Sáb 22 Nov 2008
A hora política dos BRIC – Diário de Bordo 2
Por JNR na secção A questão dos impérios , Choque petrolífero , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , Inteligência Económica , O novo capital financeiro , sem seccao[6] comentários
Uma imagem vale por mil palavras, costuma dizer-se. E, em diplomacia, provavelmente vale muito mais.
Algumas das fotos mais difundidas da recente cimeira de Washington do G 20, nos dias 14 e 15 de Novembro, falam, de facto, por si. Na foto de família, o protocolo resolveu ladear George W. Bush com os presidentes Lula da Silva, do Brasil, e Hu Jintao, da China. Como no cerimonial do poder mundial nada nasce de caprichos do acaso, o simbolismo representa, sem dúvida, a afirmação de uma nova partilha do poder mundial está em curso.
Os BRIC, um acrónimo criado pela Goldman Sachs em Outubro de 2003 para designar as quatro maiores potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China), deixou de ser «um sonho» (como intitulava o artigo da consultora de há cinco anos atrás) para passar a ser a realidade reclamada pelo próprio comunicado do G 20.
O reconhecimento, finalmente
A cimeira de Washington reconheceu que as instituições internacionais saídas do acordo de Bretton Woods de 1944 (em que se incluem o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial), para manterem “a sua legitimidade e eficácia”, têm de ser reformadas de modo a “mais adequadamente reflectirem a mudança no peso económico” das várias grandes potências.
Basta olhar para as mudanças de peso relativo (ver quadro 1) para se observar que, à excepção da Rússia (depois da dissolução da URSS em 1991), os BRIC aumentaram o seu peso relativo no PIB mundial (medido em paridade de poder de compra) nos últimos quinze anos – com destaque para a China que é hoje a terceira economia do mundo (depois dos Estados Unidos e da União Europeia) e para a Índia que ultrapassou a Rússia. Os «media», em geral, continuam a falar do Japão como terceira (ou segunda, se não se considerar a UE como um todo) economia mundial, ignorando esta mudança decisiva.
Uma guerra contra a rigidez das instituições
A «guerra» geoeconómica de afirmação dos BRIC joga-se em vários tabuleiros e o jogo de ganhos e perdas vai observar-se ainda durante este ano e seguramente no próximo, com uma «batalha» importante na nova cimeira do G 20 marcada para 30 de Abril de 2009.
Ainda este ano, há que acompanhar com atenção o que irá decorrer no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Com base na trégua de um ano acordada, agora, em Washington para evitar decisões políticas de proteccionismo em matéria de investimentos e comércio internacional, a Ronda de Doha vai ser ressuscitada a 10 de Dezembro. Como se sabe foi a dupla China-Índia que abortou a conclusão da Ronda em Julho passado e a Índia já havia boicotado as negociações finais em Julho de 2006 na cimeira de Genebra daquela reunião ministerial.
A incógnita é saber se o grupo informal do G7 criado em 1976 (EUA, Canadá, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Japão, ou G8, incluindo a Rússia) será definitivamente arrumado no armário do pós-guerra e se um fórum mais “actualizado” surgirá.
A actual crise financeira mundial, e a manifesta incapacidade desse grupo lidar com ela, parece abrir caminho a que essa seja “a primeira rigidez do actual sistema internacional a ser removida”, diz-nos Thomas Bobinger, um jovem especialista alemão em legislação e política de segurança internacional, que trabalha no Instituto Alemão de Direitos Humanos, em Berlim, e que estudou recentemente o papel dos BRIC no novo xadrez do poder, aplicando a teoria dos ciclos de potência nas relações internacionais, em particular a metodologia do projecto «Correlates of War», da Universidade do Michigan.
Inclusive não será de descartar a hipótese da crise financeira «acelerar» o desenvolvimento de algumas tendências de mudança do xadrez geopolítico e geoeconómico.
Uma cimeira dos BRIC poderá realizar-se em 2009 na Rússia, segundo uma proposta que terá sido discutida entre o presidente brasileiro e o russo na recente visita deste último ao Brasil em Novembro.
