Sáb 27 Set 2008
O debate na CNN – 1: Os 5 Ausentes
Por JNR na secção A questão dos impérios , Geoprotagonistas , Globalizaçãoainda sem comentários
Os 5 ausentes foram responsáveis pela minha insónia.
Como foi possível que o «pivot» da cadeia de televisão e os dois candidatos à Casa Branca se tivessem “esquecido” destes cinco personagens – FED, China, Chávez, Europa, Multilateralismo.
Madrugada dentro, os dois candidatos à presidência norte-americana arrastaram-se, metade do tempo, sobre a crise financeira (sem que eu tenha conseguido entender o que cada um defende sobre o imediato e quanto aos problemas de fundo, as raízes da questão), sobre o Iraque e o Afeganistão, sobre o Irão (falar ou não com o guarda-presidente com aquele nome difícil de pronunciar), a Rússia e o Leste europeu.
Mas é espantoso como determinadas palavras-chave dos dias de hoje não mereceram sequer um rodapé do discurso – minto, Chávez foi referido por McCain num rol de vários patifes e a Europa subentendeu-se no meio da projecção da Nato na Europa de Leste, na fronteira da Rússia.
As palavras-chave que eu «googleria» para saber o que cada um deles pensa seriam os 5 grandes ausentes deste debate nocturno: FED (Reserva Federal, o famoso banco central americano), China, Chávez, Europa, Multilateralismo.
Quase telegraficamente:
1. Reserva Federal
É uma espécie de “orgão de soberania” sacrossanto cujas decisões saem fora do controlo efectivo dos políticos, a pretexto de independência (uma espécie de juízes intocáveis).
Ora à FED, quando capitaneada por Alan Greenspan, devem-se as estratégias que conduziram às «bolhas» americanas desde os anos 1990 e à «criatividade» que gerou a actual crise financeira.
Enquanto houve as «bolhas» (primeiro das «dot.com», depois do imobiliário) todos aplaudiram – de Clinton a Bush. As «bolhas» e a criatividade no intangível da Wall Street permitiram à América os seus 20 anos gloriosos e ao resto da finança mundial aproveitar a onda.
Não há lições a tirar sobre o direito arbitrário de um organismo deste tipo?
Não se está a atirar areia para os contribuintes ao colocar no cadafalso uns quantos malvados que se limitaram a usar as regras estabelecidas para obter rendas financeiras?
Não chega colocar no índex palavras como titularização, «short-selling» e desregulação. É politicamente imbecil gritar contra a “economia de casino” ou agitar o papão dos especuladores, sem ir à raiz específica desta crise – os caminhos que foram criados, que geraram as janelas de oportunidade, para um macroeconomia “rentista” (que vive de rendas) que se instalou na América, a que alguns chamam mesmo de “economia sombra”.
Isto não significa que não tenha havido vilões – que tenham ido para além das regras, que tenham eles próprios sido “criativos sobre a criatividade”. Simplesmente não basta julgar e meter na cadeia esses vilões.
É preciso MUDAR OS PROCESSOS e a responsabilidade política do castelo que manda neles.
Mas atacar em abstracto as bolsas ou os instrumentos financeiros (coisa que existe no capitalismo pelo menos desde que os holandeses inventaram os mercados de futuros no século XVII) é coisa de demagogos ou de idiotas. Querem o quê – socialismo de casino?
2. China
Como é possível passar todo um debate sem uma palavra sobre a segunda maior potência do Planeta? Foi uma ausência ensurdecedora.
Minto – recebeu, talvez, uma nota de música, pelo facto de ser um dos principais “credores” de dólares ao estado americano (títulos do Tesouro).
Mas a questão chinesa é mais do que títulos do Tesouro ou fundos soberanos.
A China é hoje o tema de um debate acalorado nos «think tank» americanos: devem os EUA adoptar uma estratégia de aliança prioritária (como o defendem abertamente vários analistas, escritores e mesmo alguns políticos) ou prosseguir uma linha de “contenção e envolvimento” – a nova «buzzword» de geopolítica inventada ultimamente: “congagement”?
