A história prega muitas partidas. Surgem sempre surpresas estratégicas. Por vezes, ironicamente, os dependentes e subjugados do passado emergem, na sombra, baralhando o jogo dos blocos económicos.

Essa reviravolta ocorreu visivelmente com o chamado Terceiro Mundo. Foi Alfred Sauvy, em 1952, na revista L’Observateur, que cunhou tal expressão para abranger os países “em desenvolvimento” e manifestamente “subdesenvolvidos”. Politicamente, o conceito ganhou força na Conferência dos Não-Alinhados em Bandung em 1955.
Contudo, vinte anos depois, o conceito já se revelava frágil.

Dois golpes deram uma sentença de morte ao Terceiro Mundo.

Entre os países asiáticos, que recusaram a via de inspiração económica socializante, emergiu um pequeno grupo que ficaria conhecido como “Tigres do Pacífico” ou ‘Dragões da Ásia”, que conseguiu fazer uma transição para um estado intermédio de desenvolvimento e inclusive, em alguns casos, para o clube dos ricos (Singapura e Hong Kong). Em contrapartida, muitos dos países que ensaiaram políticas desenvolvimentistas de inspiração socializante na Ásia, África e América Latina chegaram a situações de estagnação ou mesmo de retrocesso e submergência, em alguns casos mergulhando depois em ditaduras. Refira-se o caso da Índia, durante muitos anos bloqueada pela chamada “taxa de crescimento hindu”.

Os emergentes entram em cena

É, neste quadro, que surge o conceito de “mercados emergentes” em 1981. Um dos funcionários do Banco Mundial, Antoine W. Van Agtmael, cansado do termo pessimista “Terceiro Mundo” (uma tal etiqueta desencorajava qualquer investimento, explicou na altura), resolveu cunhar a ideia de mercados emergentes numa conferência de investidores na Tailândia.

A ideia geoeconómica de van Agtmael era a inauguração de um “século dos emergentes”. A vaga de reformas económicas na China desde 1978, a transição das economias socialistas do bloco soviético para o capitalismo depois de 1989 e a mudança de política económica na Índia em 1991 consolidaram ainda mais esta viragem.

Van Agtmael afirmou, recentemente, que nos próximos 10 anos haverá mais de mil milhões de consumidores com poder de compra de tipo classe média nos mercados emergentes e que, em 25 anos mais, este bloco ultrapassará o actual mundo rico.

Surgirão, ainda, outros fenómenos que alterarão a geografia do próprio capital financeiro mundial: uma nova classe de multinacionais, oriunda destes países, posicionar-se-á globalmente (como já é visível na estratégia ‘go global’ dos grupos privados indianos ou mexicanos); e um grupo de novas instituições de investimento internacional ocupará um lugar crescente nos fluxos financeiros (com destaque para os fundos soberanos dos exportadores de petróleo, da China e da Rússia, designados em inglês por SWF). Os activos em dólares de fundos soberanos em petrodólares e dos bancos centrais asiáticos somam 5,4 biliões (5.400 mil milhões), 3% de todos os activos financeiros mundiais e 8% dos activos financeiros sob gestão. Este montante poderá multiplicar por 1,5 vezes até 2012, segundo o McKinsey Global Institute, no seu relatório ‘The New Power Prokers’.

Outro facto paradoxal, revelado, este mês, pelo FMI, é que 39% dos fluxos financeiros mundiais que alimentam os próprios mercados maduros provêm de mercados emergentes. Esta alteração de peso deu-se entre 2004 e 2005 – é, por isso, muito recente. Representam muito mais do que os fluxos alimentados pelos Estados Unidos ou pelos países ricos da Ásia.

Acrescente-se, ainda, que o investimento directo dos países emergentes no estrangeiro passou de menos de 1% do seu PIB em 1990 para 10% em 2005, segundo dados do FMI. O que poderá estar ligado ao facto de que a balança corrente agregada dos países emergentes passou de um défice de 1% do PIB (global desses países) em 1997 para um excedente de 3% do PIB em 2007, segundo a Goldman Sachs (Global Economics Weekly, 26 de Março 2008).

Uma nova fase de globalização

A ideia de uma nova fase de globalização, a partir do início do século XXI, poderá encontrar algum ‘alimento’ num facto que ocorreu desde 1995: os fluxos globais de capitais quadruplicaram em valor e aumentaram 2,5 vezes em termos de peso no PIB mundial. De 1,5 biliões de dólares (ou seja 1.500 mil milhões de dólares) em 1995 para 6,4 biliões em 2005, segundo as estatísticas do FMI. O peso no PIB passou, em dez anos, de 6% para 14,5%. Apesar de quebras pontuais em 1998 e 2002, a curva desta tendência é claramente ascendente.

Um dos actores principais nesta nova fase é o grupo de potências económicas emergentes. A Goldman Sachs (GS) produziu em 2001 um relatório que popularizaria o termo BRIC – as iniciais para Brasil, Rússia, Índia e China – fácil de memorizar. A GS apontava, então, para uma alteração radical em 2035-2040: os quatro emergentes ultrapassarão o peso do actual G7 (França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá) e a China será a principal potência económica do mundo em 2040.

Os números eram arrasadores. Em 2040, os 4 emergentes representarão 50% das 10 maiores economias do mundo. Dez anos depois, a meio do século, já significarão 60%. Por outro lado, a China, em 2050, mostrará um diferencial de mais de 10 biliões (triliões, na designação anglo-saxónica) de dólares em relação ao PIB norte-americano. Entretanto, a GS, sem alterar o acrónimo, já adicionou no seu radar dois outros países a destacar do resto da massa dos emergentes: o México e a Coreia do Sul.

Os sinais desta futura alteração no xadrez da economia mundial começam a ser visíveis em dois aspectos da actualidade: a China é já a terceira economia do mundo (depois dos Estados Unidos e da União Europeia, em termos de peso no PIB mundial); e , no seu conjunto, a Ásia (incluindo países emergentes e ricos) representa 1/3 da economia mundial.

Por outro lado, segundo o Word Economic Outlook do FMI, agora divulgado (Abril 2008), as principais locomotivas do crescimento económico mundial foram, em 2007, a China (que contribuiu com 27% para o crescimento, a Índia e os países exportadores de petróleo com 10% cada, em paralelo com os Estados Unidos e a Zona euro com 10% cada).

Esta nova situação tem uma consequência importante: o crescimento mundial poderá começar a estar mais imunizado ao efeito das crises localizadas nos países ricos e mais sensível, no futuro, às constipações e doenças no ex-Terceiro Mundo.

Reflectindo, este novo contexto em que a locomotiva económica mundial se desloca para o lado dos emergentes, o Fundo Monetário Internacional considera o risco de crise mundial em 2008 ainda baixo, na ordem dos 25%. E isto apesar da profunda crise financeira ligada ao «subprime», da eventualidade dos Estados Unidos já terem entrado em recessão no primeiro trimestre deste ano, e de riscos de recessão na Itália e no Japão.