Sex 8 Ago 2008
A crise do sistema financeiro norte-americano não se repercute, apenas, na área onde nasceu. Tem implicações no estatuto de superpotência dos Estados Unidos.
A fragilidade financeira norte-americana implica danos colaterais em áreas da geoeconomia e da geopolítica para a superpotência actual.
Um ano depois do início do rastilho do «subprime», os primeiros sinais começam a ser visíveis. A situação é substancialmente distinta do período do «crash» do Nasdaq e da recessão que se lhe seguiu nos Estados Unidos em 2000 e 2001. Apesar de, apenas, terem decorrido oito anos, a correlação de forças no mundo é hoje muito diferente.
Cinco pistas a seguir
Há cinco pistas a seguir com atenção, segundo vários analistas: as decisões de investimento de alguns «fundos soberanos», propriedade de estados ricos em exportação de recursos estratégicos ou produtos (Sovereign Wealth Funds, na designação anglo-saxónica); a indexação de divisas ao dólar americano; o financiamento estrangeiro do défice externo americano; a politização das negociações de comércio internacional; e o desenvolvimento de alianças baseadas no domínio de recursos críticos.
Os fundos soberanos (excluindo os fundos de pensões) tornaram-se «estrelas» mediáticas como «salvadores», durante esta crise, junto do Citigroup, UBS, Morgan Stanley, Merrill Lynch e Blackstone Group. No cume multimilionário encontram-se os fundos geridos pelo Abu Dhabi, Singapura, Arábia Saudita, Kuwait, China, Hong Kong e Rússia. Os fundos soberanos representam, contudo, apenas, 1,5% dos mercados de capitais mundiais, mas têm estado sob vigilância devido a muitos deles não actuarem segundo boas práticas, normas que o Fundo Monetário Internacional quer fazer aprovar na sua reunião de 11 de Outubro. Nos 43 rastreados pelo Peterson Institute, 14 apresentam classificação medíocre.
O risco poderá advir de alguns destes fundos deixarem de ser «investidores passivos» e passarem a ser instrumentos de projecção de poder geopolítico dos países que os controlam. O estudo refere, ainda, o papel que estes fundos podem desempenhar como instrumentos de projecção de novos grupos estatais multinacionais, referindo os casos «potenciais» da China e do Brasil.
A actual crise tem estado umbilicalmente ligada ao colapso do dólar americano, cujo declínio poderá ainda continuar com uma desvalorização global de mais 5 a 10% em relação a um cabaz amplo de divisas, em particular em relação às moedas asiáticas (Singapura, Malásia, China, Taiwan, Coreia do Sul e Japão) e ao franco suíço. Este colapso do dólar poderá, no entanto, implicar valorizações em relação ao euro e ao iene japonês.
A redução da liquidez denominada em dólares americanos poderá colocar um dilema político aos países exportadores de petróleo e gás e aos que vivem do «outsourcing» massivo de bens industriais. A indexação ao dólar poderá ter de ser revista e as aplicações de investimento financeiro nos Estados Unidos (necessárias para cobrir os 500 mil milhões de défice externo actual da superpotência) por parte dos mais ricos em divisas (China com 23% das reservas mundiais, Japão com 13%, Rússia e Zona Euro com 8% cada uma e Índia com 4%) poderão ser postas em causa.
Politização do comércio mundial
Finalmente, assistimos à «politização» clara do comércio internacional, aproveitando a fraqueza dos Estados Unidos.
A Ronda de Doha da Organização Mundial do Comércio fracassou pela terceira vez ao fim de nove dias em Genebra, lançando para a ribalta três protagonistas: Índia (cujo ministro de comércio, Kamal Nath, se tornou o «mau da fita»), China (mais discreta, actuando na «sombra» pela mão de Chen Deming, o responsável pela pasta do comércio em Beijing) e Brasil, aparentemente mais conciliador, com o presidente Lula a apelar a uma «solução política, e não técnica», entre os seis grandes do mundo – EUA, União Europeia, Japão, China, Índia e Brasil.
Um artigo publicado na Índia intitulava euforicamente: “Como a China e a Índia puseram o mundo de joelhos”, ilustrando com os dois irmãos-de-armas, os dois ministros.
A Ronda desenvolvia-se desde há sete anos quando foi inaugurada no Qatar. Apesar do seu compasso de espera, o comércio internacional cresceu 70% no início deste novo século, atingindo os 14 biliões (14 milhões de milhões, 14 triliões, na designação brasileira e anglo-saxónica) de dólares, um ritmo mais de duas vezes superior ao crescimento do PIB mundial no mesmo período. O temor, agora, é que os fluxos globais arrefeçam em benefício de um mundo de regiões, de proliferação de acordos bilaterais ou regionais.
No plano dos recursos estratégicos começa a desenhar-se um novo modelo de alianças, em que a estratégia «soft» (1) da China já não está sozinha. Como companheiros mais recentes, encontramos os movimentos da Rússia na procura de uma aliança estratégica com a Venezuela (ainda que os rumores militares não se tenham confirmado) e da Gazprom (monopólio russo estreitamente ligado ao Kremlin) oferecendo-se para comprar toda a exportação de gás da Líbia!
Nota:
(1) «Soft» não significa que a China não invista no reforço das suas capacidades militares de projecção. O orçamento para a defesa deverá sextuplicar até 2020, chegando aos 360 mil milhões de dólares, o que, contudo, será, ainda, 70% do orçamento de defesa actual dos Estados Unidos.
(c) Jorge Nascimento Rodrigues, Agosto 2008
Agosto 8th, 2008 at 23:26
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