Março 2008


O indicador de risco de recessão na América quase duplicou entre Dezembro de 2007 e finais de Janeiro de 2008. Foi divulgado este fim de semana pelo Center for Research on Economic and Financial Cycles, da Universidade da Califórnia, em Riverside, no sul daquele estado americano.

O indicador do risco de recessão americana passou de um nível moderado de 27% para um alerta de 40%, com base nos dados oficiais conhecidos até final de Fevereiro. Os maus resultados das vendas de produtos manufacturados e de consumo, em quebra acentuada desde Janeiro deste ano, fizeram disparar o alerta de crise.

Aguardam-se, agora, os resultados do índice de produção industrial nos Estados Unidos relativo a Fevereiro, o que será divulgado na próxima segunda feira, 17 de Março. Caso a produção industrial tenha desacelerado significativamente no mês passado, a economia americana poderá ter chegado a um ponto de viragem e o indicador de probabilidade de crise poderá atingir os 50%.

Caso essa probabilidade de 50% se mantenha ou suba durante dois meses consecutivos, poderá ser sintoma de que a economia americana entrou em recessão, ou seja começou a decrescer em termos absolutos. O que ainda não terá ocorrido nos Estados Unidos, onde os valores de crescimento conhecidos até ao final do 4º trimestre de 2007 são ainda positivos, ainda que medíocres (abaixo de 1%).

Os economistas americanos dividem-se entre os que falam de uma situação de estagflação (ou seja, crescimento estagnado próximo de 0% com inflação em alta, como tem ocorrido) que poderá durar até final deste ano, e os que alertam para uma recessão que se poderá iniciar já no segundo trimestre do ano.

Apesar de nos «media», incorrectamente, se ter vindo a falar com alguma ligeireza de “crise” e “recessão” desde meados do segundo semestre do ano passado, essa situação ainda não terá ocorrido. O que, apesar de parecer uma nuance, tem a sua importância, porque isso significa que o pior ainda está para vir.

Alguma confusão tem sido feita entre recessão económica e «crash» bolsista. Inclusive, neste último caso, o afundamento das bolsas está ainda em alerta amarelo – um «crash» mais grave está ainda por ocorrer. O analista Peter Cohan referia, no ano passado, que o Dow Jones Industrial Average (DJIA), o índice para a principal bolsa norte-americana, necessitaria de uma «correcção» de 30% desde o seu mais recente pico em 12 de Outubro de 2007 – ora a quebra bolsita no DJIA, desde essa altura até hoje, é ainda de 17%. Ou seja, ainda vai a pouco mais de metade.

A confirmarem-se os prognósticos de risco elevado de recessão no segundo trimestre deste ano, isso significará um atestado muito claro de incompetência política à actual direcção do Banco Central americano, Federal Reserve Board (FED), a à Administração Bush. O que significará que a escolha pelo presidente do FED, Ben Bernanke, de uma política de injecção monetária massiva e de quebra das taxas de juro (que já estão em valores abaixo da inflação, ou seja o dinheiro está a ser emprestado de borla na América) não resulta. O que, aliás, os japoneses sabem desde os anos 1990, por isso se apelida tal política de “morfina japonesa”.

O resultado desta política pseudo-keynesiana tem sido o colapso do dólar face a um cabaz de divisas (entre elas o euro), o disparo dos preços (em dólares) das principais «commodities» mundiais (com destaque para o petróleo) e a exportação da inflação americana sobretudo para a Ásia e países árabes exportadores de crude (que têm as suas moedas indexadas ao dólar).

Aguarda-se, por isso, a decisão que o FED tomará a 18 de Março. Muitos analistas – a quem já alcunham de ‘galinhas keynesianas’ – “pedem” mais um novo corte de 0,5 pontos percentuais. Mas várias vozes internas, nomeadamente diversos presidentes das reservas federais de cada estado americano, começaram a opor-se a nova baixa das taxas de juro.

A taxa directora americana está nos 3%, abaixo da europeia (4%) e da inglesa (5,25%). Em termos reais, a taxa de juro americana é negativa, pois a inflação já se cifra nos 4,2%. Ou seja, o cidadão americano está a financiar, pelo menos, em 1,2% cada dólar que os bancos ou os devedores pedem emprestado.

