Setembro 2008


Foi o secretário do Tesouro Henry Paulson que na semana passada disse, meio a gozar, esta pérola: os americanos (no caso, os contribuintes) já estavam pendurados no gancho.

Mas o problema do gancho é mais vasto – a América está cada vez mais encurralada em dilemas estratégicos, em que tomar uma opção traz, também, más noticias.

Não só no campo da crise financeira (onde já está bem patente), como na projecção de «hard power» (onde concentrar forças? como usar a flexibilidade?), ou no descrédito do seu «soft power» (terá condições de refazer o marketing político de que gozava depois da queda do Muro de Berlim?).

McCain continua a viver numa segunda prisão – crê que o problema americano no campo geoestratégico é basicamente uma questão de «produtividade» militar. As opções estratégicas estariam correctas, o problema é a eficácia, a persistência e um bom líder militar com boas práticas no terreno.

O homem citou mais vezes o comandante americano no Iraque até ao passado dia 15 de Setembro – o general Petraeus – que qualquer outro nome. No fundo, no fundo, é isso que McCain tem como núcleo duro na sua cabeça, é esse trunfo que ele gosta de eleger como marketing político para os americanos (provavelmente metade) que ainda não perceberam o que aconteceu durante o mandato George W. Bush.

Ficámos, também, por saber se McCain é por ou contra o famoso tripé de Bush júnior: «regime change», acções «pré-entivas» e uso de armas nucleares tácticas – era essa a grande receita dos famosos neoconservadores, que como ratos desapareceram de cena. Será que McCain pretende prosseguir a dita estratégia tríplice?

Bush, entretanto, por pragmatismo face ao descalabro, acabou por meter os três ases na gaveta e os conselheiros dessas ideias puseram-se todos a andar ou viraram a casaca. Até mesmo o seu excelso vice-presidente se eclipsou – Dick, Dick, por onde andas tu? Soube-se, agora, que Bush terá dito aos israelitas, em Maio, que tivessem juízo, por ora, quanto ao seu desejo de uma operação cirúrgica táctico-nuclear no Irão.

A montanha pariu um rato

Obama, por seu lado, refere a catástrofe que foi a Administração Bush – a política «soft» e «hard» seguida foi um desastre. Aqui, é um tiro certeiro no porta-aviões. (Mas não chega, como se verá adiante).

A América está hoje sem prestígio, até alguns agentes provocadores se dão ao luxo de lhe pisar os calos.

A América meteu-se num atoleiro no Iraque – dispersando forças, abrindo a oportunidade à emergência de uma potência regional (o Irão), perdendo capacidade de golpear num ponto crítico (tudo indica o complexo Afeganistão-Paquistão no que respeita à base central do terrorismo integrista), não tendo margem de manobra para ocorrer a outros fogos se surgirem com relevância (por exemplo, fogos criados por agentes provocadores ou por movimentos rápidos de grandes potências).

A América está falida financeiramente – depende dos japoneses (12,5%), dos chineses (11%), da plataforma da City londrina, dos petrodólares e dos brasileiros (sim, sim, são nº5 nesses fluxos).

Bush empurrou a América para vários dilemas estratégicos.

Do alto do seu discurso «guerreiro» em cima de um porta-aviões para as TV do mundo verem, Bush vai ficar na história americana como o presidente que empurrou os EUA para a defensiva estratégica. A montanha de «hard» marketing pariu um rato, de facto.

Mas falta a Obama calo político – por vezes põe-se a jeito, de tal modo que permite ao outro repreendê-lo como a um puto: «pobrecito» não sabe do que fala, é um ingénuo em negócios estrangeiros. Piadas paternalistas que em televisão matam.

Como é possível que na semana da «mãe» de todas as crises dos últimos tempos, com Bush de mão estendida (o belíssimo «cartoon» no Expresso de António) e o povo americano à beira de uma crise de nervos, Obama ainda «empatasse» no debate com McCain?

