Dezembro 2008


Ideia central: O espírito capitalista do chinês comum ultrapassou as reformas imaginadas por Deng Xiaoping e pelos burocratas do partido desde 1978.

A desobediência civil made in China

O maior actor político dos últimos trinta anos de reformas na China não foi o Partido Comunista nem a elite em torno de Deng XiaoPing, considerado o timoneiro da viragem entre 1978 e 1992. Foi a “desobediência civil” do chinês comum, diz o analista americano Gordon Chang.

Ou seja, os milhões de chineses – camponeses, quadros do Partido ou do exército, gestores de empresas estatais, professores universitários, jovens profissionais urbanos, simples artesãos e comerciantes de rua – que com o seu espírito capitalista ancestral entraram, de rompante, por todos os «interstícios» e nichos criados pelas sucessivas reformas e pelos famosos apelos de “criem todos um negócio” e “ficar rico é glorioso”. Algo que deixa de ser paradoxal se tivermos em conta que a China foi a pátria da economia mercantil e do papel-moeda nos séculos X e XI da dinastia Sung.

Essa revolução de rua ocorreu sobretudo depois da decisão de Deng em 1992, já com 88 anos, de inventar legalmente um híbrido a que deu o nome de “economia de mercado socialista”. Deng, nessa altura, convenceu os burocratas a largarem o insustentável modelo de “economia mercantil baseada na propriedade pública e na planificação”, aprovado em 1984.

Não é de admirar, por isso, que os leitores dos 15 jornais mais importantes do país tenham escolhido, agora, por ocasião dos 30 anos sobre a 11ª reunião do Comité Central do Partido Comunista da China em 1978, o «slogan» “criem todos um negócio” e duas figuras sociais emergentes (os trabalhadores migrantes e os internautas) como algumas das imagens e frases mais populares, segundo a Xinhua.

A janela de oportunidade

O ponto de inflexão na história recente chinesa ocorreu em 1976, após a morte de Mao Zedong. O país estagnara desde os anos 1950 em termos de peso económico mundial e estava exausto com a Revolução Cultural. A linha reformista esmagou a facção maoista em 1978 e abriu, ainda que timidamente, a caixa de Pandora do capitalismo num processo evolutivo até 1989, dentro da ideia de um programa de “quatro modernizações” até ao ano 2000.

Paradoxalmente, a chacina de Tiananmen em Junho de 1989, esmagando o segundo movimento democrático na China pós-Mao (o primeiro decorrera entre 1978 e 1979 e ficou conhecido por ‘Muro da Democracia’ numa esquina da mesma Praça central de Beijing) acelerou a revolução capitalista. A Queda simbólica do Muro de Berlim em Novembro desse ano e a posterior implosão da União Soviética em Dezembro de 1991 abriram à China uma oportunidade única – o fim do mundo bipolar.

Data dessa altura, segundo Dylan Kissane, um especialista em ciclos longos, a emergência de uma agenda de grande potência pela liderança chinesa, ainda em vida de Deng. Na mesma ocasião, a transformação económica deu um passo decisivo em frente. O capitalismo híbrido que Deng desenhou em 1992 rapidamente ultrapassou o que o pequeno timoneiro alguma vez imaginara. “A abertura ao exterior e a criação de um sector privado são as maiores conquistas”, sublinha o analista chinês Zhibin Gu, autor de Made in China.

A segunda maior economia do mundo

O salto do peso da China na economia global é o maior dos últimos trinta anos à escala mundial. Passou de menos de 5% nos anos 1970 para cerca de 11% actualmente. Em 1973, quando atingiu o ponto mais baixo da sua história em termos de parcela do PIB mundial, a China “valia” 1/5 do peso da economia americana – em trinta anos passou para ½ e alcandorou-se ao segundo lugar, logo a seguir aos Estados Unidos, se o PIB for medido em paridade de poder de compra (ppc, um indicador mais correcto do que a avaliação em termos nominais).

Se for excluída a União Europeia (UE) como um todo, a China está à frente (em PIB em ppc) do Japão e da Alemanha, um facto que ainda não foi assimilado pelos analistas «ocidentais». Em 2020 deverá ultrapassar os EUA, segundo um estudo do The Economist Intelligence Unit (´Foresight 2020’).

Fruto desse crescimento para mais do dobro do peso relativo mundial em trinta anos, graças a taxas de crescimento anuais muito elevadas (mais de 7% em média desde 1973), a China tornou-se na locomotiva económica e financeira do mundo. A sua contribuição para o crescimento mundial anual é a maior entre todas as grandes potências (e continuará a ser até 2020 segundo o The Economist, cerca de 26% contra 16% dos EUA e 12% da Índia) e em termos financeiros – incluindo a China e a sua região autónoma especial de Hong Kong – detém as maiores reservas em divisas estrangeiras (o dobro do Japão e mais do triplo das da UE) e é o principal detentor da dívida nacional dos Estados Unidos detida por estrangeiros (22,6% contra 20% pelo Japão).

