Abril 2008
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Sex 25 Abr 2008
Um líder não se afirma por ser “um tipo muito inteligente”, por ter um QI elevado (uma escala que começou por ser inventada por dois franceses em 1905), como se exclama correntemente com admiração ou mesmo veneração.
Nem lhe basta ter inteligência emocional (popularizada pela capa da revista Time em 1995), um atributo fundamental para a arte do «soft power», nem coragem, essencial para o exercício do «hard power» quando necessário.
A liderança empresarial (e política) exige um quarto passageiro na viagem, uma competência que é decisiva: a inteligência contextual (IC), diz Joseph Nye, professor da Kennedy School of Government da Universidade de Harvard. Nye é considerado o maior especialista da actualidade em questões de poder e liderança, e acaba de publicar um livro sobre esse tema: ‘The Powers to Lead’ (Oxford University Press).
Nele argumenta que este tipo de inteligência é fundamental para exercer um poder eficaz (que ele designa por «smart power»), que combina e supera a tradicional divisão entre «soft power» e «hard power», que Nye abordou em livros anteriores, e que já abordámos noutra ocasião.
Janelas de oportunidade
Os ‘pais’ da IC foram Anthony Mayo e Nitin Nohria, dois professores de gestão da Harvard Business School que cunharam o conceito há menos de três anos. Esta classificação académica é ainda uma criança de infantário – mas é tão velha quanto a Humanidade na prática. Dito de um modo simples, é a capacidade de perceber e usar o fluxo dos acontecimentos para colocar em prática um dado intento estratégico.
Joseph Nye diz que é a arte de surfar as janelas de oportunidade quando surgem, ajustando o estilo e a estratégia à situação concreta e às necessidades dos seguidores. Por vezes, exige ficar à espera da onda certa – e não se precipitar. Uns dirão que é saber ‘cavalgar’ as tendências, outros ‘aproveitar a sorte’. Como ele conclui:”Os líderes fazem-se quando têm a intuição e as competências para tirar vantagem das janelas de oportunidade quando elas se abrem – e, por vezes, abrem-se por um período relativamente curto”.
Anthony Mayo, por seu lado, gosta de citar o caso de um líder empresarial de Hong Kong que se tornou líder político na nova região administrativa especial da China, Li Ka Shing: um dos que “soube navegar com sucesso”.
Na história portuguesa há um período em que se revelou inteligência contextual – o século de projecção global de poder realizada pela dinastia de Aviz. Para os historiadores da Expansão portuguesa, o auge da exploração de uma janela de oportunidade pela hegemonia geopolítica foi o que designam por ‘projecto imperial manuelino’ (um conceito cunhado por Luis Filipe Thomaz), associado ao rei Manuel I, assunto que abordamos em Portugal, Pioneiro da Globalização.
ENTREVISTA RÁPIDA
A: Anthony Mayo. Professor da Harvard Business School
P: Como surgiu o conceito?
R: Derivou inicialmente de um estudo sobre 1000 líderes empresariais de empresas norte-americanas do século XX, que depois publicámos em livro (‘In their Time: The Greatest Business Leaders of the Twentieth Century, Harvard Business School Press, 2005). A base de dados foi criada para a Iniciativa Harvard Business School Leadership e pode ser consultada em http://www.hbs.edu/leadership. Ficámos muito excitados ao descobrir que os líderes que conseguiram optimizar os seus negócios numa perspectiva de longo prazo dispunham de uma capacidade de analisar o contexto.
P: O que a distingue da inteligência emocional?
R: Vai muito para além dessa capacidade de controlar e influenciar as emoções próprias e dos outros. Implica dispor de uma visão periférica do contexto e uma habilidade em se adaptar e mudar ao longo do tempo.
P: Quais são os aspectos da realidade a que um líder empresarial deve estar atento?
R: Verificámos que há seis factores do contexto fundamentais: a regulação governamental; as forças geopolíticas; as mudanças demográficas; as políticas laborais; a comercialização da tecnologia; e os costumes sociais.
