Outubro 2008
Monthly Archive
Ter 28 Out 2008
Por ora, como hipótese de trabalho, haverá CINCO vítimas identificadas na morgue e DUAS nos cuidados intensivos. São efeitos com impactos na geopolítica.
Os cinco cadáveres
1. A equipa dos GS «boys» capitaneada por Henry Paulson, o secretário do Tesouro americano
A manifesta desorientação estratégica de Paulson deu a pazada final na Administração Bush, nas hipóteses do candidato republicano e no prestígio da Goldman Sachs, a quem já alcunhavam de “Government Sachs”.
Até Gordon Brown (‘Flash’ Gordon, como lhe chamou o Nobel Paul Krugman na sua coluna de opinião no The New York Times) renasceu das cinzas e conseguiu marcar pontos a favor da City londrina e da declinante potência britânica. Mais uma machadada no «soft power» americano – agora no próprio terreno do mundo financeiro.
No entanto, antes de fechar a porta, Paulson não se esqueceu dos «seus». Preparou um pacote de 125 mil milhões de dólares para os nove maiores bancos (8% do montante para a «sua» GS), que, segundo os avaliadores, é o dobro do que deveria ser. Uma «prenda» de Natal dos contribuintes americanos.
2. O mito Alan Greenspan, que liderou durante 18 anos a Reserva Federal americana até 2006, deixando uma prenda envenenada ao sucessor e ao segundo mandato de Bush
O golpe de misericórdia no ex-czar da FED – a quem chegaram a cognominar de ‘O Maestro’ – foi dado por uma capa «assassina» da revista Newsweek na semana negra de 20-24 de Outubro: «Blame it on him!». Depois, numa audiência no Congresso, o «czar» acabou por confessar que errou “parcialmente”.
O tema de uma mais apertada regulação dos mercados financeiros e do erro grave da revisão em 1999 de uma lei (Glass-Steagall Act ou Banking Act, 1933) que vinha do pós-crash de 1929 ganhou vários pontos. É claro que, agora, subitamente toda a gente se esqueceu dos beneficiários dos «erros» de Greenspan – todo o sistema que desfrutou de duas «bolhas» recentes, a das «dot-com» e do imobiliário.
3. Os “tigres” também se abatem
Países tidos como modelos de crescimento na OCDE – os «tigres» dos anos 2000 – subitamente ruíram como castelos de cartas – Islândia (falência), Irlanda (entrada em recessão), Espanha (idem), e fala-se da Nova Zelândia em breve.
Que sobra do modelo?
4. Wall Street em apuros – a criatividade financeira vai ser o seu beijo da morte
O fenómeno é cíclico – as bolsas acendem-se com alta criatividade para gerar as «bolhas» de que o capitalismo financeiro (e uma boa parte da economia real) necessita como pão para a boca. O ‘capital fictício’ desenvolve-se loucamente para depois estoirar levando tudo o que está à volta. Uma vez mais, foi a Wall Street que esteve no epicentro do fenómeno «criativo», um fenómeno tão velho desde que os holandeses inventaram os futuros nos anos 1600.
O «soft power» da Wall Street nova-iorquina sofreu o seu maior abalo desde 1929, maior do que o próprio 11 de Setembro. Para muita gente foi o beijo da morte na sua liderança mundial no circuito da alta finança. Por debaixo do discurso ideológico apressado sobre a “refundação do capitalismo” é esta questão comezinha que está na mesa. O resto é floreado.
Há três aspectos a seguir com atenção neste capítulo da transição no actual longo ciclo do capital financeiro (cuja primeira análise brilhante foi feita por Rudolf Hilferding em 1910 e a segunda provavelmente a realizada por Peter Drucker sobre a “revolução dos fundos de pensões“, em 1972):
a) até onde irá a mudança de poder relativo na alta finança em direcção aos Fundos Soberanos e aos Bancos centrais dos países asiáticos e de petrodólares com altos excedentes de divisas? Momento chave: observar até que ponto os BRIC irão coordenar a sua estratégia financeira na cimeira do G20 em 15 de Novembro.
b) até que ponto o actual descalabro na Wall Street e a incapacidade do Tesouro e da FED americanas implicarão um desgaste irreversível no «soft power» dos Estados Unidos, colocando a descoberto um «gap» cada vez maior entre, por um lado, a sua ainda superior capacidade de projecção militar e, por outro, a perda de atracção ideológica e política dos últimos oito anos?
c) qual é o figurino de brutal e descarada concentração bancária nos países da OCDE que resultará da actuação da «mão visível» dos Estados nos bancos privados cotados em apuros?
