Fevereiro 2008


Terão os Estados Unidos chegado a uma situação de dilema estratégico no seu ciclo de domínio mundial?

Terão os diversos candidatos a candidatos presidenciais consciência política dessa nova situação?

Existirá uma ‘agenda escondida’ nestas eleições de 2008, de que não se fala abertamente?

Confesso que estas interrogações se me colocaram no debate online que tenho tido com amigos americanos independentes que procuram ter algum distanciamento nesta corrida em curso nos EUA.

O tema do dilema estratégico é antigo.

Paul Kennedy analisou-o com algum detalhe relativamente à parte final do ciclo de liderança britânica em The Rise and Fall of Great Powers. Esse dilema estratégico tornou-se gritante nos anos 1930 para os ingleses – ou seja, o que ceder para manter, no limite, a posição. Ou até onde ceder e a quem ceder. Como escolher entre dois diabos. O que os levou a uma dança de negociações e de cedências, de risco, com os alemães. Que seria quebrada por Churchill.

Portugal, também, já teve esta sua dose. O dilema estratégico para a potência Portuguesa ficou gritante nos anos 1640-1660, quando o novo monarca João IV se viu confrontado com o risco da sobrevivência do império (atacado por holandeses, franceses, ingleses, persas) e da própria independência (os espanhóis só reconheceriam a independência portuguesa em 1668). Deixou perder as jóias da coroa do Oriente, para conservar alguns anéis a Ocidente, vendendo a alma aos ingleses – o primeiro Tratado de Aliança com Oliver Cromwell em 1654 e depois com Carlos II em 1661. Perdeu a autonomia estratégica, mas conservou a independência e parte do império. Coisas da vida.

Começo a interrogar-me se os EUA não chegaram a uma situação deste tipo.

Há alguns sinais.

Para o americano ‘médio’ tudo se resume no final a duas questões neste período eleitoral: Iraque e receio de recessão. E no meio disto tudo, um sentimento de que os EUA já não são claramente o que eram, ou seja instalou-se a dúvida que a América tenha capacidade para lidar com estes problemas.

É espantoso, como em oito anos, os EUA se colocaram nesta situação. A Administração Bush com o seu affair Iraquiano e a bolha imobiliária criada por Greenspan (o ex-presidente da Reserva Federal) desde 2001 colocou a América no terreno dos dilemas estratégicos, ou seja, como sair das trapalhadas sabendo que, seja qual for a opção, a coisa vai doer.

Provavelmente, a História recente americana, recordará W. Bush como o mais estúpido dos presidentes do ponto de vista estratégico.

No campo económico e financeiro, a situação mão está fácil. A política de taxas de juro negativas está a empurrar a bomba financeira (alguns já lhe chamaram de destruição massiva) para o próximo presidente. Os economistas filiados na política das “galinhas keynesianas” ajudam à festa da morfina monetária. Adia-se o estoiro para depois serem outros a fechar a porta. Outra opção, à von Mises, seria deixar rebentar já, controladamente, a gangrena. O que teria custos também. O dilema está colocado.

A revolução bushevique

No plano geopolítico, o dilema iraquiano e iraniano é óbvio – mais difícil, ainda, que o Vietname. Iraque e Irão são duas moedas da mesma face, da mesma burrice bushevique.

Provavelmente já ninguém se lembra da teoria da ‘revolução bushevique’ no Médio Oriente. Os seus arautos foram os chamados neo-cons – tivemos alguns em Portugal nos media a defender essa “revolução” meio embebedados pela aparente grande estratégia de Bush, o homem que pegava os toiros pelos cornos, e berrava “vivo ou morto”.

Colada a essa teoria vinha toda uma nova estratégia americana de defesa da mudança de regimes por meio do recurso a guerras e acções pré-entivas (alegadamente teria sido essa a opção por derrubar Saddam e seria esse o argumento para atacar o Irão antes de ter bomba nuclear), à eventualidade do próprio uso de armas nucleares tácticas (o que não se chegou a concretizar), e a defesa do unilateralismo em política internacional como norma e não como excepção.

Os neo-cons esperavam que o “experimento” iraquiano pudesse depois inspirar outras acções. Os homens desaparecerem de cena, face ao fracasso. E os comentadores busheviques, sem qualquer vergonha na cara, mudaram de casaca, sem dar a mão à palmatória.

