O indicador de risco de recessão na América quase duplicou entre Dezembro de 2007 e finais de Janeiro de 2008. Foi divulgado este fim de semana pelo Center for Research on Economic and Financial Cycles, da Universidade da Califórnia, em Riverside, no sul daquele estado americano.
O indicador do risco de recessão americana passou de um nível moderado de 27% para um alerta de 40%, com base nos dados oficiais conhecidos até final de Fevereiro. Os maus resultados das vendas de produtos manufacturados e de consumo, em quebra acentuada desde Janeiro deste ano, fizeram disparar o alerta de crise.
Aguardam-se, agora, os resultados do índice de produção industrial nos Estados Unidos relativo a Fevereiro, o que será divulgado na próxima segunda feira, 17 de Março. Caso a produção industrial tenha desacelerado significativamente no mês passado, a economia americana poderá ter chegado a um ponto de viragem e o indicador de probabilidade de crise poderá atingir os 50%.
Caso essa probabilidade de 50% se mantenha ou suba durante dois meses consecutivos, poderá ser sintoma de que a economia americana entrou em recessão, ou seja começou a decrescer em termos absolutos. O que ainda não terá ocorrido nos Estados Unidos, onde os valores de crescimento conhecidos até ao final do 4º trimestre de 2007 são ainda positivos, ainda que medíocres (abaixo de 1%).
Os economistas americanos dividem-se entre os que falam de uma situação de estagflação (ou seja, crescimento estagnado próximo de 0% com inflação em alta, como tem ocorrido) que poderá durar até final deste ano, e os que alertam para uma recessão que se poderá iniciar já no segundo trimestre do ano.
Apesar de nos «media», incorrectamente, se ter vindo a falar com alguma ligeireza de “crise” e “recessão” desde meados do segundo semestre do ano passado, essa situação ainda não terá ocorrido. O que, apesar de parecer uma nuance, tem a sua importância, porque isso significa que o pior ainda está para vir.
Alguma confusão tem sido feita entre recessão económica e «crash» bolsista. Inclusive, neste último caso, o afundamento das bolsas está ainda em alerta amarelo – um «crash» mais grave está ainda por ocorrer. O analista Peter Cohan referia, no ano passado, que o Dow Jones Industrial Average (DJIA), o índice para a principal bolsa norte-americana, necessitaria de uma «correcção» de 30% desde o seu mais recente pico em 12 de Outubro de 2007 – ora a quebra bolsita no DJIA, desde essa altura até hoje, é ainda de 17%. Ou seja, ainda vai a pouco mais de metade.
A confirmarem-se os prognósticos de risco elevado de recessão no segundo trimestre deste ano, isso significará um atestado muito claro de incompetência política à actual direcção do Banco Central americano, Federal Reserve Board (FED), a à Administração Bush. O que significará que a escolha pelo presidente do FED, Ben Bernanke, de uma política de injecção monetária massiva e de quebra das taxas de juro (que já estão em valores abaixo da inflação, ou seja o dinheiro está a ser emprestado de borla na América) não resulta. O que, aliás, os japoneses sabem desde os anos 1990, por isso se apelida tal política de “morfina japonesa”.
O resultado desta política pseudo-keynesiana tem sido o colapso do dólar face a um cabaz de divisas (entre elas o euro), o disparo dos preços (em dólares) das principais «commodities» mundiais (com destaque para o petróleo) e a exportação da inflação americana sobretudo para a Ásia e países árabes exportadores de crude (que têm as suas moedas indexadas ao dólar).
Aguarda-se, por isso, a decisão que o FED tomará a 18 de Março. Muitos analistas – a quem já alcunham de ‘galinhas keynesianas’ – “pedem” mais um novo corte de 0,5 pontos percentuais. Mas várias vozes internas, nomeadamente diversos presidentes das reservas federais de cada estado americano, começaram a opor-se a nova baixa das taxas de juro.
A taxa directora americana está nos 3%, abaixo da europeia (4%) e da inglesa (5,25%). Em termos reais, a taxa de juro americana é negativa, pois a inflação já se cifra nos 4,2%. Ou seja, o cidadão americano está a financiar, pelo menos, em 1,2% cada dólar que os bancos ou os devedores pedem emprestado.
O indicador de probabilidade de recessão em quase tempo real é mantido pela economista Marcelle Chauvet, responsável pelo Center for Research on Economic and Financial Cycles, permitindo medir com um atraso de um a dois meses a temperatura da economia americana. O modelo previu a entrada em recessão dos Estados Unidos em 2001, muitos meses antes do National Bureau of Economic Research a decretar oficialmente (ironicamente já ela estava no final).