Janeiro 2008
Monthly Archive
Sex 18 Jan 2008
Se Rudolfo Hilferding, o teórico do capitalismo financeiro, regressasse do túmulo, quase setenta anos depois, não acreditaria no que os seus olhos veriam: os antigos destinos do investimento imperialista do início do século XX são hoje a força financeira emergente.
Choque maior ainda teria Vladimir Lenine, o líder bolchevique russo, que julgara saber tudo sobre o capitalismo quando escreveu em 1916 que o imperalismo da época seria o “estádio supremo” (e “agonizante”) do capitalismo. Alguns dos países oprimidos do antigo Terceiro Mundo e inclusive as grandes potências socialistas de outrora formam, agora, a vanguarda da mudança no sistema financeiro.
A História tem destas ironias. A actual fase da globalização está a alterar o perfil dos fluxos financeiros mundiais.
O McKinsey Global Institute não se cansa de o dizer e de o demonstrar. Acaba de publicar mais um relatório sobre o tema: ‘Mapping Global Capital Markets’ (o 4º relatório anual que o «think tank» da consultora publica).
Na Web em: http://www.mckinsey.com/mgi/publications/Mapping_Global/index.asp
Trata-se de um relatório complementar ao que publicou em Outubro passado intitulado sugestivamente ‘The New Power Brokers’, e que já comentei na Janelanaweb.com.
A ler também em: http://www.mckinsey.com/mgi/publications/The_New_Power_Brokers/index.asp
Sáb 12 Jan 2008
Em cinco anos, o euro passou da quase paridade com o dólar para se fixar num patamar próximo de 1 dólar e meio. Desde Janeiro de 2006 que a valorização do euro tem sido contínua, situando-se actualmente nos 1,47 dólares. Lido noutro sentido, o dólar vale hoje apenas 68% do euro.
O analista John Rubino acha que a subida do euro poderá chegar aos 1,5 dólares ainda em 2008, satisfazendo os lóbis exportadores americanos, mas debilitando politicamente a imagem dos Estados Unidos e a confiança internacional nesta divisa. Para o economista Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, e ex-economista-chefe do FMI, o disparo da valorização do euro poderá atingir os 1,6 ou mesmo 1,7 dólares, se porventura os Estados Unidos “acentuarem em 2008 um crescimento medíocre, ou mesmo entrarem em recessão”.
A tradução geopolítica desta tendência é óbvia, apesar dos analistas, normalmente, apenas se concentrarem nos aspectos económicos e financeiros. Rubino confessou-nos que vê o declínio do dólar como uma tendência “estrutural” e faz um paralelo histórico com o declínio da libra e do hegemonismo britânico. O seu prognóstico é negro: “A projecção de poder global dos EUA, tal como ocorreu com o Império Britânico, vai ter de encolher”. Rogoff, por seu lado, tem uma opinião mais moderada: “Os EUA continuarão a ser o hegemonista solitário no futuro próximo, mas o declínio do dólar vai tornar a condição de superpotência muito mais cara, e aproximará o dia em que os Estados Unidos terão de resignar ao ceptro. Mas isso não é para breve”.
Os olhos na China
Depois do abandono em Julho de 2005 da indexação a uma taxa fixa ao dólar (na altura o dólar valia 8,26 renmimbis), o governo chinês já permitiu até Janeiro de 2008 uma valorização de 12,5% da sua moeda em relação à moeda americana. Na última semana de Dezembro do ano que findou, a valorização semanal foi a maior desde Julho de 2005. O que, aparentemente, mostra uma disposição chinesa para acelerar o ritmo de valorização.
O prognóstico da delegação da Standard Chartered na China é que, até final de 2009, assistiremos a uma valorização adicional de 15%. Um das previsões oficiosas aponta para uma valorização só em 2008 na ordem dos 11%. A revelação teria sido feita por Ba Shusong, director adjunto do departamento de investigação financeira do Conselho de Estado para o Desenvolvimento, recentemente numa conferência em Cantão.
Ou seja em cinco anos, o renmimbi (ou iuan) acabará por se valorizar nos quase 30% que têm sido politicamente reclamados pelos lóbis produtores e exportadores norte-americanos concorrentes. A este movimento, lento mas claro desde meados de 2005, alguns analistas alcunham de “revalorização silenciosa”.
O movimento continuará, mas com uma gestão apertada. Como David e Lyric Hale recordam na última edição da revista Foreign Affairs (Janeiro/Fevereiro 2008), os chineses não perderam a memória histórica dos anos 1930 quando uma valorização brutal e abrupta imposta pelos americanos (quando Roosevelt resolveu fazer disparar o preço da prata, à qual estava indexada a moeda chinesa) conduziu ao caos económico.
