Os media inundaram-nos com o palavrão crise, depois do mini-crash bolsista internacional de Janeiro.

Os políticos no governo “desdramatizam”, como dizem, na linguagem dúplice de ’sentido de Estado’.

Em contraste, os cronistas, analistas políticos e comentadores económicos enchem a boca de frases com a crise – e alguns ricaços, investidores e banqueiros ajudam à festa.

Em que ficamos? O cidadão comum fica baralhado – apesar de o bolso estar vazio, e tanto se lhe dar sobre essas distinções académicas a respeito de que crise(s) falamos.

Mas o problema é que as nuances contam em história económica – sobretudo quando o pior poderá estar para vir. A coisa está preta? Meio cinzenta ainda.

Carece, então, de se colocarem os pontos nos ii.

1. Crise financeira e recessão não são a mesma coisa. Não se podem misturar alhos com bogalhos. As crises financeiras têm o seu próprio ciclo – que é distinto do ciclo económico. Habitualmente, as crises financeiras precedem, de algum tempo, as crises económicas, ou seja o desencadear de uma recessão. Em tempos recentes: coisa para um ano de desfasamento (exemplo ainda vivo: entre o «crash» de Abril de 2000 e a recessão norte-americana iniciada em Março de 2001).

2. Por recessão, o dicionário de ‘economês’, refere quebra no crescimento, ou seja, a riqueza criada encolhe. Coisa diferente é abrandamento económico, mesmo que severo – abrandamento quer dizer crescimentos trimestrais fracos, em regra, inferiores a 1%. Poderão, as travagens económicas conduzir a recessões? Podem. Ou não – tudo depende da situação geral (em vários indicadores) da vítima.

3. Há quem avalie o risco de recessão nos EUA, mês a mês: a última avaliação à data, realizada pela economista Marcelle Chauvet, aponta para 20%. Sem dúvida que este risco tem estado a aumentar: Setembro 6,6%; Outubro 11,02%; Novembro 11,53%; Dezembro 20%. Quando deve colocar as barbas de molho – quando o risco se aproxima de 40% (Vamos esperar para ver o que acontece com os dados de Janeiro de 2008, que serão conhecidos em final de Fevereiro). Depois de atingido o patamar dos 40%, poderá ocorrer, então, um ponto de viragem para os 50%. Quando o indicador estiver nos 65%, então, estamos em plena recessão seguramente.

4. O crash bolsista de Janeiro foi sério? Moderadamente sério, diríamos. As quebras não foram num só dia superiores a 3-8%, e no caso dos Estados Unidos, foram apenas de 1,1%. Uma segunda ou sexta-feira ‘negra’ dá trambulhões muito maiores (em 1987 foi de 22% num só dia). Por isso, a coisa é ainda ‘moderada’, ainda que, segundo a Standard & Poor’s, se ‘volatilizaram’ 5,2 mil milhões de dólares de capitalização bolsista no mês de Janeiro. Então, porque falo ainda de quebra moderada? Porque a correcção dos valores bolsistas que tem de ser feita será muito superior há que está em curso desde Outubro de 2007, o ponto de pico de uma subida bolsista. A revista Fortune avisou, em Novembro passado, que conviria os investidores se prepararem para uma correcção profunda. Os cálculos da revista apontam para um descida do Dow Jones Industrial Average (DJIA- o principal indicador bolsista, conhecido por Dow Jones) para um patamar ligeiramente abaixo dos 11.000 pontos. Segundo, uma análise mais pessimista, o DJIA deverá descer para o patamar dos 9.500 pontos. Se tomarmos em conta, que o Dow Jones tem dançado no patamar dos 12.000; vemos que há, ainda, ribanceira para se espalhar. A correcção anual, até à data (princípio de Fevereiro de 2008), foi apenas de 8% (ainda que no Standard & Poor’s já vá nos 9,3%) – a Fortune fala de 18% necessários e Peter Cohan, um dos analistas mais críticos, de 30%.

5. Poderá, então, ocorrer um crash bolsista maior ao longo de 2008? Pode. E é para isso que deve estar preparado, se investe em bolsa ou se os seus negócios têm a bolsa como termómetro.

6. Um novo crash bolsista mais profundo – particularmente na Wall Street, em Nova Iorque – empurrará automaticamente para uma recessão? Não necessariamente. Mas poderá criar uma dinâmica geral negativa continuada nos agentes económicos. O FMI ainda prevê um crescimento anual nos EUA de 1,5% em 2008 – ainda que no último trimestre de 2007, ele foi, medíocre, de apenas 0,6%. Uma dinâmica sistemática de crescimentos medíocres poderá tornar-se moda. Porquê?

