Qui 7 Fev 2008
O dilema estratégico americano
Por JNR na secção A questão dos impérios , Geoprotagonistas , Globalização1 comentário
Terão os Estados Unidos chegado a uma situação de dilema estratégico no seu ciclo de domínio mundial?
Terão os diversos candidatos a candidatos presidenciais consciência política dessa nova situação?
Existirá uma ‘agenda escondida’ nestas eleições de 2008, de que não se fala abertamente?
Confesso que estas interrogações se me colocaram no debate online que tenho tido com amigos americanos independentes que procuram ter algum distanciamento nesta corrida em curso nos EUA.
O tema do dilema estratégico é antigo.
Paul Kennedy analisou-o com algum detalhe relativamente à parte final do ciclo de liderança britânica em The Rise and Fall of Great Powers. Esse dilema estratégico tornou-se gritante nos anos 1930 para os ingleses – ou seja, o que ceder para manter, no limite, a posição. Ou até onde ceder e a quem ceder. Como escolher entre dois diabos. O que os levou a uma dança de negociações e de cedências, de risco, com os alemães. Que seria quebrada por Churchill.
Portugal, também, já teve esta sua dose. O dilema estratégico para a potência Portuguesa ficou gritante nos anos 1640-1660, quando o novo monarca João IV se viu confrontado com o risco da sobrevivência do império (atacado por holandeses, franceses, ingleses, persas) e da própria independência (os espanhóis só reconheceriam a independência portuguesa em 1668). Deixou perder as jóias da coroa do Oriente, para conservar alguns anéis a Ocidente, vendendo a alma aos ingleses – o primeiro Tratado de Aliança com Oliver Cromwell em 1654 e depois com Carlos II em 1661. Perdeu a autonomia estratégica, mas conservou a independência e parte do império. Coisas da vida.
Começo a interrogar-me se os EUA não chegaram a uma situação deste tipo.
Há alguns sinais.
Para o americano ‘médio’ tudo se resume no final a duas questões neste período eleitoral: Iraque e receio de recessão. E no meio disto tudo, um sentimento de que os EUA já não são claramente o que eram, ou seja instalou-se a dúvida que a América tenha capacidade para lidar com estes problemas.
É espantoso, como em oito anos, os EUA se colocaram nesta situação. A Administração Bush com o seu affair Iraquiano e a bolha imobiliária criada por Greenspan (o ex-presidente da Reserva Federal) desde 2001 colocou a América no terreno dos dilemas estratégicos, ou seja, como sair das trapalhadas sabendo que, seja qual for a opção, a coisa vai doer.
Provavelmente, a História recente americana, recordará W. Bush como o mais estúpido dos presidentes do ponto de vista estratégico.
No campo económico e financeiro, a situação mão está fácil. A política de taxas de juro negativas está a empurrar a bomba financeira (alguns já lhe chamaram de destruição massiva) para o próximo presidente. Os economistas filiados na política das “galinhas keynesianas” ajudam à festa da morfina monetária. Adia-se o estoiro para depois serem outros a fechar a porta. Outra opção, à von Mises, seria deixar rebentar já, controladamente, a gangrena. O que teria custos também. O dilema está colocado.
A revolução bushevique
No plano geopolítico, o dilema iraquiano e iraniano é óbvio – mais difícil, ainda, que o Vietname. Iraque e Irão são duas moedas da mesma face, da mesma burrice bushevique.
Provavelmente já ninguém se lembra da teoria da ‘revolução bushevique’ no Médio Oriente. Os seus arautos foram os chamados neo-cons – tivemos alguns em Portugal nos media a defender essa “revolução” meio embebedados pela aparente grande estratégia de Bush, o homem que pegava os toiros pelos cornos, e berrava “vivo ou morto”.
Colada a essa teoria vinha toda uma nova estratégia americana de defesa da mudança de regimes por meio do recurso a guerras e acções pré-entivas (alegadamente teria sido essa a opção por derrubar Saddam e seria esse o argumento para atacar o Irão antes de ter bomba nuclear), à eventualidade do próprio uso de armas nucleares tácticas (o que não se chegou a concretizar), e a defesa do unilateralismo em política internacional como norma e não como excepção.
Os neo-cons esperavam que o “experimento” iraquiano pudesse depois inspirar outras acções. Os homens desaparecerem de cena, face ao fracasso. E os comentadores busheviques, sem qualquer vergonha na cara, mudaram de casaca, sem dar a mão à palmatória.
A mudança que Bush provocou foi outra: transformou o Iraque num campo de terrorismo internacional e abriu espaço à expansão da influência iraniana, complicou, ainda mais, a situação israelita e isolou-se de uma parte das potências do mundo, particularmente dos emergentes. Ao continuar a colocar o Irão como problema e não parte da solução, agravou ainda mais o dilema estratégico em que se meteu.
E, agora, como é? Largam o Iraque, em que termos? Qual é a solução negociada com o Irão, a Rússia e as monarquias petrolíferas, outros stakeholders da região? Quem irá pagar parte da factura – os israelitas e os paquistaneses? Qual é o efeito psicológico deste recuo nos outros protagonistas mundiais?
