeira e económica reforçará ainda mais as tendências de declínio em curso”, sublinha o nosso interlocutor.
Por isso, ele considera a actual crise como “sistémica”: “Não porque o capitalismo esteja em crise como sistema, mas porque chegou ao fim a nova ordem criada no pós-guerra com Bretton Woods, e revista em 1971 (por Nixon quando decidiu abandonar a ligação do dólar ao padrão ouro) e 1976 (com o acordo da Jamaica, que decidiu a instauração de um sistema de taxas de câmbio flutuante) dando origem ao que foi designado por Bretton Woods II”.
A terceira reflexão: Biancheri considera que há uma vantagem na Europa para defrontar a crise global. “A Zona Euro vai ser a melhor protecção contra o tsunami em curso. Essa vai ser a grande diferença. Os membros da União Europeia fora da Zona Euro serão afectados mais severamente do que os outros. E alguns deles mais integrados com os Estados Unidos, como é o caso do Reino Unido, serão afectados profundamente, se não mesmo mais do que os próprios EUA”, vaticina. Arrisca mesmo prognosticar que a Inglaterra será o «doente crónico» da Europa.
Alega inclusive que a almofada social europeia será uma vantagem que se tornará óbvia e invejada neste período: “A existência de um sistema social desenvolvido é o maior activo da Europa fase à América e à Ásia, que terão de se defrontar com a emergência de criar essa rede de segurança a partir do zero, correndo o risco de enfrentar sobressaltos sociais em larga escala se não o fizerem”.
Quarta e final reflexão: Está para breve o colapso do dólar americano como moeda de referência no comércio internacional e divisa mundial. Biancheri fala mesmo, por analogia, da “queda do Muro do dólar”, que ele aponta para o Verão de 2009, vinte anos depois da queda do Muro de Berlim. Mas não advoga a sua substituição pelo euro ou pelo regresso ao padrão-ouro. Acha que deve criar-se um cabaz das principais moedas.