A China pode ter chegado, agora, a um ponto crítico – 2009 pode ser o primeiro ano de grande arrefecimento do seu crescimento, ironicamente quando a implantação da República Popular da China fará 60 anos e o massacre de Tiananmen o seu vigésimo aniversário. É assunto que abordaremos em próximo artigo.

NÚMEROS PARADOXAIS

210 Milhões de trabalhadores migrantes em 2008. Três vezes mais do que em 1992. Atribui-se a esta arraia-miúda, sobre explorada, a geração de 1/5 do PIB chinês nos últimos trinta anos

263 Milhões é o número de cibernautas chineses, a maior comunidade do mundo, segundo os dados do Data Center of China Internet

10,8% é o peso da economia chinesa no PIB mundial. Em segundo lugar, depois dos EUA. Ainda longe dos 33% de 1820 ou dos 25% em 1500. A China foi a maior potência económica do mundo durante quase 400 anos.

FACTOS SEM APELO NEM AGRAVO

. A China (incluindo Hong Kong) detém 2 biliões de dólares (1,4 milhões de milhões de euros) em divisas estrangeiras, o dobro do Japão e mais do triplo da União Europeia

. A redução do nível de miséria passou de 60% da população rural abaixo da linha de pobreza nos anos 1970 para menos de 10% actualmente, segundo o Banco Mundial

. 2/3 da produção fabril e 1/3 da economia chinesa estão em mãos de capitalistas privados

. Mas 120 mil empresas do Estado dominam os sectores ditos estratégicos (banca, telecomunicações, energia e «media») e servem de braço armado da globalização

. A China é o terceiro país do mundo a gastar mais Investigação & Desenvolvimento em relação ao PIB (13%) na área da computação e electrónica, depois dos EUA (23%) e do Japão (16%), segundo o Global Innovation 1000 da Booz & Co

. A China é uma economia aberta ao exterior – as exportações pesam 38% no PIB (ligeiramente superior ao indicador português que está em 37%)

. 29 multinacionais chinesas (incluindo as de Hong Kong), 19 das quais estatais, classificam-se entre a lista da Fortune das 500 maiores do mundo; a Sinopec (petróleos) é a mais bem posicionada, em 16º lugar; a Índia tem apenas 7, o Brasil 5, a Rússia 5, e Portugal 1.

. Os muito ricos da China chegaram aos 400, mas os multimilionários desceram de 66 em 2007 para 24 este ano (Portugal tem 4 nesta lista), devido à quebra de 60% nas bolsas chinesas e de 50% em Hong Kong, segundo a listagem da Forbes. O mais rico da China é Liu Yongxing, de 60 anos, dono do conglomerado privado East Hope Group, de Xangai, que começou como um negócio de aviário em 1982

«O mundo está confrontado com a primeira crise verdadeiramente global» – diz-nos Franck Biancheri numa entrevista que pode ler aqui. Biancheri foi eleito um dos 20 “heróis” pelos leitores da revista Time, depois de ter lançado o manifesto ‘Visão Europa 2020’, que pretendia reflectir a opinião da geração europeia abaixo dos 40 anos.

A conversa com Biancheri levanta um conjunto de reflexões estratégicas importantes.

A primeira: A tentação comum de economistas e dos «media» é de comparar a actual crise iniciada em 2007 com a Grande Depressão dos anos 1930. O mesmo epicentro nos Estados Unidos, a alta volatilidade e a derrocada em crescendo da Wall Street, o disparo brutal do desemprego e das falências, tudo empurraria para o cenário negro de há 80 anos.

Mas há uma diferença de fundo – “esta é a primeira crise verdadeiramente global”, sublinha Franck Biancheri, investigador do «think tank» Laboratoire Européen d’Anticipation Politique Europe 2020. E nessa palavra «global» reside toda a diferença de época.

“Esta crise é muito diferente da dos anos 1930. Naquela altura, ela estava muito centrada nos Estados Unidos e na Europa. O mundo, agora, está de longe muito mais integrado. Esta é a primeira crise efectivamente global. Em segundo lugar, as economias actuais dependem muito mais da esfera financeira do que há 80 anos, por isso a actual derrocada vai ter um impacto muito mais profundo e durável nas nossas sociedades”, refere-nos Biancheri, que é, também, líder do movimento transeuropeu Newropeans.