Qui 24 Abr 2008
Tal como o falecido ‘pai’ da gestão, Peter Drucker, referiu que os fundos de pensões correspondiam a uma revolução no capital financeiro (no seu livro ‘The Unseen Revolution: How Pension Fund Socialism came to America’, de 1976, e depois, quando já era óbvio para todos, em ‘Pension Fund Revolution’, de 1995), também os Fundos Soberanos (Sovereign Wealth Funds, na designação anglo-saxónica) correspondem, hoje, a uma nova revolução no capital financeiro, já no século XXI.
A revolução financeira ocorrida nos anos 1970, ‘revelada’ por Drucker, era, de facto, paradoxal: os ‘explorados’ do Capital, os trabalhadores por conta de outrem, através dos seus fundos de pensões, passavam a grandes investidores financeiros – dos maiores do mundo. Basta recordar o peso hoje de um Government Pension Investment Fund do Japão (1274 mil milhões de dólares, o maior do mundo), de um Stiching Pensioenfonds ABP da Holanda (316 mil milhões) ou de um California Public Employees Retirement System (conhecido por CPERS, movimentando 237 mil milhões).
Agora, de novo paradoxalmente, são os países outrora explorados do Terceiro Mundo que despontam para o capital financeiro. Uma revolução, que tem sido silenciosa, começa, agora, a chegar aos media, por força da crise do «subprime» e do que há-de vir na pirâmide de derivados e outros instrumentos financeiros inventados nos últimos dez anos.
Se Rudolfo Hilferding, o teórico do capital financeiro em 1910, regressasse do túmulo, não acreditaria no que os seus olhos veriam: os antigos destinos do investimento das então designadas potências imperialistas são, agora, a força financeira emergente.
Uma nova fase de globalização
Esta novidade deverá entender-se num novo contexto: poderá estar a abrir-se uma nova fase de globalização, a partir do início do século XXI.
Ela poderá encontrar algum ‘alimento’ num facto que ocorreu desde 1995: os fluxos globais de capitais quadruplicaram em valor e aumentaram 2,5 vezes em termos de peso no PIB mundial. De 1,5 biliões de dólares (triliões, na nomenclatura anglo-saxónica, ou seja 1.500 mil milhões de dólares) em 1995 para 6,4 biliões em 2005, segundo as estatísticas do FMI, agora divulgadas. O peso no PIB passou, em dez anos, de 6% para 14,5%. Apesar de quebras pontuais em 1998 e 2002, a curva desta tendência é claramente ascendente. O que conduziu os políticos a autonomizarem claramente o investimento estrangeiro em relação ao comércio internacional. No passado, tendia-se a classificar o investimento estrangeiro como um item do comércio internacional.
É, neste quadro, que surgiram dois fenómenos que estão a alterar a geografia do próprio capital financeiro mundial: uma nova classe de multinacionais, oriunda dos países emergentes, posicionar-se-á globalmente (como já é visível na estratégia ‘go global’ dos grupos privados indianos ou mexicanos, ou estatais chineses); e um grupo de novas instituições de investimento internacional que ocupará um lugar crescente nos fluxos financeiros (com destaque para os fundos soberanos dos exportadores de petróleo, da China e da Rússia, designados em inglês por SWF, e para os bancos centrais dos emergentes).
O peso dos fundos soberanos e dos bancos asiáticos tem estado sujeito a controvérsia. Podemos procurar avaliá-lo a partir de duas fontes: o relatório do ano passado do McKinsey Global Institute (MGI) (Outubro 2007) e uma avaliação preliminar, mais recente, realizada por Edwin M. Truman para o Peterson Institute for International Economics (Abril 2008).
Segundo o MGI, em finais de 2006, os activos em dólares de fundos soberanos em petrodólares e dos bancos centrais asiáticos somavam 5,4 biliões (5.400 mil milhões), 3% de todos os activos financeiros mundiais (que totalizariam 176 biliões) e 8% dos activos financeiros sob gestão (que totalizariam 68,5 biliões). Em que os bancos centrais asiáticos somariam 3,1 biliões e os fundos soberanos em petrodólares 2,3 biliões. Este montante poderá multiplicar por 1,5 vezes até 2012, segundo o MGI, no seu relatório ‘The New Power Brokers’ (Outubro de 2007).