A mudança que Bush provocou foi outra: transformou o Iraque num campo de terrorismo internacional e abriu espaço à expansão da influência iraniana, complicou, ainda mais, a situação israelita e isolou-se de uma parte das potências do mundo, particularmente dos emergentes. Ao continuar a colocar o Irão como problema e não parte da solução, agravou ainda mais o dilema estratégico em que se meteu.

E, agora, como é? Largam o Iraque, em que termos? Qual é a solução negociada com o Irão, a Rússia e as monarquias petrolíferas, outros stakeholders da região? Quem irá pagar parte da factura – os israelitas e os paquistaneses? Qual é o efeito psicológico deste recuo nos outros protagonistas mundiais?

O dilema estratégico não poderia ser mais dramático.

O que os Republicanos ainda não perceberam

Os Republicanos aparentam continuar, no discurso, a solução Bush – ainda que McCain certamente seja tentado a improvisar pragmaticamente, dado que os ‘realistas’ (o oposto dos neo-cons) dominam hoje os lóbis políticos da direita americana.

Mas toda a gente sabe pelo mundo fora que os americanos – mesmo que queiram estacionar por mais 10 anos (!) no Iraque e continuar a ameaçar o Irão – não têm a vida fácil.

Começo a convencer-me que a direita americana ainda não percebeu que o fim do ‘hegemonista sozinho’ já acabou (durou uma década, pouco mais; usufrui dessa condição sobretudo Clinton-homem). A disputa entre grandes potências regressou. The Great Power Politics is coming back, guys!

O stresse global nas tropas americanas é conhecido – não foi, por acaso, que a World Press Photo escolheu como melhor foto de 2007, o momento captado pelo britânico Tim Hetherington no vale de Korengal, no Afeganistão, de um soldado americano estenuado. O Júri Internacional justificou tratar-se de uma imagem que vale mais que todas as palavras sobre o “esgotamento de toda uma nação”.

É esta a imagem que corre mundo sobre o estado de debilitamento dos EUA – ainda que eu ache que é manifestamente exagerada. Os americanos (e os aliados) não estão aindam nestas frentes na situação em que os americanos estavam no Vietname.

Nos Democratas a situação é quentíssima. Temos uma incumbente (das grandes famílias políticas) e um challenger, que atrai quadros, jovens, famílias democratas rivais (o clã dos Kennedy) e alguns eleitorados étnicos. A grande Oprah deu-lhe o pontapé de marketing.

Alguns analistas falam de Barack Obama como de uma nova dinâmica à JFK. Outros crêem mesmo que surgiu na América algo mais do que um movimento eleitoral – um “movimento social”. O clímax teria sido atingido: vive-se na América a política com uma intensidade como já não se via desde os anos 1960.

Se há um sinal que espanta qualquer observador é o facto do senador Obama recolher em 24 horas contribuições superiores ao dinheiro que os Clinton meteram do seu bolso a 6 de Fevereiro para continuarem na corrida.

Mas, ainda, é cedo para ajuizar sobre o fenómeno Obama.

Saída controlada e vazio dado de prenda

O ticket do Iraque também não é claro do lado democrata. Quanto a Mrs. Clinton não se sabe bem o que fará. Provavelmente improvisará. Mantém a agenda reservada.

Obama dá uma no cravo e outra na ferradura.

Os democratas parecem concordar em fazer a experiência de ‘saída controlada’ do Iraque face ao stresse no limite das tropas. Obama falou mesmo de não deixar bases permanentes no Iraque e de deixar na região apenas uma «over-the-horizon military force» (não vá o diabo tecê-las). Mas o que será isso exactamente? Quem preencherá o buraco, já que a geopolítica tem horror ao vazio?

Depois eleva a voz grossa e diz que não hesitará em usar unilateralmente a força se necessário. Ou que poderá usar a força em circunstâncias para além da autodefesa. Ou mesmo que não retira a opção militar da mesa. São evidentemente declarações de princípio, que qualquer um subscreve. Simplesmente, o dilema permanece e exige respostas concretas, não frases feitas para agradar ao eleitorado de centro.

Mesmo os democratas continuam a acreditar que a América tem a obrigação de um “propósito histórico”. É um discurso permanente em todos os hegemonistas; não é novo. É transversal no espectro político americano convencido, ainda, da missão providencial dos EUA no mundo. E que, como se vê, ainda que com outra entoação, não anima apenas evangélicos (23% do eleitorado) e neo-cons.