Alguns analistas chineses referem que uma valorização adicional com a amplitude de 15% terá, de qualquer modo, um impacto real na economia chinesa, em particular no complexo exportador e nos excedentes da balança comercial, moderando o disparo nas reservas em moeda estrangeira. Ora esta liquidez é uma arma política global chinesa de grande importância.
O que, politicamente, poderá conduzir, então, a uma travagem da valorização pelos senhores de Beijing. O que, contudo, não será fácil para os chineses. O clamor contra a hipercompetitividade da divisa chinesa tem subido em vários continentes, incluindo na Ásia e na América Latina, onde a Índia e outros concorrentes da China se sentem prejudicados com o baixo valor comparativo do renmimbi. Os indianos já reclamaram que este assunto seja discutido no âmbito da Organização Mundial de Comércio. Argumentam que as taxas de câmbio subavaliadas deverão ser colocadas na agenda para discussão.
A factura europeia
No entanto, a valorização da moeda chinesa não se tem repercutido positivamente na relação ao euro. Depois de uma desvalorização do euro face à moeda chinesa durante todo o ano de 2005, voltou, de seguida, a valorizar-se em 10,5% até Janeiro deste ano. Ou seja, as importações europeias da China voltaram a embaratecer e as exportações para a China com preços em euros voltaram a encarecer.
Esse cenário poderá continuar em 2008, alerta-nos Kenneth Rogoff, que teme uma convergência das dificuldades europeias na China em virtude da valorização do euro, com dificuldades adicionais nos Estados Unidos, em virtude do abrandamento económico americano e da provável diminuição da importação de produtos e serviços europeus.
Ter 1 Jan 2008
‘Barriga de aluguer’ da geoestratégia da chancelerina alemã Merkel – foi, assim, que, de um modo original, o sociólogo português António Barreto, este fim de semana final de 2007, sintetizou, no semanário português Expresso, o balanço da Presidência portuguesa neste último semestre do ano que finda.
Barreto referia-se à peça central geopolítica da presidência, o Tratado baptizado de Lisboa. É a segunda vez que Lisboa fica associada a marcos da União Europeia – primeiro foi a ‘Agenda de Lisboa’, na presidência de 2000, com o então primeiro-ministro António Guterres, agora o Tratado constitucional.
Um olhar sobre os três momentos portugueses de Presidência da UE nos últimos quinze anos é a única forma de fazer um balanço, fora das tricas políticas da conjuntura, e dos humores pessimistas ou optimistas dos analistas da situação ou do «anti», consoante a cor que reina.
A expressão ‘bom aluno’ marcou a primeira presidência de 1992 com o então primeiro-ministro Cavaco Silva. Foi um momento, crucial, de «takeoff», em que o futuro se decidiu provavelmente por uma geração.
E, apesar de, na altura, ser muito louvada, a estratégia do ‘bom aluno’ falhou no essencial. Hoje, à distância de 15 anos, o balanço negativo é óbvio. Portugal perdeu uma oportunidade histórica.
O ‘bom aluno’, apesar dos milhões aplicados, não conseguiu que o país seguisse o passo do «tigre» europeu irlandês (hoje o segundo país mais rico do mundo em PIB per capita medido em paridade de poder de compra, segundo o FMI), nem mesmo se aproximasse do desenvolvimento intermédio do nível de vida de Espanha (cujo PIB per capita em ppc é 21% superior ao português).
Nem mesmo uma taxa de crescimento médio anual de longo prazo do PIB de cerca de 2,8% entre 1973 e 2003, superior à média europeia (2%), conseguiu tirar o país dos «anexos» do clube dos ricos europeus, segundo as séries apuradas pelo holandês Angus Maddison. O que revela um padrão estrutural no tipo de crescimento português que teima em permanecer.
A ‘Agenda de Lisboa’ não passou de um discurso gongórico. Apesar do «crash» das «dot-com» nos EUA e, mais tarde, das políticas erróneas de George W. Bush em matéria de fixação de talento e de sociedade do conhecimento, a Europa não aproveitou a oportunidade histórica. Coube – tem cabido – aos emergentes da Ásia esse papel.
Nem mesmo hoje, é evidente que haja uma estratégia de aproveitamento da oportunidade criada pelo enfraquecimento moderado do hegemonismo americano – face à crise financeira e ao começo do rebentar da bolha dos derivados e do alto risco nos Estados Unidos, face ao facto do crescimento do PIB ser superior na Europa ao dos Estados Unidos, face ao facto da União Europeia ser a maior potência económica mundial (avaliada em PIB em paridade de poder de compra) e o espaço mais dinamizador do comércio internacional (42% das exportações e 39% das importações mundiais).
