Dezembro 2006


Uma maioria de 58% dos cidadãos da União Europeia assume, hoje, simultaneamente, uma dupla identidade – europeia e nacional (em relação ao seu próprio país de origem). Mas, em 2030, essa percentagem dará um salto de onze pontos – será cerca de 69%. Os que se revêem, apenas, no seu Estado de origem passarão a 1/3.

 

Esta projecção optimista baseia-se num estudo realizado com base nos inquéritos do Eurobarometer de 1996 e 2004 e recorreu a técnicas de projecção até 2030 feitas por uma equipa do International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA). O estudo foi publicado recentemente na revista Science (volume 314), intitulado «A demografia de uma crescente identidade europeia».

A investigação concluiu, por isso, que eventos recentes de cunho negativo – como os resultados do «não» nos referendos em França e Holanda sobre o projecto de Constituição Europeia – não deverão «impressionar» os analistas a ponto de «apagarem» a tendência de fundo, diz a equipa chefiada por Wolfgang Lutz, do Programa sobre a População Mundial daquela instituição austríaca.

As gerações no poder em 2030

A dupla identidade será particularmente forte nos grupos etários que terão entre 30 e 54 anos em 2030, segmentos que formarão o grosso dos quadros empresariais, dos governantes e dos activistas políticos e sociais, e que correspondem às gerações nascidas entre 1976 e 2000. Nesses dois grupos etários, a dupla identidade rondará os 80%. «Não será uma mudança radical, mas sim gradual, eventualmente com algumas flutuações menores pelo caminho, dependendo de acontecimentos políticos específicos, mas o movimento é claro na direcção da múltipla identidade», diz-nos Wolfgang Lutz, que, também, pertence ao Instituto de Demografia de Viena (pertencente à Academia de Ciências da Áustria).

A projecção foi feita com base na União Europeia a 15, mas Lutz considera que «pelo que já observámos com base nos primeiros resultados de inquéritos de 2004, o padrão é muito similar para os novos 10 países aderentes». E acrescenta que, se há uma diferenciação com a UE15, é no sentido de um ainda maior fosso entre as gerações mais jovens (com uma dupla identidade ainda mais elevada do que as suas congéneres europeias) e as mais velhas (mais nacionalistas).

Portugal 50-50

Neste estudo, os portugueses situam-se no limiar entre o grupo das populações reticentes – Grécia, Suécia, Finlândia e Reino Unido – e as gradualmente mais entusiastas (ver quadro). Portugal, nesta questão, divide-se ao meio, até hoje.

O sentido de periferia geográfica europeia e de herança de uma forte vocação extra-europeia (com uma memória colonial ainda recente e uma história de expansão) poderão ser razões para esta atitude portuguesa.

De salientar que os espanhóis manifestam uma atitude europeísta mais acentuada do que os portugueses – à frente no «ranking» com 14 pontos percentuais de distância.

Entrevista a Wolfgang Lutz, responsável pelo estudo, a publicar em www.janelanaweb.com.

 

Um especialista alemão, editor da revista Der Spiegel, tem estado a agitar o debate geoestratégico. Avançou com uma proposta de uns Estados Unidos do Ocidente (um acordo entre a União Europeia com os Estados Unidos contra os emergentes).

Uma ideia que está a levantar muita polémica entre os atlantistas e os defensores de uma autonomia estratégica da Europa. E entre os globalistas e os defensores de um cordão sanitário contra os emergentes.

A tese dele é que o mundo ficou, de novo, «enviesado». A globalização – a benemérita do tal mundo «plano», de que falou erradamente Thomas Friedman, num livro que insiste em ser muito badalado – trouxe uma surpresa envenenada: «o Ocidente está sob ataque», clama o especialista alemão Gabor Steingart, um berlinense de 44 anos, no seu livro mais recente, sugestivamente intitulado ‘A Guerra Mundial pela Riqueza’, a que acrescentou esta frase lapidar: ‘O açambarcamento global ao Poder e à Prosperidade’.

Os novos ‘açambarcadores’ são os grandes emergentes. À cabeça deles, a China. Este novo «milagre asiático» – distinto da emergência do Japão e dos «tigres» asiáticos dos anos 1970 a 1990 -, está a afectar os equilíbrios geoeconómicos e geopolíticos. «Na disputa global pela riqueza, a Ásia está, de novo, ao ataque, e usando métodos brutais. Os homens de negócio orientais são provavelmente os ‘conquistadores’ mais simpáticos que o mundo já viu», exclama, com toda a crueza, o autor.

As térmitas ao ataque

Gabor, um editor da revista Der Spiegel, acompanhou, ao longo dos anos, os vários chefes do governo alemão nas visitas à China, e diz que «sentiu» claramente a mudança. O analista alemão cognomina as novas potências emergentes da Ásia – China e Índia – como «térmitas» (formigas-brancas, uma espécie mais próxima das baratas do que das formigas negras ou castanhas, a que estamos habituados) que provocarão imensos estragos. O resultado é óbvio: «A ascensão da Ásia será a queda do Ocidente. A não ser que o Ocidente ultrapasse os seus escrúpulos e defenda os seus interesses», remata o autor num dos capítulos do livro, que está a provocar algum furor no debate entre o atlantismo e a autonomia geoestratégica da Europa.

Não encontra, por isso, outro antídoto senão uma proposta radical: a criação de um mercado comum entre os espaços da América do Norte e da União Europeia. «Esta zona de comércio livre transatlântica é poderosíssima, pois dentro das suas fronteiras está 60% do produto mundial. Todas as nações deste espaço são capazes de defender os seus valores, os seus padrões sociais, o seu estilo de vida e de produzir, a sua ideia de proteger o ambiente, a sua vontade firme em defender a meninice das nossas crianças e o seu direito a estudarem em vez de terem de trabalhar», diz-nos Gabor. Seria também um «sinal» político claro para todo o mundo.

Uma posição tão explícita de uma divisão do mundo em dois blocos centrais – o eixo atlantista e os emergentes – ainda não tinha sido lançada no debate geoestratégico, pelo que merece discussão.

Um comentário ao livro e uma entrevista com Gabor pode ser lida no semanário Expresso edição de 16 de Dezembro e no portal www.janelanaweb.com.