Veremos como se comportam os dois em Outubro.

Se olharmos a História, este tipo de dilemas estratégicos – financeiros, militares, geopolíticos – surgem em períodos críticos de sintomas de declínio de um dado hegemonismo.

Por vezes, a superpotência de plantão consegue superá-los, libertando-se do dilema – aconteceu, no passado, com a China há muitos séculos atrás, e com o império inglês que conseguiu manter a Pax Britannica durante dois ciclos longos geopolíticos.

Outras vezes, não, e um período aberto de “disputa” entre grandes potências, entre o incumbente e vários candidatos (uns mais atrevidos, outros mais manhosos), vê a luz do dia. Aconteceu com Génova, Veneza, Portugal, Espanha dos Habsburgos (a superpotência mais episódica de que há memória) e Holanda.

Os 5 ausentes foram responsáveis pela minha insónia.

Como foi possível que o «pivot» da cadeia de televisão e os dois candidatos à Casa Branca se tivessem “esquecido” destes cinco personagens – FED, China, Chávez, Europa, Multilateralismo.

Madrugada dentro, os dois candidatos à presidência norte-americana arrastaram-se, metade do tempo, sobre a crise financeira (sem que eu tenha conseguido entender o que cada um defende sobre o imediato e quanto aos problemas de fundo, as raízes da questão), sobre o Iraque e o Afeganistão, sobre o Irão (falar ou não com o guarda-presidente com aquele nome difícil de pronunciar), a Rússia e o Leste europeu.

Mas é espantoso como determinadas palavras-chave dos dias de hoje não mereceram sequer um rodapé do discurso – minto, Chávez foi referido por McCain num rol de vários patifes e a Europa subentendeu-se no meio da projecção da Nato na Europa de Leste, na fronteira da Rússia.

As palavras-chave que eu «googleria» para saber o que cada um deles pensa seriam os 5 grandes ausentes deste debate nocturno: FED (Reserva Federal, o famoso banco central americano), China, Chávez, Europa, Multilateralismo.

Quase telegraficamente:

1. Reserva Federal

É uma espécie de “orgão de soberania” sacrossanto cujas decisões saem fora do controlo efectivo dos políticos, a pretexto de independência (uma espécie de juízes intocáveis).

Ora à FED, quando capitaneada por Alan Greenspan, devem-se as estratégias que conduziram às «bolhas» americanas desde os anos 1990 e à «criatividade» que gerou a actual crise financeira.

Enquanto houve as «bolhas» (primeiro das «dot.com», depois do imobiliário) todos aplaudiram – de Clinton a Bush. As «bolhas» e a criatividade no intangível da Wall Street permitiram à América os seus 20 anos gloriosos e ao resto da finança mundial aproveitar a onda.

Não há lições a tirar sobre o direito arbitrário de um organismo deste tipo?

Não se está a atirar areia para os contribuintes ao colocar no cadafalso uns quantos malvados que se limitaram a usar as regras estabelecidas para obter rendas financeiras?

Não chega colocar no índex palavras como titularização, «short-selling» e desregulação. É politicamente imbecil gritar contra a “economia de casino” ou agitar o papão dos especuladores, sem ir à raiz específica desta crise – os caminhos que foram criados, que geraram as janelas de oportunidade, para um macroeconomia “rentista” (que vive de rendas) que se instalou na América, a que alguns chamam mesmo de “economia sombra”.

Isto não significa que não tenha havido vilões – que tenham ido para além das regras, que tenham eles próprios sido “criativos sobre a criatividade”. Simplesmente não basta julgar e meter na cadeia esses vilões.

É preciso MUDAR OS PROCESSOS e a responsabilidade política do castelo que manda neles.

Mas atacar em abstracto as bolsas ou os instrumentos financeiros (coisa que existe no capitalismo pelo menos desde que os holandeses inventaram os mercados de futuros no século XVII) é coisa de demagogos ou de idiotas. Querem o quê – socialismo de casino?

