A opção pela dependência da potência hegemónica emergente: de Luísa de Gusmão à 1ª Grande Guerra
Portugal não mais riscaria no mapa das grandes potências, apesar dos esforços de João IV (1640-1656) em múltiplos tratados e mais tarde da decisão da regente Luísa de Gusmão (1656-1662), sua mulher, em retomar a velha aliança com a Inglaterra.
Recorde-se que o primeiro tratado com Londres se celebrara em 1373 e com a rainha Luísa de Gusmão seria reanimado em 1661, numa manobra estratégica de provável entendimento do sinal dos tempos. Em artigo secreto deste Tratado, a Inglaterra comprometia-se a defender as colónias portuguesas “contra inimigos presentes e futuros”.
Em 1703, no reinado de Pedro II, seria assinado com os ingleses o Tratado de Methwen, em que, em termos simplistas, se trocavam vinhos portugueses por trapos ingleses – de novo, a velha sina da “maldita” desvantagem comparativa.
Esta opção estratégica pelo eixo com os ingleses ficaria clara durante o governo do Marquês de Pombal (no reinado de José I). Na Guerra dos Sete Anos (1756-1763), Sebastião José de Carvalho e Melo recusou o “Pacto de Família” (dos monarcas Bourbons da Europa) sugerido por Luís XV, de França, e apoiou os ingleses. Fez bingo, pois seriam estes que ganhariam a contenda hegemónica europeia.
Manobras estratégicas
É no quadro desta aliança renovada com os ingleses, a potência global que tomaria o lugar da Holanda, que se podem entender diversas manobras estratégicas de sobrevivência do nosso país (e do espaço colonial) até ao começo do século XX.
Muitas dessas manobras estratégicas têm sido severamente criticadas como “recuos vergonhosos” e “traições” por muitos historiadores e políticos, numa lógica de visão da História como se o Portugal de Quinhentos continuasse no activo.
Os dois momentos-chave desses recuos estratégicos foram dois.
A “deslocalização” formal do Reino (1807) para o Brasil aquando das invasões napoleónicas pelo regente João VI deixando aos generais ingleses Wellesley e Beresford o contra-ataque em defesa deste «hub» da ponta extrema europeia que não poderia ser deixado nas mãos de Napoleão, o desafiador do domínio inglês.
E, mais tarde, a aceitação do Ultimatum inglês (que daria uma forte “mordidela” no espaço colonial africano dominado pelos portugueses) pelo monarca Carlos I em 1890.
Fruto destas manobras de sobrevivência estratégica, surgiriam três prendas envenenadas para o regime monárquico: a independência do Brasil (1822), o maior e mais desenvolvido espaço colonial português; a emergência do Partido Republicano (desde 1890); e a ditadura de João Franco (1906-1908) que terminaria com o regicídio de Carlos I e de seu primogénito.
Ajudar a “dobradinha” inglesa
Dentro do alinhamento com a potência hegemónica, os Republicanos decidiriam em 1916 aprisionar os barcos alemães no rio Tejo, e na sequência a Alemanha declara guerra a Portugal.
A Alemanha do Kaiser Guilherme II declarara guerra à França em 1914, no quadro de uma tentativa para a hegemonia da Europa há muito traçada e que vinha sendo preparada meticulosamente.
O que viria a ser conhecida como 1ª Guerra Mundial foi a expressão de um velho plano desenvolvido por Guilherme II desde 1890, quando o chanceler Bismark resignou.
O Kaiser falava de um “Novo Curso” que se traduziria em planos de guerra “pre-entiva” e “preventiva” elaborados por von Schlieffen em 1905 e depois revistos por von Moltke, que dirigiria a primeira fase da guerra em 1914.
Em 1917 um Corpo Expedicionário Português parte para França, em que participaria o então coronel Gomes da Costa (mais tarde graduado a general, que encabeçaria o golpe de estado de 1926 contra a República democrática), no mesmo ano em que os Estados Unidos entrariam, também, na Iª Guerra Mundial ao lado de ingleses e franceses.
O resultado é conhecido: os ingleses conservariam o seu estatuto de potência global, fazendo a “dobradinha” na derrota de um desafiador. Tendo emergido, na sombra dos holandeses, desde 1756, os ingleses derrotariam as ambições hegemónicas da França de Napoleão Bonaparte em 1815, renovando o seu mandato de potência global. O que aconteceria, pela primeira vez, na história das potências globais.
Em 1918, os ingleses bateriam a primeira vaga do desafio alemão, mas já à custa de muitas manobras e recuos estratégicos, recentemente contados, como “lição” para a Administração americana de hoje, no livro “Ethical Realism: A Vision for America’s Role in the World”, de Anatol Lieven e John Hulsman, publicado agora na Pantheon Books (Random House).
Continua em Grandes Portugueses IV – O Fim da Mais Velha Aliança
