Sex 1 Fev 2008
Fez anos que Carlos I, o penúltimo da dinastia dos Braganças, foi assassinado em Lisboa por um grupo de terroristas, numa teia complexa que envolvia antimonárquicos e uma facção conspiradora de monárquicos, ao que parece, segundo as últimas investigações.
Saber quem eram os peões (um grupo de carbonários mais radicais actuando por conta própria?) e os mandantes, é algo que resta apurar ainda.
Obviamente que o assassinato de um chefe de Estado num regime constitucional é um acto de terrorismo condenável politicamente e repulsivo eticamente – seja ele J.F.Kennedy, Salvador Allende, o Bragança Carlos I, ou mesmo o czar russo pelos bolcheviques depois da Revolução de 1917. Não há legitimidade política no uso do terrorismo seja de grupo, de facção ou de Estado.
Se há Chefes de Estado responsáveis por crimes de Estado ou próprios, inclusive por crimes de sangue, devem ser julgados por tribunais e condenados severamente. Mesmo no caso de ditadores sanguinários deverá ser esta a norma, não o atentado terrorista ou a execução sumária, como se tornou moda depois da guilhotina francesa.
O terrorismo político não tem qualquer legitimidade – seja ela a de um Estado revolucionário ou de um grupo lutando por objectivos políticos, ou mesmo de um Estado democrático alegando direito de ‘punição’.
Mesmo uma revolução ou golpe de Estado ao depor um ditador ou um regime ditatorial, deve fazer gala de usar o direito como arma política, e não o terror individual ou colectivo como direito. O leitor aqui dirá – mas que ingenuidade! Ao que responderei: é o que faz a diferença entre os parteiros da democracia, e os batedores de nova tirania.
Posto isto – que diríamos um ponto de princípio – vejamos a questão do penúltimo dos Braganças.
A República era uma questão de tempo em Portugal, desde a emergência dos republicanos como força política face a uma fragmentação monárquica acelerada.
Os republicanos só pensavam em levantamento revolucionário (golpe de estado) – os carbonários mais radicais em actos isolados (uma moda anarco-terrorista da altura contra as figuras da nobreza) e os prováveis conspiradores monárquicos em ajuste de contas familiares.
A dinastia dos Braganças estava minada pela incapacidade geopolítica, encostada à parede pelo aliado britânico com o Ultimatum (na questão do Mapa cor- de-rosa e de toda a expansão colonial, um dossiê que vinha de Luis I, pai de Carlos, mas que calhou a este apanhar com o diktat de Lorde Salisbury) e sem rumo no plano da solução governamental (Carlos havia nomeado dois anos antes, para tomar conta da ‘choldra’, como presidente do Conselho, o ditador João Franco, que só saiu depois, corrido por Manuel II).
O contexto complexo dos reinados de Luis I e Carlos I são abordados no livro Portugal, Pioneiro da Globalização (www.centroatlantico.pt/globalizacao), no capítulo VI, “Crónica do Fim da Mais Velha Aliança do Mundo”.
Este reinado não foi de modo algum um passeio de coche, nem um modelo de clarividência em qualquer área relevante (a geopolítica ou a solução de governação), como alguns saudosistas agora querem pintar – recordando os dotes de pintura ou o interesse pela oceanografia do monarca.
Pelo contrário, o reinado de Carlos Fernando Luís Maria (regente a partir de 1883 e rei de 1889 a 1908) foi o exemplo da decomposição a que chegou a monarquia portuguesa. Mas isso jamais justificaria o terrorismo como arma política de ‘regime change’, como agora se diz.
Não que o que viesse a seguir à queda de Manuel II fosse exemplo de governação superior – os republicanos “intransigentes” converter-se-iam, rapidamente, à realpolitik face às grandes potências, meteriam a viola no saco em matéria de geopolítica, e as soluções de governação foram um desastre ‘rotativista’ e os ensaios de ‘casting’ para ditadores seguiram-se.
Chegados a este ponto, há que separar a condenação do terrorismo de uma suposta bondade da monarquia como regime superior.
A roleta russa
A monarquia baseia-se no direito de alguém ser chefe de estado pela herança sanguínea ou direito divino inventado. É claro que muitas dessas linhagens de sucessão eram puras falcatruas – muitos eram bastardos elevados a reis, por força das circunstâncias. Outros foram assassinados ou presos pelos rivais quando era conveniente, de acordo com a correlação de forças entre as várias facções. Isso aconteceu bastas vezes em Portugal entre primos e irmãos, tios e sobrinhos, mães e filhos e enteados. O que levou o país a aguentar diversos imbecis e alguns bandidos como monarcas. E a sofrer crises dinásticas, guerras civis e riscos de independência por causa desta ‘roleta’.