7. Porque os “fundamentais” dos EUA estão muito mal. A América está doente! Vive de transfusões de morfina feitas pelo seu Banco Central (que já está a dar dinheiro de borla aos bancos, ao definir uma taxa de juro – tj – dos fundos federais que é inferior à inflação – tj de 3% para uma inflação que já era de 3,9% em final de 2007). Vive, ainda, das transfusões de dólares feitas pelos novos ricos do mundo (as monarquias dos petrodólares, a China, a Índia e o Japão que dispõem de liquidez e estão a segurar ainda o dólar) que um dia lhe podem tirar o tapete. Acumulou os chamados ‘defices gémeos’ gigantes. Tem um custo do império e de algumas das políticas de hard power muito caras. E de efeitos desgastantes.

8. Então quando poderá rebentar uma crise na América? Tudo indica que a actual Administração e o actual Presidente da Reserva Federal (o banco central) estão a empurrar o presente envenenado para o sucessor de Bush – para 2009. É essa a questão política central: a tj está a ser politicamente manipulada para adiar a bomba-relógio. Dá folga agora, mas vai dar muita porcaria depois.

9. Mas terá o filme de ter mesmo esse desenlace? É provável. A América viveu duas bolhas sucessivas – a das dot-com entre 1995 e 2000, e a do imobiliário entre 2001 e 2007. Foi esta última que começou a estoirar ao ficar a nu o crédito hipotecário de alto risco (o famoso palavrão «subprime» que agora entrou, de rompante, no nosso vocabulário). E o problema é que este «subprime» é apenas a ponta do icebergue da bebedeira de ‘criatividade’ no lançamento e invenção de instrumentos financeiros.

10. A rebentar, significará uma recessão muito dura e prolongada? É dificil de prever. As últimas recessões têm durado 8 meses (a de 1990 e a de 2001). No entanto, as que ocorreram depois dos choques petrolíferos de 1973 e 1980 foram mais prolongadas (16 meses entre 1973/75 e 1981/1982), e num caso houve duas crises quase ‘coladas’ (a de Janeiro a Julho de 1980 e, um ano depois, de Julho de 1981 a Novembro de 1982). Por isso, face ao choque petrolífero em curso e à extrema sensibilidade do sistema financeiro internacional, a crise americana poderá ser mais dura, desta vez, do que o ‘normal’ dos anos 1990 e 2000.

11. E crise na América significa crise no mundo? Não necessariamente. Mas o contágio provocará um abrandamento. E quem serão os mais atingidos?

12. Os mais atingidos serão os países e zonas de crescimento medíocre, como é o caso da Europa (apenas 1,6% para 2008, segundo o FMI), onde nos situamos, e o Japão (apenas 1,5% para 2008, segundo o FMI), um país que patina desde os anos 1990.

13. Mas há a outra parte da moeda: os emergentes. O FMI prevê que a China cresça a 10% em 2008 e os emergentes 7% em média. O contágio americano poderá dar uma rebaixa nestes valores, mas o crescimento não vai ser enterrado. Porquê?

14. Porque o verdadeiro motor do crescimento hoje em dia já não está na América – em 2007, a China representou 27% desse crescimento mundial (que foi moderado, estimado em 4,9%). A par dos fluxos comerciais com os EUA e Europa, os emergentes estão a desenvolver um mercado ‘interno’ global, que sustenta o crescimento mútuo.

15. O que é que isto pode significar? Que a economia mundial atravessa um final de um ciclo longo (chamado de Kondratieff) e a transição para outro. E nestas circunstâncias é raro ocorrerem crises mundiais catastróficas (por exemplo que se arrastem de 30 a 60 meses) – isso costuma ocorrer nos pontos de pico do ciclo (onde, aliás, têm ocorrido confrontos globais entre grandes potências). Há forças novas, diria Schumpeter, a trabalharem no terreno neste período de transição. Forças novas de onde brotam oportunidades novas. O seu trabalho de casa é descobrí-las enquanto é tempo!

16. A conclusão: previna-se, sem dúvida, pois a coisa vai doer para o seu lado. Sobretudo se o estoirar da bolha espanhola fizer muitos estragos e se o Banco Central Europeu seguir os conselhos e pressões das ‘galinhas keynesianas’ e dê ares que a solução é a morfina monetária (coisa que no Japão não surte efeito desde os anos 1990). O grande economista Von Mises (falecido em 1973) avisou: a coisa só tem duas saídas, ou rebenta o mais cedo possível, ainda com hipóteses de algum controlo, ou rebenta, depois, catastroficamente.

17. Mas tenha em conta que a realidade dos equilíbrios mundiais é hoje diferente dos idos anos 1970/1980 e mesmo dos anos 1990, que estão mais próximos da nossa memória.