Qui 14 Dez 2006
A proposta de uns Estados Unidos do Ocidente
Por JNR na secção Geoprotagonistasainda sem comentários
Um especialista alemão, editor da revista Der Spiegel, tem estado a agitar o debate geoestratégico. Avançou com uma proposta de uns Estados Unidos do Ocidente (um acordo entre a União Europeia com os Estados Unidos contra os emergentes).
Uma ideia que está a levantar muita polémica entre os atlantistas e os defensores de uma autonomia estratégica da Europa. E entre os globalistas e os defensores de um cordão sanitário contra os emergentes.
A tese dele é que o mundo ficou, de novo, «enviesado». A globalização – a benemérita do tal mundo «plano», de que falou erradamente Thomas Friedman, num livro que insiste em ser muito badalado – trouxe uma surpresa envenenada: «o Ocidente está sob ataque», clama o especialista alemão Gabor Steingart, um berlinense de 44 anos, no seu livro mais recente, sugestivamente intitulado ‘A Guerra Mundial pela Riqueza’, a que acrescentou esta frase lapidar: ‘O açambarcamento global ao Poder e à Prosperidade’.
Os novos ‘açambarcadores’ são os grandes emergentes. À cabeça deles, a China. Este novo «milagre asiático» – distinto da emergência do Japão e dos «tigres» asiáticos dos anos 1970 a 1990 -, está a afectar os equilíbrios geoeconómicos e geopolíticos. «Na disputa global pela riqueza, a Ásia está, de novo, ao ataque, e usando métodos brutais. Os homens de negócio orientais são provavelmente os ‘conquistadores’ mais simpáticos que o mundo já viu», exclama, com toda a crueza, o autor.
As térmitas ao ataque
Gabor, um editor da revista Der Spiegel, acompanhou, ao longo dos anos, os vários chefes do governo alemão nas visitas à China, e diz que «sentiu» claramente a mudança. O analista alemão cognomina as novas potências emergentes da Ásia – China e Índia – como «térmitas» (formigas-brancas, uma espécie mais próxima das baratas do que das formigas negras ou castanhas, a que estamos habituados) que provocarão imensos estragos. O resultado é óbvio: «A ascensão da Ásia será a queda do Ocidente. A não ser que o Ocidente ultrapasse os seus escrúpulos e defenda os seus interesses», remata o autor num dos capítulos do livro, que está a provocar algum furor no debate entre o atlantismo e a autonomia geoestratégica da Europa.
Não encontra, por isso, outro antídoto senão uma proposta radical: a criação de um mercado comum entre os espaços da América do Norte e da União Europeia. «Esta zona de comércio livre transatlântica é poderosíssima, pois dentro das suas fronteiras está 60% do produto mundial. Todas as nações deste espaço são capazes de defender os seus valores, os seus padrões sociais, o seu estilo de vida e de produzir, a sua ideia de proteger o ambiente, a sua vontade firme em defender a meninice das nossas crianças e o seu direito a estudarem em vez de terem de trabalhar», diz-nos Gabor. Seria também um «sinal» político claro para todo o mundo.
Uma posição tão explícita de uma divisão do mundo em dois blocos centrais – o eixo atlantista e os emergentes – ainda não tinha sido lançada no debate geoestratégico, pelo que merece discussão.
Um comentário ao livro e uma entrevista com Gabor pode ser lida no semanário Expresso edição de 16 de Dezembro e no portal www.janelanaweb.com.