Uma maioria de 58% dos cidadãos da União Europeia assume, hoje, simultaneamente, uma dupla identidade – europeia e nacional (em relação ao seu próprio país de origem). Mas, em 2030, essa percentagem dará um salto de onze pontos – será cerca de 69%. Os que se revêem, apenas, no seu Estado de origem passarão a 1/3.

 

Esta projecção optimista baseia-se num estudo realizado com base nos inquéritos do Eurobarometer de 1996 e 2004 e recorreu a técnicas de projecção até 2030 feitas por uma equipa do International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA). O estudo foi publicado recentemente na revista Science (volume 314), intitulado «A demografia de uma crescente identidade europeia».

A investigação concluiu, por isso, que eventos recentes de cunho negativo – como os resultados do «não» nos referendos em França e Holanda sobre o projecto de Constituição Europeia – não deverão «impressionar» os analistas a ponto de «apagarem» a tendência de fundo, diz a equipa chefiada por Wolfgang Lutz, do Programa sobre a População Mundial daquela instituição austríaca.

As gerações no poder em 2030

A dupla identidade será particularmente forte nos grupos etários que terão entre 30 e 54 anos em 2030, segmentos que formarão o grosso dos quadros empresariais, dos governantes e dos activistas políticos e sociais, e que correspondem às gerações nascidas entre 1976 e 2000. Nesses dois grupos etários, a dupla identidade rondará os 80%. «Não será uma mudança radical, mas sim gradual, eventualmente com algumas flutuações menores pelo caminho, dependendo de acontecimentos políticos específicos, mas o movimento é claro na direcção da múltipla identidade», diz-nos Wolfgang Lutz, que, também, pertence ao Instituto de Demografia de Viena (pertencente à Academia de Ciências da Áustria).

A projecção foi feita com base na União Europeia a 15, mas Lutz considera que «pelo que já observámos com base nos primeiros resultados de inquéritos de 2004, o padrão é muito similar para os novos 10 países aderentes». E acrescenta que, se há uma diferenciação com a UE15, é no sentido de um ainda maior fosso entre as gerações mais jovens (com uma dupla identidade ainda mais elevada do que as suas congéneres europeias) e as mais velhas (mais nacionalistas).

Portugal 50-50

Neste estudo, os portugueses situam-se no limiar entre o grupo das populações reticentes – Grécia, Suécia, Finlândia e Reino Unido – e as gradualmente mais entusiastas (ver quadro). Portugal, nesta questão, divide-se ao meio, até hoje.

O sentido de periferia geográfica europeia e de herança de uma forte vocação extra-europeia (com uma memória colonial ainda recente e uma história de expansão) poderão ser razões para esta atitude portuguesa.

De salientar que os espanhóis manifestam uma atitude europeísta mais acentuada do que os portugueses – à frente no «ranking» com 14 pontos percentuais de distância.

Entrevista a Wolfgang Lutz, responsável pelo estudo, a publicar em www.janelanaweb.com.