5. A terapia «japonesa» dos cortes das taxas de juro
Os japoneses já o fazem desde os anos 1990 e pararam em 2001 quando a taxa ficou nos 0,5%. A terapia é usar taxas de juro reais negativas (ou seja, taxas de juro inferiores à inflação) como alavanca «keynesiana», diríamos com humor. Sem grandes resultados, como se sabe no caso do Japão – ainda, recentemente (no final de Outubro de 2008), o Banco do Japão (BoJ) baixou de 0,5% para 0,3% (tome-se em linha de conta que a inflação actual é de 2,4%). A taxa japonesa não era mexida desde 2005 quando foi subida para 0,5%, e mesmo assim os membros do conselho do BoJ dividiram-se, agora, a meio. O governador do BoJ teve de desempatar.
Um analista americano, James Grant, que publica o Grant’s Interest Rate Observer, resumia, recentemente, na revista Foreign Affairs esta medicina perniciosa: “O Japão, ao recusar-se a deixar a sua ‘bolha’ deflaccionar, sofreu uma década de estagnação económica”. O custo de longo prazo está a ser muito superior ao custo político que era estimado em deixar a ‘bolha’ rebentar completamente. E explicou-nos: “É preferível deixar os preços encontrar um nível em que os compradores e os vendedores transaccionem livremente, do que tentar fixá-los por via administrativa”.
Ben Bernanke, da FED, meteu-se pelo mesmo caminho de sentido único desde a crise do «subprime». A taxa de juros já baixou para 1% – um valor que vigorou entre Junho de 2003 a Junho de 2004 e que gerou a segunda «bolha» na última década. No entanto, Jeff Rubin da CIBC alega na edição da StrategEcon (de 31 de Outubro de 2008) que é preferível baixar rapidamente a taxa de juros até 1% – como fez Bernanke em menos de um ano – do que arrastar esse processo por cinco anos como fizeram os japoneses nos anos 1990.
Os europeus do BCE têm sido mais comedidos do que a FED.
Os analistas já não auguram a Bernanke grande margem de manobra neste final de mandato da Administração Bush. O novo «czar» da FED perdeu a credibilidade, apesar dos esforços para se manter à tona de água como bóia de salvação de último recurso. O mandato de Bernanke só termina em finais de Janeiro de 2010 – o que é uma prenda envenenada para o próximo presidente americano.
Dois sinistrados nos cuidados intensivos
1. O domínio absoluto do dólar desde o golpe de Nixon em Agosto de 1971
São cada vez mais as vozes a reclamarem um novo sistema financeiro internacional, liquidando o domínio do dólar. São, por ora, andorinhas que ainda não fazem a primavera – mas a sua expressão vocal é cada vez mais alta e transversal.
Os participantes da última cimeira do Mercosur (27 de Outubro) já reclamam o objectivo de uma moeda única sul-americana e a descolagem do dólar – imitando os europeus da Zona Euro. O jornal oficial chinês, ‘Diário do Povo’, argumentou, no dia de fecho (25 de Outubro) da cimeira euro-asiática em Beijing que os participantes deveriam abandonar o dólar nas suas transacções de comércio directas.
O ex-primeiro ministro da Tailândia já propôs o lançamento de obrigações asiáticas baseadas no que chamou de “dólar externo”. Num manifesto exagero de retórica (por ora), um membro do governo daquele país declarou que a divisa chinesa (o yuan) deveria ser considerada a verdadeira moeda convertível do mundo.
Um membro do conselho do Banco Central Europeu, Ewald Nowotny, considerou que era fundamental o desenvolvimento de um sistema “tripolar” de divisas.
O cómico da situação chegou ao ponto de Gordon Brown apelar aos dólares “externos” da China e aos países de petrodólares para darem a mão ao Fundo Monetário Internacional que se arrisca a ficar sem fundos por ter de apagar tantos fogos.
Também consta que Paulson e o seu «staff» do Tesouro americano estão em contacto directo diário com o Ministério das Finanças de Beijing. Será o ‘Super Panda’ a mão invísivel a segurar as costas de Paulson?
Como o mundo mudou desde o último «crash» de 2000-2001!
2. A imunidade dos emergentes, em particular dos BRIC
Os emergentes começam a revelar a fraqueza estrutural do seu sistema de capital financeiro e a actual crise financeira poderá significar não só “arrefecimento” das altas taxas de crescimento (como admitiu a China na cimeira euro-asiática de Beijing de 24 e 25 de Outubro) como o recuo em diversos projectos centrais nas suas ambições geopolíticas.
O choque petrolífero invertido (quebra do preço de 56% desde 3 de Julho) poderá dar uma machadada nas ambições geopolíticas da Venezuela (cujo orçamento de Estado depende em 50% deste sector) e da Rússia e moderar o papel financeiro dos Países do Conselho do Golfo.
