Nesta abertura de 2008, uma nova realidade vai dar-nos dor de cabeça. O regresso dos capitalismos autoritários ao primeiro plano da economia e finança mundiais, segundo o investigador israelita Azar Gat

O mundo mudou muito desde os tempos da velhinha teoria dos “três mundos” dos anos 1970 que simplificava a vida aos analistas.

De lá até hoje:
- uma das superpotências (a URSS) implodiu;
- a China maoista e a Índia estatizante mudaram para o clube reformista;
- o hegemonista actual (EUA) sofre um processo de perda de legitimidade internacional e está atormentado com cólicas financeiras;
- os próprios BRIC (grupo dos quatro grandes emergentes) inventados pela Goldman Sachs são um mosaico de potências estruturalmente diferentes;
- um conjunto de novos-ricos subiram para o palco (não só os famosos «tigres», como os novos potentados dos petrodólares);
- e o terceiro mundo deixou de ser uma bandeira única, ainda que 2.600 milhões de habitantes do Planeta vivam diariamente com menos de 2 dólares (menos de 1 euro e meio, 2 a 3 cafés por dia), ou seja 40% da população mundial.

Neste emaranhado de realidades, o investigador israelita Azar Gat, 48 anos, autor de ‘A Guerra na Civilização Humana’ (Oxford University Press, 2006, considerado, nesse ano, um dos melhores livros pelo suplemento literário do Times), descortinou a emergência de um “espaço alternativo” ao que se designa por “democracia liberal”, ou seja, o capitalismo com sistemas formais de representação democrática.

Pólos de atracção

Esse espaço alternativo, ainda fragmentado, está a ser alimentado por diversos ingredientes:
- pelas reformas capitalistas da China desde o final dos anos 1970;
- pelo sucesso de «tigres» asiáticos que não fizeram ainda a transição plena para a democracia (como é o caso de Singapura, classificada como “regime híbrido” pelo The Economist, ao contrário do que ocorreu na Coreia do Sul e em Taiwan depois de 1987);
-pela reemergência da Rússia sob a gestão de Putin ;
- e pelos «tigres» financeiros dos emiratos do Médio Oriente, classificados pela Freedom House como “não livres”.

O que Azar Gat sublinha é o facto de, no mundo, ditaduras e autocracias estarem a ter êxito económico, e a transformarem-se em “pólos de atracção” capitalista. Se olharmos para as projecções até 2030, realizadas recentemente pelo holandês Angus Maddison (em ‘Contours of World Economy 1-2030 AD’), a China crescerá para mais do triplo, podendo chegar a primeira potência mundial em PIB (em paridade de poder de compra – ppc), e a Rússia multiplicará 2 vezes e meia a sua riqueza nacional.

Ainda, tomando em linha de conta, essas projecções, Rússia e China ultrapassarão, em 2030, a barreira dos 15.000 dólares anuais de PIB «per capita» (em ppc), o que significará a criação de classes médias de dimensão.

Se este movimento se consolidar numa geração, diz Gat, veremos a formação de um novo «segundo mundo», de grandes potências capitalistas não democráticas, como no início do século XX, com capacidade de atracção do “modelo” junto de pequenas e médias potências regionais, e de projecção mundial.

Cavalos de Tróia

Parelha a que se poderão juntar os «cavalos de Tróia» financeiros, como lhes chamou o analista americano Peter Cohan.

Os personagens deste filme são os potentados dos petrodólares, com PIB «per capita» (em ppc) de primeiro mundo, e fundos financeiros (designados na gíria por SWF-sovereign wealth funds) gigantes, que juntamente com os bancos centrais asiáticos já dominam 10% dos activos financeiros mundiais sob gestão, e que crescerão até 2012 a uma média de 10% ao ano, segundo um estudo recente do Mckinsey Global Institute.

Ainda recentemente, a UBS suíça foi “salva” pela Singapore Investment Corporation (que passou a deter mais de 9% desse banco) e por um fundo soberano do Omã. Antes, em Novembro, tinha sido a vez do Abu Dhabi ter comprado 4,9% do Citicorp, o maior banco americano. E a polémica estalou, agora, porque a China quer adquirir 9,9% do banco de investimentos Morgan Stanley, uma das pérolas da Wall Street nova-iorquina.

O que poderá resultar desta nova realidade?

Azar Gat admite que “há a probabilidade da rivalidade entre grandes potências aumentar” e que “guerras por recursos poderão estoirar”.

A esperança, no xadrez mundial, diz ele, é que a outra parte dos BRIC, a com regimes democráticos, a Índia e o Brasil, equilibre a balança.

Mas os escolhos não são poucos. A Índia, apesar da inteligência de muitas reformas e da aposta no capital intelectual, chegará a 2030 abaixo dos 10.000 dólares «per capita», e o Brasil, diz Gat, “tem ainda de provar que o crescimento não vai ser, apenas, um subproduto dos preços das «commodities», mas fruto de um movimento para uma economia mais avançada”.