O dia de ontem (23 de Setembro) foi marcado por três afirmações sintomáticas sobre a crise financeira da Wall Street e da rede financeira mundial – uma no Senado americano em Washington e duas nas Nações Unidas. Uma por um americano, e duas outras por “estrangeiros”.

Americanos no gancho

Henry Paulson Jr, o secretário do Tesouro americano, respondeu aos senadores do painel sobre assuntos bancários, em Capitol Hill, com uma piada trágica: “Vocês estão preocupados com o facto de os contribuintes poderem vir a ficar pendurados no gancho? – Adivinhem lá – eles já estão pendurados!”. «On the hook» (No gancho) transformou-se rapidamente no tema dos «media».

Moral da história: os contribuintes americanos estão encurralados, em virtude das políticas financeiras seguidas pela Reserva Federal (banco central, também conhecido pelo acrónimo FED) desde o consulado de Alan Greenspan, da desregulação prosseguida desde o presidente Carter em 1978 e das «bolhas» criadas desde os tempos áureos da gerência de Bill Clinton e, mais recentemente, após a crise de 2001, pela administração Bush. Bolhas que deram aos americanos os seus recentes “gloriosos vinte anos”.

Apesar da noção do dilema que atravessa os decisores americanos, Henry Paulson e os outros três «magníficos» (Ben Bernanke, patrão da FED, Christopher Cox, chefe da Securities and Exchange Commission, e James Lockhart, director da Federal Housing Finance Agency) foram «entalados» pelos dois lados.

Há uma resistência real por parte dos republicanos, que temem que o pacote de 700 mil milhões de dólares seja tão ineficiente como as injecções anteriores de 800 mil milhões e só lhes traga mais irritação dos eleitores, e dos democratas que não querem dar um cheque em branco face ao clima “catastrofista” criado por Paulson, o que faz recordar o marketing político criado aquando da «venda» da operação do Iraque por esta Administração.

Os democratas querem, ainda, que a intervenção do Estado nas instituições em apuros implique uma espécie de “acções contingentes” que, mais tarde, sejam vendidas nas bolsas. Não pretendem que o Estado largue o dinheiro sem contrapartidas, e muito menos que esta injecção se torne mais um óptimo negócio para firmas da Wall Street que venham a gerir os tais “leilões invertidos” que Paulson prevê para a aplicação dos 700 mil milhões. Recorde-se que a Blackrock, digna representante deste segmento de serviços financeiros, tem vindo a ganhar bom dinheiro na liquidação do «lixo» financeiro da Bear Stearns.

Os analistas apontam para a continuação das negociações durante esta semana, podendo haver ‘fumo branco’ provavelmente só sexta-feira ou mesmo no próximo fim-de-semana.

Geopolítica entra em cena

Mas a audição no Senado teve outras repercussões, porventura, mais decisivas a médio e longo prazos. Umas centenas de quilómetros acima do Capitólio, na ONU, o eco da reflexão sobre a crise financeira foi global.

A União Europeia, pela boca do presidente francês Nicolas Sarkozy, e a América Latina na intervenção do presidente brasileiro Lula da Silva, aproveitaram a janela de oportunidade para reclamar o óbvio: o dilema americano requer uma solução encontrada “multilateralmente”.

Esse “multilateralismo” implica, nomeadamente, como o explicitou Lula, a reforma das instituições mundiais, incluindo as informais (como o desajustado G7 ou G8) e as financeiras, o que significa, na linguagem cifrada da diplomacia, alterar os actuais equilíbrios, nomeadamente diminuindo o peso da superpotência, aproveitando o facto de estar em apuros. Como disse Lula: que se adoptem soluções “em «fora» multilaterais, sem imposições”.

Sarkozy, a par de um discurso retórico sobre a “reforma” do capitalismo, propôs uma cimeira em Novembro para reflectir sobre a crise “sem ser a quente”, e que se baseie no G8 “com uma possibilidade de abertura aos países emergentes”. Sarkozy ainda hesita em reconhecer o óbvio e coloca timidamente a palavra “possibilidade de abertura” às novas grandes potências emergentes.