A crise financeira tem arrasado a Argentina (candidata a nova falência como país) e as bolsas da Rússia e do Brasil (que já admitiu ter de adiar os projectos de extracção de crude no pré-sal devido a problemas de financiamento).
Atenta à fragilidade financeira de alguns emergentes, a Reserva Federal americana (FED) já jogou uma cartada – talvez a última de Bernanke.Transformou a FED em «banco central» do mundo em apuros de dólares – abriu linhas para «swaps» de divisas no valor de 30 mil milhões de dólares para o Brasil, Coreia do Sul, México e Singapura.
Mas os emergentes parece quererem aproveitar a janela de oportunidade do enfraquecimento do G7 para jogar a sua cartada.
Seg 20 Out 2008
Síntese: A surpreendente escalada geopolítica da China em 30 anos. As duas grandes potências da Ásia do Pacífico (China e Japão) dominarão 69% do sistema mundial de poder. Mas só a China terá mais poder do que a soma das duas seguintes, Estados Unidos e Japão. É uma mudança brutal. São as tendências que o investigador Dylan Kissane, da Austrália, extrapolou até 2030, a cujo trabalho inicial já nos referimos.
A actual crise financeira já levou muitos analistas e alguns políticos a falarem do ocaso da “superpotência financeira”. Com os Estados Unidos a sofrerem um «crash» severo do Dow Jones como já não se via desde 1974 e manifestando alguma desorientação na forma de lidar com o pânico e a desconfiança nos mercados financeiros, os factos parecem dar razão ao argumento do inexorável declínio americano.
Apesar de se tratar de um sinal óbvio, o investigador Dylan Kissane, da School of International Studies, da Universidade do Sul da Austrália, perto de Adelaide, recomenda alguma cautela. Mas chama a atenção para o período de vinte anos que temos pela frente. A geopolítica vai sofrer profundas alterações, algumas surpreendentes.
O facto mais relevante do estudo prospectivo de Kissane sobre as tendências de evolução no sistema mundial de grandes potências é que a China ultrapassará os Estados Unidos em poder relativo em 2015 – daqui a sete anos. E que esta potência asiática atingirá uma percentagem de poder relativo quase tão grande quanto a soma do poder das duas grandes potências seguintes, os EUA e o Japão. É, de facto, uma mudança brutal.
A reemergência da Ásia
A viragem do eixo do mundo para o Oriente não é novidade. O economista Angus Maddison divulga, desde há anos, cenários que referem que, em 2030, a Ásia dominará 53% do PIB mundial – com a China representando 24%, a Índia 10% e o Japão 3,6%. Já referimos, noutros trabalhos, o seu último livro Contours of The World Economy: 1-2030 AD (publicado pela Oxford University Press, em 2007), bem como o seu sítio na web na Universidade de Groningen.
Perante esse espaço gigante, os Estados Unidos representarão 17%, a União Europeia (ainda a 15) 13% e a Rússia 2%. No fundo, a Ásia (do Índico ao Pacífico) retomaria o seu lugar de primeiro mercado do mundo que havia ocupado desde os séculos IX (68%) ao XVIII (56%).
Contudo, a evolução em termos de PIB não se traduz automaticamente em poder geopolítico e em hegemonia, ainda que haja uma correlação que convém acompanhar de perto.
Também é de ter em conta outro facto – aparentemente paradoxal – de que uma grande potência pode ter um poder geopolítico muito superior ao seu poder económico. Portugal foi, aliás, um caso paradigmático no século XVI – detinha apenas 0,2% do PIB mundial mas dominava o comércio global da época e era a superpotência marítima. O mesmo se passaria com a Holanda no sec. XVII (1,1% do PIB mundial), a potência marítima dominante. O próprio Reino Unido, no auge da Rule Britannia em 1870, detinha, apenas, 9% do PIB mundial.
A extraordinária reemergência económica da Ásia no século XXI aponta, de facto, para uma tendência geopolítica num dado sentido que os estudos de Kissane sobre os ciclos das principais potências comprovam.
As consequências seriam duas:
a) um disparo “logarítmico” do peso da China no xadrez do poder global (passa de 20% este ano para mais do dobro, 45% em 2030!), atingindo um peso desproporcionado que só o Império Britânico dispôs até meados do século XIX e os Estados Unidos episodicamente no pós-2ª Guerra Mundial até meados dos anos 1950; numa geração, em 30 anos, a China triplicaria o seu peso relativo na geopolítica;
b) e uma subida contínua de peso geopolítico do Japão (passa de 17% actualmente para mais de 20%), que, aliás, se tem observado desde os anos 1950, apesar das suas dores económicas desde os anos 1990 e do seu peso no PIB mundial ser muito inferior ao da China, EUA e Europa. Em 2030, o Japão aproxima-se, surpreendentemente, do poder dos EUA, nesta simulação de Kissane.
