Sáb 12 Jan 2008
O colapso (geo)político do dólar
Por JNR na secção Geoprotagonistas , Globalizaçãoainda sem comentários
Em cinco anos, o euro passou da quase paridade com o dólar para se fixar num patamar próximo de 1 dólar e meio. Desde Janeiro de 2006 que a valorização do euro tem sido contínua, situando-se actualmente nos 1,47 dólares. Lido noutro sentido, o dólar vale hoje apenas 68% do euro.
O analista John Rubino acha que a subida do euro poderá chegar aos 1,5 dólares ainda em 2008, satisfazendo os lóbis exportadores americanos, mas debilitando politicamente a imagem dos Estados Unidos e a confiança internacional nesta divisa. Para o economista Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, e ex-economista-chefe do FMI, o disparo da valorização do euro poderá atingir os 1,6 ou mesmo 1,7 dólares, se porventura os Estados Unidos “acentuarem em 2008 um crescimento medíocre, ou mesmo entrarem em recessão”.
A tradução geopolítica desta tendência é óbvia, apesar dos analistas, normalmente, apenas se concentrarem nos aspectos económicos e financeiros. Rubino confessou-nos que vê o declínio do dólar como uma tendência “estrutural” e faz um paralelo histórico com o declínio da libra e do hegemonismo britânico. O seu prognóstico é negro: “A projecção de poder global dos EUA, tal como ocorreu com o Império Britânico, vai ter de encolher”. Rogoff, por seu lado, tem uma opinião mais moderada: “Os EUA continuarão a ser o hegemonista solitário no futuro próximo, mas o declínio do dólar vai tornar a condição de superpotência muito mais cara, e aproximará o dia em que os Estados Unidos terão de resignar ao ceptro. Mas isso não é para breve”.
Os olhos na China
Depois do abandono em Julho de 2005 da indexação a uma taxa fixa ao dólar (na altura o dólar valia 8,26 renmimbis), o governo chinês já permitiu até Janeiro de 2008 uma valorização de 12,5% da sua moeda em relação à moeda americana. Na última semana de Dezembro do ano que findou, a valorização semanal foi a maior desde Julho de 2005. O que, aparentemente, mostra uma disposição chinesa para acelerar o ritmo de valorização.
O prognóstico da delegação da Standard Chartered na China é que, até final de 2009, assistiremos a uma valorização adicional de 15%. Um das previsões oficiosas aponta para uma valorização só em 2008 na ordem dos 11%. A revelação teria sido feita por Ba Shusong, director adjunto do departamento de investigação financeira do Conselho de Estado para o Desenvolvimento, recentemente numa conferência em Cantão.
Ou seja em cinco anos, o renmimbi (ou iuan) acabará por se valorizar nos quase 30% que têm sido politicamente reclamados pelos lóbis produtores e exportadores norte-americanos concorrentes. A este movimento, lento mas claro desde meados de 2005, alguns analistas alcunham de “revalorização silenciosa”.
O movimento continuará, mas com uma gestão apertada. Como David e Lyric Hale recordam na última edição da revista Foreign Affairs (Janeiro/Fevereiro 2008), os chineses não perderam a memória histórica dos anos 1930 quando uma valorização brutal e abrupta imposta pelos americanos (quando Roosevelt resolveu fazer disparar o preço da prata, à qual estava indexada a moeda chinesa) conduziu ao caos económico.
Alguns analistas chineses referem que uma valorização adicional com a amplitude de 15% terá, de qualquer modo, um impacto real na economia chinesa, em particular no complexo exportador e nos excedentes da balança comercial, moderando o disparo nas reservas em moeda estrangeira. Ora esta liquidez é uma arma política global chinesa de grande importância.
O que, politicamente, poderá conduzir, então, a uma travagem da valorização pelos senhores de Beijing. O que, contudo, não será fácil para os chineses. O clamor contra a hipercompetitividade da divisa chinesa tem subido em vários continentes, incluindo na Ásia e na América Latina, onde a Índia e outros concorrentes da China se sentem prejudicados com o baixo valor comparativo do renmimbi. Os indianos já reclamaram que este assunto seja discutido no âmbito da Organização Mundial de Comércio. Argumentam que as taxas de câmbio subavaliadas deverão ser colocadas na agenda para discussão.
A factura europeia
No entanto, a valorização da moeda chinesa não se tem repercutido positivamente na relação ao euro. Depois de uma desvalorização do euro face à moeda chinesa durante todo o ano de 2005, voltou, de seguida, a valorizar-se em 10,5% até Janeiro deste ano. Ou seja, as importações europeias da China voltaram a embaratecer e as exportações para a China com preços em euros voltaram a encarecer.
Esse cenário poderá continuar em 2008, alerta-nos Kenneth Rogoff, que teme uma convergência das dificuldades europeias na China em virtude da valorização do euro, com dificuldades adicionais nos Estados Unidos, em virtude do abrandamento económico americano e da provável diminuição da importação de produtos e serviços europeus.