Uns mais iguais do que outros
Nesse tabuleiro, estão, também, naturalmente as questões de geopolítica, que se prendem com os novos lugares permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Thomas Bobinger, que avaliou as pretensões do designado G 4 (Brasil, Japão, Índia e Alemanha) para se juntar aos cinco permanentes (EUA, Reino Unido, China, França e Rússia, que têm direito de veto), verificou, no seu estudo, que entre os quatro BRIC há uns mais iguais do que outros.
Um dos factos curiosos que Bobinger sublinha, desde logo, é que entre os cinco permanentes das Nações Unidas, apenas a China é uma grande potência em ascensão nos últimos trinta anos, tendo-se assistido ao declínio moderado dos EUA e muito acentuado dos outros três.
Por outro lado, entre os quatro BRIC nota-se uma discrepância, em termos de poder relativo, entre a China – cujos gastos de Defesa a colocam hoje em número dois em termos de peso mundial e com uma grande margem de crescimento em termos de parcela do seu PIB (ver quadro 2) – e os outros três grandes emergentes.
Acresce que a China é, desde Setembro, o maior credor dos Estados Unidos, tendo ultrapassado o Japão: “A China é o banqueiro americano”, diz Fareed Zakaria. Salvas as devidas proporções, algo que faz recordar o momento em que os Estados Unidos se tornaram o principal credor da Inglaterra, então a potência incumbente.
O elo mais crítico
O caso mais problemático, entre os BRIC, é o da Rússia. A sua quebra de poder relativo desde a «perestroika» é abissal – a Rússia caiu em 1998 para 1/3 do poder da antiga superpotência e, apesar da recuperação económica, política e militar com o consulado Putin e de ter um Índice de Desenvolvimento Humano superior aos outros três (ver quadro 3), o seu poder relativo é hoje, ainda, inferior ao da China e, segundo alguns, ao da Índia em termos de curvas de potência.
Bobinger aconselha, por isso, um acompanhamento da trajectória daquele país euro-asiático. Um dos cenários é de um maior risco de turbulência mundial poderá vir, no médio prazo, do desfasamento entre a imagem de poder que as elites russas reclamam que devem voltar a ter (uma hipótese a seguir é avaliar se a Rússia quererá eventualmente restaurar o lugar num núcleo restrito de superpotências, eventualmente uma «troika» com os EUA e a China) e a realidade do poder objectivo (económico, militar e político) que conseguirão alcançar com base no Plano Medvedev até 2020 apresentado em Setembro passado.
Recordemos alguns objectivos desse plano: estado de prontidão permanente; corrida tecnológica no armamento; superioridade aérea; dissuasão nuclear de novo na ordem do dia; militarização do espaço; posicionamento em nichos geográficos no mundo – saltam à vista as Caraíbas (as recentes manobras no Mar das Caraíbas da operação ‘Venrus 2008‘ com a participação de quatro barcos russos a seguir à visita de Medvedev a Caracas em Novembro de 2008 são um primeiro exemplo) e, em geral, a América Latina sensível à grande potência do Norte, o Magrebe e o Árctico -; e, finalmente, o reforço em pontos estratégicos como Sacalina e Península de Kamechateca e os Mares Negro, Cáspio e Báltico.
A teoria da «ascensão do resto»
A afirmação dos BRIC levou os americanos a desenvolverem, recentemente, um novo quadro mental geopolítico em que o «unipolarismo» é substituído pela aceitação de uma situação «multipolar» em que a superpotência incumbente se vê confrontada com “a ascensão do resto” («the rise of the rest», na expressão cunhada por Fareed Zakaria).
Esta nova análise permite manter uma ideia central: os EUA não estão em declínio como líder mundial, a sua superioridade económica e militar é ainda significativa, e os seus recursos em «soft power» são ainda enormes, apesar dos estragos de oito anos de Administração Bush. De facto, a fatia de riqueza «agregada» dos quatro BRIC (22,2% do PIB mundial em paridade de poder de compra) é ligeiramente superior à dos EUA (21,3%), mas o seu poder militar «agregado», medido pelas despesas na área da Defesa, ainda é apenas 34% do norte-americano.
