Um dos campos de batalha comunicacional tem sido a questão do papel dos especuladores no mercado de «commodities», e particularmente no crude. O dedo tem-lhes sido apontado como responsáveis pelo disparo do preço. Para as potências ligadas ao cartel do petróleo e para muitos grupos petrolíferos é um alvo fácil e popular.

Mas terá fundamento? Não, na dimensão que lhe atribuem. O cómico da questão é que é a própria OPEP a contradizer-se.

Paradoxalmente, no período em que assistimos ao maior disparo do preço do crude (meados de Junho a meados de Julho), os especuladores financeiros tinham arrefecido substancialmente a sua intervenção desde há mês e meio no mercado dos «barris de papel».

Os especuladores (fundos e bancos de investimento) tiveram o seu período mais quente entre meados de Fevereiro e final de Maio, com um pico de intervenção, nos primeiros nove meses, na semana de 10 a 14 de Março – ora é sabido que o máximo histórico do preço do crude ocorreu na semana de 31 de Maio a 4 de Julho.

Recorde-se que a OPEP responsabilizou, na altura, a especulação (e a desvalorização do dólar em menor medida) pela alta. Ainda, recentemente, o líbio Abdalla Salem El-Badri, secretário-geral do cartel petrolífero, reafirmou oficialmente tal ponto de vista ao boletim da organização (edição de Setembro 2008): “Em última análise, são os especuladores financeiros e o papel das casas de investimento, juntamente com os «hedge funds», que têm sido os motores da subida dos preços para níveis recorde”.

A ironia é que é a própria OPEP, no seu relatório de finais de Agosto (Monthly Oil Market Report), que publica um gráfico (gráfico nº7, na página 10 do relatório) de evolução dos saldos das posições em milhares de contratos de futuros pelos especuladores (tecnicamente designados por «não-comerciais») no mercado do crude americano WTI em que fica visível a discrepância de um dos picos de intervenção da especulação em Maio e o máximo do preço do barril em Julho.

Um outro estudo do investigador Pedro de Almeida, professor da Universidade da Beira Interior, abrangendo os investimentos dos «não-comerciais» em futuros e opções e contando a partir de Janeiro deste ano, revela o mesmo perfil de divergência das duas curvas.

Contexto político

Esta constatação estatística surge na mesma altura em que o Senado norte-americano discute legislação para limitar a especulação no mercado do crude, depois de vários meses de pressão por parte de políticos e de analistas dos EUA responsabilizando os investidores financeiros de fora do sector de manipularem aquele mercado.

Um dos estudos que tem servido de suporte à campanha é o da Masters Capital Management que afirma ter avaliado dois fluxos “por extrapolação” – um de 60 mil milhões de dólares aplicados por parte de investidores financeiros no mercado de futuros do crude durante os primeiros seis meses e outro de saída posterior no valor de 39 mil milhões. A consultora «cola» automaticamente os dois fluxos ao sobe e desce do preço do barril este ano (artigos sobre o tema aqui). Muitos analistas apontam o dedo à J.P Morgan, Goldman Sachs e Morgan Stanley, que controlam 70% das posições em «swaps» de «commodities».

Contudo, o organismo regulador, a Commodities Futures Trading Commision já por duas vezes rejeitou tal «colagem» feita pela Masters Capital Management alegando não ter fundamento técnico – quer num relatório de 23 de Julho como mais recentemente a 11 de Setembro.