O declínio americano numa perspectiva longa
A subida dos dois gigantes asiáticos, a par de uma muito ligeira queda do peso dos Estados Unidos (que se manteria, entre hoje e 2030, em torno dos 25% de peso mundial), significa que o ganho asiático não se faz à custa de um futuro dramático e súbito declínio americano.
O declínio americano vem de trás, desde 1966 (quando os EUA pesavam 32%, sendo a superpotência hegemonista). Depois de uma perca de poder face à URSS nos anos 1980 – em que esta atingiria o seu pico histórico -, os EUA recuperam poder depois da implosão do império soviético, tornando-se a famosa “superpotência sozinha”. Mas voltam a declinar a partir de 2001 ainda que lenta e ligeiramente.
Mas se a China e o Japão crescem sem ser à custa dos EUA, isso significa que outras grandes potências actuais perderão, relativamente, muito poder.
Um dos casos – que pode espantar o leitor – é o da Rússia. Apesar da estratégia de Putin desde o final dos anos 1990, do actual Plano militar de Medvedev até 2020 (acompanhado de projecções de poder nas fronteiras da Europa Oriental e provavelmente nas Caraíbas, aproveitando a oportunidade criada pela Venezuela, ou mesmo no espaço Árctico, indo ao ponto de se tornar o salvador financeiro da estratégica Islândia) e da estratégia de criação de um cartel do gás (para poder manipular politicamente este mercado vital), a Rússia não voltará jamais aos 30% de poder que a URSS dispunha no pico dos anos 1980, antes de implodir, e acentuará, ainda mais, o seu declínio a partir de 2015, até se tornar um poder menor.
O ano simbólico de 2015
O ano de 2015 surge, de facto, como um momento simbólico pela convergência de diversos aspectos. A China ultrapassará em peso político mundial os Estados Unidos e o Japão passará claramente adiante da Rússia. O Pacífico, pela primeira vez, torna-se um “lago quente” com quatro grandes potências nos seus bordos – duas em clara ascensão, uma em queda acentuada e outra em declínio ligeiro.
O que poderá resultar deste ponto de convergência é, ainda, uma incógnita, sublinha Dylan Kissane. Significará essa subida ao primeiro lugar que a China abandonará a sua estratégia actual de «soft power» na projecção mundial para passar a uma opção mais agressiva nomeadamente face à superpotência incumbente. Kissane diz-nos que não: “A China não mudará necessariamente a sua estratégia. Mas, a meu ver, pelo menos até 2015, a China tem todos os incentivos para continuar a actual política mais centrada na supremacia económica, na melhoria da imagem, do que no envolvimento militar”.
O investigador radicado na Austrália ainda não introduziu sistematicamente nos seus cenários a União Europeia nem outros BRIC, como a Índia e o Brasil. O modelo com que tem estado a trabalhar é “fechado” às quatro potências referidas. Pelo que a introdução de outras potências alterará, sem dúvida, os pesos relativos, mas não modificará substancialmente as tendências.
Quanto à Europa, o seu poder geopolítico agregado rondaria, actualmente, os 17%, superior ao da Rússia, mas não o suficiente para evitar a vulnerabilidade das fronteiras orientais do continente, o que é designado pelos especialistas como «shatterbelt», ponto de embate entre potências.
Por isso, Kissane considera que a integração política e militar da Europa é a grande interrogação destas duas primeiras décadas e a única saída política para a União Europeia, se não quiser tornar-se num actor irrelevante no cenário do sistema de poder mundial em 2030.
Nota Metodológica
Dylan Kissane em artigo científico recente (“Forecasting the Storm: Cycle Theory and Conflict in the Major Power System”) explica as modificações a que procedeu nos indicadores usados pelos fundadores da teoria dos ciclos de potência, Charles Doran e Wes Parsons, no artigo de 1980 – “War and the Cycle of Relative Power”, publicado na revista American Political Science Review (nº74). Refere, também, as limitações do seu modelo de extrapolação de tendências, que aborda sobretudo a evolução de três grandes potências, China, Japão e EUA.
Sex 10 Out 2008
É de 42% a actual correcção em curso no Dow Jones Industrial Average (DJIA) desde o pico do actual ciclo bolsista há um ano. Trata-se da nona maior queda do índice americano desde 1885 e a quarta maior desde o crash histórico de 1929-1932. É a maior desde 1974 no DJIA.
A queda actual já ultrapassou o «crash» de 1987 (35%) e o de 2001/2002 (38%). Com o índice nos 8175,77 pontos, na abertura (27/10/08) da última semana negra de Outubro de 2008, a quebra foi efectivamente de 42% desde o máximo em 15 de Outubro de 2007 com um valor de 14.093,08 pontos, segundo a Barron’s.