O dilema estratégico não poderia ser mais dramático.
O que os Republicanos ainda não perceberam
Os Republicanos aparentam continuar, no discurso, a solução Bush – ainda que McCain certamente seja tentado a improvisar pragmaticamente, dado que os ‘realistas’ (o oposto dos neo-cons) dominam hoje os lóbis políticos da direita americana.
Mas toda a gente sabe pelo mundo fora que os americanos – mesmo que queiram estacionar por mais 10 anos (!) no Iraque e continuar a ameaçar o Irão – não têm a vida fácil.
Começo a convencer-me que a direita americana ainda não percebeu que o fim do ‘hegemonista sozinho’ já acabou (durou uma década, pouco mais; usufrui dessa condição sobretudo Clinton-homem). A disputa entre grandes potências regressou. The Great Power Politics is coming back, guys!
O stresse global nas tropas americanas é conhecido – não foi, por acaso, que a World Press Photo escolheu como melhor foto de 2007, o momento captado pelo britânico Tim Hetherington no vale de Korengal, no Afeganistão, de um soldado americano estenuado. O Júri Internacional justificou tratar-se de uma imagem que vale mais que todas as palavras sobre o “esgotamento de toda uma nação”.
É esta a imagem que corre mundo sobre o estado de debilitamento dos EUA – ainda que eu ache que é manifestamente exagerada. Os americanos (e os aliados) não estão aindam nestas frentes na situação em que os americanos estavam no Vietname.
Nos Democratas a situação é quentíssima. Temos uma incumbente (das grandes famílias políticas) e um challenger, que atrai quadros, jovens, famílias democratas rivais (o clã dos Kennedy) e alguns eleitorados étnicos. A grande Oprah deu-lhe o pontapé de marketing.
Alguns analistas falam de Barack Obama como de uma nova dinâmica à JFK. Outros crêem mesmo que surgiu na América algo mais do que um movimento eleitoral – um “movimento social”. O clímax teria sido atingido: vive-se na América a política com uma intensidade como já não se via desde os anos 1960.
Se há um sinal que espanta qualquer observador é o facto do senador Obama recolher em 24 horas contribuições superiores ao dinheiro que os Clinton meteram do seu bolso a 6 de Fevereiro para continuarem na corrida.
Mas, ainda, é cedo para ajuizar sobre o fenómeno Obama.
Saída controlada e vazio dado de prenda
O ticket do Iraque também não é claro do lado democrata. Quanto a Mrs. Clinton não se sabe bem o que fará. Provavelmente improvisará. Mantém a agenda reservada.
Obama dá uma no cravo e outra na ferradura.
Os democratas parecem concordar em fazer a experiência de ‘saída controlada’ do Iraque face ao stresse no limite das tropas. Obama falou mesmo de não deixar bases permanentes no Iraque e de deixar na região apenas uma «over-the-horizon military force» (não vá o diabo tecê-las). Mas o que será isso exactamente? Quem preencherá o buraco, já que a geopolítica tem horror ao vazio?
Depois eleva a voz grossa e diz que não hesitará em usar unilateralmente a força se necessário. Ou que poderá usar a força em circunstâncias para além da autodefesa. Ou mesmo que não retira a opção militar da mesa. São evidentemente declarações de princípio, que qualquer um subscreve. Simplesmente, o dilema permanece e exige respostas concretas, não frases feitas para agradar ao eleitorado de centro.
Mesmo os democratas continuam a acreditar que a América tem a obrigação de um “propósito histórico”. É um discurso permanente em todos os hegemonistas; não é novo. É transversal no espectro político americano convencido, ainda, da missão providencial dos EUA no mundo. E que, como se vê, ainda que com outra entoação, não anima apenas evangélicos (23% do eleitorado) e neo-cons.
Mas o mundo mudou – uma frase trivial, que neste caso implica, pelo menos, algumas coisas por parte dos EUA que têm de passar a partilhar esse tal “propósito”:
- uma nova parceria estratégica com a Europa;
- a inserção da China e da Índia num G10;
- a inclusão do Brasil com lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU;
- uma estratégia consertada para o cerco e esmagamento do núcleo duro da Al Qaida (o que exige uma reavaliação estratégica pela NATO e pelos americanos da situação no Afeganistão e no Paquistão);
- uma estratégia consertada sobre a actual rede do terrorismo integrista de inspiração islamita (que vai para além do núcleo duro da Al Qaida);
- uma estratégia consertada na área da energia e do ambiente;
- a rejeição da doutrina militar bushevique (acções e guerras pre-entivas, armas nucleares tácticas, regime change como norma).
Provavelmente estes itens não entusiasmam muito o americano comum, eventualmente com excepção do tema ambientalista (graças ao marketing de Al Gore).
Fevereiro 7th, 2008 at 19:34
[...] algum distanciamento nesta corrida em curso nos EUA”, adianta o Jorge. Fica o aperitivo para O dilema estratégico americano, um texto importante no contexto da “maratona eleitoral” que os EUA percorrem este ano. [...]