Ter 28 Out 2008
As cinco vítimas da crise – Diário de bordo 1
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Globalização , O novo capital financeiro1 comentário
Por ora, como hipótese de trabalho, haverá CINCO vítimas identificadas na morgue e DUAS nos cuidados intensivos. São efeitos com impactos na geopolítica.
Os cinco cadáveres
1. A equipa dos GS «boys» capitaneada por Henry Paulson, o secretário do Tesouro americano
A manifesta desorientação estratégica de Paulson deu a pazada final na Administração Bush, nas hipóteses do candidato republicano e no prestígio da Goldman Sachs, a quem já alcunhavam de “Government Sachs”.
Até Gordon Brown (‘Flash’ Gordon, como lhe chamou o Nobel Paul Krugman na sua coluna de opinião no The New York Times) renasceu das cinzas e conseguiu marcar pontos a favor da City londrina e da declinante potência britânica. Mais uma machadada no «soft power» americano – agora no próprio terreno do mundo financeiro.
No entanto, antes de fechar a porta, Paulson não se esqueceu dos «seus». Preparou um pacote de 125 mil milhões de dólares para os nove maiores bancos (8% do montante para a «sua» GS), que, segundo os avaliadores, é o dobro do que deveria ser. Uma «prenda» de Natal dos contribuintes americanos.
2. O mito Alan Greenspan, que liderou durante 18 anos a Reserva Federal americana até 2006, deixando uma prenda envenenada ao sucessor e ao segundo mandato de Bush
O golpe de misericórdia no ex-czar da FED – a quem chegaram a cognominar de ‘O Maestro’ – foi dado por uma capa «assassina» da revista Newsweek na semana negra de 20-24 de Outubro: «Blame it on him!». Depois, numa audiência no Congresso, o «czar» acabou por confessar que errou “parcialmente”.
O tema de uma mais apertada regulação dos mercados financeiros e do erro grave da revisão em 1999 de uma lei (Glass-Steagall Act ou Banking Act, 1933) que vinha do pós-crash de 1929 ganhou vários pontos. É claro que, agora, subitamente toda a gente se esqueceu dos beneficiários dos «erros» de Greenspan – todo o sistema que desfrutou de duas «bolhas» recentes, a das «dot-com» e do imobiliário.
3. Os “tigres” também se abatem
Países tidos como modelos de crescimento na OCDE – os «tigres» dos anos 2000 – subitamente ruíram como castelos de cartas – Islândia (falência), Irlanda (entrada em recessão), Espanha (idem), e fala-se da Nova Zelândia em breve.
Que sobra do modelo?
4. Wall Street em apuros – a criatividade financeira vai ser o seu beijo da morte
O fenómeno é cíclico – as bolsas acendem-se com alta criatividade para gerar as «bolhas» de que o capitalismo financeiro (e uma boa parte da economia real) necessita como pão para a boca. O ‘capital fictício’ desenvolve-se loucamente para depois estoirar levando tudo o que está à volta. Uma vez mais, foi a Wall Street que esteve no epicentro do fenómeno «criativo», um fenómeno tão velho desde que os holandeses inventaram os futuros nos anos 1600.
O «soft power» da Wall Street nova-iorquina sofreu o seu maior abalo desde 1929, maior do que o próprio 11 de Setembro. Para muita gente foi o beijo da morte na sua liderança mundial no circuito da alta finança. Por debaixo do discurso ideológico apressado sobre a “refundação do capitalismo” é esta questão comezinha que está na mesa. O resto é floreado.
Há três aspectos a seguir com atenção neste capítulo da transição no actual longo ciclo do capital financeiro (cuja primeira análise brilhante foi feita por Rudolf Hilferding em 1910 e a segunda provavelmente a realizada por Peter Drucker sobre a “revolução dos fundos de pensões“, em 1972):
a) até onde irá a mudança de poder relativo na alta finança em direcção aos Fundos Soberanos e aos Bancos centrais dos países asiáticos e de petrodólares com altos excedentes de divisas? Momento chave: observar até que ponto os BRIC irão coordenar a sua estratégia financeira na cimeira do G20 em 15 de Novembro.
b) até que ponto o actual descalabro na Wall Street e a incapacidade do Tesouro e da FED americanas implicarão um desgaste irreversível no «soft power» dos Estados Unidos, colocando a descoberto um «gap» cada vez maior entre, por um lado, a sua ainda superior capacidade de projecção militar e, por outro, a perda de atracção ideológica e política dos últimos oito anos?
c) qual é o figurino de brutal e descarada concentração bancária nos países da OCDE que resultará da actuação da «mão visível» dos Estados nos bancos privados cotados em apuros?
5. A terapia «japonesa» dos cortes das taxas de juro
Os japoneses já o fazem desde os anos 1990 e pararam em 2001 quando a taxa ficou nos 0,5%. A terapia é usar taxas de juro reais negativas (ou seja, taxas de juro inferiores à inflação) como alavanca «keynesiana», diríamos com humor. Sem grandes resultados, como se sabe no caso do Japão – ainda, recentemente (no final de Outubro de 2008), o Banco do Japão (BoJ) baixou de 0,5% para 0,3% (tome-se em linha de conta que a inflação actual é de 2,4%). A taxa japonesa não era mexida desde 2005 quando foi subida para 0,5%, e mesmo assim os membros do conselho do BoJ dividiram-se, agora, a meio. O governador do BoJ teve de desempatar.
