Dom 25 Mai 2008
E depois do “império” Bush – Parte I
Por JNR na secção A questão dos impérios , Geoprotagonistas , Globalizaçãoainda sem comentários
Por mais paradoxal que pareça, o período de hegemonia mundial dos Estados Unidos foi curto. Durou provavelmente pouco mais de uma década – os marcos simbólicos da linha de partida e da linha de chegada terão sido, respectivamente, a queda do Muro de Berlim em Novembro de 1989 e o rebentar da «bolha» do NASDAQ no ano 2000.
Por hegemonia entende-se, segundo os especialistas da geopolítica e geoeconomia, o domínio do mundo por um “hegemonista sozinho”. Essa “solidão” permite-lhe usufruir de um período em que não tem de partilhar zonas de influência com outra superpotência de menor peso (como aconteceu entre os Estados Unidos e a URSS desde a divisão da Europa no final da 2ª Guerra Mundial) ou sentir-se limitado nos seus movimentos de projecção mundial por outras potências emergentes “desafiadoras” (o que os anglo-saxónicos chamam de «challengers»).
Hegemonista sozinho de curta duração
Em regra, esses períodos são curtos – o que não impede que uma superpotência possa liderar todo um longo ciclo geopolítico (de várias décadas ou mesmo séculos), mesmo sem estar sozinha no tabuleiro decisivo do mundo. O que tem ocorrido com os Estados Unidos desde que começaram a “substituir” a Pax Britannica na segunda década do século XX.
O caso clássico na história dos ciclos geopolíticos e geoeconómicos, segundo o especialista George Modelski, é o português. O período de hegemonia da então superpotência portuguesa foi, tipicamente, curto, entre 1509 (data da histórica batalha de Diu ganha pelos portugueses contra a coligação que procurava continuar a dominar o circuito mundial das especiarias) e 1521, à data da morte do monarca Manuel I que levou para a cova o que os historiadores portugueses denominaram de “projecto imperial manuelino”. Apesar de a hegemonia ter sido curta, Portugal liderou todo um ciclo longo geopolítico mundial entre 1494 (altura do Tratado de Tordesilhas) e 1580 (altura da imposição da monarquia dual ibérica liderada pela dinastia espanhola dos Filipes).
O curto período de hegemonia americana bafejou dois felizardos – o final do mandato do presidente Bush-pai (que terminou em 1993) e toda a Administração Clinton (até Janeiro de 2001).
Foi um período em que os Estados Unidos – usando a terminologia do académico Joseph Nye – puderam dar primazia ao «soft power» (marketing ideológico do “modelo americano”, dinamização de alianças, globalização das multinacionais norte-americanas, vanguarda da revolução da Internet e do empreendedorismo «dot.com») na sua projecção mundial, usando o «hard power» de um modo cirúrgico (por exemplo, resolução da questão do Kuwait em 1990-1991).
A falência do “bushevismo”
Ironicamente é a Administração Bush-filho que apanha com o final da boda.
Dois acontecimentos marcam simbolicamente este fim de festa: o atentado terrorista em Manhattan em Setembro de 2001 revelando a desatenção da segurança norte-americana (havendo, naturalmente, várias “teorias” sobre as razões desse ponto fraco); e a publicação em Novembro de 2001 de um relatório da Goldman Sachs (GS) popularizando uma nova categoria geoeconómica e geopolítica, os BRIC (designação para as quatro potências emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China).
O choque psicológico foi profundo desde essa altura.
A previsão realizada pela GS era arrasadora: em 2040, os BRIC representarão 50% das 10 maiores economias do mundo, e a meio do século XXI representarão 60%. A China ultrapassará os Estados Unidos em PIB em paridade de poder de compra em 2040 e a meio do século mostrará um diferencial de mais de 10 biliões (triliões, na designação anglo-saxónica) de dólares em relação aos Estados Unidos.
