Seg 20 Out 2008
A maldita geopolítica
Por JNR na secção A questão dos impérios , Choque petrolífero , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica , Inteligência Económica , O novo capital financeiro , sem seccaoainda sem comentários
Síntese: A surpreendente escalada geopolítica da China em 30 anos. As duas grandes potências da Ásia do Pacífico (China e Japão) dominarão 69% do sistema mundial de poder. Mas só a China terá mais poder do que a soma das duas seguintes, Estados Unidos e Japão. É uma mudança brutal. São as tendências que o investigador Dylan Kissane, da Austrália, extrapolou até 2030, a cujo trabalho inicial já nos referimos.
A actual crise financeira já levou muitos analistas e alguns políticos a falarem do ocaso da “superpotência financeira”. Com os Estados Unidos a sofrerem um «crash» severo do Dow Jones como já não se via desde 1974 e manifestando alguma desorientação na forma de lidar com o pânico e a desconfiança nos mercados financeiros, os factos parecem dar razão ao argumento do inexorável declínio americano.
Apesar de se tratar de um sinal óbvio, o investigador Dylan Kissane, da School of International Studies, da Universidade do Sul da Austrália, perto de Adelaide, recomenda alguma cautela. Mas chama a atenção para o período de vinte anos que temos pela frente. A geopolítica vai sofrer profundas alterações, algumas surpreendentes.
O facto mais relevante do estudo prospectivo de Kissane sobre as tendências de evolução no sistema mundial de grandes potências é que a China ultrapassará os Estados Unidos em poder relativo em 2015 – daqui a sete anos. E que esta potência asiática atingirá uma percentagem de poder relativo quase tão grande quanto a soma do poder das duas grandes potências seguintes, os EUA e o Japão. É, de facto, uma mudança brutal.
A reemergência da Ásia
A viragem do eixo do mundo para o Oriente não é novidade. O economista Angus Maddison divulga, desde há anos, cenários que referem que, em 2030, a Ásia dominará 53% do PIB mundial – com a China representando 24%, a Índia 10% e o Japão 3,6%. Já referimos, noutros trabalhos, o seu último livro Contours of The World Economy: 1-2030 AD (publicado pela Oxford University Press, em 2007), bem como o seu sítio na web na Universidade de Groningen.
Perante esse espaço gigante, os Estados Unidos representarão 17%, a União Europeia (ainda a 15) 13% e a Rússia 2%. No fundo, a Ásia (do Índico ao Pacífico) retomaria o seu lugar de primeiro mercado do mundo que havia ocupado desde os séculos IX (68%) ao XVIII (56%).
Contudo, a evolução em termos de PIB não se traduz automaticamente em poder geopolítico e em hegemonia, ainda que haja uma correlação que convém acompanhar de perto.
Também é de ter em conta outro facto – aparentemente paradoxal – de que uma grande potência pode ter um poder geopolítico muito superior ao seu poder económico. Portugal foi, aliás, um caso paradigmático no século XVI – detinha apenas 0,2% do PIB mundial mas dominava o comércio global da época e era a superpotência marítima. O mesmo se passaria com a Holanda no sec. XVII (1,1% do PIB mundial), a potência marítima dominante. O próprio Reino Unido, no auge da Rule Britannia em 1870, detinha, apenas, 9% do PIB mundial.
A extraordinária reemergência económica da Ásia no século XXI aponta, de facto, para uma tendência geopolítica num dado sentido que os estudos de Kissane sobre os ciclos das principais potências comprovam.
As consequências seriam duas:
a) um disparo “logarítmico” do peso da China no xadrez do poder global (passa de 20% este ano para mais do dobro, 45% em 2030!), atingindo um peso desproporcionado que só o Império Britânico dispôs até meados do século XIX e os Estados Unidos episodicamente no pós-2ª Guerra Mundial até meados dos anos 1950; numa geração, em 30 anos, a China triplicaria o seu peso relativo na geopolítica;
b) e uma subida contínua de peso geopolítico do Japão (passa de 17% actualmente para mais de 20%), que, aliás, se tem observado desde os anos 1950, apesar das suas dores económicas desde os anos 1990 e do seu peso no PIB mundial ser muito inferior ao da China, EUA e Europa. Em 2030, o Japão aproxima-se, surpreendentemente, do poder dos EUA, nesta simulação de Kissane.