Esta síntese sobre a manutenção do núcleo duro do poder mundial dos EUA é bem explicitada pelo académico Joseph Nye – o teórico da Universidade de Harvard que já referimos noutros artigos – numa entrevista à revista Harvard Business Review (Novembro 2008, rubrica ‘Different Voice’), o que o leva a considerar-se um “optimista de longo prazo sobre os Estados Unidos”.
Também o recente relatório do National Intelligence Council (NIC), intitulado Global Trends 2025, se junta a este consenso e «corrige» a visão «optimista» de 2004 em plena época de ouro de George W. Bush – esta entidade pública independente produz um relatório de quatro em quatro anos, e este é claramente uma «prenda» para a reflexão da próxima Administração Obama. Numa resposta na conferência de imprensa de apresentação do relatório, Thomas Fingar, presidente do NIC, explicitou: “Falamos em termos de poder relativo, não absoluto (…) O que sublinhamos, agora, é a ascensão do resto, mais do que o declínio dos EUA. E isto é uma boa coisa”.
Contudo, o xadrez mundial não é elástico. E se sobe o resto, tem de descer a outra parte, sobretudo num horizonte até 2025. Mas isso é extremamente difícil de visualizar pelos americanos – sobretudo, agora, com as elevadas expectativas na Administração Obama. Como nos referiu Joseph Nye: “Penso que Obama mostrou a capacidade para juntar o «hard» e o «soft» na sua estratégia de campanha, o que augura que possa fazer o mesmo numa estratégia internacional de «smart power»”. «Poder inteligente» em geopolítica é a palavra-chave de Nye, a que já nos referimos em artigo anterior e numa entrevista a propósito do seu último livro.
Esta reafirmação da confiança no estatuto de poder dominante no mundo surge, agora, em virtude das acusações de “inexperência” internacional do Presidente-eleito e de haver uma corrente que advoga abertamente – e que o reclama junto de Obama – um plano de «downsizing» do império.
Preocupante, de qualquer modo, a conclusão tirada pelo relatório do NIC: “As rivalidades estratégicas poderão surgir em torno do comércio, dos investimentos e da inovação e aquisição tecnológica, mas não podemos colocar de parte um cenário do tipo do século XIX, com corrida armamentista, expansão territorial e rivalidades militares”. E, mais adiante: “Poderão reemergir tipos de conflitos que estiveram arredados durante algum tempo – como os conflitos por recursos”. Aspectos a que já nos referimos neste blogue.
QUADROS
Quadro 1
Evolução do Peso no PIB mundial (%)
em paridade de poder de compra
em 1991 e 2007
EUA: 19; 21,3
China: 7,4; 11,5
Rússia: 3,8; 3,2
Índia: 3,7; 4,6
Brasil: 2,5; 2,9
Fonte: Banco Mundial
Quadro 2
Gastos em Defesa
Por % mundial; % do PIB nacional; Gasto por militar no activo (milhares de dólares)
EUA: 48,3; 5; 507,8
China: 8,3; 1,6; 55,5
Rússia: 5; 3,3; 53,8
Índia: 1,8; 0,9; 20,3
Brasil: 1,7; 1,4; 84,7
Fonte: SIPRI e Globalissues.org, dados em 20/02/2008
Quadro 3
Índice do Desenvolvimento Humano
Em 1990 e 2005
EUA: 0,976 ; 0,951
Rússia: 0,908; 0,802
Brasil: 0,759; 0,800
China: 0,614; 0,777
Índia: 0,308; 0,619
Fonte: UNDP, relatórios de 1991 e 2007/2008
Novembro 25th, 2008 at 13:21
Caro Jorge Rodrigues,
Aproveito para fazer alguns comentários sobre o seu artigo.
