Fevereiro 2007
Monthly Archive
Qui 22 Fev 2007
Mas não apenas o Estado tem de mudar de paradigma. Também as universidades e a media dos empresários portugueses. Para a universidade, a palavra de ordem deve ser pluridisciplinaridade. As universidades e as escolas de negócios precisariam efectuar uma certa mudança de paradigma, a fim que os gestores pudessem olhar para além do retorno sobre o investimento, e sobretudo, deixasse de ver o mercado como um postulado, uma realidade constante a partir da qual operam, mas como algo cujas regras são distorcíveis e passívels de alteração por via da acção humana. Por outras maneiras, deixar de ver a sua actividade numa perspectiva puramente financeira (explicativa e quantitativa) e passar a privilegiar uma abordagem sistémica (compreensiva e qualitativa). Os mercados são realidades sociais, com uma estrutura e uma dinâmica, e como tal, complexas. Se por um lado o mercado influencia a conduta e o desempenho das empresas, também a conduta das empresas pode influir no mercado. E quem diz no mercado, diz na envolvente em geral. Saber lidar com os diferentes stakeholders, mais do que aos shareholders “accionistas”. É isto a hoje tão referida “governança”. Como disse um dos mais reputados novos gurus da actualidade, Richard D’Aveni, a excelência operacional já não basta para vencer. É preciso adoptar uma estratégia de poder.
Os empresários, por seu lado, deverão saber que, numa economia pequena e aberta como a portuguesa, estão sob o fogo cruzado da mais hostil guerra económica.
Três prioridades deverão estar, em minha opinião, no radar do empresariado português:
1 – Surpreender o invasor – As economias emergentes asiáticas: Por exemplo: há que detectar a tempo quando é que a China vai produzir um novo produto de baixa tecnologia mais barato do que aquele que fazemos. E anteciparmos esta ameaça com um produto de melhor qualidade, baseado em alta tecnologia. Paralelamente, há que inteirar-se com rigor de todos os defeitos provenientes de um tal modelo económico – má qualidade dos produtos, trabalho infantil ou presidiário, negligências ambientais – e utilizá-los sistematicamente numa dinâmica ofensiva contra a reputação destes concorrentes.
2 - Dividir para reinar – União Europeia e Espanha: na sua condição de dupla periferia (da Europa e da Península Ibérica) o empresário necessita de redobrar a sua atenção em relação a estas duas realidades. Ao nível europeu, um dispositivo em tempo real de vigilância jurídica e política da actividade em Bruxelas e nas principais capitais europeias deve ser considerado, afim de não só detectar potenciais novas oportunidades de negócio, como também para melhor exercer lobbying e influência para que as decisões de Bruxelas pendam a favor dos seus interesses, e não do de outros no outro lado da Europa. Em Espanha, entre outros aspectos (como a detecção de oportunidades de mercado), o empresário português deverá inventariar os “descontentes” espanhóis contra o centralismo, tanto empresários e outros actores da sociedade civil e entidades locais, bem como cartografar as suas redes relacionais, afim de poder preparar uma estratégia de influência no país vizinho. A agressividade das empresas espanholas deverá ter uma resposta à altura, baseada em informação de qualidade.
3 - Partir em Expedição – Lusofonia e diáspora portuguesa: a língua portuguesa é o activo mais precioso do nosso país para uma estratégia de influência nos mercados internacionais. Os laços de co-etnicidade com 4,5 milhões de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do globo também. Os empresários portugueses devem olhar para lá do “mercado da saudade” e não devem esperar pelo Estado para descobrir o potencial em termos de influência e informações que representam as redes de diáspora empresariais e científicas portuguesas, que já pouco têm hoje a ver com a imagem da “mala de cartão” de há 30/40 anos atrás. Negócios e conhecimento vão de braço dado com estas redes ainda quase completamente desaproveitadas.
O espaço lusófono não deve ser esquecido para todo o empresário que pense em internacionalização, sobretudo o Atlântico Sul: Brasil e Angola. Tratam-se de economias emergentes onde as consultoras ocidentais de inteligência não entram com a facilidade que estão habituadas no mundo desenvolvido, pelo que a proximidade gerada pela história e pela língua pode constituir um trunfo para fazer face à concorrência de outros investidores estrangeiros. Mas há que o fazer depressa.
Ter 20 Fev 2007
A Inteligência Económica (IE) é tão urgente para Portugal, quanto difícil é implementá-la de uma forma sistemática. Em boa verdade, a crise que o país atravessa desde 2001, a não mais se deve do que à falta desta “inteligência”. Durante os últimos 15 anos, Portugal – leia-se Estado e empresas – não previram uma série de coisas ou simplesmente não levaram a sério os diferentes sinais que indiciavam uma mutação do contexto internacional, que hoje lhe é claramente desfavorável.
Não olharam para fora, não se anteciparam, e hoje sofrem. Nomeadamente, não conseguiram prever a concorrência comercial das economias emergentes (como a China), não previram o preocupante aumento dos preços da energia, não previram que uma época de OPA’s e contra-OPA’s estava para vir, e como tal, não tiveram interesse em estar permanentemente atentas às novidades tecnológicas, afim de desenvolver a sua capacidade de inovação. Como alguém disse uma vez, “ser vencido é desculpável, ser surpreendido é imperdoável.”
