Apesar do grande mediatismo da alta dos preços do crude, com valores próximos dos 120 dólares por barril, o principal motor da inflação mundial actual é o disparo nos preços dos bens alimentares, segundo o World Economic Outlook do FMI.

As regiões do mundo mais vulneráveis são a Ásia emergente, a África e o Médio Oriente. No caso do Médio Oriente há uma convergência do impacto das altas de preços das «commodities» alimentares e do petróleo. O FMI aponta, ainda, uma quinzena de países em que o impacto da alta será maior na balança comercial.

Paradoxalmente, é o impacto da alta dos preços das «commodities» alimentares que está a incendiar a inflação mundial. Apesar do maior dramatismo mediático dos anúncios diários do aumento do preço do barril de crude nos noticiários dos países industrializados, o impacto desta alta contribuiu com 20% em 2006 e, apenas, 8% em 2007 para a inflação mundial – que rondou os 3,4% em 2006 e os 3,9% no ano passado.

O principal motor da inflação mundial está a ser a alta nas matérias-primas alimentares: contribuiu com 27% em 2006 e 44,3% em 2007, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma aceleração que se está a fazer sentir em maior grau na Ásia emergente, em África e no Médio Oriente, e que poderá ser trágica.

Riscos geopolíticos

A região onde houve em 2007 uma convergência mais forte entre os dois movimentos altistas é o Médio Oriente: as matérias-primas alimentares contribuíram, no ano passado, com 42,3% para o aumento da inflação nessa zona (cujo índice de preços já supera os 10% ao ano, o mais alto de todo o mundo em termos de regiões), e o petróleo com 24,4%.

O FMI avaliou, ainda, o conjunto de países em que a alta do preço das «commodities» teve maior impacto na balança comercial em 2007: os mais vulneráveis foram, paradoxalmente, a Arábia Saudita e o Kazaquistão, que são ricos em recursos energéticos.

Seguem-se por ordem de risco decrescente: Malásia, Argentina, Irão, Rússia, Peru, Indonésia, Colômbia, Brasil, Zâmbia, Chile, África do Sul e México. Verifica-se, assim, que dois dos famosos BRIC se encontram nesta «lista negra».

Razões da alta

O indicador do FMI para os preços das «commodities» cresceu 44% num ano. As razões são várias: desequilíbrios de mercado derivados do crescimento dos países emergentes e da inelasticidade da oferta, desvalorização do dólar (moeda de referência dos preços), especulação financeira (desvio das aplicações para estes produtos tidos como investimento seguro, em virtude da tendência negativa nas bolsas), instabilidade geopolítica. Uma convergência de factores jamais vista com tal intensidade.

A desvalorização do dólar é hoje um dos factores em destaque, com o euro a valer quase 1,6 dólares. O FMI elaborou cálculos que permitem avaliar o impacto de 1% de queda da moeda americana no preço das diferentes «commodities»: a um ano de distância, ele é mais elevado no cobre (1,38%), no ouro (1,13%) e no petróleo (0,81%); a dois anos, já será mais elevado no caso do petróleo no que do ouro.

Ano da convergência

Por isso, o fantasma da inflação mundial regressou desde 2005, ano em que ocorreu uma convergência de vários disparos de preços de «commodities». Um fenómeno similar havia ocorrido entre 1972 e 1975, mas desta vez a convergência altista é mais acentuada e tudo indica que será muito mais longa, sublinha o World Economic Outlook do FMI (capítulo sobre ‘Commodity Prices and Patterns of Integration’).

No caso do petróleo e do cobre, a curva altista começou a acentuar-se em 2001, para o alumínio desde 2003 e para o milho desde 2004. O disparo simultâneo do preço de um maior número de matérias-primas ocorreu, depois, em 2005: níquel, trigo, soja em grão, óleos de soja e de palma, e borracha.

Contudo, em dólares constantes, os preços da maioria das «commodities» ainda não atingiu os máximos históricos das décadas de 1970 e 1980, com excepção do barril de crude, do níquel e do chumbo.

Uma característica nova do movimento actual de preços é que a convergência altista tem um efeito multiplicador: as altas de preços contagiam-se umas às outras, e em particular entre o petróleo e as matérias-primas alimentares.