Mas o mundo mudou – uma frase trivial, que neste caso implica, pelo menos, algumas coisas por parte dos EUA que têm de passar a partilhar esse tal “propósito”:
- uma nova parceria estratégica com a Europa;
- a inserção da China e da Índia num G10;
- a inclusão do Brasil com lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU;
- uma estratégia consertada para o cerco e esmagamento do núcleo duro da Al Qaida (o que exige uma reavaliação estratégica pela NATO e pelos americanos da situação no Afeganistão e no Paquistão);
- uma estratégia consertada sobre a actual rede do terrorismo integrista de inspiração islamita (que vai para além do núcleo duro da Al Qaida);
- uma estratégia consertada na área da energia e do ambiente;
- a rejeição da doutrina militar bushevique (acções e guerras pre-entivas, armas nucleares tácticas, regime change como norma).

Provavelmente estes itens não entusiasmam muito o americano comum, eventualmente com excepção do tema ambientalista (graças ao marketing de Al Gore).

Os media inundaram-nos com o palavrão crise, depois do mini-crash bolsista internacional de Janeiro.

Os políticos no governo “desdramatizam”, como dizem, na linguagem dúplice de ’sentido de Estado’.

Em contraste, os cronistas, analistas políticos e comentadores económicos enchem a boca de frases com a crise – e alguns ricaços, investidores e banqueiros ajudam à festa.

Em que ficamos? O cidadão comum fica baralhado – apesar de o bolso estar vazio, e tanto se lhe dar sobre essas distinções académicas a respeito de que crise(s) falamos.

Mas o problema é que as nuances contam em história económica – sobretudo quando o pior poderá estar para vir. A coisa está preta? Meio cinzenta ainda.

Carece, então, de se colocarem os pontos nos ii.

1. Crise financeira e recessão não são a mesma coisa. Não se podem misturar alhos com bogalhos. As crises financeiras têm o seu próprio ciclo – que é distinto do ciclo económico. Habitualmente, as crises financeiras precedem, de algum tempo, as crises económicas, ou seja o desencadear de uma recessão. Em tempos recentes: coisa para um ano de desfasamento (exemplo ainda vivo: entre o «crash» de Abril de 2000 e a recessão norte-americana iniciada em Março de 2001).

2. Por recessão, o dicionário de ‘economês’, refere quebra no crescimento, ou seja, a riqueza criada encolhe. Coisa diferente é abrandamento económico, mesmo que severo – abrandamento quer dizer crescimentos trimestrais fracos, em regra, inferiores a 1%. Poderão, as travagens económicas conduzir a recessões? Podem. Ou não – tudo depende da situação geral (em vários indicadores) da vítima.

3. Há quem avalie o risco de recessão nos EUA, mês a mês: a última avaliação à data, realizada pela economista Marcelle Chauvet, aponta para 20%. Sem dúvida que este risco tem estado a aumentar: Setembro 6,6%; Outubro 11,02%; Novembro 11,53%; Dezembro 20%. Quando deve colocar as barbas de molho – quando o risco se aproxima de 40% (Vamos esperar para ver o que acontece com os dados de Janeiro de 2008, que serão conhecidos em final de Fevereiro). Depois de atingido o patamar dos 40%, poderá ocorrer, então, um ponto de viragem para os 50%. Quando o indicador estiver nos 65%, então, estamos em plena recessão seguramente.

4. O crash bolsista de Janeiro foi sério? Moderadamente sério, diríamos. As quebras não foram num só dia superiores a 3-8%, e no caso dos Estados Unidos, foram apenas de 1,1%. Uma segunda ou sexta-feira ‘negra’ dá trambulhões muito maiores (em 1987 foi de 22% num só dia). Por isso, a coisa é ainda ‘moderada’, ainda que, segundo a Standard & Poor’s, se ‘volatilizaram’ 5,2 mil milhões de dólares de capitalização bolsista no mês de Janeiro. Então, porque falo ainda de quebra moderada? Porque a correcção dos valores bolsistas que tem de ser feita será muito superior há que está em curso desde Outubro de 2007, o ponto de pico de uma subida bolsista. A revista Fortune avisou, em Novembro passado, que conviria os investidores se prepararem para uma correcção profunda. Os cálculos da revista apontam para um descida do Dow Jones Industrial Average (DJIA- o principal indicador bolsista, conhecido por Dow Jones) para um patamar ligeiramente abaixo dos 11.000 pontos. Segundo, uma análise mais pessimista, o DJIA deverá descer para o patamar dos 9.500 pontos. Se tomarmos em conta, que o Dow Jones tem dançado no patamar dos 12.000; vemos que há, ainda, ribanceira para se espalhar. A correcção anual, até à data (princípio de Fevereiro de 2008), foi apenas de 8% (ainda que no Standard & Poor’s já vá nos 9,3%) – a Fortune fala de 18% necessários e Peter Cohan, um dos analistas mais críticos, de 30%.