Por ordem decrescente de correcção bolsista, o «ranking» das quebras do DJIA desde 1885 é o seguinte, segundo o estudo de Mark J. Lundeen: 89,16% em 1932 (ponto mais baixo do «crash» iniciado em 1929); 51,51% em 1942; 47,79% em 1907; 46,94% em 1938; 44,92% em 1921; 44,86% em 1974; 44,77% em 1896; 44,66% em 1903.
Tripla assinatura
Se compararmos o período que vai de 1917 a 1945 (segundo os especialistas dos ciclos longos a parte descendente da anterior onda de Kondratieff) verificamos terem ocorrido três grandes «crashes» bolsistas: o mais célebre entre 1929 e 11 de Julho de 1932 (a maior quebra de sempre no DJIA, desde que o índice foi criado em 1885); um segundo que terminou em 4 de Abril de 1938 e outro que terminou a 27 de Abril de 1942.
Poderá, agora, neste período depois do pico de 1973, estar a ocorrer uma tripla assinatura similar, com os «crashes» mais severos de 1987, 2000-2001 e 2008? Ainda que com uma diferença: o de 1929 foi o mais severo; o de 1987, curiosamente, foi o menos severo da série de três.
O que deixa outra conclusão bizarra: apesar da parafernália de intervenções públicas, a intensidade do «crash» foi subindo dos anos 1980 para os 2000, ao contrário do que sucedeu nos anos 1920 a 1940.
Qua 8 Out 2008
«The bubbles of the 1990’s and 2000’s were at the heart of what I call “a financial coup d’état.” The coup d’état, however, is not just in America. It is world wide. »
An Interview with Catherine Austin Fitts by Jorge Nascimento Rodrigues, editor of Janelanaweb.com
Catherine Austin Fitts is president of the American investor advisory company Solari Inc from 1998. She was Assistant Secretary for Housing-Federal Housing Commissioner, 1989-1990, responsible for the operations of the Federal Housing Administration (HUD), at the Bush father Administration.
This famous Department was a key tool in the financial creative engine of those times. She denounced the incredible situation and was crowned the “cleaning lady” of the financial mess such as the savings and loan (S&L) scandal at HUD. Her research proved that S&L and HUD fraud were perpetrated by the same networks, in the same places, and involved the same use of federal credit.
Fitts was fired by the Bush father administration in 1990 after only 18 months on the job. Later she was persecuted in her business deals.
Catherine worked at Wall Street and Washington, but she remains ‘addicted’ to her business ethics. She lived among finance czars, speculators, bureaucrats and politicians, a high voltage cocktail. Few people know more than her about how the money works really in those toxic environments.
Her experiences on Wall Street and in Washington D.C. are chronicled in Dillon Read and the Aristocracy of Stock Profits. Dillon Read & Co was a Wall Street firm where she worked.
She is very vocal about the roots of the financial tsunami going on nowadays. Just recently she sent an e-mail to a member of the Research Team at Goldman Sachs (GS) asking to unsubscribe from the emailing list of the GS newsletter: “The history of Goldman Sachs over the last two decades is a living proof that it is possible to kill with a financial system and a pen”. Ironically, she was an internship in 1977 at Goldman.
A former government and financial insider she said once: “One of the things that it is interesting about reading conspiracy theory is that much of what folks think is conspiracy is really many people acting in concert to make or protect their money.” In another occasion she wrote: “The lethal combination of a debt based financial system, falling productivity and the absence of meaningful feedback systems means that the magic of compound interest will dictate that the American tapeworm’s hunger for more capital is accelerating.”
History in a certain sense repeats itself, copy its patterns in new contexts with innovative packages. Observing the bubbles and the crashes of the 1980’s, the 1990’s and the 2000’s, the networks are the same, the places and the tricks also. The rentier system and the tapeworm model of life continues to grow. But its dynamics is its death penalty: “Ultimately large complex systems cannot held together by greed, technology and fear alone. Suspicion, lawlessness and smallness of mind ultimately cause implosion from within”, said Catherine. As we have been witnessing right now. Ultimately Main Street pays the bill.
Catherine publishes a column, “Mapping the Real Deal,” in Scoop in New Zealand.
INTERVIEW
QUESTION: Which are the roots of the ongoing financial crisis? A group of Wall Street’ criminals from the so-called shadow banking system, or a couple of legislation pieces and policies since Clinton’s repeal of the Glass-Steagall Act of 1933 and Alan Greenspan’s so called financial revolution?
ANSWER: It is much deeper than this. I recommend for your readers to listen to the audio seminar that I recorded in 2005 to explain the deeper history. At the heart of the problem is the “red button” test. See the last chapter of my book. When surveyed, out of 100 people, 99 said they would not push the red button. Our financial dependency on unsustainable economics is broad, ingrained and deep. There’s also an old Wall Street saying – the expression ‘never fight the tape’. It means never try to oppose the market – always go with the market’s trend and direction.
