Sex 19 Set 2008
A mão visível do mercado triunfou
Por JNR na secção A questão dos impérios , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização1 comentário
Um pacote sem precedentes de injecção de liquidez financeira nos mercados mundiais e promessas de medidas de regulação extraordinárias parecem ter acalmado as bolsas americanas, latino-americanas e asiáticas que fecharam ontem (18 de Setembro) e hoje de madrugada largamente positivas.
A Europa abriu hoje (19 de Setembro) também em alta. Como conclui a revista Business Week, a política dominante mudou – agora a hiper-regulação vai ficar de novo na moda, depois de um intervalo “liberal” desde que em 1978 o presidente americano Carter iniciou o Airline Deregulation Act.
Nestes últimos sete dias, a superpotência americana voltou a revelar um dos seus calcanhares de Aquiles: o financeiro e o dilema estratégico a que chegou nesse campo (as várias medicinas de opção têm riscos enormes). Os dilemas estratégicos em geopolítica e geoeconomia costumam ser sintoma de declínio.
Esta quinta-feira (18 de Setembro) foi de redenção. O míni-«crash» voltou à gaveta de onde, de vez em quando, sai, desde que o «subprime» estoirou em Agosto do ano passado. As bolsas americanas inverteram drasticamente as quebras do dia anterior – Dow Jones Industrial averbou um ganho de 3,86%, o Nasdaq de 4,78% e o S&P500 de 4,33 -, as bolsas asiáticas deram um salto significativo já hoje de madrugada, incluindo as que estavam muito no vermelho como Xangai. Hoje de manhã (19 de Setembro), as bolsas europeias estão a abrir no positivo e os casos clínicos mais graves de ontem, como a Rússia (que chegou a interromper a negociação) e a Irlanda, estão com verdadeiros «booms».
O leitor interrogar-se-á: qual foi o milagre de ontem? Tudo indica que houve uma conjugação de várias «medicinas» que acalmaram a crise financeira.
Depois do anúncio de manhã de uma intervenção conjugada dos principais bancos centrais do mundo envolvendo um montante de 130 mil milhões de euros (mais de 80% do PIB português de 2007) disponíveis para «swaps», nova surpresa multimilionária: ao final da noite em Washington DC, a Reserva Federal anunciou ir disponibilizar muito mais do que o anunciado de manhã. Agora iria até um montante recorde de 247 mil milhões de dólares (o equivalente a 173 milhões de euros, mais do que o PIB português do ano passado) para trocar por outras divisas dos bancos centrais da Europa, da Suíça, do Canadá, de Inglaterra e do Japão. Entretanto, os Bancos centrais do Japão e da Austrália, por sua conta, injectaram 20 mil milhões de dólares hoje de madrugada.
O que a Reserva Federal não deu com a mão esquerda (baixar a taxa de juro directora, estacionária nos 2%, que mesmo assim está muito abaixo da inflação americana, já em 5,4%), está, generosamente, a dar com a direita de um modo nunca visto: injecção nunca vista de liquidez.
O que alivia temporariamente a dor. Alguns analistas chamam-lhe «morfina monetária». Em Março, aquando do míni-«crash» da altura e do «affaire» Bear Stearns, já havíamos visto uma amostra do novo papel político da FED e do Tesouro norte-americano (o Ministério das Finanças do governo). Na verdade, as instituições abandonaram o discurso ideológico e vestem a roupagem intervencionista usando o dinheiro dos contribuintes para limpar a sujidade da noite anterior.
Mas as autoridades americanas na sua missão de «mão visível» do mercado financeiro anunciaram, agora, a preparação e discussão de um conjunto de medidas legais, aplaudidas por muitos analistas e banqueiros – e pelos mercados, sempre com o olho no curto prazo -, e recebidas com cepticismo por poucos, a contracorrente.
A primeira em estudo é uma verdadeira operação de limpeza contabilística. A Securities and Exchange Commission (SEC), com a FED e o Tesouro prevêem discutir com o Congresso norte-americano um plano para ajudar as casas financeiras em apuros a «remover» dos seus balanços os activos «tóxicos». Onde vão colocar esse «lixo» financeiro? Estudam-se opções.
Uma das ideias é instituir um fundo de 800 mil milhões de dólares (3,5 vezes o PIB português do ano passado, comparando uma vez mais) para comprar esse «lixo» e ainda uma almofada no Federal Deposit Insurance Corp (que regula as falências) de outros 400 mil milhões para garantir os investidores – e sabe-se como os chineses pressionaram politicamente as autoridades norte-americanas nestas últimas semanas. Outro rumor é que os recém-nacionalizados Freddie & Fannie serão usados para essa lavagem. Há, ainda, quem proponha uma agência do género da criada nos anos 1990 quando houve que fazer a limpeza da crise financeira da altura.
A segunda do super pacote é atacar certas técnicas financeiras de compra e venda de acções usadas ao abrigo do esquema legal do chamado «short-selling». Muitas destas operações não passam de aquisições fantasma (são pedidas emprestadas) para depois vender massivamente acções de uma dada empresa cotada que levam a cotação a cair a pique, que depois são recompradas pelos mesmos a preços de pechincha e devolvidas aos «brokers» iniciais. No meio do jogo fazem-se margens.
Muitos acusam que este mecanismo foi usado para atacar a Freddie, o Fannie e o Lehman Brothers, bem como a AIG e a Merrill Lynch, e mesmo a Morgan Stanley e a Goldman Sachs nas últimas semanas. Note-se que os bancos de investimento – como é o caso da Lehman (que faliu entretanto), Morgan (que negoceia, agora, com Wachovia norte-americano e CITIC chinês), Merrill (que será absorvido pelo Bank of America) e Goldman – são muito sensíveis à queda de acções em bolsa, pois alavancam a sua capitalização como argumento para assegurar o seu financiamento, pois não têm depósitos. Em Julho passado, a SEC já havia imposto uma regulação de emergência por três semanas atacando o chamado «naked short-selling» em 19 casos (que incluíam a Lehman, a Fannie e a Freddie).
Na Inglaterra, a Financial Services Authority andou mais rápido do que a SEC americana e decretou já uma proibição temporária deste tipo de movimentos até Janeiro. O que o motivou foi o que ocorreu com o HBOS, a maior instituição inglesa de crédito hipotecário, que perdeu mais de 1/3 do seu valor de mercado em três dias.
Nos Estados Unidos, três grandes fundos de pensões alteraram a sua actuação, terminando com a venda das suas acções nomeadamente do Morgan Stanley e da Goldman Sachs. Segundo foi noticiado, tratou-se do California Public Employees’ Retirement System (conhecido por CASPERS), o New York State Common Retirement Fund e o California State Teachers Retirement System.
Setembro 19th, 2008 at 10:03
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