Muitas vezes afirma-se que Portugal não tem uma estratégia. Concordo plenamente: não tem. E não tem porque é um país “desinteligente”. é possível elaborar qualquer tipo de estratégia sem uma gestão estratégica da informação que serve de base à decisão. Um país sem informações é um país sem estratégia. E estratégia sem inteligência não é estratégia: é adivinhação.
Para inverter este quadro, é preciso que a IE se torne prática corrente em consultoria, senão mesmo uma política pública (como em França), mas sobretudo é preciso verificar-se a em Portugal a assimilação de uma cultura de inteligência. A implementação IE implica um contexto cultural adequado. E um problema entre outros é que a inteligência – ou as informações – ficou diabolizada desde o 25 de Abril, e conotada com as acções ilícitas de uma certa polícia secreta.
Essa diabolização tem tido por efeitos, uma feudalização da inteligência, justamente numa matéria que é por natureza transdisciplinar. Até 1985, a inteligência era dos militares, hoje é claramente dos magistrados. Tem-se feito isto por estas duas classes profissionais exercerem funções de soberania, e por isso, normalemente apartidárias. Ora, o que isto faz é que se pense que para se fazer inteligência é necessário ser formado ora em em Direito ora em Ciências Militares. O que é extremamente redutor.
O desinteresse do país em relação ao que se passa no estrangeiro é, por outro lado, um outro legado do salazarismo. Portugal é talvez o único país do mundo que não traduz ainda a palavra “intelligence” com o sentido que lhe é dado nesta área que estamos a falar, tendo até hoje sempre sido preferida a palavra genérica “informações”. O Brasil, por seu lado, já o faz há décadas e sem qualquer complexo
Perante isto, é provável que as empresas mais receptivas a uma tal abordagem durante as próximas duas décadas serão aquelas com um alto nível de I&D, e aquelas cujo mercado se encontra estagnado e cuja concorrência se começa a hostilizar e a fazer pairar o fantasma das aquisições não solicitadas.
(continua…)
Qui 15 Fev 2007
Paulo Querido escreveu ontem sobre o império Microsoft, indagando a razão profunda do misterioso pricing do gigante de Gates no que toca ao Windows Vista na Europa. Fuga para a frente perante uma crise? Ou abuso de um monopólio inelutável, fazendo os europeus pagar as multas que durante anos são impostas pela Comissão Europeia?
Pegando na deixa, penso que é boa altura para reproduzir na íntegra o artigo que escrevi para a revista Dirigir, do último trimestre de 2006, na rubrica Radar Global:
A “subversão” Firefox
O software de código aberto (open source) está a impor-se. No final deste mês de Agosto, a Microsoft fez o até aqui impensável: primeiro, convidou representantes da Fundação Mozilla para visitar as suas instalações; depois lançou a hipótese de disponibilizar o Office para um ambiente Linux. Que aconteceu a Bill Gates? Efeitos de uma reforma já anunciada para 2008?
Habituada a um monopólio mundial inquestionável, a Microsoft resolveu começar a apostar na interoperabilidade dos seus produtos com o open source. O propósito é sacudir o incómodo e progressivo ratar das suas quotas de mercado por potências emergentes no panorama do software da era da Web 2.0. Como a Google, a Mozilla e a RealNetworks, actuais aliadas numa estratégia de desafio à unilateralidade da Microsoft, e consequente criação de um sistema multipolar na geoeconomia mundial do software.
O caminho é longo, mas não impossível. Peguemos no exemplo do Firefox no espaço europeu. Após um ano de altos e baixos, este browser livre da Mozilla provou ser mais que mera moda ao ultrapassar em Janeiro a fasquia dos 20% de quota no velho continente. A maior intensidade de utilização durante os fins-de-semana revela que a “subversão” está a começar pelos lares, sendo as empresas menos receptivas em substituir o Internet Explorer.
Ao observarmos alguns dados da consultora francesa XiTi, constatamos que distribuição da utilização do Firefox na Europa obedece a um padrão claro: de um lado, Europa Ocidental Atlântica ainda reticente à sua utilização (taxas pouco superiores a 10%); do outro lado uma Europa Central e Oriental (área de influência germano-eslava). Com efeito, em Julho de 2006, Polónia, República Checa, Eslováquia e Eslovénia apresentaram quotas superiores a 30%, logo seguidas de Alemanha, Croácia, Estónia, Letónia, Roménia e Bulgária, com taxas superiores a 20%.
Em Portugal, a quota de utilização do browser tem conhecido um crescimento ao longo de 2006: 11,8% em Abril, 14,1% em Junho e 15,9% em Julho. Neste último mês, a Espanha, um dos menores utilizadores europeus do browser livre, apenas apresentava 12,4%.
Sendo o Firefox o exemplo mais bem conseguido até ao momento de penetração de softwares livres no mercado, reflecte as predisposições dos países à recorrer a open source. Durante as próximas duas décadas, as economias de Leste poderão migrar mais rapidamente que Portugal para estes softwares, abatendo custos inúteis em patentes e licenças, e promovendo uma maior rapidez de inovação. A juntar aos seus baixos custos com pessoal mais qualificado, será mais um factor de competitividade às expensas do nosso país, leia-se mais deslocalizações. O nosso bom exemplo “ibérico” deve inspirar-nos para mudar de rumo.