Uma participação numa conferência de cientistas dos ciclos longos económicos e geopolíticos que decorreu no bucólico campus de Bloomington (100 km de Indianapolis, no Indiana, nos EUA, e um espaço gigante «verde» que alberga 50 mil estudantes), deixou-me algumas interrogações inquietantes.
Sobre o que lá se discutiu dou uma breve sinopse num artigo publicado em www.janelanaweb.com.
Sobram as questões, que aqui deixo:
- Se a Ásia é hoje a região do mundo onde há maior número de grandes potências potencialmente irrequietas (como foi o caso da Europa no passado), o debate estratégico deve centrar-se aí e não no Médio Oriente, onde aparentemente todos os recursos geopolíticos estão a ser colocados por força das questões Palestina, Iraque, Irão, Líbano e Síria?
- Poderá a Rússia projectar-se como um «challenger», retomando ambições hegemónicas antes contidas, na linha da emergência no tempo do Império Russo e depois com o projecto hegemónico da União Soviética (que implodiu)? Quererá a Rússia do século XXI tirar a «revenge»?
- Poderá o Japão, um «challenger» derrotado na IIª Guerra Mundial, retomar o seu caminho de ambição geoestratégica, depois do fracasso do seu projecto (pacífico) globalizador no plano económico e financeiro nos anos 1980?
- Será que a China cortará com a sua tradição histórica milenar de afirmação no âmbito do softpower, e avançará para uma postura de «challenger», ou continuará com a estratégia de passos na «sombra», aproveitando o enfraquecimento do hegemonista e a debilidade de outros concorrentes?
- Conseguirá a China convencer os Estados Unidos e evoluir para uma solução política inovadora que resolva pacificamente a questão de Taiwan e do Tibete?
- Será que a Índia conseguirá conter a sua ambição geoestratégica e evitar «rasteiras» na complexa situação da Península Hindustânica?
- Quais são os pontos geográficos a monitorar, susceptíveis de desencadear guerras locais ou regionais entre terceiros, que possam, em cascata, implicar alinhamentos forçados das grandes potências?
No quadro da Presidência Portuguesa da União Europeia, poderia ser o momento oportuno para o lançamento de uma iniciativa até 2015, no âmbito da redescoberta de algumas datas fundamentais do ciclo hegemónico português de Quinhentos cujos aniversários decorrem de 2009 em diante.
Em 2015 decorrerão 600 anos sobre o início do processo de Expansão, com a decisão estratégica da expedição a Ceuta.
Poderia ser o ponto culminante de um programa de acções de valorização estratégica do pioneirismo de Portugal, como o apresentamos no livro «Portugal, pioneiro da globalização» (editora Centro Atlântico).
Os anos que decorrem até 2015 marcam outros quatro aniversários também relevantes:
- 2009, 500 anos sobre a batalha de Diu, uma das mais importantes batalhas navais de todos os tempos, segundo os especialistas, que afirmou a hegemonia portuguesa;
- 2010, 500 anos sobre a criação de Goa, como capital da projecção portuguesa em todo o Oriente;
- 2011, 500 anos sobre a presença dos portugueses em Malaca, um dos pontos estratégicos da época, e onde ainda hoje permanece uma comunidade de ascendência portuguesa de 3000 pessoas;
- 2014, 500 anos sobre a primeira grande operação de marketing internacional de uma grande potência, uma inovação criada pelos portugueses com a embaixada a Roma, ao papado da altura.
Algumas acções de envergadura poderiam pontuar este período até 2015:
- Declarar 2015 como o Ano da ‘Expansão’, com uma grande operação internacional em colaboração com os países nascidos das Descobertas e os tocados pela Expansão; o culminar de um processo de afirmação geoestratégica da língua portuguesa e de redescoberta da história portuguesa pela comunidade internacional. Também, o culminar de um processo doméstico de redescoberta da História pelos portugueses radicados em Portugal e na diáspora;
- Avançar com um projecto de filme internacional e um jogo online sobre a Batalha de Diu (1509), a concluir em 2009, não no sentido de humilhação dos vencidos e de exaltação imperial, mas como crónica romanceada das lições de estratégia e de inovação militar e tecnológica;
- Colocar em cena uma peça de teatro de projecção popular sobre a Expansão portuguesa, capaz de percorrer durante um longo período o país e os locais da diáspora portuguesa;
- Operação internacional da Rota Oriental das Descobertas, que valorize em conjugação com os países envolvidos, a Índia e a Malásia, os acontecimentos de Goa e Malaca; prioridade ao investimento no património físico e cultural, e no intercâmbio turístico (tornando Goa e Malaca pontos de destino turístico dos portugueses e criando fluxos dessas regiões para Portugal); o envolvimento de Singapura (200km por autoestrada até Malaca) poderá ser interessante;
- Grande operação europeia de marketing internacional em 2014 (no aniversário da Embaixada de 1514).