2. China

Como é possível passar todo um debate sem uma palavra sobre a segunda maior potência do Planeta? Foi uma ausência ensurdecedora.

Minto – recebeu, talvez, uma nota de música, pelo facto de ser um dos principais “credores” de dólares ao estado americano (títulos do Tesouro).

Mas a questão chinesa é mais do que títulos do Tesouro ou fundos soberanos.

A China é hoje o tema de um debate acalorado nos «think tank» americanos: devem os EUA adoptar uma estratégia de aliança prioritária (como o defendem abertamente vários analistas, escritores e mesmo alguns políticos) ou prosseguir uma linha de “contenção e envolvimento” – a nova «buzzword» de geopolítica inventada ultimamente: “congagement”?

Devem os EUA estender o tapete à China para entrar no G7-G8, ou continuar a ignorá-la olimpicamente?

A questão chinesa tem uma carga complicada, é um «puzzle» complexo – o país é um regime totalitário, mas uma potência reemergente na economia e na projecção mundial através de uma hábil diplomacia, de uma arte de uso do «soft power», e de um paulatino acumular de forças nas finanças e no campo militar.

3. Chávez

O homem é um «agent provocateur» nas próprias «traseiras» dos Estados Unidos. McCain citou o nome dele no meio de um rol de patifes, «en passant». Mas é como assobiar para o ar.

Hugo Chávez – que faz as delícias do governo português, que provavelmente não sabe bem com quem se está a meter – corre às potências reemergentes a procurar onde se pendurar.

Tudo indica que o seu sucesso diplomático passa por «alavancar» (julga ele) a Rússia, em particular. Desenha-se uma tentativa de aliança político-militar com Moscovo que entra bem dentro, de novo, nas Caraíbas – já que a velha ilha de Fidel (outro «agent provocateur») deixou de ter mais valia de tão exangue que está.

Mas os dois candidatos ignoraram o tema. Ignorância que se calhar é mais generalizada na América do que se julga – o que gera a janela de oportunidade que Chávez usa, ciente do declínio da superpotência, da perca de credibilidade política da América, das suas cólicas financeiras.

Que estratégia vai seguir o futuro presidente dos EUA para a América Latina? Como vai neutralizar politicamente a potencial «cunha» russa nas suas próprias barbas? Ou alguém julga que Chávez consegue ser qualquer farol de uma frente antiamericana, bolivariana ou outra etiqueta qualquer? Não passará de um peão – falta-lhe a “potencialidade” que tem o Brasil.

4. Europa

Nem uma palavra sobre o tema. Outra ausência ensurdecedora.

A Europa reduz-se à questão do confronto entre os EUA e a reemergente Rússia no desgraçado «shatterbelt» do leste?

A Europa reduz-se, na visão dos americanos, à estratégia para a Nato?

Das duas, uma: ou foi culpa do «pivot» que nem se lembrou que no Velho Continente há uma entidade política colectiva, ou, então, nem mesmo os bicos de pés de Monsieur Sarkozy na ONU ou do “nice fellow” Barroso valem um cêntimo para os dois candidatos.

Silêncio estranho, quando se sabe que há «think tanks» dos dois lados que sonham com uma aliança estratégica muito estreita entre a União Europeia e os EUA para enfrentar o que chamam de moda emergente dos regimes totalitários (como a China e a Rússia que serviriam de modelo para o desenvolvimento capitalista sem a necessidade de democracia) e dos cartéis de «commodities» que estão a tornar reféns muitas potências importadoras. Bom, já diria a velha raposa Kissinger, China e Rússia não é o mesmo pão.

5. Multilateralismo

Se a crise financeira trouxe uma consequência política foi o ecoar na ONU do palavrão “multilateralismo”. Com alguma timidez por Monsieur Sarkozy (que não tirou claramente as consequências práticas do uso do termo) e mais abertamente pelo presidente do Brasil, o ex-sindicalista Lula.

O que pensam os dois candidatos americanos à Casa Branca sobre o assunto?