5. Poderá, então, ocorrer um crash bolsista maior ao longo de 2008? Pode. E é para isso que deve estar preparado, se investe em bolsa ou se os seus negócios têm a bolsa como termómetro.

6. Um novo crash bolsista mais profundo – particularmente na Wall Street, em Nova Iorque – empurrará automaticamente para uma recessão? Não necessariamente. Mas poderá criar uma dinâmica geral negativa continuada nos agentes económicos. O FMI ainda prevê um crescimento anual nos EUA de 1,5% em 2008 – ainda que no último trimestre de 2007, ele foi, medíocre, de apenas 0,6%. Uma dinâmica sistemática de crescimentos medíocres poderá tornar-se moda. Porquê?

7. Porque os “fundamentais” dos EUA estão muito mal. A América está doente! Vive de transfusões de morfina feitas pelo seu Banco Central (que já está a dar dinheiro de borla aos bancos, ao definir uma taxa de juro – tj – dos fundos federais que é inferior à inflação – tj de 3% para uma inflação que já era de 3,9% em final de 2007). Vive, ainda, das transfusões de dólares feitas pelos novos ricos do mundo (as monarquias dos petrodólares, a China, a Índia e o Japão que dispõem de liquidez e estão a segurar ainda o dólar) que um dia lhe podem tirar o tapete. Acumulou os chamados ‘defices gémeos’ gigantes. Tem um custo do império e de algumas das políticas de hard power muito caras. E de efeitos desgastantes.

8. Então quando poderá rebentar uma crise na América? Tudo indica que a actual Administração e o actual Presidente da Reserva Federal (o banco central) estão a empurrar o presente envenenado para o sucessor de Bush – para 2009. É essa a questão política central: a tj está a ser politicamente manipulada para adiar a bomba-relógio. Dá folga agora, mas vai dar muita porcaria depois.

9. Mas terá o filme de ter mesmo esse desenlace? É provável. A América viveu duas bolhas sucessivas – a das dot-com entre 1995 e 2000, e a do imobiliário entre 2001 e 2007. Foi esta última que começou a estoirar ao ficar a nu o crédito hipotecário de alto risco (o famoso palavrão «subprime» que agora entrou, de rompante, no nosso vocabulário). E o problema é que este «subprime» é apenas a ponta do icebergue da bebedeira de ‘criatividade’ no lançamento e invenção de instrumentos financeiros.

10. A rebentar, significará uma recessão muito dura e prolongada? É dificil de prever. As últimas recessões têm durado 8 meses (a de 1990 e a de 2001). No entanto, as que ocorreram depois dos choques petrolíferos de 1973 e 1980 foram mais prolongadas (16 meses entre 1973/75 e 1981/1982), e num caso houve duas crises quase ‘coladas’ (a de Janeiro a Julho de 1980 e, um ano depois, de Julho de 1981 a Novembro de 1982). Por isso, face ao choque petrolífero em curso e à extrema sensibilidade do sistema financeiro internacional, a crise americana poderá ser mais dura, desta vez, do que o ‘normal’ dos anos 1990 e 2000.

11. E crise na América significa crise no mundo? Não necessariamente. Mas o contágio provocará um abrandamento. E quem serão os mais atingidos?

12. Os mais atingidos serão os países e zonas de crescimento medíocre, como é o caso da Europa (apenas 1,6% para 2008, segundo o FMI), onde nos situamos, e o Japão (apenas 1,5% para 2008, segundo o FMI), um país que patina desde os anos 1990.

13. Mas há a outra parte da moeda: os emergentes. O FMI prevê que a China cresça a 10% em 2008 e os emergentes 7% em média. O contágio americano poderá dar uma rebaixa nestes valores, mas o crescimento não vai ser enterrado. Porquê?