“…Um dos factos curiosos que Bobinger sublinha, desde logo, é que entre os cinco permanentes das Nações Unidas, apenas a China é uma grande potência em ascensão nos últimos trinta anos, tendo-se assistido ao declínio moderado dos EUA e muito acentuado dos outros três. …”
Se realmente olharmos para os últimos 30 anos, concordo com o que Bobinger afirma, mas se reduzirmos o intervalo para a última década, mantemos a ascensão da China (embora com uma aceleração na ascensão), mas para os EUA e os outros três temos uma mudança no gráfico. o declínio dos EUA torna-se bem mais acentuado, e para os outros três temos uma inversão no gráfico, sobre o qual sobressai a Rússia.
“…Por outro lado, entre os quatro BRIC nota-se uma discrepância gritante, em termos de poder relativo, entre a China – cujos gastos de Defesa a colocam hoje em número dois em termos de peso mundial e com uma grande margem de crescimento em termos de parcela do seu PIB (ver quadro 2) – e os outros três grandes emergentes…”
Eu discordo desta sua afirmação. Discrespância gritante, posso concordar comparando os gastos do Brasil e os outros 3. São níveis completamente diferentes, (eu não estou a perceber bem alguns dos dados do quadro 2, tenho que verificar as fontes de onde se baseou), além de que dos BRIC, o Brasil é o único que não é uma potência nuclear (militarmente falando)
Os grandes gastos são realmente feitos pela China (que tem muito material obsoleto e não é compatível com o que as potências que a desafiam/rodeiam (EUA, Japão, Taiwan, Coreia do Sul) e que decidiu apostar na modernização das suas forças, sendo esse um dos principais objectivos da China.
A India, eu sempre vejo a India como um rival da China e tenta acompanhar a China neste sector. Mas eu vejo uma China muito determinada, com planos a longo prazo e penso sempre que a India simplesmente não quer ficar demasiado atrás.
Mas o que estes dois têm em comun é que são clientes da Rússia. Os seus gastos serão sempre maiores, porque têm que adquirir externamente o material mais sofisticado.
A Rússia não. A Rússia tal como os EUA, são produtores autónomos e que detêm para si próprios o material mais sofisticado, que nem está para venda para os seus clientes/aliados. A Rússia não depende de ninguém e está a gastar actualmente, muito. muito mesmo.
Os EUA são de longe, mas de muito longe os que gastam mais. Mas logo atrás fica a Rússia, em termos de poder. A China necessita de um salto tecnológico que ainda não conseguiu dar (mas que está a lutar arduamente por isso) e deixar de depender de terceiros.
Destes 4 (EUA, Rússia, China, India), não vou contar com o Brasil, porque o considero num outro patamar, temos alguns pormenores interessantes.
EUA – Super-potência, não depende de terceiros, investe fortemente em novos tipos de armas, mas tem um sector enorme para manter, onde uma grande fatia vai para a manuntênção de todas as bases e forças espalhadas pelo o mundo, acrescido do gastos com ordenados dos militares e ainda os conflitos existentes.
Rússia – Super-potência únicamente a nível nuclear, começa a investir fortemente em novos tipos de armas, mas detém um atraso significativo devido à queda da URSS, não depende de terceiros, e não necessita de canalizar dinheiro para bases e forças espalhadas pelo o mundo embora os gastos com os militares vão ter tendência a aumentar, dados os planos de completa profissionalização dos mesmos, tem conflitos de baixa intensidade, que não influênciam significativamente os gastos.
China – Potência regional que aposta em crescer a nível militar, de modo a desafiar os EUA na região. Depende da Rússia para obter material de qualidade, pois o que consegue produzir não é suficiente para responder aos EUA. Investe sériamente para ser independente, mas tal ainda não é possível.
India – Potência regional que aposta em crescer a nível militar de modo a manter o seu status na àrea. Depende principalmente da Rússia para obter material de qualidade e começa a investir em conhecimento, como se nota nas parcerias com a Rússia em algumas novas armas a serem desenvolvidas.