Apesar de o sono já dar ordens, pela madrugada dentro, esforcei-me por estar acordado, mas fiquei sem saber.

É claro que o “multilateralismo” é ainda hoje uma flor de retórica – os russos também o começaram a usar para justificar a sua própria projecção de poder recente.

O termo é sintoma de uma situação de transição em que a superpotência começa a estar em declínio na sua capacidade de «soft power» (como o alertou há muito Joseph Nye), na sua máquina financeira (o ministro das Finanças alemão disse, na semana passada, que os EUA estão a perder o seu lugar de superpotência financeira) e mesmo na gestão da sua capacidade efectiva de «hard power» (ou seja, conseguir concentrar o golpe em sítios certos para conquistar vitórias sólidas, ou aguentar uma dispersão de projecções com resultados satisfatórios).

O dia de ontem (23 de Setembro) foi marcado por três afirmações sintomáticas sobre a crise financeira da Wall Street e da rede financeira mundial – uma no Senado americano em Washington e duas nas Nações Unidas. Uma por um americano, e duas outras por “estrangeiros”.

Americanos no gancho

Henry Paulson Jr, o secretário do Tesouro americano, respondeu aos senadores do painel sobre assuntos bancários, em Capitol Hill, com uma piada trágica: “Vocês estão preocupados com o facto de os contribuintes poderem vir a ficar pendurados no gancho? – Adivinhem lá – eles já estão pendurados!”. «On the hook» (No gancho) transformou-se rapidamente no tema dos «media».

Moral da história: os contribuintes americanos estão encurralados, em virtude das políticas financeiras seguidas pela Reserva Federal (banco central, também conhecido pelo acrónimo FED) desde o consulado de Alan Greenspan, da desregulação prosseguida desde o presidente Carter em 1978 e das «bolhas» criadas desde os tempos áureos da gerência de Bill Clinton e, mais recentemente, após a crise de 2001, pela administração Bush. Bolhas que deram aos americanos os seus recentes “gloriosos vinte anos”.

Apesar da noção do dilema que atravessa os decisores americanos, Henry Paulson e os outros três «magníficos» (Ben Bernanke, patrão da FED, Christopher Cox, chefe da Securities and Exchange Commission, e James Lockhart, director da Federal Housing Finance Agency) foram «entalados» pelos dois lados.

Há uma resistência real por parte dos republicanos, que temem que o pacote de 700 mil milhões de dólares seja tão ineficiente como as injecções anteriores de 800 mil milhões e só lhes traga mais irritação dos eleitores, e dos democratas que não querem dar um cheque em branco face ao clima “catastrofista” criado por Paulson, o que faz recordar o marketing político criado aquando da «venda» da operação do Iraque por esta Administração.

Os democratas querem, ainda, que a intervenção do Estado nas instituições em apuros implique uma espécie de “acções contingentes” que, mais tarde, sejam vendidas nas bolsas. Não pretendem que o Estado largue o dinheiro sem contrapartidas, e muito menos que esta injecção se torne mais um óptimo negócio para firmas da Wall Street que venham a gerir os tais “leilões invertidos” que Paulson prevê para a aplicação dos 700 mil milhões. Recorde-se que a Blackrock, digna representante deste segmento de serviços financeiros, tem vindo a ganhar bom dinheiro na liquidação do «lixo» financeiro da Bear Stearns.

Os analistas apontam para a continuação das negociações durante esta semana, podendo haver ‘fumo branco’ provavelmente só sexta-feira ou mesmo no próximo fim-de-semana.

Geopolítica entra em cena

Mas a audição no Senado teve outras repercussões, porventura, mais decisivas a médio e longo prazos. Umas centenas de quilómetros acima do Capitólio, na ONU, o eco da reflexão sobre a crise financeira foi global.