Um analista americano, James Grant, que publica o Grant’s Interest Rate Observer, resumia, recentemente, na revista Foreign Affairs esta medicina perniciosa: “O Japão, ao recusar-se a deixar a sua ‘bolha’ deflaccionar, sofreu uma década de estagnação económica”. O custo de longo prazo está a ser muito superior ao custo político que era estimado em deixar a ‘bolha’ rebentar completamente. E explicou-nos: “É preferível deixar os preços encontrar um nível em que os compradores e os vendedores transaccionem livremente, do que tentar fixá-los por via administrativa”.
Ben Bernanke, da FED, meteu-se pelo mesmo caminho de sentido único desde a crise do «subprime». A taxa de juros já baixou para 1% – um valor que vigorou entre Junho de 2003 a Junho de 2004 e que gerou a segunda «bolha» na última década. No entanto, Jeff Rubin da CIBC alega na edição da StrategEcon (de 31 de Outubro de 2008) que é preferível baixar rapidamente a taxa de juros até 1% – como fez Bernanke em menos de um ano – do que arrastar esse processo por cinco anos como fizeram os japoneses nos anos 1990.
Os europeus do BCE têm sido mais comedidos do que a FED.
Os analistas já não auguram a Bernanke grande margem de manobra neste final de mandato da Administração Bush. O novo «czar» da FED perdeu a credibilidade, apesar dos esforços para se manter à tona de água como bóia de salvação de último recurso. O mandato de Bernanke só termina em finais de Janeiro de 2010 – o que é uma prenda envenenada para o próximo presidente americano.
Dois sinistrados nos cuidados intensivos
1. O domínio absoluto do dólar desde o golpe de Nixon em Agosto de 1971
São cada vez mais as vozes a reclamarem um novo sistema financeiro internacional, liquidando o domínio do dólar. São, por ora, andorinhas que ainda não fazem a primavera – mas a sua expressão vocal é cada vez mais alta e transversal.
Os participantes da última cimeira do Mercosur (27 de Outubro) já reclamam o objectivo de uma moeda única sul-americana e a descolagem do dólar – imitando os europeus da Zona Euro. O jornal oficial chinês, ‘Diário do Povo’, argumentou, no dia de fecho (25 de Outubro) da cimeira euro-asiática em Beijing que os participantes deveriam abandonar o dólar nas suas transacções de comércio directas.
O ex-primeiro ministro da Tailândia já propôs o lançamento de obrigações asiáticas baseadas no que chamou de “dólar externo”. Num manifesto exagero de retórica (por ora), um membro do governo daquele país declarou que a divisa chinesa (o yuan) deveria ser considerada a verdadeira moeda convertível do mundo.
Um membro do conselho do Banco Central Europeu, Ewald Nowotny, considerou que era fundamental o desenvolvimento de um sistema “tripolar” de divisas.
O cómico da situação chegou ao ponto de Gordon Brown apelar aos dólares “externos” da China e aos países de petrodólares para darem a mão ao Fundo Monetário Internacional que se arrisca a ficar sem fundos por ter de apagar tantos fogos.
Também consta que Paulson e o seu «staff» do Tesouro americano estão em contacto directo diário com o Ministério das Finanças de Beijing. Será o ‘Super Panda’ a mão invísivel a segurar as costas de Paulson?
Como o mundo mudou desde o último «crash» de 2000-2001!
2. A imunidade dos emergentes, em particular dos BRIC
Os emergentes começam a revelar a fraqueza estrutural do seu sistema de capital financeiro e a actual crise financeira poderá significar não só “arrefecimento” das altas taxas de crescimento (como admitiu a China na cimeira euro-asiática de Beijing de 24 e 25 de Outubro) como o recuo em diversos projectos centrais nas suas ambições geopolíticas.
O choque petrolífero invertido (quebra do preço de 56% desde 3 de Julho) poderá dar uma machadada nas ambições geopolíticas da Venezuela (cujo orçamento de Estado depende em 50% deste sector) e da Rússia e moderar o papel financeiro dos Países do Conselho do Golfo.
A crise financeira tem arrasado a Argentina (candidata a nova falência como país) e as bolsas da Rússia e do Brasil (que já admitiu ter de adiar os projectos de extracção de crude no pré-sal devido a problemas de financiamento).
Atenta à fragilidade financeira de alguns emergentes, a Reserva Federal americana (FED) já jogou uma cartada – talvez a última de Bernanke.Transformou a FED em «banco central» do mundo em apuros de dólares – abriu linhas para «swaps» de divisas no valor de 30 mil milhões de dólares para o Brasil, Coreia do Sul, México e Singapura.
Mas os emergentes parece quererem aproveitar a janela de oportunidade do enfraquecimento do G7 para jogar a sua cartada.
Agosto 16th, 2009 at 10:59
[...] Outubro de 2008 (já depois do choque do tsunami provocado pela falência do Lehman em Setembro), Greenspan admitiu um “erro” (que nós ingénuos ouviremos sem pestanejar): “Cometi o erro de presumir que o interesse [...]