14. Porque o verdadeiro motor do crescimento hoje em dia já não está na América – em 2007, a China representou 27% desse crescimento mundial (que foi moderado, estimado em 4,9%). A par dos fluxos comerciais com os EUA e Europa, os emergentes estão a desenvolver um mercado ‘interno’ global, que sustenta o crescimento mútuo.

15. O que é que isto pode significar? Que a economia mundial atravessa um final de um ciclo longo (chamado de Kondratieff) e a transição para outro. E nestas circunstâncias é raro ocorrerem crises mundiais catastróficas (por exemplo que se arrastem de 30 a 60 meses) – isso costuma ocorrer nos pontos de pico do ciclo (onde, aliás, têm ocorrido confrontos globais entre grandes potências). Há forças novas, diria Schumpeter, a trabalharem no terreno neste período de transição. Forças novas de onde brotam oportunidades novas. O seu trabalho de casa é descobrí-las enquanto é tempo!

16. A conclusão: previna-se, sem dúvida, pois a coisa vai doer para o seu lado. Sobretudo se o estoirar da bolha espanhola fizer muitos estragos e se o Banco Central Europeu seguir os conselhos e pressões das ‘galinhas keynesianas’ e dê ares que a solução é a morfina monetária (coisa que no Japão não surte efeito desde os anos 1990). O grande economista Von Mises (falecido em 1973) avisou: a coisa só tem duas saídas, ou rebenta o mais cedo possível, ainda com hipóteses de algum controlo, ou rebenta, depois, catastroficamente.

17. Mas tenha em conta que a realidade dos equilíbrios mundiais é hoje diferente dos idos anos 1970/1980 e mesmo dos anos 1990, que estão mais próximos da nossa memória.

Fez anos que Carlos I, o penúltimo da dinastia dos Braganças, foi assassinado em Lisboa por um grupo de terroristas, numa teia complexa que envolvia antimonárquicos e uma facção conspiradora de monárquicos, ao que parece, segundo as últimas investigações.

Saber quem eram os peões (um grupo de carbonários mais radicais actuando por conta própria?) e os mandantes, é algo que resta apurar ainda.

Obviamente que o assassinato de um chefe de Estado num regime constitucional é um acto de terrorismo condenável politicamente e repulsivo eticamente – seja ele J.F.Kennedy, Salvador Allende, o Bragança Carlos I, ou mesmo o czar russo pelos bolcheviques depois da Revolução de 1917. Não há legitimidade política no uso do terrorismo seja de grupo, de facção ou de Estado.

Se há Chefes de Estado responsáveis por crimes de Estado ou próprios, inclusive por crimes de sangue, devem ser julgados por tribunais e condenados severamente. Mesmo no caso de ditadores sanguinários deverá ser esta a norma, não o atentado terrorista ou a execução sumária, como se tornou moda depois da guilhotina francesa.

O terrorismo político não tem qualquer legitimidade – seja ela a de um Estado revolucionário ou de um grupo lutando por objectivos políticos, ou mesmo de um Estado democrático alegando direito de ‘punição’.

Mesmo uma revolução ou golpe de Estado ao depor um ditador ou um regime ditatorial, deve fazer gala de usar o direito como arma política, e não o terror individual ou colectivo como direito. O leitor aqui dirá – mas que ingenuidade! Ao que responderei: é o que faz a diferença entre os parteiros da democracia, e os batedores de nova tirania.

Posto isto – que diríamos um ponto de princípio – vejamos a questão do penúltimo dos Braganças.

A República era uma questão de tempo em Portugal, desde a emergência dos republicanos como força política face a uma fragmentação monárquica acelerada.

Os republicanos só pensavam em levantamento revolucionário (golpe de estado) – os carbonários mais radicais em actos isolados (uma moda anarco-terrorista da altura contra as figuras da nobreza) e os prováveis conspiradores monárquicos em ajuste de contas familiares.

A dinastia dos Braganças estava minada pela incapacidade geopolítica, encostada à parede pelo aliado britânico com o Ultimatum (na questão do Mapa cor- de-rosa e de toda a expansão colonial, um dossiê que vinha de Luis I, pai de Carlos, mas que calhou a este apanhar com o diktat de Lorde Salisbury) e sem rumo no plano da solução governamental (Carlos havia nomeado dois anos antes, para tomar conta da ‘choldra’, como presidente do Conselho, o ditador João Franco, que só saiu depois, corrido por Manuel II).