Devem os EUA estender o tapete à China para entrar no G7-G8, ou continuar a ignorá-la olimpicamente?
A questão chinesa tem uma carga complicada, é um «puzzle» complexo – o país é um regime totalitário, mas uma potência reemergente na economia e na projecção mundial através de uma hábil diplomacia, de uma arte de uso do «soft power», e de um paulatino acumular de forças nas finanças e no campo militar.
3. Chávez
O homem é um «agent provocateur» nas próprias «traseiras» dos Estados Unidos. McCain citou o nome dele no meio de um rol de patifes, «en passant». Mas é como assobiar para o ar.
Hugo Chávez – que faz as delícias do governo português, que provavelmente não sabe bem com quem se está a meter – corre às potências reemergentes a procurar onde se pendurar.
Tudo indica que o seu sucesso diplomático passa por «alavancar» (julga ele) a Rússia, em particular. Desenha-se uma tentativa de aliança político-militar com Moscovo que entra bem dentro, de novo, nas Caraíbas – já que a velha ilha de Fidel (outro «agent provocateur») deixou de ter mais valia de tão exangue que está.
Mas os dois candidatos ignoraram o tema. Ignorância que se calhar é mais generalizada na América do que se julga – o que gera a janela de oportunidade que Chávez usa, ciente do declínio da superpotência, da perca de credibilidade política da América, das suas cólicas financeiras.
Que estratégia vai seguir o futuro presidente dos EUA para a América Latina? Como vai neutralizar politicamente a potencial «cunha» russa nas suas próprias barbas? Ou alguém julga que Chávez consegue ser qualquer farol de uma frente antiamericana, bolivariana ou outra etiqueta qualquer? Não passará de um peão – falta-lhe a “potencialidade” que tem o Brasil.
4. Europa
Nem uma palavra sobre o tema. Outra ausência ensurdecedora.
A Europa reduz-se à questão do confronto entre os EUA e a reemergente Rússia no desgraçado «shatterbelt» do leste?
A Europa reduz-se, na visão dos americanos, à estratégia para a Nato?
Das duas, uma: ou foi culpa do «pivot» que nem se lembrou que no Velho Continente há uma entidade política colectiva, ou, então, nem mesmo os bicos de pés de Monsieur Sarkozy na ONU ou do “nice fellow” Barroso valem um cêntimo para os dois candidatos.
Silêncio estranho, quando se sabe que há «think tanks» dos dois lados que sonham com uma aliança estratégica muito estreita entre a União Europeia e os EUA para enfrentar o que chamam de moda emergente dos regimes totalitários (como a China e a Rússia que serviriam de modelo para o desenvolvimento capitalista sem a necessidade de democracia) e dos cartéis de «commodities» que estão a tornar reféns muitas potências importadoras. Bom, já diria a velha raposa Kissinger, China e Rússia não é o mesmo pão.
5. Multilateralismo
Se a crise financeira trouxe uma consequência política foi o ecoar na ONU do palavrão “multilateralismo”. Com alguma timidez por Monsieur Sarkozy (que não tirou claramente as consequências práticas do uso do termo) e mais abertamente pelo presidente do Brasil, o ex-sindicalista Lula.
O que pensam os dois candidatos americanos à Casa Branca sobre o assunto?
Apesar de o sono já dar ordens, pela madrugada dentro, esforcei-me por estar acordado, mas fiquei sem saber.
É claro que o “multilateralismo” é ainda hoje uma flor de retórica – os russos também o começaram a usar para justificar a sua própria projecção de poder recente.
O termo é sintoma de uma situação de transição em que a superpotência começa a estar em declínio na sua capacidade de «soft power» (como o alertou há muito Joseph Nye), na sua máquina financeira (o ministro das Finanças alemão disse, na semana passada, que os EUA estão a perder o seu lugar de superpotência financeira) e mesmo na gestão da sua capacidade efectiva de «hard power» (ou seja, conseguir concentrar o golpe em sítios certos para conquistar vitórias sólidas, ou aguentar uma dispersão de projecções com resultados satisfatórios).