Um “filme” que os americanos conhecem da sua própria História – os EUA tornaram-se a primeira potência económica do mundo em 1913 com um PIB equivalente ao de todo o Império Britânico. Ainda que não haja uma correlação linear entre liderança económica e liderança geopolítica, a primeira é condição da segunda.
Sub-repticiamente, começava a insinuar-se que estávamos a assistir ao fim do “século americano”. Foi Henry Luce, o fundador das revistas Time, Fortune e Life, que cunhou essa ideia em 1941 num artigo publicado na Life.
O atentado de 11 de Setembro abriu, assim, uma janela de oportunidade para uma corrente política americana (apelidada de “neoconservadora”, conhecida pelo diminutivo de «neo-cons») que julgou chegada a sua hora de dominar a condução dos Negócios Estrangeiros da Casa Branca. William Kristol e Robert Kagan lançariam o “Project for the New American Century” (o sítio na Web já está desactivado). A ideia era fazer a “dobradinha” no século XXI do que Luce nos anos 1940 advogara.
A política americana deveria romper com a predominância do «soft power» na sua projecção mundial e exercer uma nova doutrina assente em três “ferramentas” de «hard power»: direito de intervenção militar em países soberanos em prol da mudança de regime («regime change»); recurso a acções de guerra «preemptive» (termo inglês para a legitimidade de invasão de países alegadamente potenciais ameaças iminentes); e luz verde ao uso de armas nucleares tácticas (o que, ainda, não foi posto em prática).
A Administração Bush-filho assumiu esta geoestratégia, que muitos alcunharam de “bushevismo”, em virtude da sua campanha de marketing político de que se trataria de um novo movimento internacional “libertador” com um efeito dominó em muitos regimes, particularmente no Médio Oriente, zona nevrálgica de duas «commodities» estratégicas, o petróleo e o gás.
Em vez de inverter a situação de declínio do poder hegemónico americano, a política “bushevista” aprofundou uma trilogia de efeitos “estruturais”, dizem os críticos: cavou o isolamento dos Estados Unidos revelando, em contrapartida, o peso progressivo de outras grandes potências emergentes; tornou clara a ineficácia crescente das suas intervenções de projecção mundial, apesar da hegemonia militar absoluta e da superioridade da sua inovação tecnológica e logística em matéria de defesa; e gerou um profundo mal-estar no cidadão comum americano que não se sentia há muitas décadas.
A vingança da economia
Para cúmulo, a economia foi, também, madrasta para a Administração Bush-filho.
Depois de quinze anos de manipulação das taxas de juro pela Reserva Federal americana (FED) e de injecções crescentes de dinheiro (só na Administração Bush-filho, o indicador M3 revelou que o crescimento anual de injecção de dinheiro passou de 6% em 2003 para 16% em 2007) que alimentaram duas «bolhas» económicas sucessivas – a das «dot.com» entre 1995 e 2000, e a imobiliária a partir de 2002 -, a economia americana vingou-se de vez.
Tudo indica que os Estados Unidos poderão ter entrado num novo ciclo recessivo, segundo alguns analistas desde 2005, situação que se terá agravado com os efeitos da crise financeira do «subprime» desde Agosto de 2007.
Os números reais (alternativos aos oficiais) ameaçam ser alarmantes e desmoralizar o americano da rua: inflação a nível de alguns países do Terceiro Mundo e emergentes (sem a contrapartida de um crescimento equivalente); desemprego superior a 10%; falências familiares derivadas do «subprime»; desespero na bomba de gasolina, com a previsão do galão poder chegar aos 4,25 dólares (1,12 dólares por litro, 71 cêntimos de euro ao câmbio actual, o que é, ainda, uma pechincha face à Europa) quando no início de 2001 rondava 1,4 dólares.
É, neste contexto, que os académicos americanos, especialistas em geoeconomia e geopolítica, discutem o “dia seguinte” à Administração Bush-filho. Alguns livros e artigos tornaram-se rapidamente foco de polémica durante este ano, tema que será abordado na Parte II.