A segunda reflexão: Biancheri chama, também, a atenção para o facto do contexto geopolítico ser radicalmente diferente – nos anos 1930 os Estados Unidos caminhavam a passos seguros para a sua liderança hegemónica, enquanto hoje estão “em declínio”. “E o impacto da actual crise financeira e económica reforçará ainda mais as tendências de declínio em curso”, sublinha o nosso interlocutor.

Por isso, ele considera a actual crise como “sistémica”: “Não porque o capitalismo esteja em crise como sistema, mas porque chegou ao fim a nova ordem criada no pós-guerra com Bretton Woods, e revista em 1971 (por Nixon quando decidiu abandonar a ligação do dólar ao padrão ouro) e 1976 (com o acordo da Jamaica, que decidiu a instauração de um sistema de taxas de câmbio flutuante) dando origem ao que foi designado por Bretton Woods II”.

A terceira reflexão: Biancheri considera que há uma vantagem na Europa para defrontar a crise global. “A Zona Euro vai ser a melhor protecção contra o tsunami em curso. Essa vai ser a grande diferença. Os membros da União Europeia fora da Zona Euro serão afectados mais severamente do que os outros. E alguns deles mais integrados com os Estados Unidos, como é o caso do Reino Unido, serão afectados profundamente, se não mesmo mais do que os próprios EUA”, vaticina. Arrisca mesmo prognosticar que a Inglaterra será o «doente crónico» da Europa.

Alega inclusive que a almofada social europeia será uma vantagem que se tornará óbvia e invejada neste período: “A existência de um sistema social desenvolvido é o maior activo da Europa fase à América e à Ásia, que terão de se defrontar com a emergência de criar essa rede de segurança a partir do zero, correndo o risco de enfrentar sobressaltos sociais em larga escala se não o fizerem”.

Quarta e final reflexão: Está para breve o colapso do dólar americano como moeda de referência no comércio internacional e divisa mundial. Biancheri fala mesmo, por analogia, da “queda do Muro do dólar”, que ele aponta para o Verão de 2009, vinte anos depois da queda do Muro de Berlim. Mas não advoga a sua substituição pelo euro ou pelo regresso ao padrão-ouro. Acha que deve criar-se um cabaz das principais moedas.

O relatório do Banco Mundial caiu como uma bomba. A economia mundial está sem grande esperança para o próximo ano, dizem as ‘Perspectivas Económicas Globais para 2009’, acabadas de publicar por aquele organismo internacional. O crescimento estimado é inferior a 1%, uma quebra em relação a este ano de 64% e de 76% em relação a 2007. Com a agravante, de ser feito um aviso – não se pode descartar a hipótese que a situação já de si medíocre resvale para a estagnação pura ou mesmo para uma recessão global.

A situação de alarme deriva dos países desenvolvidos (de alto rendimento per capita) entrarem quase todos em recessão em 2009 – com as situações mais graves na Zona Euro (decréscimo de 0,6%) e nos Estados Unidos (decréscimo de 0,5%) – e dos países emergentes e em desenvolvimento sofrerem no próximo ano um abrandamento económico significativo que levará a um crescimento de apenas 4,5%, quando este ano deverá fechar acima de 6% e em 2007 cresceu quase 8% (ver quadro).

Os BRIC, em particular, sofrerão um abrandamento significativo nos casos do Brasil (desacelera o seu crescimento em 46%) e Rússia (50%, a desaceleração mais grave do grupo) e menor nos casos da China (21%) e Índia (8%). No entanto, é preciso ter em conta que a China é hoje a terceira economia mundial (depois dos EUA e da Europa). O que vai trazer implicações geopolíticas nas suas estratégias de afirmação mundial.

Este abrandamento geral vai gerar uma contracção em 2009 no volume de comércio global de 2,1%, depois de este ter crescido significativamente em alguns dos anos de ouro da última vaga da globalização – quase 10% em 2006, 7,5% em 2007 e 6,2% esperado para 2008. A confirmar-se será uma situação que não se verificava desde 1982, afirma o Banco Mundial.

As pressões em baixa na procura mundial vão levar a uma tendência para o decréscimo anual médio dos preços das matérias-primas básicas. As matérias-primas básicas excluindo o crude deverão ver os seus preços cair 23,2%, ao longo de 2009, em média anual, e continuarão a cair em 2010, ainda que ligeiramente.

Por seu lado, o preço do petróleo cairá 26,4% em 2009, devendo depois subir ligeiramente no ano seguinte. Como o preço médio anual do barril de Brent em 2008 deverá ser de 100 dólares, a estimativa para 2009 aponta para 75 dólares em média anual, o que significa que os preços do mês de Dezembro de 2008 (entre o mínimo de 39 e o máximo de 49 dólares o barril) não poderão manter-se tão baixos no próximo ano, no cenário desenhado pelo Banco Mundial.