No livro «Portugal, Pioneiro da Globalização» (editora Centro Atlântico, já à venda em Portugal), na sequência de um trabalho de investigação de Tessaleno Devezas (professor da Universidade da Beira Interior e especialista dos ciclos longos) sobre o «encaixe» da época de Quinhentos nos ciclos longos geopolíticos, houve possibilidade de revisitarmos, em conjunto, a História de Portugal.

Desse trabalho extraímos, num diálogo de vários meses, algumas conclusões sobre o que poderá ser a identidade portuguesa.

Chamá-mos-lhe «Matriz das Descobertas» (Capítulo 5 do referido livro), cujo miolo são 10 pontos, que convidamos o leitor a descobrir.

Essa matriz resulta de um voo de helicóptero sobre a História portuguesa, procurando extrair aquilo que pode ser perene, que vai para além do contexto da época, das características ideológicas, políticas, éticas e morais específicas de cada período.

É uma homenagem, também, aos homens de visão geoestratégica daquela época, como Henrique, o Navegador, o príncipe Pedro (irmão de Henrique), o monarca João II, o vice-rei da Índia Francisco de Almeida. Sem com isso, endossar a crueldade, o banditismo, o fanatismo e a rapina, próprios do modus operandi da época.

Essa «extracção» exigiu uma «demarcação» de abordagens anteriores.

Em relação: 

- à visão do «cruzadismo» que sempre tentou as dinastias portuguesas; implicando, em particular, uma crítica ao derradeiro cruzadismo sebastianista;

- ao iberismo, incluindo uma avaliação da monarquia dual dos séculos XVI/XVII e da falência do projecto mundial da dinastia dos Felipes; 

- à «invencionice» criada pelos integralistas sobre a missão imperial do país e à teoria da jangada do tempo do regime ditatorial de Salazar;

- à tentação das políticas de "prioridade das prioridades", erráticas, ao sabor do momento, revelando ausência de uma estratégia de longo prazo, típicas dos vários governos do regime democrático (após a opção estratégica liderada por Mário Soares a favor da adesão à Comunidade Económica Europeia);

- aos atlantismos de todas as cores, procurando amarrar Portugal apenas aos vectores do Atlântico Norte (Estados Unidos, a potência hegemónica no ciclo geopolítico ainda em curso) ou do Atlântico Sul (comunidade de língua oficial portuguesa).

Há três pontos que nos parecem fulcrais neste passeio pela História portuguesa que fazemos neste livro:

1. A resiliência de um pequeno país desde o século XII, um dos mais antigos Estados-Nação do mundo; resiliência que aguentou várias crises dinásticas, uma monarquia dual com um soberano estrangeiro, e um período longo de declínio estratégico desde 1640, com vários momentos críticos;

2. O seu intento globalista; "Go Global" sempre foi o sentido estratégico dos Portugueses, pioneiros em Quinhentos; a nossa história está marcada por uma opção em geometria variável;

3. A actualidade (em pleno século XXI) do «acquis» de relacionamento pioneiro dos portugueses com alguns dos actores emergentes de agora (como a China, Índia e Brasil) e com a região do mundo (Ásia) hoje de novo em ascenso.

É a partir destes aspectos, aqui expostos de um modo muito breve, que interviremos, proximamente, neste espaço, tendo em conta a Presidência Portuguesa da UE no 2º semestre de 2007. 

Não me move nenhuma megalomania de pretender que o país venha a retomar o seu papel de Quinhentos. Julgar que o país readquirirá uma «centralidade» geoestratégica no xadrez mundial é, no mínimo, ingénuo. Muito menos qualquer simpatia pelo saudosismo imperial, tenha ele as cores dinásticas ou salazaristas.

A procura de uma matriz é importante para afinar e projectar uma diferença, uma «uniqueness» (como dizem os anglo-saxónicos) no quadro da actual pertença à União Europeia.