A União Europeia, pela boca do presidente francês Nicolas Sarkozy, e a América Latina na intervenção do presidente brasileiro Lula da Silva, aproveitaram a janela de oportunidade para reclamar o óbvio: o dilema americano requer uma solução encontrada “multilateralmente”.

Esse “multilateralismo” implica, nomeadamente, como o explicitou Lula, a reforma das instituições mundiais, incluindo as informais (como o desajustado G7 ou G8) e as financeiras, o que significa, na linguagem cifrada da diplomacia, alterar os actuais equilíbrios, nomeadamente diminuindo o peso da superpotência, aproveitando o facto de estar em apuros. Como disse Lula: que se adoptem soluções “em «fora» multilaterais, sem imposições”.

Sarkozy, a par de um discurso retórico sobre a “reforma” do capitalismo, propôs uma cimeira em Novembro para reflectir sobre a crise “sem ser a quente”, e que se baseie no G8 “com uma possibilidade de abertura aos países emergentes”. Sarkozy ainda hesita em reconhecer o óbvio e coloca timidamente a palavra “possibilidade de abertura” às novas grandes potências emergentes.

Um pacote sem precedentes de injecção de liquidez financeira nos mercados mundiais e promessas de medidas de regulação extraordinárias parecem ter acalmado as bolsas americanas, latino-americanas e asiáticas que fecharam ontem (18 de Setembro) e hoje de madrugada largamente positivas.

A Europa abriu hoje (19 de Setembro) também em alta. Como conclui a revista Business Week, a política dominante mudou – agora a hiper-regulação vai ficar de novo na moda, depois de um intervalo “liberal” desde que em 1978 o presidente americano Carter iniciou o Airline Deregulation Act.

Nestes últimos sete dias, a superpotência americana voltou a revelar um dos seus calcanhares de Aquiles: o financeiro e o dilema estratégico a que chegou nesse campo (as várias medicinas de opção têm riscos enormes). Os dilemas estratégicos em geopolítica e geoeconomia costumam ser sintoma de declínio.

Esta quinta-feira (18 de Setembro) foi de redenção. O míni-«crash» voltou à gaveta de onde, de vez em quando, sai, desde que o «subprime» estoirou em Agosto do ano passado. As bolsas americanas inverteram drasticamente as quebras do dia anterior – Dow Jones Industrial averbou um ganho de 3,86%, o Nasdaq de 4,78% e o S&P500 de 4,33 -, as bolsas asiáticas deram um salto significativo já hoje de madrugada, incluindo as que estavam muito no vermelho como Xangai. Hoje de manhã (19 de Setembro), as bolsas europeias estão a abrir no positivo e os casos clínicos mais graves de ontem, como a Rússia (que chegou a interromper a negociação) e a Irlanda, estão com verdadeiros «booms».

O leitor interrogar-se-á: qual foi o milagre de ontem? Tudo indica que houve uma conjugação de várias «medicinas» que acalmaram a crise financeira.

Depois do anúncio de manhã de uma intervenção conjugada dos principais bancos centrais do mundo envolvendo um montante de 130 mil milhões de euros (mais de 80% do PIB português de 2007) disponíveis para «swaps», nova surpresa multimilionária: ao final da noite em Washington DC, a Reserva Federal anunciou ir disponibilizar muito mais do que o anunciado de manhã. Agora iria até um montante recorde de 247 mil milhões de dólares (o equivalente a 173 milhões de euros, mais do que o PIB português do ano passado) para trocar por outras divisas dos bancos centrais da Europa, da Suíça, do Canadá, de Inglaterra e do Japão. Entretanto, os Bancos centrais do Japão e da Austrália, por sua conta, injectaram 20 mil milhões de dólares hoje de madrugada.

O que a Reserva Federal não deu com a mão esquerda (baixar a taxa de juro directora, estacionária nos 2%, que mesmo assim está muito abaixo da inflação americana, já em 5,4%), está, generosamente, a dar com a direita de um modo nunca visto: injecção nunca vista de liquidez.