A monarquia tem um problema congénito: dependemos de um “gene” que tanto pode dar um louco, um imbecil, um bandido ou um assassino como chefe de Estado (como ocorreu algumas vezes em Portugal), como um estadista.
E sem o direito popular de o escrutinar e dar o pontapé (a não ser, como acontecia nas dinastias portuguesas, recorrendo ao assassinato – do envenenamento/’a peçonha’ ao punhal – ou à prisão por outros pares). Essa roleta russa em que vive o regime monárquico é, mesmo em monarquias constitucionais modernas, um problema de fundo.
Para isso se inventou a República desde tempos imemoriais – o voto representativo para eleger e tirar quem não serve à frente da Chefia de Estado. Nas Repúblicas modernas democráticas, o voto popular é hoje progressivamente cada vez mais abrangente, e representativo.
Por detrás do frenesim em torno dos 100 anos do assassinato de Carlos I move-se hoje um grupito de señoritos restauracionistas de uma ordem tumular que já fez prova (negativa) no país. Gente que quer substituir uma parte da oligarquia política actual pelo restauro de outros (velhos e relhos) sistemas rentistas.
A direita parlamentar de cabelinho ensebado, botões dourados, e lenço na lapela ampara alguma desta gente com cheiro a mofo e véus pretos pela cabeça abaixo das madames, julgando que a bisbilhotice e baboseira monarquista das revistas cor-de-rosa tem significado político real no eleitorado.
E uma boa parte da esquerda não sabe AINDA separar, com clareza e repulsa, a República em relação à ilegitimidade do terrorismo. Esta parte da esquerda – um ‘mix’ de republicanismo serôdio de romaria, nostálgicos do primado bolchevique dos fins sobre os meios, esquerdismo e guevarismo de vão de escada – continua com pruridos de se demarcar do terrorismo político.
Enfim, oportunismo das duas bandas – uns porque gostariam de ter um anelzito de brazão de pechisbeque, outros porque ainda continuam a julgar que há ‘bons’ ou ‘uteis’ terrorristas.
Mal vai o país – a ‘piolheira’, diria, com desdém, o Bragança, de Sabóia, Bourbon e Saxe-Coburgo-Gota.
Fevereiro 10th, 2008 at 12:31
SeA monarquia é transversal, há monárquicos de várias cores políticas inclusive comunistas. Manuel Alegre até a favor do referendo sobre o regime e já sugeriu que o protocolo de estado fosse alterado para acomodar a Família Real. O problema dos republicanos é que pensam mais nos interesses próprios do que nos interesses do Povo e da Pátria.
Veja as economias mais fortes e das 10 primeiras 7 são monarquias, são democráticas e os cidadãos fazem-se ouvir nunca pondo em causa a sua Liberdade.
Os monarcas na Europa gozam mais de 70% de popularidade, Chefes como D.Juan Carlos inspiram uma nação a andar para frente, não estar a ver isso com um presidente pois não ? ainda mais quando o Cavaco só foi eleito por 30% da população total ( 40% de abstenção, só conseguiu 50% dos votos = 50% de 60% dá 30% do total ). Precisamos de um comandante e não um marinheiro ao leme.
Depois há o problema ideológico que diferencia um presidente de um monarca :
O monarca é imparcial politicamente, não existem reis militantes políticos e nunca houve. Ao contrário dos presidentes que tivemos nos últimos 30 anos os últimos 3 foram militantes de partidos. Segundo os presidentes têm sempre um 1º mandato calmo para terem apoio político do partido do primeiro ministro para serem eleitos no 2º mandato, com um Rei tal nunca aconteceria.
Qual é que tem mais força para defender o Povo ? qual é que não tem problemas de estar dependente de lobby’s económicos e políticos ? Qual é que pode defender melhor o Povo ? Não é um presidente como já disse antes … é um Rei
Precisamos de uma governação estável e não um presidente de 5 em 5 ou de 10 em 10 anos em acção de formação. Hoje os problemas exigem rápida solução.