O indicador de probabilidade de recessão em quase tempo real é mantido pela economista Marcelle Chauvet, responsável pelo Center for Research on Economic and Financial Cycles, permitindo medir com um atraso de um a dois meses a temperatura da economia americana. O modelo previu a entrada em recessão dos Estados Unidos em 2001, muitos meses antes do National Bureau of Economic Research a decretar oficialmente (ironicamente já ela estava no final).

Os americanos andavam distraídos com o «subprime», mas repentinamente começaram a sentir o disparo no índice de preços ao consumo. Inevitavelmente, a alta imparável das «commodities» (energéticas, minerais em geral, alimentares) nas bolsas em que são negociadas, começou a reflectir-se no dia-a-dia americano.

A polémica estalou mesmo em torno do índice de preços – a administração americana desdramatiza e discutem-se diversos índices com diferentes valores. O mais acarinhado pela administração Bush é o designado por “índice de preços ao consumo para todos os consumidores urbanos” (abreviadamente CPI-U), que já estaria nos 4,3% ao ano – superior ao europeu (3,4% para a União Europeia a 27) e ao português (2,9%) .

Os críticos olham para ‘dentro’ desse CPI-U americano e vêem nuvens negras: 19,6% de aumento nos preços da energia (no caso da UE27 estará nos 9,7%, menos de metade), o que não é para espantar com o preço do barril de crude negociado na América no patamar dos 100 dólares. Se a inflação for avaliada em termos de taxa composta anual a três meses, o índice já estará nos 6,8%, com 43,6% na área da energia e 22,3% na área dos transportes. Mas outros analistas chamam à atenção para o índice de variação de preços na produção – nesse caso, os produtos acabados subiram 7,4%, os intermédios 8,8% e as matérias-primas 31,3% .

Esta dinâmica inflacionária levou inclusive já os presidentes das Reservas Federais dos diversos estados que compõem a Federação americana, a deixarem a porta aberta para pressionarem, no futuro, Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal (central), a uma inversão de política na questão da continuação da baixa das taxas de juro (que estão já em níveis negativos). Se o farão já na reunião de 18 de Março é o que está para se ver.

Mas nada disto deveria surpreender, diz o analista Peter Schiff, presidente da Euro Pacific Capital, autor de um livro intitulado sugestivamente ‘Crash Proof: How to profit from the coming economic collapse’. Os americanos estão a sofrer um efeito «boomerang» da política da Reserva Federal e da Administração – algo que Schiff avisou desde o início do ano passado, antes de rebentar o escândalo do «subprime». O seu reverso é o colapso do dólar face a várias moedas, nomeadamente ao euro (que, durante este mês, já ultrapassou a fasquia psicológica do 1,5 dólares por cada moeda europeia), apesar do discurso oficial de que os EUA defendem um ‘dólar forte’.

O efeito «boomerang» advém do facto dos países cujas divisas estão indexadas ao dólar começarem a estar no limite da sua capacidade de ginástica de suportar a política financeira e económica americana. As principais vítimas da desvalorização galopante do dólar têm sido os asiáticos e os árabes que vivem dos export-dólares ou dos petrodólares. A contrapartida para o suporte político ao dólar, é a importação da inflação para a economia doméstica.

Os países do Golfo revelam taxas que não eram observadas há bastante tempo: 14% no Qatar, 12% nos Emirados Árabes Unidos, 6,5% na própria Arábia Saudita (depois de uma década de inflações abaixo de 1%). Na Ásia, a China, a locomotiva económica actual do mundo, revela índices oficiais de 7,1% e a Índia de 6,6%. O alarme geral soou, diz Schiff. O Kuwait foi o primeiro a sair da indexação ao dólar em Maio de 2007. Fala-se que, para Abril, poderá haver novidades no Conselho da Cooperação do Golfo (que abrange seis países exportadores de petróleo daquela região). Alan Greenspan, o ex-presidente do FED, incitou os árabes a optarem por um regime de flutuação das suas divisas, numa conferência em Jedá (perto de Meca) em finais de Fevereiro.

A inflação tornou-se, por isso, uma questão geopolítica. Schiff diz, por graça, que a inflação é hoje a principal exportação ‘made in USA’. Os Estados Unidos tornaram-se, por isso, do ponto de vista económico e financeiro, “um castelo de cartas”. Quando os asiáticos e os árabes largarem o dólar, “toda a economia americana entrará em colapso”, conclui Schiff. É essa a prenda envenenada para o próximo presidente.