O declínio americano numa perspectiva longa
A subida dos dois gigantes asiáticos, a par de uma muito ligeira queda do peso dos Estados Unidos (que se manteria, entre hoje e 2030, em torno dos 25% de peso mundial), significa que o ganho asiático não se faz à custa de um futuro dramático e súbito declínio americano.
O declínio americano vem de trás, desde 1966 (quando os EUA pesavam 32%, sendo a superpotência hegemonista). Depois de uma perca de poder face à URSS nos anos 1980 – em que esta atingiria o seu pico histórico -, os EUA recuperam poder depois da implosão do império soviético, tornando-se a famosa “superpotência sozinha”. Mas voltam a declinar a partir de 2001 ainda que lenta e ligeiramente.
Mas se a China e o Japão crescem sem ser à custa dos EUA, isso significa que outras grandes potências actuais perderão, relativamente, muito poder.
Um dos casos – que pode espantar o leitor – é o da Rússia. Apesar da estratégia de Putin desde o final dos anos 1990, do actual Plano militar de Medvedev até 2020 (acompanhado de projecções de poder nas fronteiras da Europa Oriental e provavelmente nas Caraíbas, aproveitando a oportunidade criada pela Venezuela, ou mesmo no espaço Árctico, indo ao ponto de se tornar o salvador financeiro da estratégica Islândia) e da estratégia de criação de um cartel do gás (para poder manipular politicamente este mercado vital), a Rússia não voltará jamais aos 30% de poder que a URSS dispunha no pico dos anos 1980, antes de implodir, e acentuará, ainda mais, o seu declínio a partir de 2015, até se tornar um poder menor.
O ano simbólico de 2015
O ano de 2015 surge, de facto, como um momento simbólico pela convergência de diversos aspectos. A China ultrapassará em peso político mundial os Estados Unidos e o Japão passará claramente adiante da Rússia. O Pacífico, pela primeira vez, torna-se um “lago quente” com quatro grandes potências nos seus bordos – duas em clara ascensão, uma em queda acentuada e outra em declínio ligeiro.
O que poderá resultar deste ponto de convergência é, ainda, uma incógnita, sublinha Dylan Kissane. Significará essa subida ao primeiro lugar que a China abandonará a sua estratégia actual de «soft power» na projecção mundial para passar a uma opção mais agressiva nomeadamente face à superpotência incumbente. Kissane diz-nos que não: “A China não mudará necessariamente a sua estratégia. Mas, a meu ver, pelo menos até 2015, a China tem todos os incentivos para continuar a actual política mais centrada na supremacia económica, na melhoria da imagem, do que no envolvimento militar”.
O investigador radicado na Austrália ainda não introduziu sistematicamente nos seus cenários a União Europeia nem outros BRIC, como a Índia e o Brasil. O modelo com que tem estado a trabalhar é “fechado” às quatro potências referidas. Pelo que a introdução de outras potências alterará, sem dúvida, os pesos relativos, mas não modificará substancialmente as tendências.
Quanto à Europa, o seu poder geopolítico agregado rondaria, actualmente, os 17%, superior ao da Rússia, mas não o suficiente para evitar a vulnerabilidade das fronteiras orientais do continente, o que é designado pelos especialistas como «shatterbelt», ponto de embate entre potências.
Por isso, Kissane considera que a integração política e militar da Europa é a grande interrogação destas duas primeiras décadas e a única saída política para a União Europeia, se não quiser tornar-se num actor irrelevante no cenário do sistema de poder mundial em 2030.
Nota Metodológica
Dylan Kissane em artigo científico recente (“Forecasting the Storm: Cycle Theory and Conflict in the Major Power System”) explica as modificações a que procedeu nos indicadores usados pelos fundadores da teoria dos ciclos de potência, Charles Doran e Wes Parsons, no artigo de 1980 – “War and the Cycle of Relative Power”, publicado na revista American Political Science Review (nº74). Refere, também, as limitações do seu modelo de extrapolação de tendências, que aborda sobretudo a evolução de três grandes potências, China, Japão e EUA.