Mais um pormenor, tanto a China como a India começaram a gastar mais, porque a Rússia começou a praticar preços muito mais elevados, comparados com os que a URSS fazia. Mas ainda assim são mais mais baratos que os equivalentes (quando estes existem), que são construidos pelos EUA/Europa.
Além disso, existe o factor político. A China por exemplo, nunca conseguirá comprar material aos EUA e a Europa não vende por pressão americana. A Rússia está a fazer hoje pleno uso destes factores, dado que a sua situação económica/política, permite negociar com muito mais dureza os contractos. Material russo, novo e barato acabou.
“…O caso mais problemático, entre os BRIC, é o da Rússia. A sua quebra de poder relativo desde a «perestroika» é abissal – a Rússia caiu em 1998 para 1/3 do poder da antiga superpotência e, apesar da recuperação económica, política e militar com o consulado Putin e de ter um Índice de Desenvolvimento Humano superior aos outros três (ver quadro 3), o seu poder relativo é hoje, ainda, inferior ao da Índia…”
Eu discordo. Claro que perdeu poder, mas que poder relativo é este que considera inferior ao da India?
“…Recordemos alguns pontos desse plano: estado de prontidão permanente, corrida tecnológica no armamento, superioridade aérea, dissuasão nuclear de novo na ordem do dia, militarização do espaço e posicionamento em nichos geográficos no mundo – salta à vista Caraíbas (as recentes manobras no Mar das Caraíbas de quatro barcos russos aquando da visita de Medvedev a Caracas são um primeiro exemplo), Magrebe, Árctico – e reforço em pontos estratégicos como Sacalina e Península de Kamechateca, Mares Negro, Cáspio e Báltico…”
Repare, que básicamente é dizer que têm dinheiro para canalizar, de modo a cumprir os objectivos traçados. porque todos os que refere já são uma realidade hoje. prontidão permanente a nível nuclear, corrida tecnológica está a ser feita, superioridade aérea existe grande expectativa, pois está anunciado para 2009, a resposta ao americano F-22, o que a ser verdade irá gerar um grande burburinho. A militarização do espaço depende da actuação dos EUA, estes querem avançar com isso e está a ser denunciado por muita gente (eu também acho uma loucura ir por esse caminho), pois irá abrir uma caixa de pandora. Desses pontos estratégicos falta um muito importante. O Mediterrâneo. A Rússia mostra ter vontade re-estabelecer uma base do lado de fora do Mar Negro, de modo a colocar em xeque os movimentos americanos/NATO e para complementar isso, está a vender material sofisticado à Líbia e Argélia que coloca em perigo os porta-aviões de passagem, ao mesmo tempo que adquire direitos de exploração e transporte de gás e petróleo nestes países (a Rússia está a colocar uma mão no abastecimento de gás destes países à Peninsula Ibérica).
“…Esta nova análise permite manter uma ideia central: os EUA não estão em declínio como líder mundial, a sua superioridade económica e militar é ainda significativa, e os seus recursos em «soft power» são ainda enormes, apesar dos estragos de oito anos de Administração Bush. De facto, a fatia de riqueza «agregada» dos quatro BRIC (22,2% do PIB mundial em paridade de poder de compra) é ligeiramente superior à dos EUA (21,3%), mas o seu poder militar «agregado», medido pelas despesas na área da Defesa, ainda é apenas 34% do norte-americano…”
Eu também discordo. os EUA estão em declínio como líder mundial e acho este caminho irreversível. Em relação às despesas na Àrea da Defesa, eu já respondi um pouco mais acima. Mais, estas despesas estão dependentes da saúde económica. Não podemos fazer omoletes sem ovos. Os EUA têm uma moeda em declínio, têm uma dívida astronómica, são os maiores importadores de petróleo e têm muitos inimigos que em nada irão fazer para ajudar a colocar os EUA no topo, pois esses mesmos inimigos preferem uma queda a um confronto.
O enfraquecimento económico americano, não lhes vai dar hipótese, vão ter que reduzir o orçamento militar e com a respectiva perda de influência em vários pontos do mundo.
