Uma entrevista com Michael Klare a propósito do livro ‘Rising Powers, Shrinking Planet

Ideia central: “Um novo capítulo da história da política e da economia internacionais começou. Um mundo de tantas potências ascendentes e de recursos escassos só pode produzir uma competição desbragada”, sublinha. A era de uma superpotência “sozinha”, apoiada no seu inquestionável poder de projecção militar, está em risco – regressou-se à turbulenta “política de grandes potências”.

O mundo tem uma nova divisão geoeconómica – de um lado, os exportadores líquidos de combustíveis fósseis que dominam o mercado do petróleo e do gás, e do outro os importadores compulsivos daquelas matérias-primas estratégicas.

Quem o diz é Michael Klare, especialista americano em segurança internacional no Hampshire College, autor do recente ‘Rising Powers, Shrinking Planet’ (a sugestiva imagem de que há potências que ascendem, enquanto o planeta encolhe).

Klare havia levantado o véu desta mudança num seu livro anterior intitulado ‘Resource Wars’ (guerras pelos recursos, publicado em 2002), escrito antes da invasão do Iraque. Na entrevista que, então, nos concedeu, a conclusão era clara: há o risco de guerras pelos recursos em série.

Voltámos à conversa com Klare e a primeira conclusão é forte: “Um novo capítulo da história da política e da economia internacionais começou. Um mundo de tantas potências ascendentes e de recursos escassos só pode produzir uma competição desbragada”, sublinha. A era de uma superpotência “sozinha”, apoiada no seu inquestionável poder de projecção militar, está em risco – regressou-se à turbulenta “política de grandes potências”, adverte os distraídos.

Lugares baralhados

A história baralhou totalmente os lugares que ricos e pobres herdaram do século XX. Ironicamente, a vaga de globalização a partir de 1999, com o novo ciclo de preços do crude e a emergência do terceiro choque petrolífero, colocou, temporariamente, uma ex-superpotência (Rússia), ex-colónias e periferias de antigos impérios e pequenas e médias potências regionais detentoras de reservas de ouro negro e gás num bloco de países com caixas registadoras que lhes permitem captar enormes fluxos de dólares e adquirir projecção geopolítica.

Do outro lado da balança há uma amálgama jamais vista de deficitários crónicos na balança energética – a maioria das potências da OCDE (tido como o «clube» dos desenvolvidos da segunda metade do século passado), os dois grandes emergentes (China e Índia), a grande maioria dos países de desenvolvimento intermédio e uma miríade de países pobres e cada vez mais pobres para quem o petróleo e o gás são como oxigénio.

O que tudo isto implicou, afirma-nos Klare, é que a “dinâmica central dos negócios estrangeiros” na primeira metade do século XXI vai girar em torno da conservação, captação e controlo desses recursos estratégicos.

O instrumento fundamental dessa corrida não vai ser o grupo das multinacionais tradicionais da energia, nem mesmo as companhias de bandeira dos produtores e exportadores (que detém hoje formalmente 81% das reservas) nem mesmo os fundos soberanos da moda – mas os governos dos dois lados da linha de fronteira.

A geoeconomia dos recursos estratégicos vai-se “politizar ao extremo” – tal como após a famosa Conferência de Berlim do século XIX – e “militarizar”, refere Klare. Com uma agravante – estes recursos estratégicos estão em declínio e os «glutões» para os consumir são muitos mais.

Zonas de embate estão de regresso

E corre-se o risco de começar por uma “guerra fria” entre grandes potências dos dois lados e acabar na multiplicação de “guerras quentes” nas regiões do globo que servem de torneiras ou de corredores logísticos do petróleo e do gás e que são povoadas por pequenos e médios países cuja “maldição” é a geografia ou o subsolo.

Os especialistas chamam a essas regiões de «zonas de embate» ou «cinturas de fragmentação» («shatterbelts», em inglês). Os casos do Médio Oriente, de África (Angola merece alguma atenção no livro de Klare), do Cáucaso (recentemente em destaque nos «media») e da Ásia Central vêm logo à memória.

Mas outros poderão rapidamente emergir como as Caraíbas (fruto da estratégia venezuelana com a ‘Alternativa Bolivariana para las Americas’ e a emergente aliança político-militar com a Rússia), a Indochina (a Birmânia é, por exemplo, um naco muito apetecível) ou o Mar da China (se a China e o Japão se desentenderem seriamente sobre os campos de gás «offshore» de Chunxiao).

Como primeiro antídoto, Klare advoga um diálogo estratégico entre os Estados Unidos e a China sobre a questão da energia, já que são as duas principais “vítimas” do défice energético, incluindo una forte aliança na investigação científica para alternativas à dependência dos combustíveis fósseis. Se o não fizerem, os dois grandes “transformar-se-ão em vassalos da Rússia e da Arábia Saudita” e ficarão à mercê inclusive de “pequenos” provocadores, conclui o nosso entrevistado.

DESTAQUE
Risco mundial segundo Michael Klare

Mote: «Uma guerra mundial pode rebentar da noite para o dia, sem ninguém a planear, fruto de uma cadeia de eventos»

O risco de conflito de grandes proporções aumentou também – apesar de continuarmos com uma superpotência e de as potências eventualmente desafiantes medirem ainda o terreno (como é o caso da Rússia, que poderá repetir ou não o comportamento clássico da Alemanha nos séculos XIX e XX) ou estarem ainda na fase da expansão «suave» (o famoso «soft power» da China).

“Pode haver um risco de guerra mundial, não motivada por desenho ou intenção estratégica, mas por acidente ou cálculo político errado de um qualquer competidor de recursos, mesmo pequeno ou médio. Um padrão similar ao que desencadeou a 1ª Guerra Mundial não pode ser colocado de lado. Uma guerra mundial pode rebentar da noite para o dia, sem ninguém a planear, fruto de uma cadeia de eventos”, refere-nos Michael Klare.