O que alivia temporariamente a dor. Alguns analistas chamam-lhe «morfina monetária». Em Março, aquando do míni-«crash» da altura e do «affaire» Bear Stearns, já havíamos visto uma amostra do novo papel político da FED e do Tesouro norte-americano (o Ministério das Finanças do governo). Na verdade, as instituições abandonaram o discurso ideológico e vestem a roupagem intervencionista usando o dinheiro dos contribuintes para limpar a sujidade da noite anterior.

Mas as autoridades americanas na sua missão de «mão visível» do mercado financeiro anunciaram, agora, a preparação e discussão de um conjunto de medidas legais, aplaudidas por muitos analistas e banqueiros – e pelos mercados, sempre com o olho no curto prazo -, e recebidas com cepticismo por poucos, a contracorrente.

A primeira em estudo é uma verdadeira operação de limpeza contabilística. A Securities and Exchange Commission (SEC), com a FED e o Tesouro prevêem discutir com o Congresso norte-americano um plano para ajudar as casas financeiras em apuros a «remover» dos seus balanços os activos «tóxicos». Onde vão colocar esse «lixo» financeiro? Estudam-se opções.

Uma das ideias é instituir um fundo de 800 mil milhões de dólares (3,5 vezes o PIB português do ano passado, comparando uma vez mais) para comprar esse «lixo» e ainda uma almofada no Federal Deposit Insurance Corp (que regula as falências) de outros 400 mil milhões para garantir os investidores – e sabe-se como os chineses pressionaram politicamente as autoridades norte-americanas nestas últimas semanas. Outro rumor é que os recém-nacionalizados Freddie & Fannie serão usados para essa lavagem. Há, ainda, quem proponha uma agência do género da criada nos anos 1990 quando houve que fazer a limpeza da crise financeira da altura.

A segunda do super pacote é atacar certas técnicas financeiras de compra e venda de acções usadas ao abrigo do esquema legal do chamado «short-selling». Muitas destas operações não passam de aquisições fantasma (são pedidas emprestadas) para depois vender massivamente acções de uma dada empresa cotada que levam a cotação a cair a pique, que depois são recompradas pelos mesmos a preços de pechincha e devolvidas aos «brokers» iniciais. No meio do jogo fazem-se margens.

Muitos acusam que este mecanismo foi usado para atacar a Freddie, o Fannie e o Lehman Brothers, bem como a AIG e a Merrill Lynch, e mesmo a Morgan Stanley e a Goldman Sachs nas últimas semanas. Note-se que os bancos de investimento – como é o caso da Lehman (que faliu entretanto), Morgan (que negoceia, agora, com Wachovia norte-americano e CITIC chinês), Merrill (que será absorvido pelo Bank of America) e Goldman – são muito sensíveis à queda de acções em bolsa, pois alavancam a sua capitalização como argumento para assegurar o seu financiamento, pois não têm depósitos. Em Julho passado, a SEC já havia imposto uma regulação de emergência por três semanas atacando o chamado «naked short-selling» em 19 casos (que incluíam a Lehman, a Fannie e a Freddie).

Na Inglaterra, a Financial Services Authority andou mais rápido do que a SEC americana e decretou já uma proibição temporária deste tipo de movimentos até Janeiro. O que o motivou foi o que ocorreu com o HBOS, a maior instituição inglesa de crédito hipotecário, que perdeu mais de 1/3 do seu valor de mercado em três dias.

Nos Estados Unidos, três grandes fundos de pensões alteraram a sua actuação, terminando com a venda das suas acções nomeadamente do Morgan Stanley e da Goldman Sachs. Segundo foi noticiado, tratou-se do California Public Employees’ Retirement System (conhecido por CASPERS), o New York State Common Retirement Fund e o California State Teachers Retirement System.

Num artigo publicado no International Herald Tribune, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger e Martin Feldstein, professor de economia da Universidade de Harvard e ex-conselheiro de Ronald Reagan, apelam a que os Estados Unidos promovam uma aliança política dos “principais países consumidores” de petróleo que altere o actual desequilíbrio no mercado energético a favor da OPEP.