O MGI considera-os como dois dos quatro novos actores financeiros mundiais e sublinha que não se trata de um fenómeno passageiro, mas que representam uma mudança estrutural.
Por seu lado, Truman (‘A Blueprint for SWF Best Practices’, Peterson Institute), analisando 54 fundos soberanos (SWF) provenientes de 37 países, refere um total de 5,3 biliões de dólares em activos, dos quais cerca de 3 biliões de SWF não ligados a fundos de pensões (e não só provenientes de petrodólares, como no caso do relatório do MGI) e 2,3 biliões relacionados com fundos de pensões (como os mais célebres do Japão, Holanda e Califórnia já citados), o que pode ser mais discutível como pertencendo ao universo dos SWF.
Ainda segundo Truman, as aplicações no estrangeiro deste conceito amplo de SWF somariam 3,5 biliões, com destaque para 10 países de origem, em que os seis fundos dos Emirados Árabes Unidos liderariam com 762 mil milhões. Em alguns casos, como a Noruega, China, Rússia e Arábia Saudita, a totalidade desses fundos está aplicada em activos estrangeiros.
De acordo com a classificação de Truman, os fundos soberanos provêm de liquidez adquirida com exportação de recursos naturais (a maioria; com destaque para o petróleo), de reservas cambiais da exportação (por exemplo, o China Investment Corp), de excedentes fiscais (por exemplo, o Shanghai Financial Holdings ou o Future Fund da Austrália, e casos de fundos de pensões em França, Irlanda e Nova Zelândia) ou de contribuições dos empregados (os mais conhecidos são os do Japão, Holanda, Califórnia e Quebeque).
Apesar de alguns do SWF datarem dos anos 1950 (Saudi Arabian Monetary Agency, Kuwait Investment Authority) e outros dos anos 1970 (Tamasek Holdings de Singapura, Abu Dhabi Investment Authority and Council, e três norte-americanos, entre eles o mais conhecido do Akaska), tem havido uma vaga de criação nos últimos três anos, com destaque para dois russos já este ano (2008), dois chineses e um dos EAU (Emirados Árabes Unidos) em 2007, e dois do Dubai, um da Austrália, outro da Líbia e outro do Chile em 2006.
Uma mudança estrutural
Do ponto de vista geoeconómico, o MGI considera os fundos soberanos e os bancos centrais asiáticos como dois dos quatro novos actores financeiros mundiais e sublinha que não se trata de um fenómeno passageiro, mas que representa “uma mudança estrutural”. Truman, por seu lado, refere que estamos a assistir a uma “redistribuição dramática da riqueza mundial dos países industrializados tradicionais para outros países que historicamente nunca foram grandes jogadores na finança internacional”.
Esta viragem teria a ver com um movimento global de liquidez nos mercados emergentes.
Poderá parecer paradoxal, mas, como revelou este mês o FMI, 39% dos fluxos financeiros mundiais que alimentam os próprios mercados maduros provêm de mercados emergentes. Esta alteração de peso deu-se entre 2004 e 2005 – é, por isso, muito recente. Representam muito mais do que os fluxos alimentados pelos Estados Unidos ou pelos países ricos da Ásia.
Acrescente-se, ainda, que o investimento directo dos países emergentes no estrangeiro passou de menos de 1% do seu PIB em 1990 para 10% em 2005, segundo dados do FMI. O que poderá estar ligado ao facto de que a balança corrente agregada dos países emergentes passou de um défice de 1% do PIB (global desses países) em 1997 para um excedente de 3% do PIB em 2007, segundo a Goldman Sachs (Global Economics Weekly, 26 de Março 2008).