“…Preocupante, de qualquer modo, a conclusão tirada pelo relatório do NIC: “As rivalidades estratégicas poderão surgir em torno do comércio, dos investimentos e da inovação e aquisição tecnológica, mas não podemos colocar de parte um cenário do tipo do século XIX, com corrida armamentista, expansão territorial e rivalidades militares”. E, mais adiante: “Poderão reemergir tipos de conflitos que estiveram arredados durante algum tempo – como os conflitos por recursos”. …”
Esta é também a minha opinião, vamos ver novos conflitos, com a re-organisação do mapa geopolítico.
Hoje, apeteceu-me falar. Bom, caso em algo que eu tenha dito, queira que eu lhe forneça links, dando suporte ao que fui dizendo, é só pedir.
Cumprimentos,
PortugueseMan
Novembro 25th, 2008 at 18:47
O artigo pretendia chamar a atenção para dois aspectos a que não me tenho referido:
1- O surgimento nos Estados Unidos de um ponto de vista que procura acomodar a “ascensão do resto” com a manutenção da ideia de uma superpotência sem beliscadura na substância; ponto de vista que me parece frágil, para mais agora reforçado pela eleição de Obama, ainda que os dados não me levem a concluir que os EUA estejam “irreversivelmente” em declínio;
2- A chamada de atenção do estudo de Bobinger para o facto de que se pode desenvolver um «gap» entre a percepção que a Rússia tem hoje do seu papel no mundo (e o desejo de o fazer reconhecer de novo, mantendo um patamar de objectivos próximo da paridade com os EUA, como aconteceu com a URSS)e a sua capacidade efectiva, o que pode gerar uma situação de risco.
Há factos que apontam para uma recuperação pela Rússia de algum poder relativo económico, militar e político desde 2001, e para uma nova projecção de «soft power» em várias geografias do Planeta, usando como marketing político e diplomacia económica instrumentos de «hard power» como o militar ou os recursos energéticos.
Mas os dados objectivos disponíveis – parte da bateria de indicadores usados pelo projecto ‘Correlates of War’ por exemplo – não confirmam que a Rússia tenha capacidade, por ora, para se aproximar da imagem que quer fazer passar.
No entanto, há um problema que deve ser salientado – as investigações aplicando o modelo do projecto ‘Correlates of War’ ou o modelo inicial dos fundadores da teoria dos ciclos de potência continuam a estar em atraso em relação aos dados que já estão disponíveis para 2004 em diante.
Pelo que continuo a investigação de mais autores que estejam a abordar este assunto dos ciclos de potência, além dos que já citei – Dylan Kissane e Thomas Bobinger.
Novembro 25th, 2008 at 18:58
Parece-me muito pertinente a sua chamada de atenção sobre a estratégia no Mediterrâneo, que eu referia citando o caso do Magrebe.
Este seu ponto do comentário merece destaque especial, pelo que nos toca directamente: “a Rússia está a colocar uma mão no abastecimento de gás destes países à Peninsula Ibérica”.
O que significa que a Península Ibérica – apesar da sua inserção na União Europeia – pelo seu posicionamento estratégico na ponta da Europa poderá regressar à zona potencial de embate entre jogos de grandes potências,o que se chama o «shatterbelt» em geopolítica.
Novembro 26th, 2008 at 17:55
“1- O surgimento nos Estados Unidos de um ponto de vista que procura acomodar a “ascensão do resto” com a manutenção da ideia de uma superpotência…”
Na minha opinião tal situação, já demonstra uma fraqueza por parte dos EUA, se outras potências estão a crescer, não é porque os EUA assim o permitem, mas sim a impossibilidade de contrariar esse movimento. Eu penso que a situação já está mal há alguns anos e estamos neste momento num ponto crítico. Aguardo com muita expectativa o que vai Obama vai fazer já em 2009. Para confirmar a gravidade da situação, eu espero ver uma redução drástica no Orçamento de Defesa, porque é o sector que salta à vista e não tem muito mais por onde cortar. O grande problema para Obama é que o corte na defesa, implica grandes alterações para o estatuto de super-potência e a sua influência no mundo. E logo agora que tanto a China como a Rússia crescem em termos de perigosidade. Outro pormenor que acho deveras importante ver é o que Obama vai decidir em relação ao escudo antí-missil na Europa. Se Obama fôr para a frente com o escudo, acho um péssimo sinal que os EUA dão, sobre os seus reais planos e teremos um grande agravamento das relações entre EUA/NATO e Rússia, cabendo neste caso à Europa decidir o que quer para o seu futuro.