O político norte-americano propõe a criação de um grupo de coordenação entre o Grupo dos 7 mais desenvolvidos (o G7 é formado pela Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), com a Índia, a China e o Brasil, para o qual a Rússia deverá “ser convidada a participar neste esforço”. Esta ‘deixa’ para o convite da Rússia choca, naturalmente, com algumas ambições desta potência para criar um cartel similar ao da OPEP no sector do gás natural e face à sua presença como observador nas reuniões do cartel petrolífero.

O objectivo político é claro: alterar as tendências de longo prazo neste mercado, reduzindo o preço do barril do ponto de vista imediato, e “terminar com a chantagem dos fortes [do crude] sobre os fracos”.

Esta cooperação deverá incluir intervenções de emergência para contra-atacar boicotes selectivos ou interrupções de fornecimentos.

Intitulado “The Rising danger of high oil prices”, Kissinger refere as “enormes” consequências geopolíticas que estão a decorrer da escalada do preço do barril de petróleo, permitindo o fortalecimento da liquidez financeira dos países exportadores, o reforço do seu papel monopolista neste mercado (que se tornou um mercado dominado pelos vendedores), e as oportunidades geopolíticas que abre a esse grupo para intervir “desproporcionadamente” na cena mundial, directa ou indirectamente.

Apesar da última reunião da OPEP, realizada dia 9 de Setembro, ter revelado linhas de fractura interna (com a Arábia Saudita a contradizer no dia seguinte nos meios diplomáticos a resolução de “corte” na quota global de produção pelo cartel nos próximos quarenta dias), o ataque político de Kissinger deverá provocar alguma onda de choque.

Kissinger, hoje com 85 anos, foi secretário de Estado dos presidentes americanos Nixon e Ford entre 1973 e 1977 e conselheiro de Segurança Nacional entre 1969 e 1975.

Uma entrevista com Michael Klare a propósito do livro ‘Rising Powers, Shrinking Planet

Ideia central: “Um novo capítulo da história da política e da economia internacionais começou. Um mundo de tantas potências ascendentes e de recursos escassos só pode produzir uma competição desbragada”, sublinha. A era de uma superpotência “sozinha”, apoiada no seu inquestionável poder de projecção militar, está em risco – regressou-se à turbulenta “política de grandes potências”.

O mundo tem uma nova divisão geoeconómica – de um lado, os exportadores líquidos de combustíveis fósseis que dominam o mercado do petróleo e do gás, e do outro os importadores compulsivos daquelas matérias-primas estratégicas.

Quem o diz é Michael Klare, especialista americano em segurança internacional no Hampshire College, autor do recente ‘Rising Powers, Shrinking Planet’ (a sugestiva imagem de que há potências que ascendem, enquanto o planeta encolhe).

Klare havia levantado o véu desta mudança num seu livro anterior intitulado ‘Resource Wars’ (guerras pelos recursos, publicado em 2002), escrito antes da invasão do Iraque. Na entrevista que, então, nos concedeu, a conclusão era clara: há o risco de guerras pelos recursos em série.

Voltámos à conversa com Klare e a primeira conclusão é forte: “Um novo capítulo da história da política e da economia internacionais começou. Um mundo de tantas potências ascendentes e de recursos escassos só pode produzir uma competição desbragada”, sublinha. A era de uma superpotência “sozinha”, apoiada no seu inquestionável poder de projecção militar, está em risco – regressou-se à turbulenta “política de grandes potências”, adverte os distraídos.

Lugares baralhados

A história baralhou totalmente os lugares que ricos e pobres herdaram do século XX. Ironicamente, a vaga de globalização a partir de 1999, com o novo ciclo de preços do crude e a emergência do terceiro choque petrolífero, colocou, temporariamente, uma ex-superpotência (Rússia), ex-colónias e periferias de antigos impérios e pequenas e médias potências regionais detentoras de reservas de ouro negro e gás num bloco de países com caixas registadoras que lhes permitem captar enormes fluxos de dólares e adquirir projecção geopolítica.