Quadro de referência
Principais países com fundos soberanos com maior investimento
em activos estrangeiros (mil milhões de dólares)
EAU – 6 fundos – 762 mil milhões (93% dos seus activos)
Noruega – 1 fundo – 375 (100%)
Singapura – 2 fundos – 333 (89%)
Holanda – 1 fundo de pensões – 280 (89%)
Arábia Saudita – 1 fundo – 270 (100%)
Japão – 1 fundo de pensões – 241 (19%)
Kuwait – 1 fundo – 171 (80%)
Rússia – 2 fundos – 160 (100%)
China – 3 fundos – 135 (50%)
Canadá – 3 fundos soberanos e de pensões – 128 (43%)
Fonte: Edwin Truman, Peterson Institute, Abril 2008
Qua 23 Abr 2008
Apesar do grande mediatismo da alta dos preços do crude, com valores próximos dos 120 dólares por barril, o principal motor da inflação mundial actual é o disparo nos preços dos bens alimentares, segundo o World Economic Outlook do FMI.
As regiões do mundo mais vulneráveis são a Ásia emergente, a África e o Médio Oriente. No caso do Médio Oriente há uma convergência do impacto das altas de preços das «commodities» alimentares e do petróleo. O FMI aponta, ainda, uma quinzena de países em que o impacto da alta será maior na balança comercial.
Paradoxalmente, é o impacto da alta dos preços das «commodities» alimentares que está a incendiar a inflação mundial. Apesar do maior dramatismo mediático dos anúncios diários do aumento do preço do barril de crude nos noticiários dos países industrializados, o impacto desta alta contribuiu com 20% em 2006 e, apenas, 8% em 2007 para a inflação mundial – que rondou os 3,4% em 2006 e os 3,9% no ano passado.
O principal motor da inflação mundial está a ser a alta nas matérias-primas alimentares: contribuiu com 27% em 2006 e 44,3% em 2007, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma aceleração que se está a fazer sentir em maior grau na Ásia emergente, em África e no Médio Oriente, e que poderá ser trágica.
Riscos geopolíticos
A região onde houve em 2007 uma convergência mais forte entre os dois movimentos altistas é o Médio Oriente: as matérias-primas alimentares contribuíram, no ano passado, com 42,3% para o aumento da inflação nessa zona (cujo índice de preços já supera os 10% ao ano, o mais alto de todo o mundo em termos de regiões), e o petróleo com 24,4%.
O FMI avaliou, ainda, o conjunto de países em que a alta do preço das «commodities» teve maior impacto na balança comercial em 2007: os mais vulneráveis foram, paradoxalmente, a Arábia Saudita e o Kazaquistão, que são ricos em recursos energéticos.
Seguem-se por ordem de risco decrescente: Malásia, Argentina, Irão, Rússia, Peru, Indonésia, Colômbia, Brasil, Zâmbia, Chile, África do Sul e México. Verifica-se, assim, que dois dos famosos BRIC se encontram nesta «lista negra».
Razões da alta
O indicador do FMI para os preços das «commodities» cresceu 44% num ano. As razões são várias: desequilíbrios de mercado derivados do crescimento dos países emergentes e da inelasticidade da oferta, desvalorização do dólar (moeda de referência dos preços), especulação financeira (desvio das aplicações para estes produtos tidos como investimento seguro, em virtude da tendência negativa nas bolsas), instabilidade geopolítica. Uma convergência de factores jamais vista com tal intensidade.
A desvalorização do dólar é hoje um dos factores em destaque, com o euro a valer quase 1,6 dólares. O FMI elaborou cálculos que permitem avaliar o impacto de 1% de queda da moeda americana no preço das diferentes «commodities»: a um ano de distância, ele é mais elevado no cobre (1,38%), no ouro (1,13%) e no petróleo (0,81%); a dois anos, já será mais elevado no caso do petróleo no que do ouro.
Ano da convergência
Por isso, o fantasma da inflação mundial regressou desde 2005, ano em que ocorreu uma convergência de vários disparos de preços de «commodities». Um fenómeno similar havia ocorrido entre 1972 e 1975, mas desta vez a convergência altista é mais acentuada e tudo indica que será muito mais longa, sublinha o World Economic Outlook do FMI (capítulo sobre ‘Commodity Prices and Patterns of Integration’).