Q: If there had not been financial “creativity” in the last 20 years, we would still have had the same level of growth in the economy and consumption, stock bubbles in the US and the same level of globalization of financial capital?
A: The bubbles were developed to accommodate a number of goals. First, was to facilitate the shift of capital out of the US to reinvest in Asia and the emerging markets and to ensure global dominance for the corporations and investments facilitating the shift. While the US was bubbled, with moving money out at a high dollar price, economies in Asia, Latin America and Eastern Europe experienced the withdrawal of credit, devastating their currency and market values, so that major assets could be picked up on a very economic basis. Second, was to help reengineer global governance out of households, communities and sovereign governments and centralize it into private corporations and banks. So the bubbles were at the heart of what I call “a financial coup d’ état.” The coup d’ état, however, is not just in America. It is world wide. The commitment of the American people to democratic process and individual property rights and freedom is a major obstacle to the coup. Hence, the financial confrontation under way is a dramatic one and important to the whole world.
Lesson 1: Consolidation using these “pump and dump” cycles is an inherent part of the economic warfare we are experiencing.
Q: With a default in American bank reserves of more than $150bn and a growing run-out of international capital from the US, what can you expect for the rebuilding of US financial leadership?
A: My expectation is that the folks who pulled the capital out during the last decade will be able to buy back in cheap. This is the same process we saw at the end of the last housing bubble bust in the US in 1989-1993. Those who sold at the top of the “pump” were in position to buy in cheap on the “dump.” Consolidation using these “pump and dump” cycles is an inherent part of the economic warfare we are experiencing. Numerous factions appear to be competing for control. It is impossible to say who will emerge in command. Whatever happens, my hope is that the process creates a sufficient spiritual and cultural shift to support the creation of serious alternatives to the central banking-warfare model that has dominated our planet for 500 + years. Whoever is running things here or in Europe, these events could never have occurred without widespread greed within the general population.
Lesson 2: The bailout will address a short-term symptom at the cost of promoting a greater unraveling.
Q: Can the $700bn bailout rescue package (plus the $110bn for trickle down perks) restore confidence in the banking market, or will the money be “lost” in the corridors of consulting and asset management companies, financially targeted “friends” en route to mega acquisitions and a new «bubble» in Wall Street?
A: The package should be sufficient to handle credit default swap settlements during October as well as to ease the liquidity squeeze in the major US institutions through the election. I doubt it will carry us much past the election or inauguration. Part of the challenge, is convincing depositors and investors that the system is fundamentally unsound. Hence, the bailout will address a short-term symptom at the cost of promoting a greater unraveling.
Lesson 3: The dollar’s value is determined politically and is supported by military capacity and power projection.
Q: Is it possible for the US to combat the ongoing financial crisis as a lonely financial superpower?
A: Yes, if the US and UK in combination are prepared to use sufficient military and covert force.
Q: What do you mean? Hard power or covert power projection, certainly will accelerate other strategic moves from China, Russia and even a few others, including provocateurs, but I am not sure that Europe (even UK) will follow…
A: The dollar’s value is determined politically and is supported by military capacity. The new President will not have a mandate to support the dollar. The people who finance the government will decide, and the question is what they want. If continuing a global taxation system through the dollar-managed system is what they desire for political reasons, it can and will continue. See my post about this aspect.
Q: So you mean that the countries and institutions all around the world that finance American crazy debt and deficit system are paying a kind of global tax to the superpower?
A: Global treasuries and Sovereign wealth funds, central banks and a variety of large institutions buy Treasury securities or hold dollars not because there is true economic value behind them or because these financial assets are sound fiscally or in terms of credit. The US debt and deficit financing is no longer a debt system. It is a global taxation system.
Q: Even with all this recent financial carnage?
A: Hence, demand for US dollars and government and agency bonds continues even as value falls dramatically. The losses on these holdings represent a tax paid to the “Empire”.
Q: Don’t we need a multilateral approach, particularly with the Chinese and the European Union?
A: A multi-lateral approach is preferred. The question is, is it possible or are there too many direct conflicts over resource and resource pricing issues between the US and China and direct power conflicts between the US and Russia.
Lesson 4: In the long run, financial systems require reliable standards.
Q: How do you evaluate the recent European financial decisions?
A: On one hand, it makes sense to have a coordinated European response. On the other hand, national governments are required to intervene in support of the individual banks. Hence, what can a European-wide response really do? Actually, over time it can lead to more information sharing and ensuring that the leaders support each other and feel not alone. The bigger problem is that the credit freeze results from an absence of trust. And that absence of trust is well deserved.