Não me diga que o Estado Novo era monárquico, e que Salazar era monárquico … informe-se por favor :
” 1951 III Congresso da União Nacional em Coimbra. Marcello Caetano assume-se contra a restauração da monarquia, defendida por Soares da Fonseca. No discurso inaugural Salazar considerou que a monarquia não pode ser, por si só, a garantia da estabilidade de um regime determinado senão quando é o lógico coroamento das demais instituições do Estado e se apresenta como uma solução tão natural e apta, que não é discutida na consciência geral. comando de um só Em 23 , Marcello Caetano assinala: o comando político apoiado no snetimento e na vontade da nação, cujos anseios profundos e legítimas aspirações interpreta, exprime e realiza, esse é que é a forma que o novo tipo de Estado solicita para poder corresponder à extensão e profundidade das tarefas que os homens dele esperam … A História está a gerar novos regimes de Governo por um só, diferentes das monarquias antigas cuja estrutura social obedeceu a condições de vida muito diferentes das actuais. No dia 24 Miranda Barbosa defende que a restauração monárquica seria o complemento da situação política. Da mesma opinião foi o deputado Avelino de Sousa Campos. Marcello defende que Salazar deveria ascender à Presidência da República que permitiria que ele mesmo presidisse à sua substituição na chefia do Governo, e assim habituasse o País a ver na presidência do Conselho um homem vulgar, ainda que experiente, sabedor e devotado ao bem público. Diz que faz essa proposta desde 1947, contra a opinião de Salazar.”
Mas o sec.XX ensinou-nos da pior maneira que as ideologias não servem o Povo, milhões de mortos às mãos de fascistas e comunistas … Conheceu algum país com estas ideologias em que o Povo tivesse progresso ? eu não …
Precisamos de um país forte, e talvez por causa deste vazio que a republica criou durante estes anos todos as pessoas não acreditem em ser portugueses, não sabem o que é patriotismo e não conseguem empurrar o barco para a frente porque toda a gente não acredita no homem que vai no leme e todos remam para o seu lado …
Os republicanos hoje gostam de se desculpar com a Democracia e Liberdade mas em 98 anos da vossa menina de peito ao léu ela teve 64 anos de amnésia democrática. Quando é que assumem os erros ? Quando é que não têm vergonha da vossa história ?
Se quer que lhe diga nos últimos 100 anos Portugal só tem perdido com a republica, já “dividimos o mundo” com Espanha onde estamos hoje ? Somos um satélite de Espanha.
Desculpe mas eu sou e quero ser português, sou militante do partido socialista, católico em monárquico.
Gostaria de acrescentar que a democracia não é a palavra mas conhecida da republica, este regime nunca foi votado pelo povo ! Será isto uma democracia ou ditadura ? Quando uma minoria em 1910 conquistou o poder pela força quando só tinha 7% no parlamento ? Pois …
Fevereiro 10th, 2008 at 23:31
Caro leitor,
Muito obrigado pelo seu email.
1- Não creio que pensar “nos interesses próprios” seja mais próprio de Republicanos do que de Monárquicos. Não sei onde foi buscar essa “estatística”.
2- Economias mais fortes? Não sei qual é o seu conceito de economia mais forte. Se analisar as estatísticas mundiais verifica que a distribuição da criação de riqueza mundial está distribuída da seguinte forma: Estados Unidos (21,44% do PIB mundial), China (10,86%), Japão (6,6%), Índia (4,6%), Alemanha (4,4%), Reino Unido (3,3%), França (3,2),Brasil (2,8%), Itália (2,8), Canadá (1,96%). Como vê há para todos os gostos – ditaduras (China), diversas republicas democráticas, duas monarquias democráticas.
3- Diz bem – os presidentes são eleitos por alguém (mesmo que 30% nas suas contas); os seus reis é que de facto não são eleitos por ninguém. São eleitos por quem os seus reis?
4- Quanto a estatísticas de popularidade – há de tudo entre reis e presidentes, como sabe.
5- Desde quando é que um monarca é imparcial e não tem ideologia? São políticos como os outros (só que sem legitimidade do voto), actuam consoante as relações de forças (incluindo o peso dos lóbis). Basta olhar a história portuguesa para se perceber. Inclusive alguns – nas monarquias constitucionais – manipulavam este ou aquele partido, e até facções. Uma história curiosíssima é o caso de Manuel II e o PS de então. Para não falar do ‘rotativismo’ manipulado por Carlos I.
6- Não sei a que propósito vem o Estado Novo ao caso. Sobre as ditaduras, tanto surgem em republica como em monarquia, como qualquer pessoa sabe. Ou João Franco era algum anjinho de sacristia?
7- Fala de 100 anos de Republica (um pouquito menos para sermos mais exactos) – tivemos ditadura de facto desde os anos 1930 aos 1970; 40% por aí. E de monarquia não constitucional tivemos quantos desde o século XII? E mesmo de ditaduras em monarquia? E de alguns reis insanos e assassinos que os portugueses da época tiveram de aguentar?