No caso do petróleo e do cobre, a curva altista começou a acentuar-se em 2001, para o alumínio desde 2003 e para o milho desde 2004. O disparo simultâneo do preço de um maior número de matérias-primas ocorreu, depois, em 2005: níquel, trigo, soja em grão, óleos de soja e de palma, e borracha.
Contudo, em dólares constantes, os preços da maioria das «commodities» ainda não atingiu os máximos históricos das décadas de 1970 e 1980, com excepção do barril de crude, do níquel e do chumbo.
Uma característica nova do movimento actual de preços é que a convergência altista tem um efeito multiplicador: as altas de preços contagiam-se umas às outras, e em particular entre o petróleo e as matérias-primas alimentares.
Dom 20 Abr 2008
A história prega muitas partidas. Surgem sempre surpresas estratégicas. Por vezes, ironicamente, os dependentes e subjugados do passado emergem, na sombra, baralhando o jogo dos blocos económicos.
Essa reviravolta ocorreu visivelmente com o chamado Terceiro Mundo. Foi Alfred Sauvy, em 1952, na revista L’Observateur, que cunhou tal expressão para abranger os países “em desenvolvimento” e manifestamente “subdesenvolvidos”. Politicamente, o conceito ganhou força na Conferência dos Não-Alinhados em Bandung em 1955.
Contudo, vinte anos depois, o conceito já se revelava frágil.
Dois golpes deram uma sentença de morte ao Terceiro Mundo.
Entre os países asiáticos, que recusaram a via de inspiração económica socializante, emergiu um pequeno grupo que ficaria conhecido como “Tigres do Pacífico” ou ‘Dragões da Ásia”, que conseguiu fazer uma transição para um estado intermédio de desenvolvimento e inclusive, em alguns casos, para o clube dos ricos (Singapura e Hong Kong). Em contrapartida, muitos dos países que ensaiaram políticas desenvolvimentistas de inspiração socializante na Ásia, África e América Latina chegaram a situações de estagnação ou mesmo de retrocesso e submergência, em alguns casos mergulhando depois em ditaduras. Refira-se o caso da Índia, durante muitos anos bloqueada pela chamada “taxa de crescimento hindu”.
Os emergentes entram em cena
É, neste quadro, que surge o conceito de “mercados emergentes” em 1981. Um dos funcionários do Banco Mundial, Antoine W. Van Agtmael, cansado do termo pessimista “Terceiro Mundo” (uma tal etiqueta desencorajava qualquer investimento, explicou na altura), resolveu cunhar a ideia de mercados emergentes numa conferência de investidores na Tailândia.
A ideia geoeconómica de van Agtmael era a inauguração de um “século dos emergentes”. A vaga de reformas económicas na China desde 1978, a transição das economias socialistas do bloco soviético para o capitalismo depois de 1989 e a mudança de política económica na Índia em 1991 consolidaram ainda mais esta viragem.
Van Agtmael afirmou, recentemente, que nos próximos 10 anos haverá mais de mil milhões de consumidores com poder de compra de tipo classe média nos mercados emergentes e que, em 25 anos mais, este bloco ultrapassará o actual mundo rico.
Surgirão, ainda, outros fenómenos que alterarão a geografia do próprio capital financeiro mundial: uma nova classe de multinacionais, oriunda destes países, posicionar-se-á globalmente (como já é visível na estratégia ‘go global’ dos grupos privados indianos ou mexicanos); e um grupo de novas instituições de investimento internacional ocupará um lugar crescente nos fluxos financeiros (com destaque para os fundos soberanos dos exportadores de petróleo, da China e da Rússia, designados em inglês por SWF). Os activos em dólares de fundos soberanos em petrodólares e dos bancos centrais asiáticos somam 5,4 biliões (5.400 mil milhões), 3% de todos os activos financeiros mundiais e 8% dos activos financeiros sob gestão. Este montante poderá multiplicar por 1,5 vezes até 2012, segundo o McKinsey Global Institute, no seu relatório ‘The New Power Prokers’.