Q: Why?
A: We have had a steady deterioration in the integrity of legal, accounting and banking practices. On one hand, part of what we are watching is the full cost of corruption within the system. In the short run, government can guarantee everything. However, in the long run, financial systems require reliable standards. This is a little bit like sending up a space shuttle in which all the engineering decisions were based on political considerations and convenience. The thing will not fly. So we need consolidation and a cultural revolution. In part, we need the consumers and citizens to create market demand for standards.
Obs: For Portuguese readers, see comments on this interview at Janelanaweb.com
Qua 8 Out 2008
As reservas reais da banca americana afundaram-se desde finais de 2007. Há um buraco de 150 mil milhões de dólares. A própria Reserva Federal tem 57,68% das suas reservas em activos financeiros que não se sabe bem o que são. São dados preocupantes revelados pela revista Barron’s, dados que têm implicações profundas na vulnerabilidade financeira da superpotência.
As reservas bancárias do sistema financeiro americano que não dependem de pedidos de empréstimos no mercado interbancário caíram a pique desde o final de 2007 (ver gráfico gerado pelo analista Mark J. Lundeen para o fórum Le MetropoleCafé). A quebra é de 150 mil milhões de dólares (80% do PIB português de 2007), segundo os dados revelados pela revista Barron’s, do grupo The Wall Street Journal.
Para manter as reservas totais necessárias, a banca americana teve de pedir emprestado um montante de 250 mil milhões, desde Fevereiro de 2008. A interrogação, agora, é se o conseguirá pagar.
A par do afundamento das reservas reais, a banca americana tem sido autorizada a criar reservas duvidosas, associadas ao que hoje se chamam de instrumentos financeiros tóxicos, que os bancos não conseguem, agora, transformar em liquidez, a partir do momento em que a confiança interbancária ruiu. A ordem do Tesouro americano para irem ao mercado global arranjar capital de verdade para tapar o buraco resultou em fracasso – os fundos soberanos e os bancos de várias potências ligadas aos petrodólares e aos dólares do comércio asiático não responderam satisfatoriamente à chamada.
Por isso, os banqueiros rezam pela intervenção do emprestador de último recurso – a Reserva Federal (FED). O problema é que, também, o banco central parece sofrer da mesma doença contagiosa. Ainda segundo dados da Barron’s, a conta do FED revela que, actualmente, apenas 42,32% das suas reservas se baseiam em títulos do Tesouro. O restante – que é a maior fatia do bolo – é “de proveniência desconhecida”, dizem os analistas. E os rumores rapidamente tomaram conta do assunto.
Um outro aspecto intrigante: os gráficos publicados pelo analista Mark J. Lundeen mostram que a diferença actual entre o crédito total concedido pelo FED (mais de 1.100 mil milhões de dólares, 1,1 triliões na designação anglo-saxónica) e as reservas baseadas em títulos do Tesouro (menos de 500 mil milhões de dólares) fica muito próxima dos 700 mil milhões agora pedidos para sanear o sistema financeiro americano. Estranha coincidência.
Qui 2 Out 2008
Quase 100 mil milhões de dólares (cerca de 64 mil milhões de euros, naquela altura), em valores líquidos, foram desinvestidos dos Estados Unidos por privados estrangeiros, segundo os dados relativos a Julho divulgados pelo Tesouro americano no final de Setembro.
O défice desta balança de capitais internacionais não foi tão elevado porque as instituições oficiais estrangeiras ainda não optaram pela saída. Deste modo, o défice negativo foi de cerca de 75 mil milhões de dólares (cerca de 48 mil milhões de euros, na altura), metade do que se verificara no mês crítico de Outubro do ano passado (ver gráfico divulgado pelo analista americano Dan Norcini).
Os investidores portugueses ainda continuam a acreditar nas aplicações nos EUA, com um saldo positivo de 229 milhões de dólares (148 milhões de euros, naquela data), mas 68 milhões de dólares (44 milhões de euros, naquela data) foram desinvestidos, em termos líquidos, em acções de empresas americanas e estrangeiras sedeadas na América. Apesar de Portugal (que tem a referencia 12319 nas contas americanas) ser um pequeno investidor, o padrão de comportamento começa a ser similar à «média» dos estrangeiros.
As aplicações em títulos de longo prazo americanos pelos estrangeiros atingiu um saldo negativo de 25,6 mil milhões de dólares no final de Julho. Este défice só foi equilibrado nas contas americanas porque os americanos desinvestiram no mundo em títulos de longo prazo, em termos líquidos, 31,7 mil milhões.