Do outro lado da balança há uma amálgama jamais vista de deficitários crónicos na balança energética – a maioria das potências da OCDE (tido como o «clube» dos desenvolvidos da segunda metade do século passado), os dois grandes emergentes (China e Índia), a grande maioria dos países de desenvolvimento intermédio e uma miríade de países pobres e cada vez mais pobres para quem o petróleo e o gás são como oxigénio.

O que tudo isto implicou, afirma-nos Klare, é que a “dinâmica central dos negócios estrangeiros” na primeira metade do século XXI vai girar em torno da conservação, captação e controlo desses recursos estratégicos.

O instrumento fundamental dessa corrida não vai ser o grupo das multinacionais tradicionais da energia, nem mesmo as companhias de bandeira dos produtores e exportadores (que detém hoje formalmente 81% das reservas) nem mesmo os fundos soberanos da moda – mas os governos dos dois lados da linha de fronteira.

A geoeconomia dos recursos estratégicos vai-se “politizar ao extremo” – tal como após a famosa Conferência de Berlim do século XIX – e “militarizar”, refere Klare. Com uma agravante – estes recursos estratégicos estão em declínio e os «glutões» para os consumir são muitos mais.

Zonas de embate estão de regresso

E corre-se o risco de começar por uma “guerra fria” entre grandes potências dos dois lados e acabar na multiplicação de “guerras quentes” nas regiões do globo que servem de torneiras ou de corredores logísticos do petróleo e do gás e que são povoadas por pequenos e médios países cuja “maldição” é a geografia ou o subsolo.

Os especialistas chamam a essas regiões de «zonas de embate» ou «cinturas de fragmentação» («shatterbelts», em inglês). Os casos do Médio Oriente, de África (Angola merece alguma atenção no livro de Klare), do Cáucaso (recentemente em destaque nos «media») e da Ásia Central vêm logo à memória.

Mas outros poderão rapidamente emergir como as Caraíbas (fruto da estratégia venezuelana com a ‘Alternativa Bolivariana para las Americas’ e a emergente aliança político-militar com a Rússia), a Indochina (a Birmânia é, por exemplo, um naco muito apetecível) ou o Mar da China (se a China e o Japão se desentenderem seriamente sobre os campos de gás «offshore» de Chunxiao).

Como primeiro antídoto, Klare advoga um diálogo estratégico entre os Estados Unidos e a China sobre a questão da energia, já que são as duas principais “vítimas” do défice energético, incluindo una forte aliança na investigação científica para alternativas à dependência dos combustíveis fósseis. Se o não fizerem, os dois grandes “transformar-se-ão em vassalos da Rússia e da Arábia Saudita” e ficarão à mercê inclusive de “pequenos” provocadores, conclui o nosso entrevistado.

DESTAQUE
Risco mundial segundo Michael Klare

Mote: «Uma guerra mundial pode rebentar da noite para o dia, sem ninguém a planear, fruto de uma cadeia de eventos»

O risco de conflito de grandes proporções aumentou também – apesar de continuarmos com uma superpotência e de as potências eventualmente desafiantes medirem ainda o terreno (como é o caso da Rússia, que poderá repetir ou não o comportamento clássico da Alemanha nos séculos XIX e XX) ou estarem ainda na fase da expansão «suave» (o famoso «soft power» da China).

“Pode haver um risco de guerra mundial, não motivada por desenho ou intenção estratégica, mas por acidente ou cálculo político errado de um qualquer competidor de recursos, mesmo pequeno ou médio. Um padrão similar ao que desencadeou a 1ª Guerra Mundial não pode ser colocado de lado. Uma guerra mundial pode rebentar da noite para o dia, sem ninguém a planear, fruto de uma cadeia de eventos”, refere-nos Michael Klare.