“2- A chamada de atenção do estudo de Bobinger para o facto de que se pode desenvolver um «gap» entre a percepção que a Rússia tem hoje do seu papel no mundo (e o desejo de o fazer reconhecer de novo, mantendo um patamar de objectivos próximo da paridade com os EUA, como aconteceu com a URSS)e a sua capacidade efectiva, o que pode gerar uma situação de risco….”
A visão de Bobinger é realmente diferente da minha., eu não vejo que a Rússia queira recuperar o status de super-potência, respondendo taco a taco com os EUA.A Rússia não está a agir mas sim a REagir aos movimentos dos EUA, que aproveitaram e bem, a fraqueza da Rússia, para tomar de assalto toda a sua esfera de influência. A agressividade de hoje da Rússia e que tem estado a aumentar, tem como objectivo principal, colocar um travão aos movimentos americanos, principalmente na Europa de Leste e Àsia Central e enquanto os EUA não perceberem que a Rússia está cada vez mais preparada, para fazer valer os seus interesses, a agressividade não diminuirá, antes pelo o contrário. Uma vez mais a Europa tem um papel importante e é necessário perceber que tipo de relação a Europa quer com a Rússia.
“…Parece-me muito pertinente a sua chamada de atenção sobre a estratégia no Mediterrâneo, que eu referia citando o caso do Magrebe…”
“…O que significa que a Península Ibérica – apesar da sua inserção na União Europeia – pelo seu posicionamento estratégico na ponta da Europa poderá regressar à zona potencial de embate entre jogos de grandes potências,o que se chama o «shatterbelt» em geopolítica…”
Caro Jorge Rodrigues, este assunto choca com uma outra perspectiva, que nunca pensei vir a ver e que passei a olhar com mais atenção. Acompanho o evoluir de muitos países e os seus posicionamentos estratégicos e nunca pensei incluir Portugal que me parece a mim querer crescer a nível estratégico. Portugal parece ter planos a médio/longo prazo que a ser verdade vai alterar imenso a nossa importância e força política. É interessante e vejo com muita expectativa o que se irá passar em 2009/2010.
Novembro 26th, 2008 at 19:45
1- Sobre querer e poder da Rússia, Bobinger chama a atenção para uma hipótese (sublinho hipótese) de um «gap». Muitos destes trabalhos dos ciclos de potência servem como colocação de hipóteses a seguir. Pois partem do princípio que havendo padrões de comportamento que se podem detectar, a realidade evolui, contudo, de um modo surpreendente.
2- Sobre reacção e acção – a Rússia começou por reagir sem dúvida à perda de partes da antiga zona de influência da URSS na Europa e Ásia Central desde 1991, mas parece-me que tem estado a evoluir ao longo do tempo para um plano de projecção geoestratégico que vai muito para além disso. Daí vários movimentos em geometria variável no mundo, que não são apenas pedras para trocar. Se tal pode ir até à ambição de partilhar uma «troika» mundial, veremos. É uma hipótese que não descarto.
3- Portugal no «shatterbelt»,de novo, a se confirmar posicionamento russo no Mediterrâneo Ocidental. É uma situação que reintroduz factores de risco que não sentíamos desde 1975 e que colocará constrangimentos maiores nos movimentos portugueses.
Dezembro 11th, 2008 at 15:57
Os EUA tem decaido muito, a econômia Norte Americana tem caido, a Rússia e a China tem se fortalecido, econômicamente e militarmente, a China de terceira sera a maior econômia do mundo, era uma vez EUA!