Asiáticos dão sinal vermelho
Os próximos dados relativos a Agosto só serão divulgados a 16 de Outubro, mas muitos analistas esperam o agravamento desta fuga de capitais dos EUA, em virtude do actual plano de “limpeza” dos activos tóxicos poder fazer disparar o défice orçamental (que poderá aumentar 2,5 vezes num só ano) e a dívida nacional americana (que poderá chegar aos 80% do PIB) para valores recorde próximos do que acontecia nos anos 1950, depois da Segunda Guerra Mundial.
A imagem de marketing financeiro dos Estados Unidos junto dos asiáticos está claramente a esfumar-se. Os analistas japoneses – cujo país detém 12,5% dos títulos do tesouro americanos – já afirmam que essas aplicações poderão ficar excessivamente caras. Por seu lado, a China – que é o número dois estrangeiro, a seguir ao Japão, nesses títulos – anunciou, em Setembro, que proibia os 7 bancos chineses envolvidos no mercado interbancário de emprestarem a investidores financeiros americanos. A exposição chinesa ao «subprime», à Fannie & Freddie e à Lehman Brothers é superior a 35 mil milhões de dólares, segundo foi revelado.
Também, neste campo, o dilema do Tesouro e da Reserva Federal é cada vez mais agudo, diz o analista Peter Cohan: ou aumentam as taxas de juro para atrair fundos, o que empurra para uma recessão profunda, ou continuam a imprimir notas, disparando o indicador de massa monetária (M3), e acentuam o colapso do dólar.
Qui 2 Out 2008
Um dos campos de batalha comunicacional tem sido a questão do papel dos especuladores no mercado de «commodities», e particularmente no crude. O dedo tem-lhes sido apontado como responsáveis pelo disparo do preço. Para as potências ligadas ao cartel do petróleo e para muitos grupos petrolíferos é um alvo fácil e popular.
Mas terá fundamento? Não, na dimensão que lhe atribuem. O cómico da questão é que é a própria OPEP a contradizer-se.
Paradoxalmente, no período em que assistimos ao maior disparo do preço do crude (meados de Junho a meados de Julho), os especuladores financeiros tinham arrefecido substancialmente a sua intervenção desde há mês e meio no mercado dos «barris de papel».
Os especuladores (fundos e bancos de investimento) tiveram o seu período mais quente entre meados de Fevereiro e final de Maio, com um pico de intervenção, nos primeiros nove meses, na semana de 10 a 14 de Março – ora é sabido que o máximo histórico do preço do crude ocorreu na semana de 31 de Maio a 4 de Julho.
Recorde-se que a OPEP responsabilizou, na altura, a especulação (e a desvalorização do dólar em menor medida) pela alta. Ainda, recentemente, o líbio Abdalla Salem El-Badri, secretário-geral do cartel petrolífero, reafirmou oficialmente tal ponto de vista ao boletim da organização (edição de Setembro 2008): “Em última análise, são os especuladores financeiros e o papel das casas de investimento, juntamente com os «hedge funds», que têm sido os motores da subida dos preços para níveis recorde”.
A ironia é que é a própria OPEP, no seu relatório de finais de Agosto (Monthly Oil Market Report), que publica um gráfico (gráfico nº7, na página 10 do relatório) de evolução dos saldos das posições em milhares de contratos de futuros pelos especuladores (tecnicamente designados por «não-comerciais») no mercado do crude americano WTI em que fica visível a discrepância de um dos picos de intervenção da especulação em Maio e o máximo do preço do barril em Julho.
Um outro estudo do investigador Pedro de Almeida, professor da Universidade da Beira Interior, abrangendo os investimentos dos «não-comerciais» em futuros e opções e contando a partir de Janeiro deste ano, revela o mesmo perfil de divergência das duas curvas.
Contexto político
Esta constatação estatística surge na mesma altura em que o Senado norte-americano discute legislação para limitar a especulação no mercado do crude, depois de vários meses de pressão por parte de políticos e de analistas dos EUA responsabilizando os investidores financeiros de fora do sector de manipularem aquele mercado.
Um dos estudos que tem servido de suporte à campanha é o da Masters Capital Management que afirma ter avaliado dois fluxos “por extrapolação” – um de 60 mil milhões de dólares aplicados por parte de investidores financeiros no mercado de futuros do crude durante os primeiros seis meses e outro de saída posterior no valor de 39 mil milhões. A consultora «cola» automaticamente os dois fluxos ao sobe e desce do preço do barril este ano (artigos sobre o tema aqui). Muitos analistas apontam o dedo à J.P Morgan, Goldman Sachs e Morgan Stanley, que controlam 70% das posições em «swaps» de «commodities».
Contudo, o organismo regulador, a Commodities Futures Trading Commision já por duas vezes rejeitou tal «colagem» feita pela Masters Capital Management alegando não ter fundamento técnico – quer num relatório de 23 de Julho como mais recentemente a 11 de Setembro.