8- E a fragilidade que a monarquia criou ao país em virtude das suas estratégias de casamento entre casas reais? E quantas vezes ficou o país pendurado por ruptura de sucessão? Todos sabemos em que deram esses problemas típicos da natureza da monarquia ao longo da nossa história desde o sec. XIII.
9- Quem me parece que sofre de amnésia é o meu caro, ainda por cima uma amnésia de centenas de anos.
10- Sobre dependência, então a história é longa. Quem leia a história sabe que a nossa dependência (primeiro dos espanhóis e depois dos ingleses) começou depois da aventura de um tal Sebastião que levou à Monarquia Dual com os Filipes e que depois continuou mesmo com os Braganças, apesar dos esforços da viúva de João IV, a regente, em travar o apetite dos holandeses e dos ingleses. Sobre “dependência”, olhe que os Braganças então têm escola de cátedra. Mas se quer que lhe diga, até acho que não tinham outra hipótese: para o país sobreviver teve que deixar cortar alguns dedos, até talvez uma mão, e largar muitos anéis. Como sabe não se é “dono do mundo” toda a vida – não se manda num mundo dividido por Tordesilhas toda a vida. A história é feita de ciclos. Seguiram-se outros a mandar. E olhe que não foi a República que deu cabo desse mundo de Tordesilhas. A dinastia portuguesa de Aviz morreu de insanidade em 1578; a megalomania dos Felipes/Habsburgos colapsou e acabou miseravelmente em 1700; os Braganças foram de recuo em recuo – não tinham aliás outra hipótese.
11- Apesar de a República ter nascido de um golpe de Estado contra Manuel II (aliás como a actual República saída do 25 de Abril em relação à ditadura anterior), a diferença hoje é muito óbvia: você pode dizer o que lhe apetecer que não é incomodado sequer, nem despedido, nem preso, nem torturado, nem executado. Tal como eu. Pode crer que se vivesse em ditadura nem sequer blogue tinha – a não ser que pertencesse ao poder.
12- A propósito de ilegitimidade derivada de golpes de estado – lembra-se de quantos ocorreram durante os vários séculos da monarquia portuguesa ao longo das várias dinastias?
13- Repito:o assassinato do rei e do filho sucessor foi um acto terrorista (apesar de Carlos não ter sido eleito por ninguém, mas ter herdado a chefia do estado). O próprio golpe de estado de 1910 contra a monarquia constitucional não era a saída que eu advogaria na época se lá vivesse – o processo eleitoral, a prosseguir, levaria os republicanos ao poder e até eventualmente o PS apadrinhado por Manuel II poderia ter algumas hipóteses. Não sei se a monarquia aceitaria esse processo eleitoral de transição de um modo pacífico. Esse ‘teste’ da História ficou por provar.
Fevereiro 11th, 2008 at 9:36
Dos países Europeus, dos 10 primeiros países europeus mais fortes econónimcamente 7 são monarquias :
- Espanha, Inglaterra, Bélica, Noruega, Suécia, Dinamarca, Holanda
Já nem incluo Lichestein, Monaco
Quanto ao resto “contra factos não há argumentos”
p.s. : não me diga que Portugal está à frente desses países LOL
Fevereiro 11th, 2008 at 16:20
Caro amigo,
Dos 13 pontos, vejo que apenas responde a um deles. E não encontro algum facto que rebata os meus argumentos.
Num «ranking» mundial em termos de PIB per capita em paridade de poder de compra, nos 20 primeiros, há: 5 republicas; 2 republicas com regimes limitados; 3 centros financeiros ligados a estados republicanos; 3 emiratos (monarquias do Golfo); 2 republicas europeias; 5 centros financeiros ligados a estados monárquicos.
Não há qualquer regra como ilacção, da superioridade natural de um tipo de regime sobre outro.
No período áureo, quando era uma potência global, Portugal nunca conseguiu resolver o problema da sua riqueza per capita: em 1500 era 60% da Republica Veneziana e em 1600 era 70% dos Países Baixos Unidos (que se haviam revoltado contra os Filipes Habsburgos do império espanhol).
O problema teve muito a ver com o tipo de capitalismo monárquico português, como lhe chamava o economista e historiador Manuel Dias Nunes nos anos 1960.
Fevereiro 11th, 2008 at 16:29
Meu caro deixo-lhe um artigo de um amigo meu e tire depois as suas conclusões :
http://causamonarquica.wordpress.com/
2007/12/20/
acerca-de-d-pedro-v-reinou-de-1855-1861/
Houve uma grande diferença para o que veio a seguir a 1910 …