Nos debates, por vezes acalorados, que se têm gerado nas apresentações públicas do livro Portugal, pioneiro da Globalização, feitas até à data, tem surgido uma interrogação constante por parte de leitores presentes: qual o sentido de publicar este livro, para além, naturalmente, de divulgar um trabalho académico ligado à aplicação da teoria dos ciclos longos geopolíticos?

O livro tem de facto uma outra dimensão – a do simbólico. Da valorização do património simbólico português. Da sua revalorização, num novo contexto e com um outro discurso.

O que achámos na investigação feita para o livro é que o património simbólico português está para além da sua resiliência incomum – está para além do facto de ser uma das Nações-Estado europeias mais antigas, que desde 1297, aquando do Tratado de Alcáçovas, manteve o recorte das fronteiras do rectângulo. Outro velho Estado-Nação é a Islândia, por exemplo.

Portugal tem uma singularidade – que nenhuma outra nação ou estado europeu, ou mesmo mundial dispõe: o facto de ter sido o pioneiro da Globalização, o que deu o mote ao livro. Poderiam ter sido os italianos, ou os catalães, ou os maiorquinos – mas não foram, estiveram bem longe de o ser. Poderiam ter sido os chineses um pouco antes – mas recuaram.

Por que razão é hoje importante revalorizar o simbólico português?

Por três razões:

- A integração europeia dos pequenos e médios países das periferias de embate, dos famosos espaços de «shatterbelt», em que Portugal se inseria desde o século XVII, exige um esforço de diferenciação, de afirmação de singularidade histórica, no conjunto do projecto europeu;

- A crise profunda psicológica e económica, de desenraizamento social e de empobrecimento da classe média em Portugal, num contexto de forte integração de fluxos económicos e inclusive de recursos humanos na Península Ibérica, arrasta um sentimento de inferioridade face a um vizinho (Espanha) que projecta intento estratégico e dinamismo económico até agora;

- Num mundo cada vez mais turbulento, diverso, multipolar na projecção de potências, confuso para o cidadão comum, o património simbólico português é a capacidade histórica de agir globalmente, em geometria variável.

A singularidade portuguesa na União Europeia é o seu património simbólico das Navegações e a herança intelectual da Matriz das Descobertas, como chamamos no livro.  É o único activo que nos pode dar élan. Não para qualquer megalomania de “repetir” antanho, mas para preservar a nossa identidade e contributo específico de alto valor acrescentado ao projecto europeu.

Esse é também o ponto forte português face ao próprio património simbólico de Castela e depois de Espanha (hoje em voga com a emergência do idioma castelhano inclusive nos Estados Unidos). Ponto forte português jogado ao mar por intelectuais do nível do Nobel Saramago – poder-se-á dizer que é mais “una broma de Don Jose”, não levada a sério pelos próprios espanhóis. Mas é um sintoma.

Mas há um problema crítico, que persiste.

A constatação que se faz é que, definido o desígnio estratégico de adesão à CEE (formulado por Mário Soares em 1977), o país permaneceu num intermezzo que já vai em três décadas, e perdeu a oportunidade de reconstruir o seu simbólico.

A ditadura caiu e com ela um ‘entorno’ simbólico. Obviamente já obsoleto no plano geopolítico de então, criminoso no terreno, assente na falsificação histórica mais despudorada, numa assumida reescrita da História ao serviço de uma ideia nacionalista e patrioteira abertamente imperialista – como clamavam com todas as letras os integralistas lusitanos dos anos 1920 e 1940, gente que não tinha papas na língua e exprimia o sentido profundo do peculiar movimento fascista português. Um simbólico desajustado dos tempos – os homens de Kennedy diziam nos anos 1960 que o ditador e a sua corte pareciam saídos “de outra época” como numa farsa.

Mas feito esse corte, essa fractura, é necessário reconstruir a singularidade simbólica portuguesa. Isso não se faz obviamente nuns meses ou em poucos anos. Na perspectiva do livro que publicámos, é um intento de longo prazo até à década de todos os riscos de 2030. Um projecto para as gerações que emergirão no poder.