Os americanos andavam distraídos com o «subprime», mas repentinamente começaram a sentir o disparo no índice de preços ao consumo. Inevitavelmente, a alta imparável das «commodities» (energéticas, minerais em geral, alimentares) nas bolsas em que são negociadas, começou a reflectir-se no dia-a-dia americano.

A polémica estalou mesmo em torno do índice de preços – a administração americana desdramatiza e discutem-se diversos índices com diferentes valores. O mais acarinhado pela administração Bush é o designado por “índice de preços ao consumo para todos os consumidores urbanos” (abreviadamente CPI-U), que já estaria nos 4,3% ao ano – superior ao europeu (3,4% para a União Europeia a 27) e ao português (2,9%) .

Os críticos olham para ‘dentro’ desse CPI-U americano e vêem nuvens negras: 19,6% de aumento nos preços da energia (no caso da UE27 estará nos 9,7%, menos de metade), o que não é para espantar com o preço do barril de crude negociado na América no patamar dos 100 dólares. Se a inflação for avaliada em termos de taxa composta anual a três meses, o índice já estará nos 6,8%, com 43,6% na área da energia e 22,3% na área dos transportes. Mas outros analistas chamam à atenção para o índice de variação de preços na produção – nesse caso, os produtos acabados subiram 7,4%, os intermédios 8,8% e as matérias-primas 31,3% .

Esta dinâmica inflacionária levou inclusive já os presidentes das Reservas Federais dos diversos estados que compõem a Federação americana, a deixarem a porta aberta para pressionarem, no futuro, Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal (central), a uma inversão de política na questão da continuação da baixa das taxas de juro (que estão já em níveis negativos). Se o farão já na reunião de 18 de Março é o que está para se ver.

Mas nada disto deveria surpreender, diz o analista Peter Schiff, presidente da Euro Pacific Capital, autor de um livro intitulado sugestivamente ‘Crash Proof: How to profit from the coming economic collapse’. Os americanos estão a sofrer um efeito «boomerang» da política da Reserva Federal e da Administração – algo que Schiff avisou desde o início do ano passado, antes de rebentar o escândalo do «subprime». O seu reverso é o colapso do dólar face a várias moedas, nomeadamente ao euro (que, durante este mês, já ultrapassou a fasquia psicológica do 1,5 dólares por cada moeda europeia), apesar do discurso oficial de que os EUA defendem um ‘dólar forte’.

O efeito «boomerang» advém do facto dos países cujas divisas estão indexadas ao dólar começarem a estar no limite da sua capacidade de ginástica de suportar a política financeira e económica americana. As principais vítimas da desvalorização galopante do dólar têm sido os asiáticos e os árabes que vivem dos export-dólares ou dos petrodólares. A contrapartida para o suporte político ao dólar, é a importação da inflação para a economia doméstica.

Os países do Golfo revelam taxas que não eram observadas há bastante tempo: 14% no Qatar, 12% nos Emirados Árabes Unidos, 6,5% na própria Arábia Saudita (depois de uma década de inflações abaixo de 1%). Na Ásia, a China, a locomotiva económica actual do mundo, revela índices oficiais de 7,1% e a Índia de 6,6%. O alarme geral soou, diz Schiff. O Kuwait foi o primeiro a sair da indexação ao dólar em Maio de 2007. Fala-se que, para Abril, poderá haver novidades no Conselho da Cooperação do Golfo (que abrange seis países exportadores de petróleo daquela região). Alan Greenspan, o ex-presidente do FED, incitou os árabes a optarem por um regime de flutuação das suas divisas, numa conferência em Jedá (perto de Meca) em finais de Fevereiro.

A inflação tornou-se, por isso, uma questão geopolítica. Schiff diz, por graça, que a inflação é hoje a principal exportação ‘made in USA’. Os Estados Unidos tornaram-se, por isso, do ponto de vista económico e financeiro, “um castelo de cartas”. Quando os asiáticos e os árabes largarem o dólar, “toda a economia americana entrará em colapso”, conclui Schiff. É essa a prenda envenenada para o próximo presidente.