O contexto complexo dos reinados de Luis I e Carlos I são abordados no livro Portugal, Pioneiro da Globalização (www.centroatlantico.pt/globalizacao), no capítulo VI, “Crónica do Fim da Mais Velha Aliança do Mundo”.

Este reinado não foi de modo algum um passeio de coche, nem um modelo de clarividência em qualquer área relevante (a geopolítica ou a solução de governação), como alguns saudosistas agora querem pintar – recordando os dotes de pintura ou o interesse pela oceanografia do monarca.

Pelo contrário, o reinado de Carlos Fernando Luís Maria (regente a partir de 1883 e rei de 1889 a 1908) foi o exemplo da decomposição a que chegou a monarquia portuguesa. Mas isso jamais justificaria o terrorismo como arma política de ‘regime change’, como agora se diz.

Não que o que viesse a seguir à queda de Manuel II fosse exemplo de governação superior – os republicanos “intransigentes” converter-se-iam, rapidamente, à realpolitik face às grandes potências, meteriam a viola no saco em matéria de geopolítica, e as soluções de governação foram um desastre ‘rotativista’ e os ensaios de ‘casting’ para ditadores seguiram-se.

Chegados a este ponto, há que separar a condenação do terrorismo de uma suposta bondade da monarquia como regime superior.

A roleta russa

A monarquia baseia-se no direito de alguém ser chefe de estado pela herança sanguínea ou direito divino inventado. É claro que muitas dessas linhagens de sucessão eram puras falcatruas – muitos eram bastardos elevados a reis, por força das circunstâncias. Outros foram assassinados ou presos pelos rivais quando era conveniente, de acordo com a correlação de forças entre as várias facções. Isso aconteceu bastas vezes em Portugal entre primos e irmãos, tios e sobrinhos, mães e filhos e enteados. O que levou o país a aguentar diversos imbecis e alguns bandidos como monarcas. E a sofrer crises dinásticas, guerras civis e riscos de independência por causa desta ‘roleta’.

A monarquia tem um problema congénito: dependemos de um “gene” que tanto pode dar um louco, um imbecil, um bandido ou um assassino como chefe de Estado (como ocorreu algumas vezes em Portugal), como um estadista.

E sem o direito popular de o escrutinar e dar o pontapé (a não ser, como acontecia nas dinastias portuguesas, recorrendo ao assassinato – do envenenamento/’a peçonha’ ao punhal – ou à prisão por outros pares). Essa roleta russa em que vive o regime monárquico é, mesmo em monarquias constitucionais modernas, um problema de fundo.

Para isso se inventou a República desde tempos imemoriais – o voto representativo para eleger e tirar quem não serve à frente da Chefia de Estado. Nas Repúblicas modernas democráticas, o voto popular é hoje progressivamente cada vez mais abrangente, e representativo.

Por detrás do frenesim em torno dos 100 anos do assassinato de Carlos I move-se hoje um grupito de señoritos restauracionistas de uma ordem tumular que já fez prova (negativa) no país. Gente que quer substituir uma parte da oligarquia política actual pelo restauro de outros (velhos e relhos) sistemas rentistas.

A direita parlamentar de cabelinho ensebado, botões dourados, e lenço na lapela ampara alguma desta gente com cheiro a mofo e véus pretos pela cabeça abaixo das madames, julgando que a bisbilhotice e baboseira monarquista das revistas cor-de-rosa tem significado político real no eleitorado.

E uma boa parte da esquerda não sabe AINDA separar, com clareza e repulsa, a República em relação à ilegitimidade do terrorismo. Esta parte da esquerda – um ‘mix’ de republicanismo serôdio de romaria, nostálgicos do primado bolchevique dos fins sobre os meios, esquerdismo e guevarismo de vão de escada – continua com pruridos de se demarcar do terrorismo político.

Enfim, oportunismo das duas bandas – uns porque gostariam de ter um anelzito de brazão de pechisbeque, outros porque ainda continuam a julgar que há ‘bons’ ou ‘uteis’ terrorristas.

Mal vai o país – a ‘piolheira’, diria, com desdém, o Bragança, de Sabóia, Bourbon e Saxe-Coburgo-Gota.