O Tratado constitucional de Lisboa enferma do mesmo pecado original. Não ataca a raíz do problema: a questão da estratégia da Europa entre as grandes potências no século XXI.
Os europeus ainda não estão maduros para entenderem que o mundo vive um período de renascimento da ‘great power politics’, em que a ingenuidade e o discurso gongórico não paga lugar no camarote do teatro mundial. Embrenham-se, ainda, na graduação do federalismo e na composição da coligação do “directório”. A consciência política europeia é limitada. O peso das querelas políticas internas é ainda predominante.
Em suma, a situação europeia é ainda precoce.
Por causa de quê?
Dos particularismos das velhas potências europeias (os protagonistas da ‘great power politics’ do século XIX e início do século XX) somados à aprendizagem da “liberdade” geopolítica pelos pequenos e médios países do outrora «shatterbelt» europeu disputado pelos hegemonistas (em que se inserem os novos membros que desde 1986 foram aderindo à CEE e à UE, da Península Ibérica, aos Nórdicos e Bálticos, até à Europa de Leste do Norte ao Mar Negro).
Por essa razão, o Tratado de Lisboa é de utilidade limitada no jogo de poder mundial. Merkel, a quem atribuem a paternidade do fôlego, deve ter disso plena consciência, a não ser que a senhora viva em alguma redoma de vidro.
As próprias cimeiras geoestratégicas realizadas pela Presidência portuguesa têm valia limitada, justamente em virtude da questão do lugar da Europa na ‘great power politics’ não estar resolvida.
Sobretudo, há dois aspectos que tocam, de perto, emocionalmente, os portugueses, sobre os quais convém haver ausência de ilusões: Brasil e África.
O Brasil é um dos famosos quatro BRIC, provavelmente o mais fraco no conjunto das avaliações, se feito um «benchmark» com a China (número um, dois ou três em vários «rankings»), com a Índia (a potência emergente silenciosa) e com a Rússia (em fase de reconstrução de um poder autoritário, ainda que baseado num «bluff» energético).
O Brasil tem uma estratégia geoeconómica e geopolítica crescente – independente do discurso ideológico inicial do eleito. Não é mais um mero país irmão da comunidade de língua oficial portuguesa. É um dos sete grandes protagonistas do século XXI. Os politicos portugueses provavelmente ainda não o entenderam. O Brasil não precisa de Portugal para jogar cartas na Europa – ou em qualquer parte do mundo. “Lida directo” no palco mundial. Só partindo de um ponto de vista realista, Portugal poderá ser “útil”. A repetição de discurso gongórico não acrescenta valor.
África, por seu lado, é um dos palcos da disputa de «soft power» mais acirrada da actualidade – com as estratégias norte-americanas no Atlântico Sul e com a ofensiva de «charme» da China. A velha Europa, ainda, não se refez dessa mudança recente, que sucedeu ao bi-hegemonismo dos anos 1970 e 1980. O legado histórico dos países europeus em África – sobretudo Portugal, o mais prolongado, mas também França e Reino Unido, o mais extenso – está, uma vez mais, à prova. Só uma estratégia única da Europa poderá marcar posição. Os particularismos das velhas potências coloniais são hoje ineficazes. A cimeira de Lisboa não adiantou, por isso, nada de substancial.
Poderia, realisticamente, Portugal ter sido mais do que barriga de aluguer ou gestor de calendário?
De modo algum. Não é um problema de pessimismo. É uma questão estrutural.
Exógena – no que toca à questão essêncial do lugar da Europa no actual jogo de poder mundial. A situação ainda não está madura.
Endógena – porque falta às gerações portuguesas um elã histórico, baseado no simbólico do pioneirismo português da Globalização de Quinhentos. Portugal não é um qualquer país europeu. Tem uma carga diferenciadora. Apesar de pequeno em tamanho e população, tem uma herança histórica geometricamente muito superior. Chama-se a isso ter consciência de uma vantagem «assimétrica». Fazer rendê-la é o único caminho para ganhar peso geoestratégico no seio da Europa e como “pivot” mundial.
É um projecto para uma geração. Que, naturalmente, é optimista. Acredita na ancestral resiliência portuguesa.
É tão nocivo o discurso gongórico de propaganda típico dos actuais meios políticos, como o decadentismo pessimista dos analistas novos «vencidos da vida».
Ter 1 Jan 2008
Nesta abertura de 2008, uma nova realidade vai dar-nos dor de cabeça. O regresso dos capitalismos autoritários ao primeiro plano da economia e finança mundiais, segundo o investigador israelita Azar Gat
O mundo mudou muito desde os tempos da velhinha teoria dos “três mundos” dos anos 1970 que simplificava a vida aos analistas.