Outro facto paradoxal, revelado, este mês, pelo FMI, é que 39% dos fluxos financeiros mundiais que alimentam os próprios mercados maduros provêm de mercados emergentes. Esta alteração de peso deu-se entre 2004 e 2005 – é, por isso, muito recente. Representam muito mais do que os fluxos alimentados pelos Estados Unidos ou pelos países ricos da Ásia.
Acrescente-se, ainda, que o investimento directo dos países emergentes no estrangeiro passou de menos de 1% do seu PIB em 1990 para 10% em 2005, segundo dados do FMI. O que poderá estar ligado ao facto de que a balança corrente agregada dos países emergentes passou de um défice de 1% do PIB (global desses países) em 1997 para um excedente de 3% do PIB em 2007, segundo a Goldman Sachs (Global Economics Weekly, 26 de Março 2008).
Uma nova fase de globalização
A ideia de uma nova fase de globalização, a partir do início do século XXI, poderá encontrar algum ‘alimento’ num facto que ocorreu desde 1995: os fluxos globais de capitais quadruplicaram em valor e aumentaram 2,5 vezes em termos de peso no PIB mundial. De 1,5 biliões de dólares (ou seja 1.500 mil milhões de dólares) em 1995 para 6,4 biliões em 2005, segundo as estatísticas do FMI. O peso no PIB passou, em dez anos, de 6% para 14,5%. Apesar de quebras pontuais em 1998 e 2002, a curva desta tendência é claramente ascendente.
Um dos actores principais nesta nova fase é o grupo de potências económicas emergentes. A Goldman Sachs (GS) produziu em 2001 um relatório que popularizaria o termo BRIC – as iniciais para Brasil, Rússia, Índia e China – fácil de memorizar. A GS apontava, então, para uma alteração radical em 2035-2040: os quatro emergentes ultrapassarão o peso do actual G7 (França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá) e a China será a principal potência económica do mundo em 2040.
Os números eram arrasadores. Em 2040, os 4 emergentes representarão 50% das 10 maiores economias do mundo. Dez anos depois, a meio do século, já significarão 60%. Por outro lado, a China, em 2050, mostrará um diferencial de mais de 10 biliões (triliões, na designação anglo-saxónica) de dólares em relação ao PIB norte-americano. Entretanto, a GS, sem alterar o acrónimo, já adicionou no seu radar dois outros países a destacar do resto da massa dos emergentes: o México e a Coreia do Sul.
Os sinais desta futura alteração no xadrez da economia mundial começam a ser visíveis em dois aspectos da actualidade: a China é já a terceira economia do mundo (depois dos Estados Unidos e da União Europeia, em termos de peso no PIB mundial); e , no seu conjunto, a Ásia (incluindo países emergentes e ricos) representa 1/3 da economia mundial.
Por outro lado, segundo o Word Economic Outlook do FMI, agora divulgado (Abril 2008), as principais locomotivas do crescimento económico mundial foram, em 2007, a China (que contribuiu com 27% para o crescimento, a Índia e os países exportadores de petróleo com 10% cada, em paralelo com os Estados Unidos e a Zona euro com 10% cada).
Esta nova situação tem uma consequência importante: o crescimento mundial poderá começar a estar mais imunizado ao efeito das crises localizadas nos países ricos e mais sensível, no futuro, às constipações e doenças no ex-Terceiro Mundo.
Reflectindo, este novo contexto em que a locomotiva económica mundial se desloca para o lado dos emergentes, o Fundo Monetário Internacional considera o risco de crise mundial em 2008 ainda baixo, na ordem dos 25%. E isto apesar da profunda crise financeira ligada ao «subprime», da eventualidade dos Estados Unidos já terem entrado em recessão no primeiro trimestre deste ano, e de riscos de recessão na Itália e no Japão.