Paulo Querido escreveu ontem sobre o império Microsoft, indagando a razão profunda do misterioso pricing do gigante de Gates no que toca ao Windows Vista na Europa. Fuga para a frente perante uma crise? Ou abuso de um monopólio inelutável, fazendo os europeus pagar as multas que durante anos são impostas pela Comissão Europeia?

Pegando na deixa, penso que é boa altura para reproduzir na íntegra o artigo que escrevi para a revista Dirigir, do último trimestre de 2006, na rubrica Radar Global:

 

Raposa guerrilheira A “subversão” Firefox

O software de código aberto (open source) está a impor-se. No final deste mês de Agosto, a Microsoft fez o até aqui impensável: primeiro, convidou representantes da Fundação Mozilla para visitar as suas instalações; depois lançou a hipótese de disponibilizar o Office para um ambiente Linux. Que aconteceu a Bill Gates? Efeitos de uma reforma já anunciada para 2008?

Habituada a um monopólio mundial inquestionável, a Microsoft resolveu começar a apostar na interoperabilidade dos seus produtos com o open source. O propósito é sacudir o incómodo e progressivo ratar das suas quotas de mercado por potências emergentes no panorama do software da era da Web 2.0. Como a Google, a Mozilla e a RealNetworks, actuais aliadas numa estratégia de desafio à unilateralidade da Microsoft, e consequente criação de um sistema multipolar na geoeconomia mundial do software.

O caminho é longo, mas não impossível. Peguemos no exemplo do Firefox no espaço europeu. Após um ano de altos e baixos, este browser livre da Mozilla provou ser mais que mera moda ao ultrapassar em Janeiro a fasquia dos 20% de quota no velho continente. A maior intensidade de utilização durante os fins-de-semana revela que a “subversão” está a começar pelos lares, sendo as empresas menos receptivas em substituir o Internet Explorer.

Ao observarmos alguns dados da consultora francesa XiTi, constatamos que distribuição da utilização do Firefox na Europa obedece a um padrão claro: de um lado, Europa Ocidental Atlântica ainda reticente à sua utilização (taxas pouco superiores a 10%); do outro lado uma Europa Central e Oriental (área de influência germano-eslava). Com efeito, em Julho de 2006, Polónia, República Checa, Eslováquia e Eslovénia apresentaram quotas superiores a 30%, logo seguidas de Alemanha, Croácia, Estónia, Letónia, Roménia e Bulgária, com taxas superiores a 20%.

Em Portugal, a quota de utilização do browser tem conhecido um crescimento ao longo de 2006: 11,8% em Abril, 14,1% em Junho e 15,9% em Julho. Neste último mês, a Espanha, um dos menores utilizadores europeus do browser livre, apenas apresentava 12,4%.

Sendo o Firefox o exemplo mais bem conseguido até ao momento de penetração de softwares livres no mercado, reflecte as predisposições dos países à recorrer a open source. Durante as próximas duas décadas, as economias de Leste poderão migrar mais rapidamente que Portugal para estes softwares, abatendo custos inúteis em patentes e licenças, e promovendo uma maior rapidez de inovação. A juntar aos seus baixos custos com pessoal mais qualificado, será mais um factor de competitividade às expensas do nosso país, leia-se mais deslocalizações. O nosso bom exemplo “ibérico” deve inspirar-nos para mudar de rumo.