De lá até hoje:
- uma das superpotências (a URSS) implodiu;
- a China maoista e a Índia estatizante mudaram para o clube reformista;
- o hegemonista actual (EUA) sofre um processo de perda de legitimidade internacional e está atormentado com cólicas financeiras;
- os próprios BRIC (grupo dos quatro grandes emergentes) inventados pela Goldman Sachs são um mosaico de potências estruturalmente diferentes;
- um conjunto de novos-ricos subiram para o palco (não só os famosos «tigres», como os novos potentados dos petrodólares);
- e o terceiro mundo deixou de ser uma bandeira única, ainda que 2.600 milhões de habitantes do Planeta vivam diariamente com menos de 2 dólares (menos de 1 euro e meio, 2 a 3 cafés por dia), ou seja 40% da população mundial.
Neste emaranhado de realidades, o investigador israelita Azar Gat, 48 anos, autor de ‘A Guerra na Civilização Humana’ (Oxford University Press, 2006, considerado, nesse ano, um dos melhores livros pelo suplemento literário do Times), descortinou a emergência de um “espaço alternativo” ao que se designa por “democracia liberal”, ou seja, o capitalismo com sistemas formais de representação democrática.
Pólos de atracção
Esse espaço alternativo, ainda fragmentado, está a ser alimentado por diversos ingredientes:
- pelas reformas capitalistas da China desde o final dos anos 1970;
- pelo sucesso de «tigres» asiáticos que não fizeram ainda a transição plena para a democracia (como é o caso de Singapura, classificada como “regime híbrido” pelo The Economist, ao contrário do que ocorreu na Coreia do Sul e em Taiwan depois de 1987);
-pela reemergência da Rússia sob a gestão de Putin ;
- e pelos «tigres» financeiros dos emiratos do Médio Oriente, classificados pela Freedom House como “não livres”.
O que Azar Gat sublinha é o facto de, no mundo, ditaduras e autocracias estarem a ter êxito económico, e a transformarem-se em “pólos de atracção” capitalista. Se olharmos para as projecções até 2030, realizadas recentemente pelo holandês Angus Maddison (em ‘Contours of World Economy 1-2030 AD’), a China crescerá para mais do triplo, podendo chegar a primeira potência mundial em PIB (em paridade de poder de compra – ppc), e a Rússia multiplicará 2 vezes e meia a sua riqueza nacional.
Ainda, tomando em linha de conta, essas projecções, Rússia e China ultrapassarão, em 2030, a barreira dos 15.000 dólares anuais de PIB «per capita» (em ppc), o que significará a criação de classes médias de dimensão.
Se este movimento se consolidar numa geração, diz Gat, veremos a formação de um novo «segundo mundo», de grandes potências capitalistas não democráticas, como no início do século XX, com capacidade de atracção do “modelo” junto de pequenas e médias potências regionais, e de projecção mundial.
Cavalos de Tróia
Parelha a que se poderão juntar os «cavalos de Tróia» financeiros, como lhes chamou o analista americano Peter Cohan.
Os personagens deste filme são os potentados dos petrodólares, com PIB «per capita» (em ppc) de primeiro mundo, e fundos financeiros (designados na gíria por SWF-sovereign wealth funds) gigantes, que juntamente com os bancos centrais asiáticos já dominam 10% dos activos financeiros mundiais sob gestão, e que crescerão até 2012 a uma média de 10% ao ano, segundo um estudo recente do Mckinsey Global Institute.
Ainda recentemente, a UBS suíça foi “salva” pela Singapore Investment Corporation (que passou a deter mais de 9% desse banco) e por um fundo soberano do Omã. Antes, em Novembro, tinha sido a vez do Abu Dhabi ter comprado 4,9% do Citicorp, o maior banco americano. E a polémica estalou, agora, porque a China quer adquirir 9,9% do banco de investimentos Morgan Stanley, uma das pérolas da Wall Street nova-iorquina.
O que poderá resultar desta nova realidade?
Azar Gat admite que “há a probabilidade da rivalidade entre grandes potências aumentar” e que “guerras por recursos poderão estoirar”.
A esperança, no xadrez mundial, diz ele, é que a outra parte dos BRIC, a com regimes democráticos, a Índia e o Brasil, equilibre a balança.
Mas os escolhos não são poucos. A Índia, apesar da inteligência de muitas reformas e da aposta no capital intelectual, chegará a 2030 abaixo dos 10.000 dólares «per capita», e o Brasil, diz Gat, “tem ainda de provar que o crescimento não vai ser, apenas, um subproduto dos preços das «commodities», mas fruto de um movimento para uma economia mais avançada”.